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Capítulo 18 de 29
Parte 18 de 29
Joana D’Arc, Médium · Léon Denis
A Igreja o esqueceu e por isso está destinada a enfraquecer-se de mais em mais. “Devemos saudá-la por haver recebido outrora o pensamento do Cristo. Presentemente, já deu tudo que podia dar; fez o seu tempo. Não compreendeu o século atual. Julga que tudo dorme no passado.
Mas, em lugar de remexer a cinza das velhas recordações, é necessário pensar nos deveres para com os homens do presente e preparar os tempos futuros. “Nada de ódio! Devemos lamentá-la e deixar que se extinga suavemente. Não se clama contra os que vão morrer. Que a paz seja com ela!
Que todos orem por ela! “Quanto à sua atitude no que concerne a Joana, assim se explica: A Igreja quis fazer uma santa popular e, por esse modo, readquirir um pouco da perdida influência. Como o patriotismo se vai enfraquecendo, ela tenta apoderar-se dessa idéia, em proveito próprio. Apanha a espada de Joana e faz dessa espada uma arma para combater os que ela, a Igreja, considera seus inimigos. Mas, não são suas antigas vítimas que poderão defendê-la neste momento.
“Manifestação mais material do que espiritual! Deverá proceder de outra maneira: instaurar um novo processo, para definir as responsabilidades, condenar Cauchon e livrar Roma. O Processo de reabilitação assentou sobre os textos. Não incriminaram os juízes; reconheceram, mantiveram-lhes a validade. Não basta trovejar contra eles do alto do púlpito; fora necessário um ato mais solene.
A Igreja não teve a coragem de suas ações e de sua política.” Jerônimo de Praga 125 – JOANA D´ARC, MÉDIUM Julho de 1909, pela escrita mediúnica: “A Igreja está muitas vezes em contradição com seus ensinamentos. Exige das almas que se purifiquem e melhorem, que abandonem seus erros e ao mesmo tempo declara ter o privilégio da onisciência e da onipotência. Não admite que seus conhecimentos de outrora já não possam bastar hoje; acredita que o mundo parou debaixo das naves das catedrais góticas. Em realidade, não há como pedir ao homem instruído e céptico de vosso século o que se podia exigir daqueles que se aterrorizavam com os castigos eternos. Os tempos fizeram sua obra: amontoaram as ruínas.
As almas se renovaram; só a Igreja se obstinou em escorar o seu velho edifício, em reconstruir continuamente a temível fortaleza. Foi assim pouco a pouco se separando do mundo. Comprazendo-se na satisfação do poder e do orgulho, esqueceu a história das civilizações. “As exigências da evolução que as almas experimentam são tão fortes, que renovam a fé e a ciência. As antigas crenças são esquecidas por outras e a Igreja, por sua vez, deveria subir para a luz.
Deveria ser o caminho natural das almas que se dirigem para Deus e oferecer-lhes todos os recursos reclamados por inteligências enamoradas de beleza, de grandeza, de verdade mais perfeita. “Ela impõe ao homem adulto os mesmos preceitos que à criança. Suas explicações, seus mandamentos são os mesmos para todos. Leva por toda parte o desejo de unidade e a vontade de fixar as almas na contemplação de seus dogmas. “A preocupação constante de sua vida e de sua existência deveria fazer-lhe compreender que fora hábil e forte abandonar, no momento preciso, os processos que haviam bastado para governar o mundo antigamente.
Não se atrai o homem usando das mesmas palavras com que se seduz a criança, e o que dava bom resultado, em relação aos povos dos séculos idos, é hoje insuficiente. Hábeis espíritos o perceberam e tentaram emprestar um sentido místico e espiritual aos dogmas, apresentá-los como símbolos de algum grande pensamento. Mas, a Igreja, como instituição, não é acessível à reflexão sublime. As mediocridades se apossaram do poder e o que se viu foi a dura repressão daqueles ensaios inúteis, porquanto, se tal reforma se realizasse no tocante à fé, teria que se operar também com relação à conduta a seguir. Era preciso ter a coragem de simbolizar tudo, de mostrar que a Igreja conduzira os povos e os reis, porque uns e outros estavam ainda na infância; era preciso reprovar os erros, castigar o passado e renegar altamente tudo o que não estivesse de acordo com as novas vistas.
Teria sido político. A Igreja, efetivamente, não mais representa hoje uma religião, no sentido próprio do termo: não procura unir as almas e sim governar os corpos, por todos os meios. Porém, para governar os corpos, precisava tornar-se senhora das almas e fora acertado atraí-las pelo emprego de alguns gestos hábeis, pela glorificação de algumas almas veneradas por todos. “Nestes tempos perturbados, em que ela parece sustentar o supremo combate, quer ter um poderoso auxiliar na pessoa de Joana. Seria necessário acusar explicitamente de impostura os juízes e apontá-los como agentes de uma autoridade não reconhecida.
A Igreja com tanto desmazelo repeliu de seu seio tantos grandes homens, que facilmente pudera ter feito algumas vítimas a mais e assim encontraria a ocasião melhor indicada de colocar entre seus santos algumas de suas outras vítimas, sobre as quais se estende a piedade das próprias almas crentes. Como instituição, podia fazê-lo. Durante longo tempo, defendeu os juízes de Joana e agora procura justificar a antiga herética, mas muitos crentes inquirem onde está então o culpado da triste tragédia de Ruão. “Hoje, sabendo perfeitamente que Joana é uma santa, o povo a colocou entre as protetoras da pátria, mas a Igreja pretendeu, esgueirando-se por trás do seu pedestal, substituir-se à virgem, dando-lhe um lugar entre suas eleitas. Ninguém pode negá-lo: Joana é mais amada do que a Igreja e esta, que a condenou, não logrará desfigurá-la.
Nós, porém, não podemos aceitar semelhante beatificação, que é uma manobra da Igreja, porquanto é mais um dos muitos atos que a celebrizaram justamente: uma semicovardia, originada de um cálculo, em que o interesse se mascara com o desejo da verdade.” Jerônimo de Praga Julho de 1909 pela incorporação: “Amai a Deus acima de tudo. Aí está a força que vos libertará desse mundo material e vos fará suportar as chamas da dor. “Esse amor me deu toda a energia, todo o poder. “Dói-me ver que os franceses disputam entre si minha alma. “Tudo perdôo à Igreja, exceto a sua doutrina.
Não lhe perdôo o andar espalhando erros e o terror nas almas. “A Igreja se extingue. Bendigamo-la pelo bem que fez. Lamentemo-la pelo mal que praticou. Sou seu guia e não seu defensor.
“Que a França se torne consciente de seu papel, que é o de derramar no mundo claridades sempre mais vivas. “Chegaram os tempos. O Espírito de Verdade, anunciado pelo Cristo, vem próximo. Nascerá no meio de vós. O Cristianismo não foi compreendido.
Ele viera para tirar a alma do sofrimento e da inconsciência. Agora, outras verdades superiores vão luzir.” Joana d’Arc 127 – JOANA D´ARC, MÉDIUM XVI Joana d’Arc e o ideal céltico Ó terra de granito esmaltada de robles! Brizeux Uma noite, o Espírito de J. Michelet, precedendo e anunciando o de Joana d'Arc, dirigiu-nos estas palavras, no correr de uma das nossas reuniões de estudos: “Joana adquiriu em suas existências anteriores o sentimento dos grandes deveres que teria de cumprir. Encontramo-nos muitas vezes nesses longínquos tempos.
O laço que desde então se estabeleceu entre nós a atrai. Ela vos inspirará, do mesmo modo pelo qual me inspirou a mim. Meu livro não foi mais do que um eco da sua paixão pela França e pela verdade. Vai agora descer, para vos transmitir uma parcela da verdade divina.” Joana, como todas as almas que conosco percorrem o ciclo imenso da evolução, contou numerosas existências na Terra. Algumas foram brilhantes, vividas sobre os degraus de um trono; outras obscuras; todas, porém, de resultados fecundos para o seu próprio adiantamento e benéficas para os seus semelhantes.
As primeiras transcorreram durante o período céltico, no país de Armor. Lá é que a sua personalidade se impregnou dessa natureza particular, feita de ideal, de intrepidez e de mística poesia, que a caracteriza no décimo quinto século. Desde a infância em Domremy, aprazia-lhe freqüentar os lugares onde se celebraram os ritos druídicos: os bosques de carvalho, testemunhas das antigas evocações das almas, as fontes sagradas, os monumentos de pedras brutas, esparsas aqui e ali, nos arredores da aldeia. Gostava de internar-se na espessa floresta, para lhe escutar as harmonias, quando, sacudindo-a, o vento fá-la vibrar qual harpa gigantesca. Com o olhar de vidente, distinguia, por sob as abóbadas verdejantes, as misteriosas sombras dos que presidiam àquelas evocações e aos sacrifícios.
Entre seus guias invisíveis, poder-se-ia deparar com os Espíritos protetores das Gálias, os mesmos que em todas as eras prestam assistência aos filhos de Artur e de Merlin e dão aos que lutam por uma causa nobre a vontade e o amor que conduzem à vitória. Feneceu nas ramagens o visco, nos lares apagou-se a chama sagrada; mas, no coração de Joana, vívida estará sempre a fé nas vidas inextinguíveis e nos mundos superiores. Os historiadores, que lhe souberam analisar e compreender o caráter, reconheceram nele os influxos de uma dupla corrente – céltica e cristã, cuja origem ela própria nos indicará em breve. Henri Martin, notadamente, a acentuou nas páginas de sua HISTÓRIA. Em primeiro lugar, ele assinala, nos seguintes termos, as lembranças deixadas pelos Celtas, ainda vivas no tempo da heroína: “Próximo da casa de Joana d'Arc passava uma vereda que, atravessando tufos de groselheiras, subia o outeiro a cujo cimo, coberto de mata, era dado o nome de Bois Chesnu. A meia encosta, de sob grande faia isolada, borbotava uma fonte, objeto de culto tradicional.
Em suas águas claras, desde tempos imemoráveis, buscavam a cura os enfermos que a febre atormentava... Seres misteriosos, anteriores entre nós ao cristianismo e que os camponeses nunca assentiram em confundir com os espíritos infernais da legenda cristã, os gênios das águas, das pedras e dos bosques, as senhoras fadas, freqüentavam a cristalina fonte e a faia secular, que se chamava o Belo Maio. Ao entrar a primavera, vinham as donzelas dançar em baixo da árvore de Maio, “bela como os lírios” e pendurar-lhe nos galhos, em honra das fadas, grinaldas que 206 desapareciam durante a noite, segundo era voz geral”. Descreve em seguida as impressões da virgem Lorena: “As duas grandes correntes que se haviam juntado para dar nascimento à poesia cavalheiresca, a do sentimento céltico e a do sentimento cristão, misturaram-se de novo para formar essa alma predestinada. A jovem pastora umas vezes sonha ao pé da árvore de Maio, ou sob os robles, doutas, passa horas esquecidas no fundo da pequenina igreja, em êxtase diante das santas imagens que resplandecem nas vidraças...
Quanto às fadas, ela nunca as viu ao luar, descrevendo os círculos de suas danças, em torno do Belo Maio. Sua madrinha, porém, outrora as encontrara e Joana julga perceber de quando em quando formas imprecisas, nos vapores do crepúsculo: gemem vozes à tarde nos ramos dos carvalhos; as fadas não mais dançam – choram: é o lamento da velha Gália 207 que expira!”. 208 Finalmente, falando do processo de Ruão, diz ainda o mesmo autor: “Joana soube opor o livre gênio gaulês ao clero romano, que intentava pronunciar-se em definitivo sobre a existência da França. Por seu intermédio, o gênio místico reivindica os direitos da personalidade humana, com a mesma força que o gênio filosófico; a mesma alma, a grande alma da Gália, desabrochada no Santuário do Carvalho, brota igualmente no livre arbítrio de Lérins e do Paracleto, na soberana independência da inspiração de Joana d'Arc e no Eu de Descartes.” 206 Henri Martin – HISTOIRE DE FRANCE, t. VI, páginas 138 e 193. 207 Ibidem, pág. 140. 208 Ibidem, t. VI, pág. 302. 129 – JOANA D´ARC, MÉDIUM A própria Joana, confirmando esses modos de ver, assim se exprimia numa 209 mensagem que ditou em Paris, no ano de 1898: “Remontemos, por instantes, ao curso das idades, a fim de aprenderdes o caminho que percorri, preparando-me para transpor a etapa dolorosa que conheceis.
“Múltiplas foram as existências que contribuíram para o meu progresso espiritual. Decorreram na velha Armorica, sob o zimbório dos grandes robles seculares, cobertos do visco sagrado. Foi lá que, lentamente, me encaminhei para o estudo das leis do Espírito e para o culto da pátria. “Oh! Entre todas, benditas as horas em que o bardo, com seus cantares alegres, nos fazia palpitar os corações e nos abria os olhos para a luz, permitindo-nos entrever as maravilhas do infinito!
Ensinava-nos então que o passar da morte à ressurreição gloriosa do Espírito, no espaço, representa uma simples transformação, sombria, ou luminosa, conforme o homem se conduziu nesse mundo: ou seguindo a estrada da justiça e do amor, ou deixando-se dominar pelas forças avassaladoras da matéria. Fazia-nos compreender as leis da solidariedade e da abnegação; instruía-nos sobre o que era a prece, dizendo: ‘Orar é triunfar; a prece é o motor de que o pensamento se serve, para estimular as faculdades do Espírito, as quais, no espaço, constituem a sua ferramenta. A prece é o ímã poderoso do qual se desprende o fluido magnético espiritual, que, não só pode aliviar e curar, como também descerra ao Espírito horizontes sem fim e lhe dá azo de satisfazer ao desejo de conhecer e aproximar-se continuamente da fonte divina, donde manam todas as coisas. A prece é o fio condutor que põe a criatura em relação com o Criador e com os seus missionários.” “Um dia, compenetrada dessas verdades, adormeci e tive a seguinte visão: Assisti, primeiramente, a muitos combates, oh! Impossível de serem evitados por efeito do livre arbítrio de cada um; mas, sobretudo, por motivo do amor ao ouro e à dominação, os dois flagelos da Humanidade.
Depois, descortinei claramente a grandeza futura da França e seu papel de civilizadora no porvir. Deliberei consagrar-me muito particularmente a essa obra. “Logo me vi rodeada de uma multidão simpática, que na maior parte chorava e deplorava a minha perda. Em seguida, o veneno, o cadafalso, a fogueira passam vagarosamente por diante de mim. Senti as labaredas devorando-me as carnes e desmaiei!...
Vozes amigas chamaram-me à vida e me disseram: ‘Espera! A falange celeste que tem por missão velar sobre esse globo te escolheu para secundá-la em seus trabalhos e assim acelerar o teu progresso espiritual. Mortifica tua carne, a fim de que suas leis não possam ser obstáculo a teu Espírito. A provação será curta, porém rude. Ora e a força te será dada: colherás de tua obra todas as bênçãos nos tempos vindouros.
Assegurarás a vitória da fé arrazoada contra o erro e a superstição. Prepara-te para fazer em tudo a vontade do Senhor, a fim de que, chegada a ocasião, tenhas adquirido bastante energia moral para resistir aos homens e obedecer a Deus! Seguindo 209 Ver: REVUE SEIENTIFIQUE ET MORALE DU SPIRITISME, Janeiro de 1898. estes conselhos, os mensageiros do céu virão a ti, ouvirás suas vozes, eles te guiarão e aconselharão; podes ficar tranqüila, não te hão de abandonar!” “Como descrever o supremo anelo que se apoderou de mim! Senti o aguilhão do amor penetrar todo o meu ser. Não tive mais outro objetivo que não fosse trabalhar pela libertação espiritual deste país abençoado, em que acabava de saborear o pão da vida e de beber pela taça dos fortes.
Essa visão foi para minha alma um celestial viático.” * Lá nos confins do continente, como imensa cidadela contra a qual o mar e a tempestade se empenham num interminável assalto, estende-se uma terra singular, austera, recolhida, propícia ao estudo, às graves meditações. Ao centro, em vasto planalto, se alongam, a perder de vista, charnecas tapizadas de róseos tojos, de douradas giestas, de juncos espinhosos. Além, os campos de trigo alternam com as macieiras acaçapadas; bordam o horizonte bosques de carvalho, tão espessos que nenhum raio de sol lhes atravessa as frondes. É a Bretanha, o santuário da Gália, o lugar sagrado, onde a alma céltica dorme um pesado sono de vinte séculos. Que de vezes lhe percorri, empunhando o cajado, trazendo a tiracolo o saco de viagem, os balseiros densos, as ásperas quebradas, as angras cavadas pela maré!
Que de vezes interroguei o oceano de cima dos promontórios de granito! Conheço-lhe os vincos e as sinuosidades das encostas e dos vales. Conheço a solidão de suas florestas umbrosas e sussurrantes: Kénécan, Coatmeur e, sobretudo, Brocélyande, onde dorme Merlin, o bardo gaulês de harpa douro, o encantador encantado por Viviane, a bela fada que simboliza a natureza, a matéria, a carne. Mas, Merlin despertará, pois que Radiance, sua alma inspirada, seu gênio imortal, vela e, chegado o momento, saberá arrancá-lo, com os filhos, às teias da sensualidade, que lhe paralisam a ação e impedem os vôos do pensamento. A Bretanha não se assemelha a nenhum outro país.
Debaixo das sombrias ramagens de seus carvalhos, por sobre seus matagais pardacentos e mornos, onde zune a triste melopéia do vento, por sobre as suas costas recortadas, onde as vagas espumosas travam incessante combate com os rochedos, por toda parte se sente pairar misteriosa influência; por toda parte se sente perpassar o sopro do invisível. O solo, o espaço, as águas, tudo ali é repleto de vozes que murmuram à alma do místico mil segredos esquecidos. Na poesia da terra bretã, há qualquer coisa de austero que empolga e comove. É viril e penetrante. Suas lições, quando compreendidas e aplicadas, produzem as grandes almas, os caracteres heróicos, os profundos e notáveis pensadores.
Lá subsistem os últimos renovos da raça; lá também se perpetuam os acentos de uma língua sonora, cujas frases soam como o retintim de espadas e o entrechocar de escudos. É a terra do Armor! Ar-mor-ic, país do mar, onde se escondeu por detrás da tríplice muralha das florestas, das montanhas e dos arrecifes, a alma insondável, a 131 – JOANA D´ARC, MÉDIUM índole melancólica e sonhadora da Gália. Somente lá encontrarei, em toda a sua pureza, a raça valorosa, tenaz e forte, cujos feitos estrondearam pelo mundo inteiro. Encontrá-la-eis sob seu duplo aspecto: o que César descreveu nos COMENTÁRIOS, o aspecto gaélico, caracterizado pelo espírito vivaz, lesto e versátil, e o aspecto kímrico, o mais moderno ramo da gente céltica, grave, por vezes triste, fiel a suas afeições, apaixonado pelo que é grande, guardando ciosamente, nos recônditos escaninhos da alma, a arca santa das lembranças.
Essa raça, nada pôde fatigá-la; resistiu duzentos anos pelas armas, como disse Michelet, e mil anos pela esperança. Vencida, ainda assombra os vencedores. Entretanto, soube dar-se. Mediante um casamento, a França assimilou-a. A alma céltica tem por santuário a Bretanha; porém, as vibrações de seu pensamento e de sua vida se propagam até muito longe, por sobre toda a região que foi a Gália, do Escalda aos Pirineus, do oceano ao país dos Helvécios.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.