Voltar ao livro Confissões de Um Padre Morto

Capítulo 8 de 28

Uma Descida À Terra

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

Quando da viagem em realização, uma vez tornados nós mais identificáveis com a atmosfera da crosta, sulcamos como qualquer transeunte o chão cimentado de uma bela cidade. De chofre, em verdade, não se pode distinguir bem uma de outra humanidade. Os sem-carne perambulam pressurosos uns, vagueantes, outros falando sozinhos, outros disputando lugares em bondes e outros veículos outros, assim mesmo como o fazem os com-carne. Coisas piores fazem, ainda, exaurindo alguns encarnados, como verdadeiros vampiros. A densidade dos alimentos e do ar respirado ao natural, confere ao encarnado uma intensidade enorme no mecanismo da emissão do fluído animal eletromagnetizado. Um corpo físico denso, pois, é uma usina conversível, transforma valores condensados em elementos fluídicos que se esvaem perenemente. E certos agentes do mundo astral se aproveitam disso, quando podem, ou quando leis cármicas assim lhes permitem. À base de porcentagem, o plano da carne é mais habitado pelos semcarne, por assim dizer. Porque, afinal, todos possuem carne, seja em proporção a mais variada. É preciso por muita atenção para bem distinguir entre uns e outros. E tais sem-carne existem, em condições tais de brutalidade, que quer dizer animalidade, que parece impossível os não veja qualquer olho encarnado. E quantas vezes um com-carne faz ou tece queixas, sendo que repete apenas aquilo que vive a lamuriar o sem-carne que o segue, muita vez em sua garupa, fazendo-o montaria. Visto deste lado, portanto, o painel crostífero é enorme campo para as mais profundas análises antropológicas; mas uma antropologia transcendente, espiritual, e não como essoutra, respeitável sim, mas recalcada de chavões inócuos, apenasmente escolásticos. Também, quem lhes pediria mais? Em penetrando recinto templário freqüentadíssimo, calculamos ser de setenta ou mais por cento constituída a assistência de desencarnados. Assim como deviam ter feito na carne, assim como o faziam os com-carne, assim mesmo repetiam eles, os sem-carne. – E depois vão para as suas zonas astrais? – indaguei. – Qual nada! Vivem na duplicata do mundo carnal. Fazem tudo quanto faz o encarnado, tudinho, sem perderem nada. Como se educaram, ou como foram educados, assim se tem, assim são, assim vivem – elucidou-me Ema. – Sabem de seus estados? – Esse problema é complexo. A maioria não sabe. Dos poucos que saberão, por nada mais conseguirem que saber, ficam como estão. Vegetam perenemente pelas vielas de um mundo religioso que vale por um beco sem saída. Quando os encarnados vêm, também vêm eles. Quando vão, eles vão-se também. Eis ao que chamam viver, eis a rotina inglória em perfeita função. – Isso é doloroso!... – considerei, francamente penalizado. – O doloroso está para depois do espetáculo... – interveio Agildo, calmamente. E ante minha muda inquirição, prosseguiu:

– Espere por um pouco. De fato, em vendo como certos irmãos da carne identificam-se, em sentimentos, com o ato religioso, tem-se a idéia de que tais atos representam alguma coisa de vantagem em matéria religiosa. Tudo fica adstrito, porém ao saber certo se é a chamada criatura quem dá de si ou se é a religião quem de si confere valores. Cumpre não confundir entre dar alguma coisa e explorar alguma coisa. Quando se pensa que se está dando oportunidades de religiosidade, em verdade, pode-se estar a explorar a religiosidade. E a situação muda de cem por cento. Isso é o que se nota daqui, ao se encarar o panorama religioso do ângulo de vista formalístico. O crente dá tudo, paga por tudo, sustenta tudo, porque ele é quem tudo faz à custa de sua fé, dos seus sentimentos. E o pseudo intermediário, o que passa por ministro de Deus, nada mais faz que banquetearse à sua custa. A diferença, repito, é cem por cento contra aquele que se julga melhor credenciado. Não explora apenas a boa fé; pela boa fé explora tudo o que lhe constitua decorrência. E o povo, de qualquer forma, deixou o templo. Assistiu a um ato formal, sem sentido progressivo, sem esclarecimento algum, sem nada cogitar dos problemas da vida e nem da morte. E o templo ficou ainda regorgitante de gente! Gente vestida de hábitos vários, identificando-se com ordens várias. Gente que surgia de todas as portas, sarcásticos uns, flácidos outros, mais limpos, outros mais sujos, menos embuçados que outros tantos, etc. Ao cabo de minutos, o sacerdote oficiante veio para a nave do templo, estando inconsciente da turba que o rodeava para além das vistas. Uns diziam-lhe umas coisas. E ele, claro, não podia dar resposta. Outros perguntavam-lhe outras coisas, ferinas, mas também ficavam perdidas no mutismo. E a chacota campeava solta, por parte daquela gente um dia presumida, que por via da mesma presunção, julgava-se agora premida pela justiça do Senhor. Justiça Suprema, que tens Tu com a Peçanha dos homens, sem ser que aguardas dos mesmos reconhecimento interno das faltas cometidas? Colocando-nos além do ponto vibratório que nos tornaria visíveis, fomos de bem junto apreciar a alma, por assim dizer, do pároco. Era um homem de bem, sem dúvida, pois a sinceridade transpirava simplesmente de todo o seu ser. Mais tarde, seria mais uma vítima de falsa concepção? Talvez não. O seu reflexivo revelava o homem exclusivista, sectário e angusto; mas, também, muito amigo dos pobres, dos doentes e dos infelizes em geral. Não parecia confiar nas pseudo vantagens do eclesiasta puro e simples. As lições do Divino Mestre falavam-lhe à alma sincera. Em se olhando para o reflexivo, notava-se a imanência de uma imagem. E era a do Cristo visitando os casebres, curando os enfermos, chorando com os que choravam... Essa visão do Cristo, ele a mentalizava de contínuo. E parece que isso o isolava de certas nocivas influências. Porque alguns daqueles padres, alguns superiores, olhavam-no com má fé, capciosamente. – E que espera essa gente toda? – perguntei, vivamente interessado, fazendo um cálculo sobre como poderiam tomar destino condigno. – Outro problema complexo. – tornou Ema – Sabe bem que o ser é tangido por leis gerais enquanto ronda os planos inferiores da vida; mas que se vai tornando auto-senhor do próprio destino, auto-construtor, com a entrada cada vez mais definida no reino hominal, no plano da inteligência. Há que atender, portanto, para o fator direção pessoal. Nós vivemos em marcha perene para um

estado de estar ou outro, através o nosso proceder. Dentre esses, portanto, os mais poderosos retificarão o modo de pensar e agir, subentendendo que se há falha não é da parte da Justiça Divina. Os outros, os teimosos, os que se julgam com toda a verdade e mais sobras de razão, esses estarão, inconscientemente, enveredando pelos caminhos mais trevosos da subcrosta. Creio que já lhe contamos sobre o que se passa no bojo da terra, pois não? – Sim, de um modo geral. – redargúi – Espero, porém, poder constatar o que de fato ocorre em tais esferas da vida. Tão gentis têm sido para comigo, que me afianço hão de me facilitar instrutiva sondagem. Demais, sinto em mim incontido desejo de saber. O empirismo de outrora se me afigura infantilidade criminosa. Pois se tudo isto que hoje vejo parte do existente, e se faculdades nos permitem ver, estudar, sentir e viver tais verdades, ou tais emanações da VERDADE, porque temer constitua esse desejo de saber, uma heresia contra a própria VERDADE? Percebo, o quanto estão erradas as velhas concepções religiosas! – Pode dizer o que bem queira, Adão, em torno aos temores supersticiosos com que no mundo certos credos aureolam a idéia de Deus e Seus domínios. O de que precisamos, em torno da VERDADE, é de armar-nos de bons conhecimentos. Compreender e executar bem, eis o que quer Deus. O mais fica por conta daquilo que constitua o interesse mundano dos donos de credos. E aí os tem. Veja-os bem. Uns cogitaram do econômico, outros de outros menos sadios ainda, pois abusaram da virtude, em vários sentidos. – E os bons padres?... – quis eu saber, pois os há. – Os humanitários? – inteirou-se Agildo. – Sim, pois conheci padres como esse, que viviam para a fé e não da fé. – E os céticos que ganham alturas, por que o será? Nesse caso, como está contido no mecanismo da questão, a vantagem é do humanitarismo e não do religiosismo. Demais, como sabe que trabalhamos nos meandros do Consolador restaurado, deve saber que aqueles que nele aplicam-se na vida, em crença apenas teórica, também e só por isso, nada obtêm de vantagens. O céu reclama despertar interno em PUREZA e SABEDORIA, e não em empirismos teóricos. Quanto ao mais, esteja certo, está no programa uma sortida aos planos inferiores, onde muito irá aprender, para mais tarde poder empregar em serviços úteis. – É grato saber isso... Muito grato... – comentei, enquanto minha mente se distendia ao longo de respeitosas considerações, pela Direção Intelectual do Planeta, cujo cetro repousa na figura divinizada de Jesus Cristo. E como me visse Ema entregue à meditação, em se chegando mais, falou com a ternura que lhe era costumeira: – É-nos grato, também, hospedar irmãos desejosos de recuperação. Meu pai é um chefe de família, como milhares de outros nos céus inferiores, que precisam alojar hóspedes em trânsito para melhores postos. Todo o ser precisa de um ambiente familiar, para poder desempenhar-se bem nos serviços de edificação fundamental. Quem não conta com uma base sólida tem suas possibilidades atrofiadas. E o meu pai, como já disse, faz isso por gosto e função. Quase sempre, eu mesma é que lhe arranjo os hóspedes. Busco, em geral, criaturas de certo modo afins, para que uns e outros sintam-se satisfeitos e ganhem com a transação.

– Considerava, também – falei-lhe – o que lhes devo como funcionários do Senhor. Não são apenas iguais em tudo... São mestres em alguma coisa. Quero saibam o quanto me sinto desvanecido por tudo o que têm feito por mim. – Outros também fizeram o mesmo por mim – atalhou com simplicidade Agildo. – Também hei de querer fazer isso um dia, quando tenha uma oportunidade, um lar feliz numa zona qualquer. – No seu quarto cabe mais um... Porque não arranja um irmão precisante? – emendou Ema, olhando bem para a minha indumentária de padre, como a dizer que devia lavrar em seara própria, assim julgasse oportuno. – É exato... – murmurei, considerando a extensão da oferta. – E o lar já o tem, é claro – anuiu Agildo, apanhando-me pelo braço. – Obrigado!... Muito obrigado!... – pude dizer, comovido ante tanta bondade. – Vamo-nos, que amanhã iremos para outros lugares. Essa pradaria cuida muito de suas importâncias, sendo preciso que o tempo faça sua parte, antes que possamos iniciar cultura. São como as terras ácidas; carecem de fosfatos. O tempo e a dor farão o devido, não há dúvida. Atendendo ao convite de Agildo, partimos para a nossa esfera. Estava minha retentiva enriquecida de mais coisas do universo. E entre mim considerava no choque conceptivo, pois para a minha fé de padre, o homem devia cuidar somente daquilo que convém aos donos da Igreja, ficando o restante por conta do mistério e do milagre. Agora, em face de tantas evidências em contrário, sabia que cada um devia preparar para si um posto, à custa de conhecer e proceder, de saber e aplicar. Não havia dúvida alguma; seriam precisos bons esforços pessoais, conhecimento de fato, práticas de escol. E confrontando o que via e aprendia agora, com as lições do Evangelho, notava que Jesus, de fato, não perdeu tempo em se fazer um sacerdote ofertante de carne assada, nem de outras coisas formais ou idólatras quaisquer. Foi antes, lidar cara a cara com o realismo da vida, procurando o homem em si mesmo, e no homem o céu por despertar, fosse esse homem encarnado ou desencarnado. A vida de Jesus foi o mais frisante exemplo de contato entre os dois planos. E aqueles que, como eu, fizeram e fazem do Cristianismo um meio de vida, que ensinam? Dão bobagens, vendem formalidades, negam a presença dos espíritos! Trucidam o Cristianismo em nome do Cristianismo! Querem ser autoridade num assunto que ignoram totalmente. E em nome da autoridade que de fato não possuem, pretendem impor condições à própria VERDADE! Que diria eu se em vida me falassem do que havia visto, daquilo de que está inçado o mundo templário? Lançaria anátemas, diria ser coisa do diabo. Por muito menos, em verdade, fiz pior. Fui um dos grandes adversários do Espiritismo nascente... Momentos houve que julguei tê-lo derribado, com minhas argumentações. E me acreditava amparado no Livro Sagrado. Tão viciado estava na corrupção, que só podia entendê-lo de um modo.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.