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Capítulo 24 de 28

Uma Doutrinação Mais

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

O espírito que tangia todas as possibilidades, que forçava todas as portas que à sua sanha de malfeitor pudesse parecer bom canal ou móvel de prejuízo ao moço, sentido-se baldo em tentativas tantas, abandonou-o. Estava, porém, fixado, que seria por nós orientado. Invisivelmente, portanto, gente nossa o seguia. E quando sua vez chegara, fora abordado por um trabalhador, que mais ou menos assim lhe falara: – Que faz por aqui, amigo, nesta atmosfera de álcool e fumo, de vícios que valem por serpentes a peçonhar almas? – Vivo! Vivo! – disse ele, desconfiado, olhando ora para o nosso trabalhador, ora para o ambiente em geral, ambiente de taberna, de jogo, de fumo, etc. – Há viver e viver, amigo. E nós, os servidores do bem, sabemos que está em grandes dificuldades de toda ordem. Temo-lo seguido e estudado a deficitária situação em que se encontra. Deve tudo a si mesmo, posto que, para com Deus ninguém arruma dívidas... E o vicioso ser, intempestivamente, berrou como um animal danado: – Já sei!... É da mesma cantilena!... Vá-se embora, antes de que o faça calar à força!... Peçonhento é você, seu mentiroso!... – Por fim, amigo, sempre vencerá a VERDADE. Se tem alguma razão para apresentar uma atenuante por fazer valer, saiba que gostamos de a tudo ouvir e dar o devido juízo. Não se faça, porém, abrutalhado, inimigo ou pretenso cruel, porque isso só lhe traria prejuízo. Agimos por força de leis, não por vontade própria. E leis devem ser respeitadas. – Quem criou essas leis e para quem? – inquiriu, escarnecendo. – Para mim, pelo menos, Deus não cria; tudo é, em Deus, natural e de sempre. O que precisamos é aprender e agir coordenadamente, para que, sendo também partes da manifestação do SUPREMO SER, e tendo por natureza direito à individualidade e à organização da personalidade, não venhamos, por essas glórias pessoais, causar-nos infelicidades tremendas – explicou-lhe o nosso companheiro. – Bebo para esquecer a dor! E quanto adorei a esse tal Deus! Quantas vezes dormi de Bíblia sobre o peito cansado!... – resmungou o homem, raivoso. –Nem sequer bebe do seu... Age como parasita... Como vampiro... E o sinistro homem, gargalhando, passou a basofiar: – Vivo de quem vive!... Encosto-me e sugo... Quero beber, fumar, gozar a vida!... O mundo, por aqui, é melhor do que por lá... Aqui sobra tudo! Tudo!... A coisa vai bem... Ora se vai bem!... Veja quanta gente que creu em Deus anda a lambiscar à custa do encarnado... Olhe só, repare, que mais de cento e cinqüenta por cento do que está vendo é vampiro! Sugamos no duplo de tudo, diretamente, e sugamos também indiretamente, por aproximação, por interpenetração de fluidos. – Quem lhe ensinou isso tudo? – indagou-lhe nosso companheiro, admirado.

– Entro em todas as igrejas, conheço todos os credos... E de quando em quando, persigo a uns e a outros, para experimentar umas tantas coisas... – Nunca sentiu que um tempo de liberdade esgota-se, também, vindo a seguir o ter que responder pelo mau uso dele feito? – Então, Deus só existe para nos criminar?... Porque não se lembrou de mim, de mim que tanto Dele falei?... – Deus não existe, porque Deus é. Sim, Deus é. Não adianta divagar no sim ou no não; Deus é. Nós somos, também, queiramos ou não. O que houve em sua educação espiritual, em sua formação intelectual sobre si e sobre Deus, é que mentiras de homens valeram mais do que verdades reais. Eu também aprendi coisas mentirosas, teologia falsa, e um dia, ao abrir os olhos para este lado da vida, assombrei-me com a tremenda realidade com que deparei. Mas, amigo, não me revoltei contra Deus pela culpa dos donos de credos do mundo. Fiz o possível por encontrar o caminho mais curto para o reencontro com a VERDADE. E achei em mim mesmo o caminho, porque o BEM é grande parte dele. SABEDORIA fui conquistando, aos poucos, para o gasto. E me sinto pleno em prazeres espirituais, porque recebo, a meu ver, para além do merecido. Deus não vem de fora... Deus vem do íntimo de cada ser, em forma de glórias, de belezas sem conta, porque Ele mesmo é o nosso GLORIOSO ALICERCE. Precisamos despertar-nos, meu amigo, bem o disse o Divino Mestre, quando afirmou que o reino do céu não virá com mostras exteriores... – Mas no meu credo se comprava a glória!... Comprei muitos direitos e vime expoliado de tudo e em tudo!... E quem me expoliou, quem me roubou, sem ser Deus?... Ao menos mandasse alguém me avisar... Nem na vida e nem na morte? – E que estamos fazendo ao lhe concitar para o bem?... Todo caso, amigo, deve convir em que foi muito amante dos vícios do mundo, sendo certo que odiou em grande escala, por questões de herança. E ódio é treva! Ódio será sempre treva! – Meu pai foi o culpado!... – procurou desculpar-se, baixando a cabeça. – Cada qual será provado por si mesmo. Cumpre saber isso. Vencer tendo todas as regalias não é vencer. Temos que tornar-nos autoridade em tudo; e isso demanda escola, experiência, luta, trabalhos árduos. Não soube vencer, isso sim. E deve compenetrar-se de que chegou a hora de mudar... Ou de ter que mudar para pior... – Isso é comigo?... – disse ele, assustado, levantando-se. – Somente consigo, meu irmão. Venho de mais alto para esclarecê-lo. Chega de rastejar pelo chão do mundo mais denso... Outros chãos o aguardam, onde uma mãe, uma esposa, alguns outros parentes o aguardam, ansiosos... Pense nisso... O homem sentou-se, de novo, tendo reclinado a cabeça sobre os joelhos. Pensou muito tempo, sem que alguém o molestasse com palavra alguma. Quando volveu o rosto, choroso e transfigurado, perguntou: – Minha mão me quer, ainda?... – Sua mãe, embora paire em zona feliz, sofre por sua sorte. Lembra-se de um filho que não foi bom irmão, que em seguida revoltou-se contra Deus e contra tudo; mas, antes de mais nada, aprendeu que somos todos irmãos, que temos

de trilhar a senda do aperfeiçoamento lento, muito lento, caindo e levantando, e que só podemos ser rebeldes enquanto durar ou perdurar a ignorância dos porquês, o desconhecimento de que em nós temos, em potência inata, trevas e luzes sem conta por manifestar. E ora por si, creia, neste momento, bem junto de si, oculta por entre as primícias de sua superioridade vibratória, e também por cumprimento de superior determinação. O homem, soluçando, soltou um gemido confrangedor. Sua alma vencia contra um amontoado de mazelas características organizadas. Estava, pois, em si mesmo vencendo. Transpunha, no cipoal de sua formação perniciosa, o mais intenso intrincado, em busca da clareira próxima, premissa das luzes da campina, pródromo da estrada limpa, por onde trilhar à cata do reerguimento necessário. E o mentor lhe dedicou algumas palavras a mais: – Não creia exista barreira intransponível entre uns e outros ou o céu e a terra. Deixe de crer nessas tolices do teologuismo igrejista do mundo; procure saber da VERDADE o mecanismo natural, de quem somos, todos e tudo, parte e relação harmônica. Os separatismos foram inventados por homens, para poderem levantar credos em nome de Deus, da VERDADE, e, assim viverem como madraços exploradores da fé cega, do supersticiosismo das gentes. Saiba, por investigar, para que a crença se transforme em saber puro, e para que o saber puro o torne um obreiro consciente, um cooperador de Deus, da VERDADE. Não procure fora de si o melhor, de vez que a primícia está no ego fundamental, na ESSÊNCIA GENÉRICA. – Quando poderei ver minha mãe?... – balbuciou o homem, levantando a cabeça vagarosamente, como se tivesse sobre ela toneladas. – Quando se dispuser a invocar a Jesus Cristo, arrependido em si, propondo-se aos serviços de recuperação em toda linha. Não digo que peça perdão, porque de fato o não há; mas que se proponha a auto-recuperação, porque oportunidade de ressarcimento, de redenção, isso é o que há e se deve pedir. Deus a ninguém jamais quis de joelhos, implorando perdão, babujando a quem quer, ou pronunciando lambetismos nauseantes, formais e criminosos. Deus quer obras dignas, e obras dignas não pode o homem exercitar, sem ser, em si e à custa de pessoal vontade. O que lhe digo contraria a muitos teologismos falso do mundo, mas é o programa de redenção por excelência. Eu não tenho igreja, não venho em nome de quem a tenha, porque a Igreja de Jesus Cristo é a ORDEM DIVINA, sendo bem geral e não organização estatucional de homens que querem passar pelo que de fato o não são. Lembre-se disto: que Jesus Cristo recomendou AMOR e CIÊNCIA, não formalismos tolos. Com um breve estacato do mentor, houve tempo para o homem dizer: – Reconheço que meu estado tem piorado ultimamente... Devo estar a me prejudicar de modo cruel... E se de fato em Jesus Cristo não existe o prazer de afrontar, de sujeitar, mas sim de compromisso sério em trabalhos de amor, então me confesso imensamente pecador... Maltratei mãe e irmãos, surrupiando-lhes da herança paterna o que pude, mancomunado com um sacerdote, que me garantiu ganho de causa perante Deus, uma vez oferecendo à igreja, grande parte dos bens... Creio que esse padre também esteja passando por mau bocado; foi um mau padre... Fez um longo silêncio, para em seguida perguntar: – Para onde devo ir?...

– Para dentro de si mesmo... Pense em Jesus Cristo. Quem pensa num ser, força no sentido de penetração de sua gama vibratória. Pense no Divino Mestre, que por sua vez pertence à mais intensa gama vibratória na terra conhecida, para que o seu revestimento grosseiro, para que a sua aura doentia se vá tornando penetrável, possível de burilamento. Concentre seu pensamento na máxima vibração planetária, personalizada na figura diretora do Mestre. O homem, cerrando os olhos, ensimesmou-se profundamente. E ao lado de muita gente, alheia a tudo aquilo, que bebia e dançava, fumava e se dava à manifestação dos mais animais e sórdidos instintos, um irmão mais foi ganho para as coisas do BEM, depois de sofrer tremendas angústias de ordem moral. Ele não era, antes de reencarnar, um mau espírito; tinha suas conquistas nobres no farnel da evolução realizada. No mundo é que, dada a má organização mental religiosa e tristes conselhos recebidos, assim chafurdara nos abismos internos, nas crateras do ódio, nos lamaçais do egoísmo, nas labaredas da revolta. Onde volveu a si o homem? Numa zona para onde o transportamos durante a sua sentida prece de arrependimento. A quem ficou entregue? Ficou entregue àquele que vinha por ele rogando – sua mãe. Ela é que lhe iria ensinar um novo catecismo, onde não se aprende a esterilizar as forças progressivas naturais, por meio de dogmas ou de formalismos pagãos e extorsivos. Quando, bem mais tarde, o conduzimos à casa pobre de Jasmim, a assistir como espírito observador dos aprendizados evangélicos, ali estava o moço contra quem havia ele tangido os tendões de sua antanha odiosidade. O jovem já havia desenvolvido em faculdade interessante. O nosso homem por ele falou, dizendo coisas de sua própria história. Ao deixar o medium, considerou: – Que fará no mundo o Espiritismo bem cultivado? – Aquilo que Jesus Cristo testemunhou. – respondeu alguém – Fará reconheçam os homens, ou a grande maioria, que existem credos ou religiões no mundo, que estão com mais de cinqüenta mil anos de atraso. Sim, podemos assegurar, que dizemos aquilo que significa um avançamento espiritualista de mais de cinqüenta mil anos, relativamente ao que foi ensinado através as primeiras revelações. E quem quiser saber, para tanto nenhum outro esforço precisa de empregar, sem ser no sentido de destruir taras repelentes, recalques supersticiosos, prisões a tramas retrógrados, a tudo isso a que deu guarida no curso de miríades de encarnações. Em verdade, o homem mais vive dos vícios a que se prendeu, do que mesmo da VERDADE de que é parte e relação. E se não der de si esforço impulsivo renovador, onde irá parar, em que abismos se lançará, por não coordenar com a lei de evolução necessária? É fácil responder – irá forjar, para si, para a coletividade, guerras e situações medonhas; porque da má situação do eu fundamental partirá sempre, sem dúvida, toda sorte de conseqüentes situações dolorosas. Os homens de qualquer tempo, exatamente, terão político-socialeconomicamente, aquilo que corresponde ao seu montante em espiritualidade. Onde haja falha de espiritualidade, ali haverá de misérias o correspondente. Quem não atina com a ordem geral de coisas, que é a ORDEM DIVINA, por certo que particulariza horrivelmente, vindo a errar e fazendo que seu erro incida sobre a coletividade. Onde estiver um homem a vibrar de modo contrário à ORDEM DIVINA, ali estará um foco de possíveis catástrofes de alçada geral. Porque todo o fenômeno tendente à evolução, partirá sempre de um centro que o engendre, de um ponto propulsor original. O homem, pois, deve raciocinar muito sobre o

emprego de si mesmo, para todos os efeitos. Entre Deus, o próprio homem e a religião, pairará sempre o pouco de livre arbítrio do próprio homem. E quando essa regalia humana se haja viciado, vindo a sentir-se bem só no culto do tresmalho, tudo o mais que o homem venha a fazer, ou de si dar emprego, redundará em prejuízo, em desfecho doloroso.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.