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Capítulo 13 de 28

Conforme O Dito, Assim O Feito

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

A coisa começou logo com forte lanço para mim. Eu nem sonhando seria capaz de supor, naqueles dias, que um espírito encarnado pudesse sair do seu invólucro, em perfeita condição de consciência, a ponto de vir conosco falar, trocar idéias, emitir conceitos superiores. Pois isso mesmo foi o que fez Jasmim, a irmã de cor, de cujo corpo se valeu uma entidade de mim desconhecida, para falar aos do continente da carne mais densa. E ela era bem uma estrela a brilhar! Por que não? Ambrósio, por sua vez, devia saber de minhas coisas, pelo visto e feito, em favor de minhas necessidades. Porque, em se chegando a mim, disse: – Vamos passar pelo cadinho mediúnico, irmão Adão? É de mais alto que lhe vem a oportunidade. E note que é primoroso o momento. – Entrego-me às vossas vontades... Eu nem sei como vos agradecer tamanha bondade para comigo... – Se triste é a dor, celestial é a paz. Receba o seu, agora que é tempo, para depois poder ser útil aos que gemem e pranteiam nos abismos, por onde já fez passagens e estudos. Acatemos a realidade. E meditei, em fração de minuto, na grandeza da cronometria do Senhor. Procurar ter, para poder em seguida dar! Que melhor emprego do eu poderia haver? Que apostolado melhor poderia ser sequer imaginado? Quando menos esperava, eis-me envolvido pela aura mediúnica da irmã Jasmim. E que falar? Que dizer? Como responder às perguntas que o presidente me endereçava? Foi quando Égas, sorridente, balbuciou-me aos ouvidos: – Você, um ministro de Deus, falando aos da carne e sem ter o que dizer?! Procurei recobrar-me o mais depressa possível, para não fazer um fiasco. E comecei por contar-lhe a minha própria história. Devo ter gasto muito tempo em relatar tal coisa. E sentia que todos, encarnados e desencarnados, me ouviam com religiosa atenção. Só mais tarde é que me informaram do ocorrido; minha mãe, escondida por entre as claridades de mim ocultas, pedira aos chefes para que ante aquela assembléia de dezenas de milhares de irmãos, fizesse eu a minha profissão de fé nas coisas do Senhor, à margem dos formalismos religiosistas do mundo. Pouco depois de terminar minha palestra, quando pretendia agradecer e deixar a tribuna de carne para outros, senti que um frêmito me invadia todo. Perdi de mim mesmo a consciência. Deixei de ser, por momentos. Acordei para a minha razão, para a sensação sublime do eu, completamente mudado em roupa! Um traje à européia me fora dado. A veste fingida, de padre, para onde fora? Não sei. Por fora, estava vestido de claro, bem claro. Por dentro, revestido de santos desejos. Queria amar muito, em espírito e verdade, para assim poder ser amado. Queria atingir a um conhecimento que me facultasse ir aos planos de dor e de lá arrancar a muitos, assim como fosse de cima disposto, trazendo-os para as clarinadas da vida consciente. Queria aprender a revolver, no emaranhado do caráter humano, a tudo o que de tumultuoso ali estivesse contido, barafustrado, recalcado: queria subtrair às farpas do ignorantismo, o único diabo que de fato existe, a muitos amigos e irmãos. Eu queria ser de fato religioso! Já podia compreender, graças aos esclarecimentos recebidos, que

religião é lei de amor e não conceituação sectária. Sentia, pois, em minh’alma, anseios de amor puro, desejo sincero de ser útil. Que paz gozava em mim! Que compreensão da vida! Não sei até onde aquela metamorfose refletida no meu exterior, na minha aparência fisio-indumentária, pudesse ser reflexo do montante da revolução interna; o que sei é que estava leve como uma pluma! Que via e sentia mais e melhor. Disse isso aos amigos e benfeitores. E Égas, exultante de felicidade, comentou: – Tudo é questão de desdobrar poderes latentes. Você não foi bafejado por favor algum, senão que atingiu o tempo-cíclico de expiação a que se propôs, em virtude de atos menos dignos cometidos. Agora, como deve e pode entender, dado que venceu em si a purgação, tornou ao seu grau ótimo hierárquico. O que tem em paz e glória é o que de direito lhe cabe. Não se faça piegas, meloso ou nauseante, para conosco ou para com o Supremo Poder, que é interior a si, porque isso significa ser tolo. Nós, os orientadores, queremos compreensão e amor. E Deus quereria, porventura, ser bajulado? Ou agradecido com melopéias afetadas? Compenetre-se de que é um agente do Senhor, e que deve fazer o possível por auto-despertar-se, para daí armado de verdadeiro penhor de consciência, poder servir ao próximo. O que for mais do que isso, amigo Adão, é falta de respeito à VERDADE. – Mas gostaria tanto de agradecer!... Sinto-me ufano!... Enlevado!... – Melhor agradecimento do que compenetração das origens e do destino, não pode haver. De resto, pense nos que se acham nos abismo onde só há de fato pranto e ranger dos dentes. Lembre-se que para eles não há LUZ e sim TREVAS, porque em lugar de AMOR cultivam VÍCIOS. Se conquistou, pois, um posto de honra, dignifique-o cada vez mais com ações nobres. Não vá pensar que se abalou um grão de areia, ou uma semente de mostarda, no concerto universal, pelo fato de se ter recolocado em lugar melhor. Nós executamos um serviço; você retornou à casa. E tudo prossegue normalmente. Ainda que tivesse merecido o mais alto empíreo, ainda que fosse ombrear-se com os Cristos que vivem nas zonas interestrelares, ainda assim, tudo continuaria do mesmo modo, na terra e no universo em geral. Porque a lei quer que cada um seja o seu próprio artífice. É assim, portanto, que o gozo fraterno pode se tornar extensivo a uns tantos amigos; mas a glória é de quem se glorifica. Esse sagrado direito, ninguém tira e nem põe. É nosso por natureza. O SAGRADO PRINCÍPIO, que é em nós, é quem assim ordena. E quem se poderia opor? Aprendia, pois, a raciocinar. E sentia que aquela gente amava a Deus de um modo infinitamente superior. Eles não mecanizavam exteriorismos, não expunham os pensamentos através ronceiras elucubrações, não buscavam melar Deus com porfias laudatórias. Amavam procurando o significado da vida e das ações, pelas sendas norteantes do Amor e da Ciência.Viver significava agir. Saber significava obrigação. Amor significava aplicação. Lei significava disciplina. Irmandade significava cooperação. Amizade significava solidariedade. Auxílio significava tolerância. A fé parecia feita, em suas consciências, de tremendo potencial em compreensão cósmica. O respeito ao Cristo era neles a imitação nas obras. E eu sentia o quão longe disso está o religiosismo terrícola, feito todo ele de figurados simbólicos, de contemplismos vadios, de preconceitos viciados, de rotulâncias afrontosas, de mentiras oficializadas e impostas com força de lei!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.