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Capítulo 18 de 28

Especificando

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

A natureza complexa do espírito humano, julgado este do ponto-de-vista educacional, e a educação como recalque elaborado nas inúmeras encarnações, dá muito o que pensar. E dando o que pensar, não quer dizer que dê para se ter a coisa por resolvida. Pelo contrário, pois às vezes, aplicando para com alguns irmãos a tudo de que se disponha, em conhecimentos e boa vontade, perde-se ainda assim, o tempo e o latim... Que fazer, então, ou de que recursos usar, quando alguém pede aos Poderes Superiores auxílio, obtém deferimento, e este encerra em termos que lidar contra irmãos ultra-endurecidos? Nada mais e nada menos que recorrer à força, que lançar mãos de serviçais para tanto dispostos, por inferioridade evolutiva; nada mais que prender, trancafiar em xadrezes, que submeter a duros momentos. Muita gente, não ouvindo a força da razão, vê-se na contingência de ceder à razão da força. E é interessante, porque tudo é modo de se dizer as coisas. Só que a linguagem a ser usada, define a própria pessoa. Nem todo e qualquer serviço, portanto, oferece comodidade e prazer a certos obreiros. Gaspar, o colega de quarto, ingressava valorosamente pelos campos do mentalismo o mais avançado. Fundia-se na consciência da unidade com a ESSÊNCIA BÁSICA, ou Deus, vivendo mentalmente, de forma tal ao Monismo Divino, que suas naturais forças latentes se expunham, por vezes, de modo esplendorosos. Em pouco apanhara o hábito das retiradas para as montanhas de nossa região, onde ia praticar o êxtase, o enlevo d’alma. Creio que nele despontava alguma reminiscência, o gosto de práticas em antanhas vidas exercitadas. E quando de lá vinha, sua fisionomia se apresentava com aspectos de diafânicas expressões. Seu semblante revelava um como dardejar de valores psíquicos irrecalcáveis. E por notar-lhe as sublimações em pouco reveladas, falei-lhe no assunto: – Quem lhe recomendou esses proveitosos exercícios espirituais? Noto que muito lucra com isso. – Procuro, nos retiros, sintonizar o mais possível com a ESSÊNCIA DIVINA, à qual por natureza somos ligados e de quem somos parte e relação. Contudo, como nos concede ELA um direito de individualidade, e por este o seguimento, que é o de formação do próprio caráter, sei que é bom nos empregarmos, sempre que possível, no serviço interno de identificação, por sintonia. Vou, indo fazer o meu retiro, à FONTE ORIGINÁRIA. Sei que os grandes vultos do mundo, os grandes reveladores, todos eles, e Jesus Cristo mais que ninguém, praticaram tais exercícios. É preciso que o homem entre em si mesmo, de quando em quando, para poder, conversando consigo mesmo, conseguir conversar com o seu FUNDAMENTO. E lhe asseguro, Adão, que aos poucos conseguimos estabelecer contato com aquilo a que chamarei a LUZ DIVINA. Então, por força de hierarquia, creio eu, temos a visão dos mais elevados seres e o sentimento de universalidade a nos dominar o todo. Espaço e tempo deixam de ser. Tudo é glória e presença eterna. E é assim que vimos a ter certeza, não mais por raciocínio, mas sim por viver, que somos deuses, por de fato sermos emanações divinas. Pensar no Divino Monismo já é mais do que pertencer ao credo

monoteísta; mas, viver pelo êxtase, pela sintonia, ao DIVINO PRESENTE; isso já corresponde a muito mais. – Belo! Muito belo! Mas quem te ensinou a fazer isso? – Um amigo de mais alto, companheiro de jornada em uma vida que vivi na Índia. Éramos muito ricos, mas, em que pesasse tal entrave, fazíamos os exercícios de contínuo. Um brâmane nos ensinara a começar aos poucos. Depois... – E onde está ele? – Por umas três vezes já me veio visitar, tendo-me recomendado ir às montanhas, onde a introspecção espiritual pode ser mais intensa. Jesus mandou entrar no quarto e fechar as portas. Compreendem isso como prática comum de ensimesmação. Contudo, a realidade é sempre a mesma, porque o espírito é sempre espírito. Onde melhor convier, assim se faça. No quarto, no deserto, na cidade, nas montanhas, nas cadeias, nos sanatórios, etc. O espírito precisa saber valer-se das ferramentas que tem em mãos, e não daquelas que poderia ter. Eis a regra boa. Num repente, um homem vestido à hindu, se fez presente. Era simplesmente bela a sua vestidura, porque brilhava além do comum. E sua face era como transparente, sendo que seus olhos espargiam um que atraente ao extremo, fosse pela doçura evanescente, fosse pela pureza que irradiava. E falou conosco, na nossa língua. Porque ainda falamos nosso idioma e aqueles aprendidos. Ele, pois, nos falou em português. E ao lhe agradecer a visita, assim se expressou, pouco mais ou menos: – Como quereis julgar-me tanto, se a SUPREMA ESSÊNCIA é tudo em nós e não se faz importante? Então, porque seja eu um irmão avançado em pureza e sabedoria, sou mais em natureza e destinos? Ou constitui, acaso, algum favor que vos venha visitar? Não ensinou o Mestre que o maior é apenas quem tem obrigações de servir mais? – Sim, grande amigo, sabemos disso; mas sentimos em nós espontâneo desejo de agradecer, a quem com suas virtudes despertas, em nos visitando, nos infunde cada vez mais firmeza e anseios de progresso. – É que tendes, do mundo, o lastro das reverências protocolares. Sinto que é muito sincero no que expressa; mas peço o obséquio de não mencionar, em palavras ou gestos, qualquer sentimento de reverência que lhe ocorra. Gostamos, todos nós, porque gosta o amigo também, de sermos amados sim e exaltados não. Prossigamos, portanto, em nossa conversação, como bons irmãos e melhores amigos. – Falávamos de si, Moandas, quando chegou... – disse-lhe Gaspar. – Eu não cheguei, pois já estava aqui, oculto numa gama mais etérea do elemento cósmico. Como deveis ter estudado, o éter se compõe de gamas ou extratos. E nós, por hierarquia, nos identificamos com uma ou outra gama, obrigatoriamente. Hierarquia vale por identificação, portanto, ou por lei sintonizante. Eu estava oculto em gama mais etérea. Assim é que fazeis, também, para escapar às vistas de quem não vos convém a presença. – E que pretendia? – tornou Gaspar, vivamente interessado.

– Convidar o amigo Adão para uma experiência. Precisamos aprender a amar muito mais, e, o único processo é evoluir mais. Como sou o chefe de certo departamento de instruções, aqui vim a trabalho, mais do que em visita. Intensa alegria me invadia o ser. Mas fiquei firme, sem dar mostras de um fervilhar que me ia pela alma, por atender ao seu apelo. E ele, assim falando, foi levantando-se em sinal comum de despedida. – Mas eu aceito a prova e... – acudi em dizer, pensando que se ia sem antes combinarmos o onde, o como, o quando, o para que, etc. – Sim, já sei que quer. Não tenha receio, portanto, que o virei buscar assim chegue a sua vez. Todos têm o mesmo direito, e, há muita gente na sua frente... Ou você já foi beneficiar a alguém fora de tempo e oportunidade? Porque havendo uma justiça natural que emana do próprio ser, também existe, para complemento, uma que é intelectual e organizada. A de dentro faz o mérito ou o demérito no próprio ser; e a organizada intelectualmente, presidida pelos que de direito, essa toma a feição que sabemos, de ordem judiciária exterior. Nem poderia haver só a interna e nem só a exterior e organizada. As duas se completam, para efeito de socorros, de programas, de iniciativas, quer para os seres em particular, quer para os povos, ou para as humanidades. E quando a Justiça Exterior se pronuncia, quando os conselhos tomam iniciativa, é porque a Justiça Interior assim o exige ou determina. Quem, pois, quiser ter da Justiça Exterior, dos conselhos estabelecidos, atenção ou amparos, que faça por ostentar padrão superior de ordem psíquica. Porque a Justiça Interior, essa é a primordial. – Você me esclareceu num ponto que muito me fazia pensar e nada concluir. O que disse muito me elucidou, caro Moandas – disse-lhe Gaspar, satisfeito. Também tive grande vantagem em ouvi-lo, pois vivia a parafusar em mim, como é que sendo tão mencionada a Justiça Interna, para socorrer e encaminhar moviam-se as legiões prepostas. Tinha de haver, em verdade, uma relação indiscutível entre a Justiça Interna e a Justiça Externa, entre a que parte do vibrar do eu e a que é mobilizada pelos chefes superiores. Estava, pois, imensamente satisfeito. Era a primeira prosa, e Moandas nos encantava. Porque, embora os ensinos ambientais já absorvidos, não é tão à toa que se largam conceitos adquiridos em anos ou séculos de educação à base de misteriosidades e de milagrismos, como o é o meu caso. Como Moandas tornasse a fazer menção de partir, indagou-lhe Gaspar: – Como se explica, então, que seres tornados monstruosos, habitantes de tredos abismos, sejam socorridos, sendo que jamais por si seriam capazes de enveredar para as conquistas vibratórias merecedoras? – Nestes casos, e dão-se aos milhões de milhões, o ser não conta com livre escolha para a reencarnação em vista, ou mesmo algumas reencarnações. Sãolhe impostas condições rígidas, pois a ninguém será dado, impunemente, achincalhar ao que em si possui de evolução organizada. Assim como se faça o ser bruto, à revelia da Suprema Justiça, assim à sua revelia terá que purgar e re-equilibrar. Bem aventurados pois os que exercitam o bem, independentemente de pensar em recompensas. Estes possuirão mais, porque mais estão a dar, em simplicidade de conduta.

– É deveras interessante o que nos ensina – falei-lhe, evidenciando o que de prazer me causara a sua elucidação. – Pelas instruções já fornecidas aos encarnados, sabem eles muito bem sobre esta ordem de questão. O mal é que vocês dois se ressentem de conhecimentos básicos de doutrina. Sabem muito de ordem prática, possuem bagagem respeitável em matéria de consciência das coisas superiores, mas, infelizmente, falta-lhes técnica. Nos detalhes, são vazios. Vêm a máquina, mas não lhe conhecem os dispositivos mecânicos internos. Falta-lhes experiência apenas. – Bem gostaríamos de saber bastante! – observou Gaspar. – Aqui você está dizendo isso; na terra, por razão qualquer, importava defender o igrejismo à custa do qual supria o bolso, o estomago, a vaidade hierárquica, etc. Acho bom se aprontem para voltar à carne... É uma grande coisa... Confesso que estes dizeres de Moandas me abalaram profundamente. À simples lembrança de uma vida por entre os fanatismos do mundo carnal, minha alma confrangeu-se toda, presa de mil ressaibos tristes e indecifráveis, que do subconsciente se alçaram. Olhei para Gaspar e o reconheci profundamente chocado. Causava piedade o seu estado de alma. Quase chorava, o pobre. Moandas, em nos vendo tristes, em nos sentindo abismados em nós mesmos, disse com gravidade e em tom profético: – Mas acontecerão coisas, antes, que vos deslumbrarão. Vereis e ouvireis a qualquer coisa nem sonhada. Isso, de grande alcance estimulativo, por certo que vos há de suceder. E partiu. De minha parte, embora uma nova encarnação se me afigurasse um monstro por enfrentar, também alimentava na consciência a grata satisfação de contar com outros possíveis recursos, como, por exemplo, obter facilidade de ambiente facultativo, isto é, onde pudesse, desde a primeira infância, haurir, sorver elementos de melhor formação espiritual. Já tinha ouvido dizer, nos círculos amigos, de alguns que marchariam para a carne, com garantias de ambiente instrutor favorável. Reencarnariam em ambientes espiritistas, de onde usufruiriam grandes vantagens, em conhecimentos, em assistência mais tangível e convincente. Também, em sendo Moandas trabalhador em altas esferas, não devia pugnar por nós, nalgum sentido? Tinha feito duas promessas, ambas vagas, mas definidas em responsabilidade. E eu confiava nisso tudo, porque o alcance moral do comprometido era elevadíssimo. E fomos ao primeiro serviço em vista. No que consistia ele? Apenas, porque é sempre o caso, ter que socorrer a um irmão encarnado, na pessoa de um desencarnado que o comprimia entre dores e angustioso estado de alma. Procurando o homem encarnado, por quem fora feito pedido de auxílio em uma das sessões da casa de Jasmim, encontramos também o verdugo. Não estava agarrado, como um doente à sua mágoa, mas sim ao lado, presa de ódio cruel, de vendita implacável. De onde vinha a razão para um tal proceder, se razão pudesse haver para a vingança? Vinha de longínquos dias, segundo o que rezava a documentação. Entretanto, tudo se cumpria à risca, segundo compromisso feito pelo encarnado,

antes de envergar sua fatiota de carne. Da parte do desencarnado, porém, muito mais enegrecido, muito mais chafurdado em trevas consciencionais, tudo falhara, pois não conseguíamos convencê-lo, subtraí-lo aos assaltos da fúria interna desenfreada. E que fazer? Apenas, porque é também o caso, reforçar o encarnado em sua confiança na assistência do Senhor, outrotanto empregando esforços, para solapar os ímpetos miserandos do algoz invisível. Depois, valendo-nos de quem para tanto ao dispor, arrebatá-lo, trancafiá-lo em cadeia, fazê-lo passar pelo cadinho das experiências, dos confrontos, das vicissitudes alertantes. Nossas cadeias o são naturalmente, assim mesmo contando nossos serviços com jatos energéticos potentíssimos, esguichos de água altamente eletrizada, etc. Tais empregos forçam o despertar da razão equilibrada. Queimam e eliminam recalques venenosos. Desbaratam fixações mentais criminosas. Dispomos, pois, quando para tanto indicam as setas da orientação superior, de mil modos de crisol, com que forçar o depuro de mentes encouraçadas no mal. Não depuro no sentido real, redentor, completo, que esse só à custa de outros esforços são conseguíveis; mas pelo menos, eliminação de desejos hediondos, truncação de disposições escabrosas. Por vezes, e em que proporção isso se dá, a mudança se processa sob o manto do terror, sob o pálio da covardia. Valentes, algozes, vingativos, cruéis elementos, cedem sob o terror de sujeições empregáveis. Enfim, o nosso tutelado foi liberto do seu invisível algoz, inimigo doutros dias. E não o convencemos pelo mérito intelecto-moral das idéias empregadas; vencemo-lo à luz da força! O argumento plausível foi o recurso ao exercício da truculência. De mais alto determinaram, assim foi feito, tudo terminou bem. Porque os dois ganharam melhores encaminhamentos; um libertou-se de triste jugo astral e o outro compenetrou-se de melhores modos de auto-emprego. Chegou à melhor conclusão – a de que todo o bem decorrerá sempre, do melhor emprego que fizermos de nós mesmos.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.