Voltar ao livro Confissões de Um Padre Morto

Capítulo 5 de 28

Nova Família

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

Laços de sangue, laços intelectuais, laços morais e tantos outros possíveis liames unem os seres entre si, pessoal ou coletivamente. No seio daquela família dei-me bem com todos, espontaneamente. Às vezes me parecia que nossas idéias iriam colidir; mas, com uma lógica de pasmar e bondade extrema, eis que punham minhas idéias contra o barranco. Doces anos vivi engastado no seio daquela família, cuja lembrança me traz ao coração sublime enlevo. Foi naquele ambiente de paz e suavidade cristã, onde aprendi que o pensar em ser mais e melhor que os outros, por ostentar título outorgado por instituição humana, além de nada significar como valor de fato, ainda acarreta séria cumplicidade em face das corrupções, mesmo agindo sinceramente, mesmo desconhecendo os porquês delituosos. Nenhum título, nenhuma outorga humana, jamais garantirá a quem quer que seja o vir encontrar aqui garantia em posto hierárquico superior. Faz uns trinta e cinco anos que fui liberto daquele país de ventos e humanidade torturantes. E já me encontrei, por centenas de vezes, com criatura a quem pensei ter, no mundo, ensinado o caminho do Senhor, através os sortilégios, que disso além não vão, os formalismos igrejísticos do mundo. O certo é, porém, que essa gente é e pode mais do que eu, por superioridade evolutiva. Isso quer dizer, então, que os igrejismos do mundo, além de nada fazerem pelos inferiores em hierarquia, por lhes atrofiar o poder pensante com os seus dogmas e acenos infernais, ainda se tornam caminho de corrupção para os mais evoluídos! A morte confunde os presumidos e exalta os simples de coração. Os proprietários de religiões perdem posses e títulos, porque em geral os prezam em demasia, os querem tornar instrumentos perante os quais o próprio Deus se curve. Como disse bem certo pensador, os religiosismos não querem fazer a Vontade de Deus, mas sim querem que Deus lhes faça a criminosa vontade. Resumindo, há uma dolorosa verdade por confessar; é que vimos para aqui com recalques tais, com lastros tais de pretensos direitos, que ao topar com a negação dos mesmos, nos damos mais à rebeldia que ao reconhecimento do erro vivido. Nas zonas infernais, onde o despotismo e o mal campeiam à vontade, títulos fazem-se respeitar e violentamente. As Igrejas do mundo carnal possuem aqui suas duplicatas temíveis, seu sustentáculo tremendo! Dentro das casas onde mercadejam a valer, e donde infundiram o erro às humanidades, sofrem dolorosamente milhares de duendes clericais. Seguem a uns e outros, muitas vezes, surrupiando de uns e outros fluídos retemperantes. Esfarrapados, sujos, seminus, legiões deles acotovelam-se aos fiéis encarnados, nem de longe sonhando com os postos gloriosos com que se julgavam de direito, por fazerem da fé dos semelhantes um meio de vida e instrumento de corrupção doutrinária. Enfim, as prerrogativas do mundo aqui não prevalecem; todavia, por que não dizê-lo? Elas deixam largo crédito no mundo, a bem de quem as conduza, quer em virtude da ignorância de uns, quer em vista do cinismo de outros. É de bom alvitre, porém, ninguém se iluda com falsos apanágios. Porque duro é ter de enfrentar uma situação antípoda àquela tão profundamente cultivada, no mundo das fantasias interiores. E para fiel da balança tomemos este pensamento por axioma:

“Boa religião é todo o bem que se faça ao semelhante, indo mesmo ao sacrifício, se possível e necessário for, mormente em se tratando de lhe amparar com todo o carinho, aos menores interesses de sua emancipação espiritual.” Quem assim pensar, por certo que se não dará ao triste mister de fazer dos sentimentos deístas do seu próximo, um meio de vida. Porque a Deus ninguém iludiria, em Seu nome fazendo mercâncias; pode-se, porém, iludir muito bem aquele que tributando ao Supremo Poder uma obrigação de respeito, nos tome por autoridade intermediária. É certo que esta autoridade é infinitamente discutível, o quanto é infinitamente, deploravelmente oca de provas. Assim como o feiticeiro pode dar provas de suas artes, mas deixando de parte o sentido moral das mesmas, assim também o vendilhão de qualquer templo ou credo, jamais poderia provar as vantagens de sua mercadoria. Há uma vantagem imediata, quer para quem venda, quer para quem compre; quem vende recebe dinheiro e goza dos títulos e veleidades decorrentes, e quem compra se alivia por pouco na satisfação que o gesto tradicional e recalcado consigo traz. Mas, nem um e nem outro podem falar em nome da Suprema Judicatura, da Última Palavra. A mercância fica como um engodo entre partes entre si interessadas, enquanto o tempo de encarnação durar, enquanto espesso véu encobrir a visão da realidade. Naqueles dias, pois, sentia o céu despertar dentro de mim. E quem o forçava a tanto era a amizade daquela gente simples e feliz, com quem passei a conviver. O tom hierárquico do plano correspondia bem ao da terra, em certos pontos. Um deles, por exemplo, era o que concernia aos bens necessários à mantenência da vida física e indumentária. Outro, era o que dizia respeito aos divertimentos, pois, ao que não produzisse, não se lhe permitia tomar parte em divertimentos organizados. Como será fácil identificar, o plano era de relativa prova. E o será ainda, pois que o deixei e não mais o quis ver, de vez que, aos que lá estimava, também outros rumos foram indicados. Com certa soma de serviços, determinados direitos em passeios e regalias que tais. Eis o retrato político-social-econômico da região. Quanto ao sistema governativo, experimentava-se ali o menos pessoal possível. Comissões técnicas organizavam programas específicos; e um conselho administrativo aplicava-os. Pessoalismos não prevaleciam; isto é, prevaleciam o menos possível. Para os diferentes ramos de aplicação técnico-legislo-administrativa, indicados eram elementos de reconhecido merecimento na matéria. E a lei dos terços prevalecia para todos os efeitos, em matéria de sucessão. Onde quer houvesse necessidade de organização de programa, só elementos técnicos eram indicados à votação. E para a função máxima, a executiva, também elementos experimentados, principalmente do ponto de vista moral. Sete eram os presidentes, sendo que entre si dividiam eqüitativamente a presidência em exercício e tempo. Nunca faltava um conselho superiormente capaz, nunca poderia tornar-se um caso executivo em oportunidade de chicana partidária. Encarava-se o homem, sua honorabilidade e capacidade técnica; o teor partidário a ninguém interessava. Economicamente, ninguém acumulava, ninguém tinha esse direito. E é fácil saber-se que, onde todos trabalham, onde ninguém acumula e onde não há advocacia administrativa, todos podem viver bem. O plano, pois, era verdadeiramente símile da terra em certos pontos; economicamente, porém, não se via a um cidadão como miserável e a outro como perdulário.

Educação, instrução e aplicação do homem? Sempre lembrando que todos eram iguais perante a Suprema Lei, em origens e destinos. Mas a regra “A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS”, jamais deixaria de intervir na vida pública e privada de todos os cidadãos da região. E como nos planos felizes, embora relativamente inferiores, o mérito reponta do ser espontaneamente, com um nada de esforço, a qualquer seria dado subentender, o melhor por fazer e querer. De qualquer forma, para efeito qualquer, educacional e administrativamente, tudo obedecia a um princípio – isentar a formação mental do ser de toda e qualquer sabuja partidarista, sectária ou personalista. O complexo dos ângulos de visão, para todos os sentidos de aplicação do pensamento, não me deixa hoje confuso. Nos planos inferiores, experimentados são todos os sistemas imaginados ideais. A terra se perderia de vista, com relação ao que se passa por aqui, nas esferas onde o sentido de duplicata paira em muito de par com aquilo que por aí se conhece. O que aqui se repete, no que diz respeito ao que seja inferior ou superior, de muito suplanta ao que aí se conhece. As intensidades daqui, no bem ou no mal e na amplidão dos ambientes, onde deixaria a terra? O que não difere, isso sim, é a natureza do porquê, é o fim em vista, é o mérito da ação, é o relativismo da possibilidade. Não faltam os que julgam isto como sendo a “perfeição” em todos os sentidos. Pois saibam que nada temos de perfeito em sentido algum; que somos, na soma dos planos e nos problemas por solver, acanhados, bem acanhados estudantes. Ninguém, pois, despreze o torrão encarnacionista. Gente há por aqui, que em desencarnando, em deixando um corpo no mundo das formas, outro em piores condições ganhou. E ninguém ganhou um de favor, diáfano, isento de obrigações para com leis ambientais. Gradativo como aí, assim é aqui o problema da evolução, do conhecimento, das lutas ascensionais. O espírito é sempre um funcionário, sendo um grau hierárquico ou um plano de trabalho, apenas condições exigidas para o seu bem. Ninguém é mais na carne, por estar encarnado, assim como menos ou mais o não será, quem por aqui adeje. Basta cada qual se compenetre da função, tomando medidas para não falhar em virtude da possível ou indiscutível pressão ambiental. De resto, a não ser nos excelsos planos, que os não conheço, infelizmente, por toda parte impera o princípio de causa e efeito. E quem fala nessa augusta regra, fala em tudo que diga respeito aos direitos, mas direitos relativos aos deveres executados. E quem tem deveres, por certo que os tem de maneira, circunstancial, isto é, segundo limites e possibilidades relativas. Eu só conheço, portanto, funcionários, quer nos planos inferiores, quer naquele que posso relativamente chamar superiores. Nada poderia adiantar sobre os extremos hierárquicos. E nem conheço quem o pudesse fazer.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.