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Capítulo 14 de 28
A Caminho Do Céu
Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro
De retorno à região-morada, sem ter migrado para lugar melhor, sentia-me no céu. E lembrava o Verbo Divino, quando disse – “EIS QUE TENDES O REINO DO CÉU, DENTRO DE VÓS MESMOS”. Então, pensava eu, porque é que há, quem no mundo pretenda vender o céu aos outros? Se é interior, como de fato o sinto e vivo, tudo deve mesmo resumir-se em educação. Então, porque é que em lugar de educação impingem sacramentismos apenasmente simbólicos? E porque dogmatizam? Que sabem do imenso mecanismo da VERDADE? E enquanto assim pensava, recolhido ao silêncio de mim mesmo, no meu quarto de homem morto, eis que sublime vibração me atinge em cheio, fazendo com que me concentrasse no Senhor, por supor ser essa coisa, premissa de outros e mais faustuosos acontecimentos. E tive êxito. – Paz seja em ti, meu querido filho!... – foi a saudação recebida. E fazendo por alçar-me, quis também falar. Tudo em vão, porém. Via e ouvia; no entanto, nem podia falar e nem mover-me. Força coercitiva tolhia-me por completo. – Farei por ti, filho querido, tudo o que me seja pelo Senhor facultado. Hei de resgatar a culpa de ter-te feito errar tanto... Sou tua mãe... E desapareceu de diante de mim, assim como se desfaz a nuvem de vapor. Volvi ao natural, cheio de imensa alegria, mais endividado ante os Poderes Superiores. Todavia, dei-me a meditar nos seus dizeres. É que tudo fizera porque me tornasse padre. E sabia o porquê, bem de ordem imediatista: “Nada como vida de padre!”. E adormeci. Ao acordar, o sol brilhava naquela região; e me sentia como que desfazer num frenesi de puro amor pelas coisas e pelos semelhantes. Experimentava um céu diferente, em mim e em tudo o mais. Não tive vontade de refazimento alimentar, parecendo-me ser isso excessiva animalidade. E estudava em mim mesmo a diferença, contrapondo a tudo a possibilidade de ser o estado novo de estar, apenas produto de algum recalque psíquico, e muito superior, é claro, em virtude de ter-me deixado influenciar pelas coisas espiritualmente notáveis que se passaram durante a sessão. Ao topar com Agildo, que em companhia de Ambrósio entrava com uns papéis nas mãos, convidou-me ele, depois de por indisfarçável olhar em mim, tão penetrante o quão amigo: – Venha conosco, Adão. Sentamo-nos na sala; e começou ele por dizer, dando à voz flexões simpáticas: – O seu padrão vibratório é outro, depois do acontecido ontem. Tem, portanto, direito a habitar região superior ou condizente. Aliás, isso é o que sucede com muitas pessoas, nesta e em todas as regiões. Fica, pois, avisado. Em querendo mudar-se, esteja certo de que será satisfeito. Nós temos cumprido nossos deveres de amigos, irmãos e servos do Programa Divino. Estamos pagos e muito bem pagos, porque de si obtivemos assentimentos inteligentes, e do Supremo Poder a oportunidade de servir. Grato é poder servir, aos que querem ser servidos.
Deixei-me conduzir pela pressa de elevados sentires. E lágrimas me rolavam pelas faces, felizes e ardentes em desejos nobres, assim como ardia em todo o meu ser, a chama do amor puro. Foi com embargos de voz que falei: – Tenho aprendido que agradecer, não se deve fazer por exteriorizações. Por isso retenho em mim, a custo, a onda de gratidão que gostaria de expandir, por meio de gestos e palavras. Na pauta, portanto, está a diretriz indicada e admitida, com todo o prazer de alma de que queira capaz. Fico, para servir e ser digno da gratidão à qual me sinto penhorado. Agradeço ao Supremo a oportunidade de ficar. – Já fez sua refeição matinal?... – indagou Agildo, enveredando a outro rumo. – Não sinto vontade. Hoje a não farei, pois coisas diferentes bailam pela minha mente. Pondo-se de pé os dois, convidou-me Ambrósio: – Vim pedir a Agildo auxílio para um trabalho. Quer vir conosco? – Qualquer ocupação me seria uma benção, principalmente arribar com almas ainda empecidas em suas possibilidades gloriosas. Despertar o sol do amor nos irmãos deve ser o trabalho mais santo por realizar. – Não olvide, por acaso, que para educar é preciso ambiente, ocupações, possibilidades várias; e que para isso conta a Lei Suprema com mundos e meios, trabalhos e condições, tempos e mil matizes de aplicação. Repare que ninguém se faz em mil anos e nem em dez mil, e nem tampouco em dez vezes isso. O que somos, hierarquicamente, sem dúvida devemo-lo aos milhões de anos. Singrar pelos reinos e espécies, pelos matizes hierárquicos e pelas condições, demanda tempo e aplicações incontáveis. Orientar, portanto, como o estamos fazendo, que é como fizeram outros conosco, não é muita coisa. É colher semeaduras milenares, é achar seara pronta, é dar modalidade ao ato de ceifar, apenas. – Veja como o Ambrósio está afiado, Adão!... – comentou Agildo, airoso. – Devo-o aos bons amigos e bons livros que temos em nossas bibliotecas. Metendo mãos nos papéis que havia deixado sobre a mesa, e os estendendo a mim, disse Ambrósio: – Vamos buscar essa irmã? Está colada a uma outra, prejudicando-a para além do justo... – Bem sabe que quero ir, amigo – falei-lhe, ansioso por atividade. E partimos, mas de um modo onde o ato de partir, a premissa do ato, parece não ter tido tempo de ser e intervir. Em nada, estávamos na terra, em subúrbio de grande cidade, dentro de casa rica. Ali, um irmão familiar dissera a Ambrósio, que o inquirira: – Malvina está para a igreja; foi à missa. – Vamos para lá – disse Ambrósio. E dentro da nave imensa, fomos ver uma mulher orando, que tinha ao lado outra a lhe imitar os gestos. Mas estoutra lhe estava ao colo, dependurada, apresentando sintomas de quem sofria de paralisia.
– É essa que aí está. – disse Ambrósio – Vamos esperar que cheguem ao domicílio, pois com a retirada de uma a outra poderá ressentir-se. Existem pessoas que se acomodam com quem as usurpa. Neste caso, como de há anos que impera a troca de fluídos, é preciso um pouco de cuidado. Separar violentamente é causar lesão. Enquanto isso, perambulamos pelo recinto, pondo reparo em mil e uma coisas, a contar do padre oficiante, que devia ser um grande sincero. Em lhe notando o que de alma punha no ofício, tive de dizer aos amigos: – Pelo menos é sincero, bem merecia agir em campo mais lúcido e benfazejo! – Aí está um caso a estudar e atender. Até onde um ideal pode fazer o homem, e até onde o homem pode emprestar foros a um ideal? A não ser o fato de o ideal truncar nele e nos seus seguidores o poder evolutivo, que se poderia criminar? É preciso compreender que uma ação, pelo ser nobre até certo ponto, nem por isso deve ser ingênua ou simplória. O mal está nisso, pelo menos neste caso, pois não favorece meios de progresso, não deixa campo para o avançamento necessário, nos domínios do mecanismo da vida e do universo. É fé; mas cega e retrógrada! – Como se haverá esse padre com a desencarnação? – perguntei. – Tudo indica que virá a ser um bom; mas pobre de conhecimentos que o tornariam um forte. – julgou Égas – Como sabe, a paz vem do AMOR e a autoridade vem do CONHECIMENTO. Ele será um pacífico, o que já é alguma coisa. – Sorte teve ele em não ter querido ser trunfo... Foi nisso que mais me danei... Estimando os postos altos, saltei por sobre direitos e vilipendiei à bessa, sem cogitar de que mais tarde toparia com outra ordem de Justiça... Reparamos, também, que o número de mortos era ali maior que o de vivos; e todos seguiam a mesma rotina. O ato de ali estar é que era fazer religião! De cada mente evolava um modo tosco de respeito a Deus e aos santos, porque tudo à idólatra, supersticiosamente, misteriosamente, temerosamente. Compreensão da vida e suas aplicações, na igreja diuturna da convivência humana, isso não se sentia naquela gente. A fé contemplativa é um nefando vício, sem dúvida, porque entorpece no ser o desabrochar de suas naturais qualidades de servidor da causa universal, na pessoa dos semelhantes, da igreja de fato. Quando o ofício terminou, três mulheres saíram juntas; uma, porém, era a que ia no colo da outra. Tinha uma perna rijamente esticada. E o quadro era triste, embora fosse também humorístico. Calculem, uma mulher a conversar com uma sua amiga, tendo ao colo, agarrada, uma outra, cuja perna direita fazia contrapeso, por estar esticada. E o interessante é que, de fato, a viva, assim diremos, ressentia-se daquela situação, pois apresentava inclinação muito visível. À medida do que se lê no Evangelho, o afastamento daquele espírito deveria endireitar a viva que sofria, menos já a tivesse tornado um caso patológico. As mulheres tomaram um ônibus; e sempre a morta a ser do mesmo modo. Pusemos atenção na conversa das duas vivas, notando que terçavam língua contra alguém de seu conhecimento, de modo eficientemente anti-evangélico. Ao passar o veículo em frente a certo templo, fizeram refolgo, para o devido sinal
da cruz e certa concentração mental. Depois, prosseguiram com o triste murmurar, maldizer. Égas, lançando-me olhar significativo, comentou: – Que é religião? Nada respondi, por ser tudo demasiado evidente. Religião só poderá ser, saber cada vez mais e cada vez mais amar. Quem de fato sabe e ama, faz coisas assim? Ao chegar ao domicílio, separaram-se as amigas. E nós seguimos a que nos interessava. Lá dentro, assim deu a viva entrada no seu dormitório, contrariando os nossos pensares, a morta largou-a e se atirou ao leito, numa atitude tresloucada e com gestos de espantar. Que trejeitos fez para tanto, com aquela perna esticada! Resmungou, gemeu, depois aquietou-se. Não sei porque, mas a viva olhou para o leito e murmurou, lamuriosa: – ... Quem me dera poder deitar um pouco!... – Há entre elas laço fluídico imperioso. – explicou Égas – Uma vive da outra e para a outra, mesmo estando longe. A morta foi-lhe prima muito afim; e como em pensamento davam-se muito, aí está o resultado. Se a morta tivesse tido outras instruções e melhores obras, muito bem. Mas, uma e outra viviam de comentar a vida alheia, desapiedadamente, procurando o que ferir. A maldizência é um vício e bem prejudicial. Como a morta não nos visse, convidou Ambrósio: – Façamo-nos visíveis? Nossos pensares foram que sim; e ela chocou-se muito, mas alegrou-se depois, em virtude de Égas ter-se tornado luminoso, propositalmente. – Vieram curar-me?!... Vieram curar-me?!... – principiou a dizer, sofregamente, procurando sentar-se no leito, o que não conseguia. – Vamos levá-la para lugar melhor... Faz tempo que você desencarnou e vive a molestar sua prima. Não vê que só lhe responde quando deita e depois de deixar o corpo? Não percebe em si nada de diferente? Porque não procura entender? Ela ficou a cismar por um bom tempo. Depois indagou: – Qualquer coisa há de diferente... Mas, se já deixei a carne, como é que tenho corpo e paralisia?... Que adianta morrer, então? – Ninguém se desfaz totalmente do corpo, porque há sempre uma razão para isso. O que se passa, é o deixar um mais denso em troca de outro menos denso. Haverá, porém, sempre um corpo, seja para gozar ou sofrer o quer seja. Não se turbe com isso, pois Jesus ressurgiu dos mortos, em espírito, e se apresentou com um corpo. Nem que seja de luz, mas todos temos corpos... Eis a verdade. – E posso sarar?... – Deve. Precisa sarar, porque precisa trabalhar. Um espírito não pode ficar para sempre assim, mormente quando, ao lado dos defeitos, apresenta características recomendáveis. Nós precisamos de trabalhadores. Há muita gente nas mesmas condições, e muita em piores, cujo tempo de purgação finda, reclamando atenções justas, como no seu caso, por exemplo.
– Os senhores são santos?!... – disse ela admirada, depois de nos estudar como melhor terá podido. – Somos homens desencarnados, compenetrados de que religião é o fazer bem, por ser essa a disposição da Suprema Lei. Santo, genericamente, tudo o é. Compreenda isso, pois deve mudar de muito o seu modo de pensar, se quiser progredir nas coisas do Senhor, que são as coisas boas da vida. – Seja feita a Vontade de Deus!... – concordou ela. – A vontade de Deus, irmã Fabiana, é que identifiquemos a nossa com a Dele, da melhor forma, do modo o mais prático possível. Deus nos quer puros e sábios; e isso independe de sectarismos quaisquer. Pelo contrário, pois os sectarismos são entraves a uma vida de compreensão e amor. Por essa razão, isso sim, os povos e raças têm sido divididos, mantidos em diferenças e ódios recíprocos. – Mas não existe uma Vontade de Deus que tenha de nos ser manifesta um dia, de modo intelectual? – tornou ela, vivamente interessada. – Existe a que está dentro de nós, por ser desenvolvida e posta a funcionar. Quando uma ação nobre nos torna felizes, estamos sabendo que o bem a todos aproveita, e que devemos cultivá-lo ao máximo possível. E quando admiramos um grande saber, estamos com isso afirmando que é bom adquiri-lo. Eis, portanto, que temos em nós a natureza divina, o direito de personalidade, a liberdade de a organizar e a vastidão do ambiente para exercitar a gosto. Bem chocada, disse a mulher: – Não terei que comparecer ante um tribunal julgador?... – A Lei Básica é o Código e sua consciência é o tribunal. De resto, fazendo para mais de quinze anos que deixou a carne mais densa, muito tempo teria tido uma outra qualquer forma de justiça, para preparar-lhe colóquio e julgamento. – Tenho minhas vantagens... Fui da irmandade e nunca deixei de comparecer, salvo caso de força maior... – procurou defender-se ela, erguendo o tom da voz. – Eu não disse que teria de abandonar a muitas idéias formadas, se quisesse alcançar bens perante a VERDADE? – advertiu-a Égas. – Mas por que não posso ter minhas idéias? – replicou ela. E Égas, manso, explicou: – Poder pode, o quanto quiser; mas ter o direito de ter idéias não significa estar com a melhor ou mesmo com a idéia que no momento seja a necessária. O que é importante é o direito de ter idéias, porque é fundamental. Quanto às idéias, convenha com isto, podem não servir sequer para o monturo. E no seu caso, se o que deseja é contrapor à Soberania Divina a soberania dos seus argumentos sectários, digo desde já que pode isso fazer. Apenas, nos iremos, deixando-a entregue à vida que tem levado até hoje, desde a sua desencarnação. – Creio que deveria ser ouvida por um tribunal!... – gemeu ela. – Isso não acontecerá. Cada sectário do mundo teria o que advogar em seu próprio proveito, denegando para os outros direitos de justiça. Como, porém, toda a humanidade é que constitui a irmandade, quem por ela não evidenciar eficiência, não deve arrogar-se direitos que tais. Deus, que é tudo em todos,
prescinde dos ímpetos sectários e exclusivistas em geral. Ser em Justiça e Amor universais, eis a regra do verdadeiro espiritualista. Porque, para o universo manifesto ser o que é, não pediu Deus, a Essência Básica, conselho a quem quer. Há pois, uma Justiça sem mácula que, por ser assim, prescinde dos estreitismos religiosistas do mundo. Convém ao espírito sondar, em si mesmo, o fato de ter sido mais ou menos amorável e sábio no mundo. Mas uma sabedoria e uma capacidade de amor, o mais universal possível. Fora disso, é claro, estaria havendo é divisionismo, por sectarismos quaisquer; e quem divide o que por Deus é lei geral, por certo que se macula e compromete. Foi esse o seu caso. Isto é, um dos casos. Porque outros mais existem, de ordens outras, que não nos cumpre comentar, porque são do conhecimento de sua consciência. Égas fez silêncio, aguardando resposta, creio eu. Mas a mulher nada disse, perdendo-se numa contagiante ensimesmação. Depois de muito esperar, convidou ele: – Vamo-nos, Fabiana, que Deus lhe deve merecer um pouco de respeito, mesmo sendo como o é, e não pelo talhe que Lhe gostaria de imprimir. Ela estendeu o braço, sorrindo por fim. E nós três seguimos o pensar de Égas, atravessando barreiras, até atingir lugar regularmente feliz. Nos portais de mansão grandiosa, muitas mulheres felizes a aguardavam. A uma delas dirigiuse, já curada, chamando mãe. Seus olhos pareciam só existir para chorar de alegria, de agradecimentos e dedicações.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.