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Capítulo 25 de 28

Há Que Ser Decente

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

Que fábricas de seres felizes seriam as religiões, caso os formalismos, a começar dos mentais e terminar nos materiais, representassem valores científico-morais em face da ORDEM DIVINA, ou daquilo que sempre se chamou a Lei de Deus, que é a FORÇA EQUILIBRADORA, aquela que faz ter segundo como se lhe aproxime o ser, em tom de sabedoria e moralidade. O mal está em que os credos do mundo, erguidos à luz dos formalismos humanos, enrodilham de modo tal o crente, com lantejoulas que ao espírito, em verdade, não beneficia, porque apenas capazes de encher a vista e convencer a parvos, ou, convencer a parvos e encher os bolsos de seus donos. Todos os minutos a terra oferece a triste prova à realidade. Uma cadeia ininterrupta, uma caravana marcha, não digo solene e sim inexoravelmente, rumo a desfecho que vale pela prova real de todas as operações. Dir-se-á que as religiões ensinam bem, nunca enveredam ao mal, pois não aconselham a tal. Eu digo o inverso e com um pouco provo a mais triste assertiva contra os credos do mundo, levantando contra eles libelo invencível. Os credos que apenas credos são, os a quem abominam aqueles benéficos expandires que só a ciência e a filosofia podem conferir e forçar, todos são dogmáticos, estreitos, aniquiladores do poder pensante e progressivo das almas. Atingem o cúmulo do disparatismo, pois sendo em si mesmos petrificados, para gáudio ou folgança de seus donos, pretendem que o próprio Deus, o próprio soberano mecanismo das leis, sejam como teimam eles e não como de fato o são. E quem envereda a mente, de fato contra a ordem normal das coisas, decerto que não age decentemente, embora faça fulgurar ao redor da farsa repelente, o nome luzido de Deus! A mentira é tanto mais vil o quanto mais procure ornar-se com os florões a que só a VERDADE faz jus. No dia em que nos mandaram a recolher vulto de escol, espírito que passara pelo mundo engalanado com as fronhas de tantos somados bens terrenos, sociais e culturais, tivemos uma grande decepção. Ilustre em face do mundo, do mundo que não vê para além das fronteiras materiais e convencionais, pecava o homem em face de si mesmo, como fragilíssimo em virtudes de fato, em conhecimentos e em realizações que pudessem servir ao espírito imortal. Que enterramento! Que de fastoso, pomposo retumbar de louvores mundanos, em coros quase pagos, em extremos de religiosidade convencional, em exponença de gastos de toda ordem! Tudo o de grande, o de soberbo, o de custoso, inclusive muitos respeitos ao morto de qualidade, à especialidade do defunto! O mundo via muitas coisas bonitas, grandes e impressionáveis coisas, não há dúvida; mas não via o principal, não via o ser que, vencia a ordem cíclica, o tempo de duração de estágio na sala vasta de aprendizados que é a encarnação, via-se cuspido, projetado a uma situação melindrosa, sem contar no seu farnel de reservas, com que afrontar a voragem quase horripilante das leis de causa e efeito. – Que diriam os que aí envolvem o morto com suas honrarias, caso vissem de chofre, e de pronto pudessem compreender a extensão do logro em que se acham? – Eles – respondeu Égas a Ambrósio – estão também na expectativa de logro, por trilharem a mesma senda intelectual enganosa, por fazerem uso do religiosismo convencional do mundo à guisa de Religião Pura, como

chamaríamos ao contínuo viver decente, assim como possível seja ao talante de cada um, por hierarquia e segundo as leis do plano onde se encontram. No logro de quem está é o nosso homem, a quem devemos socorro “série um”, que bem sabeis o que representa. Vamos, pois, conduzi-lo ao local de provas intelectomorais, que isso lhe cabe por turno, de conformidade com a Suprema Justiça, pelo que aparentou e não viveu de fato, entre seus irmãos de jornada. Demais, assim como disse Jesus Cristo, que falava do que sabia que era certo e não davam crédito, assim continuará ainda, por muitos séculos, na face sombria da Terra. Há quem preze mais ao rótulo do que à essência; e nós somos testemunhas conscientes de que em nossos planos de vida, todos os matizes estatais podem ser encontrados, para que cada um tenha segundo como procurou com tanto afinco na vida. Que mais deveria fazer Deus, o PRIMEIRO ESTADO, que em si tudo encerra ao infinito? Dá-nos natureza, em ser e qualidades divinais ao infinito por despertar; dá-nos ambiente próprio; dá-nos irmãos respeitosos até mesmo em face dos erros; confere-nos o direito de ida e volta; dá-nos instrutores sábios e benevolentes, de acordo com as eras evolutivas, de conformidade com as nossas possibilidades de assimilação. E se com tudo isso ao dispor, como o teve e de sobra o nosso homem do momento, não quisermos enfrentar seriamente o problema da responsabilidade pessoal em face da morte, que mais restaria acrescentar, sem ser o direito de quinhão próprio? Esse homem enviou para cá material que só deu para merecer isso; verdadeiramente, em sentido figurado, cada vivo aí da carne está para cá mandando material para a construção da casa em que virá morar, quando para aqui a morte o recambiar. E quem mandar pouco ou nada, como se haverá? Pois em condições piores encontrar-se-á, sem dúvida, aquele que melhor tenha explorado os bens do mundo, sem pensar em lhes honrar os méritos, como medida de oportunidade. O mundo pode honrar a falácia, o exteriorismo, o vanglorismo em geral; mas quem enganaria aquela JUSTIÇA que julga e comina de dentro para fora, pondo a funcionar a essa à qual servimos, que é a Justiça Organizada em base intelectual? – Que pena em nada poder fazer!... – gemeu um alguém que se achava junto de nós, ser de condição sofrível e que parecia pertencer à família do defunto. – Assim somos nós. – prosseguiu Égas – Queremos melhorar os outros, esquecidos de que o todo é apenas a união das partes, e que sem a cooperação de cada célula, de fato no bem exemplificado, nada valem cantilenas e nem gemidos, suspiros e tiradas de efeito, atitudes e gastos com simulações religiosistas. A boa religião seria a decência contínua no fervilhar da vida de relações. Depois de o homem viver isso, que deixasse o tudo mais por conta de Deus. – Isso, moralmente... – observou Ambrósio. – Quem moralmente se portasse bem, para que fim sustentaria prevenções contra postulados que significam avançamento? Quem duvida de seus méritos de fato é que se faz inimigo sistemático do aprendizado necessário. O homem está tão viciado no afã auto-enganoso, na necessidade de truncar a evasão espontânea das aspirações nobres, que se aferra a tudo quanto representa formalismo comodístico. Nega uma verdade, afirma uma mentira, automaticamente, mecanicamente, por vício de atitude, por duplicidade criminosa, por comodismo social. O plano dirigente envia-lhe missionários de

toda ordem, em arte, em ciência, em filosofia, em todos os ramos de manifestação de leis, de fenômenos, fazendo-lhe ver a necessidade de avanços rumo à perfeição preposta e necessária; mas o homem, arrastando sua malfadada falsa educação espiritual, corrompido em sua organização mental, encravado na estreiteza das convenções, dos rótulos convencionais, tanto serve a tais nefandos dogmas, que com eles chafurda em agonias. O nosso homem de hoje foi um figurão, nas bancas da sociedade. Viveu cercado de honras mundanas, inclusive a babuja do credo a que se deu por feliz em pertencer. Só não foi decente para consigo, para com o próximo e para com Deus. Lamberamno hipócritas, temeram-no os humildes, adularam-no os iguais, prometeram-lhe salvações e absolvições os mercadores dos templos, os quitandeiros da falsa fé, os inimigos da VERDADE e do progresso... E eis aí a sobra de tantas vantagens somadas... E enquanto o esquife deslizava, de mão em mão, para que gente séria e gente fingida de séria pudesse partilhar da honra de transportar um pouco ao defunto de tão montante luxo social, eis que Égas dera ordem no sentido de que trabalhadores prepostos conduzissem o homem pseudo civilizado ao lugar indicado na ordem de serviço. Há quem julgue que só na crosta possa ter alguém oportunidade de ser um pedinte de pão, de roupas, de calçado, de justiça, de amor... Porém, em verdade, não só a face da Terra se expande em duplicatas, em campos de vida organizada, dos piores aos indizivelmente melhores, para efeito de situações de toda ordem. Longa romagem teria que tecer aquele homem, que no mundo fora um ornamento da sociedade contemporânea, pelos feios países de certa zona astral, antes de ser recolhido para receber instruções e prosseguir caminhada. O Luzeiro do Mundo não lembrou ao homem a necessidade de ser, antes de tudo, simples e humilde? Amemo-nos uns aos outros, que o resto ficará por conta de sacratíssimo tribunal. Quem ama de fato, quem faz tudo por tornar-se útil, por certo que não se deixa apanhar pela chama vergonhosa das prevenções contra os lanços progressivos, em doutrinação espiritual. O verdadeiro homem de bem não vive enclausurado em círculo vicioso, porque o não constrói. É amplo como amplas são as perspectivas do programa evolucionista. Entre os dois direitos que envolvem, o fundamental e o convencional, o homem de bem dará mais atenção ao fundamental. Nenhum homem que venha de honrar, praticamente, aos direitos fundamentais do seu semelhante, poderá jamais deixar de sentir-se em gozo de consciência, por isso ter feito. E se a sociedade moderna é fábrica de duendes das trevas, isso é por via de se afastar ela, pelas leis vigorantes, dos sagrados postulados da necessidade e dos direitos fundamentais. O choque entre os dois direitos é tremendo, dada a época de vida planetária, dados os elementos informativos à humanidade enviados, pelo Senhor, através de instrutores cujos méritos são por demais apreciáveis, quer por aqueles informes que se vasam diariamente do Consolador prometido. Principalmente por este, pois enquanto aqueles instrutores informam pela ordem de seqüência, em campo material, dizendo respeito ao homem físico, por lhe aumentar o bem estar através o aproveitamento das reservas naturais do Planeta, estes outros informes, os do Consolador, vão atingir em cheio, em sua vasante, ao homem que não viverá sempre atado ao plano dimensório das leis mais grosseiras, menos dinamizadas. Fala, pois, o Consolador, ao homem mais interessante. E quando fala? Como fala? Para que fala? Por que fala?

Já disseram outros, sobre tais porquês cíclico-históricos; já mencionaram os dias de REVELAÇÕES SUCESSIVAS, isto é, as épocas informativas, de conformidade com o desenvolvimento mental do homem e das civilizações. Se é certo que passamos aos irmãos da crosta informe sobre o que poderão encontrar um palmo depois da morte, certo é que doutrinas existem, tão arcaicas, tão vetustas, cuja deterioração só não compreende o homem, seu adepto, por injunção do fanatismo que lhe acanha o alcance da razão. Tão obsoletas revelam-se certas regras religiosistas que ainda sobrevivem, que forçoso é duvidar do senso de equilíbrio de quem as observa. Psicologicamente, é notável presenciar como certas seitas atingem tanto aos recônditos do subconsciente, a ponto de eliminaram os melhores lanços da razão consciente, do raciocínio puro. O corpo vive ou se curva às necessidades do mecanismo político-econômicosocial contemporâneo, enquanto o espírito, por falsa mística, ou por ceder à sua embaladura doentia, vive milhares de anos atrasado. Precisa de segredos, de mistérios, de milagres, de termos, de idiomas, de mil farândulas idólatras, de toda sorte de simulacros! Precisa de hierarquia, de pretensos graus, de pomposos títulos que nobilitam em face dos boquiabertos, dos cérebros ensandecidos, mas que à luz do Supremo Juízo, derretem-se como o gelo ante os dardejos do sol. Como são ridículas as atitudes da grande maioria humana! Como é triste notar que não reconhece na simplicidade, na bondade espontânea, o móvel cem por cento da realeza espiritual! Falho que é o homem em espontaneidade, tudo o mais que fizer, à base de atitude, pode muito bem identificá-lo como atrasado e hipócrita, tacanho e fingido. Há no fundamento de todo homem, uma lei que convida ao aprendizado de si mesmo. O que é o homem em face da ORIGEM e da FINALIDADE, do cultivo dessa lei é que aprenderá. Ela o compele à universalidade, em compreensão, em moralização, em aplicação de si mesmo. Cair em misoneísmo degradante, atolar no lamaçal do angustismo sectário, explorar a fé ou pretensa fé de quem quer, tudo isso é lidar contra a lei que obriga ao conhecimento, até onde ela mesma o permita, flexível que é, dado o relativo livre arbítrio. Mas, que sucederá, um pouco além da fronteira vencida, quando o ciclo de forçamento se tenha esgotado? Que acontecerá ao homem em si vencido, por tentar luta vitoriosa contra a lei de progresso contínuo? Convulsão pessoal para o homem, convulsão coletiva para as civilizações. Desordem espiritual, moral, mental, intelectual, material; desordem política, social e econômica – guerras! O homem de qualquer civilização deve aos cleros organizados, noventa ou mais por cento de suas dores e atrofias progressivas. Quem dogmatiza e disso faz comércio ou meio de vida, nunca será amigo de seu semelhante, porque o bem está no progresso contínuo, no encontro do homem com o ESTADO BÁSICO, por identidade vibratória. Ora, sendo a regra clerical o ignorantismo por excelência, o conservadorismo idólatra, do mais espiritual ao mais material, que fará ela junto do espírito humano, sem ser talhá-lo para a treva e o retardamento? Não foi por nada que Jesus Cristo abandonou o templo, fazendo tudo quanto tinha que fazer nas ruas, nas praças e nos desertos, vindo ainda a ser pelos donos do templo preso, julgado e justiçado de modo infamante! As ordens clericais vivem em perene estado de beligerância contra a ORDEM DIVINA! Eis a dura verdade.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.