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Capítulo 11 de 28
O Reverso Da Medalha
Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro
No curso do ágape ficou combinado que iríamos, à noite, assistir ao primeiro contato com o Consolador em exercício no mundo. Com o Espiritismo. – Jesus Cristo – perorou Égas – foi o mais conciso pregador que jamais o mundo dos homens presenciou. Para despertar as virtudes intelecto-morais, recomendou serviços práticos, vida intensiva no bem individual e coletivo. E para a ilustração nos campos do transcedentalismo, prometeu um consolador informante. Desse conúbio, quem fugir, por certo que estará fugindo de todos os mais fatores apreciativos. Esse dueto é o axioma sine qua non, sendo o mais tudo, pura questão de corolários. Sem alicerce, como edificar com segurança? Ao término do petisco, pois, Ambrósio despediu-se, prometendo voltar pelas sete da noite, em companhia de outros amigos e servidores do bem. Uma vez a sós, Égas disse, desse amigo, qualquer coisa, informando ser ele um redimido do drama hediondo do Calvário, onde teve parte saliente; disse que, em virtude de suas amizades e das suas condições de homem de dinheiro, muito pode fazer para a condenação do Divino Mestre, chegando a pagar gente, a fim de dizer o que era falso. – Ainda bem que não há condenação eterna! – tive que dizer, movido por alguma razão íntima, sentido em mim revolta contra qualquer coisa que me ia pelo subconsciente. – Então – interveio Sofia – quem estaria por aqui e nos planos mais celestializados? Tendo que vir subindo o espírito, pelas camadas da chamada Criação, da inconsciência para a consciência, como estaria o erro? E se Deus, que nos tornou centelhas Suas individualizadas, e com o direito de autopersonalização, por isso nos condenasse, onde estaria a Sua própria sensatez? Todo e qualquer crime é remissível, sendo porém certo, que a cominação dá-se pelo montante em conhecimento de causa. Nós, pois, somos em nós mesmos o tribunal todo – acusadores, defensores, juízes, jurados, vítimas, algozes, etc. O Código é a VERDADE, é Deus em si. – Isto é tremendamente belo! – considerei, por confrontar dentro de mim a distância que medeava entre a verdade que era e os argumentos simplórios e extorsivos, com que a Igreja pensava expor e defender o princípio de Justiça Divina. – Pois ensinemos isso aos nossos irmãos, quer aos da carne, quer aos daquém carne; isto é a todos, achem-se metidos em corpos quaisquer, mais ou menos densos, contanto que vivam ainda nos vales da treva – convidou Agildo, levantando-se em seguida, para atender a um casal que chegava. Uma vez introduzido o jovem casal, disse-me Agildo, apresentando-o: – São amigos recém-vindos da terra; viajavam de avião para a lua-de-mel, quando a libertação os colheu de fato... Como fomos os indicados para o socorro imediato, eles vêm nos visitar, em sinal de gratidão. – E porque passamos a nutrir pela família Agildo uma amizade muito grande – explicou a jovem, evanescente de alegria, envolvendo-se por entre os braços de Sofia, que a recebia como se fora a uma filha. – E queremos nos levem ao grupo espírita onde fomos doutrinados! – pediu o rapaz – Sentimo-nos na obrigação de dizer qualquer coisa, um não sei o quê.
– É interessante!... – disse eu, entrando na familiar conversação. – São leis. – elucidou Égas – Eles fazem orações pelos espíritos de cujos nomes se lembram, vindo suas vibrações mentais atingir-nos. Às vezes, o que se passa, é que gente da assistência retém nomes, fazendo preces em suas casas. De qualquer modo, porém, há sempre alguma lei em função, para que o fenômeno se dê. E nós iremos ver o que é mesmo. – É na casa da tal senhora Jasmim? – indaguei, lembrando o combinado entre eles e Ambrósio. – Não; mas nós iremos a ambos os lugares... Dependemos do querer e do pensar, apenas, para a locomoção – respondeu-me Égas, inteirando-me do que nem me passava pela mente, pois calculava na distância possível, por vencer. – Este padre onde habita? – disse por sua vez o rapaz, estranhando ou parecendo estranhar, em mim, qualquer coisa. – Este padre está passando por aquilo que vocês também passaram... Ele é um irmão que vem da terra e está fazendo a sua introdução nas coisas aqui do nosso plano. Deve vir a ser um batalhador do Espiritismo, dentro em pouco. Assim é que está de cima determinado. – Eu lhe estranhava as vestes... – concluiu o jovem. – Por que? – indaguei, pondo em mim um pouco de atenção, pela primeira vez depois de haver deixado a carne. – Ora... Eu pensava... Quem sabe... – deu-se a monologar o jovem, parece que sabendo o porquê e temendo expandir-se. – É que vestes simbólicas por aqui não são usadas – interveio Égas, vindo em socorro do jovem. E enquanto minha mente trabalhava por descobrir mais, tornou Égas, vencendo em si um pouco de timidez, para falar-me francamente: – Nos países inferiores do astral, como sabe, também vivem os religiosismos do mundo, com todos os aparatos e formalismos. Aqui, embora ainda não seja um plano superior, espera-se que cada um se compenetre de que a veste importante é a de ordem interna. Precisamos acabar com os exteriorismos que medram soltos pela terra, e pelos astrais inferiores; mas aos poucos, de acordo com o esclarecimento dos seus elementos. Jorge foi educado na nossa escola, sendo natural que estranhe ver alguém nesses trajes, por aqui. O amigo Adão, naturalmente, compreenderá tudo muito bem... – Graças a Deus, já tenho vencido em muito ao meu errado personalismo em vários sentidos. E tenho gosto em lhes dizer, que me sinto feliz com mais esta lição que me chega de modo tão espontâneo. Lembro, também, que Jesus Cristo andou vestido com uma túnica paupérrima, sem costura, nunca tendo dito a Seus discípulos que se ornassem, sem ser com as vestiduras do AMOR e da SABEDORIA. Creio e até posso afirmar, que o valor de muitos padres só decorrerá das vestes que usam, de cuja capacidade de impressão psicológica pouca gente se inteira. Sem isso, diremos, que ficaria de certos padres, assim como de mim mesmo? E já que estou em ambiente familiar, graças a Deus, porque não devo dizer a estes jovens que venho, agora, não da vida de encarnado, mas, dos planos tristes do astral? Por que não confessar de vez que do mundo só trouxe material pesado, lastros de mazelas, toneladas de atraso em todos os sentidos? Como não confessar de público e razo que julguei
honesto comprar e vender a Justiça Divina, separando uns dos outros, a seres que em nada de mim dependiam para estarem enquadrados no direito de Supremo Determinismo? Quem, pois, por cursar uma sabedoria sectária, por usar vestes fingidas, por sustentar vãs presunções, pode tirar ou pôr um ceitil que seja ao que é de exclusividade do Supremo Senhor? – Mas você não poderá trocar de vestes por ora! – sentenciou Agildo, com um tremendo poder de convicção, que me fez estremecer todo. – Por que não?!... – indaguei-lhe, aturdido. – Porque está para si destinado um acontecimento muito importante. Não fale, que mais não quero falar, sobre o caso. E espere confiante no Senhor, pois que jamais esquecerá o que consigo se irá passar, quando soar a hora... E fiz silêncio, conforme o pedido. Estas coisas me inundavam a alma de felizes anseios. E por só vir de merecer isso pelas disposições d’alma dos últimos tempos, considerava o fator livre arbítrio, no orçamento do Supremo Determinismo. Então, por só desejar o bem sinceramente, a ponto de empregar esforços mentais no sentido de futuras ações redentoras, só por isso, já me via alçado às alturas de tais recompensas? Como, pois, não receberão, não se plantarão às alcandoradas posições, aqueles que viverem em estado de perene evangelidade? Que diremos dos que educam, dos que cuidam dos órfãos, dos desvalidos, dos doentes, etc.?
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.