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Capítulo 6 de 28
Agildo, Gama E Sofia
Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro
Agildo era o chefe de família. Gama, um seu filho na última encarnação. E Sofia, uma excelente dona de casa. Esse triunvirato enchia minh’alma de doces satisfações familiares. Havia, também, uma jovem que vinha de quando em quando visitar os seus pais e irmãos; era Ema, um espírito bem mais crescido em valores despertos. Esta, porque não sei, se me afigurou alguém de quem tinha eu vaga recordação. Assim a vi pela vez primeira, fiz por isso dizer-lhe. E o belo ser teceu sua explicação: – De fato, o senhor me conhece; ministrou-me a extrema unção quando deixei a carne. Não se lembra?... Fiz todo o esforço possível e nada consegui relembrar. – Não me lembro... Nem mesmo de seus pais... Creio que os anos passados nos lugares feios me embotaram a memória... – Não se turbe em coisa alguma. – convidou ela – Faremos que um passado e laços profundos revolvam um véu que nos obscurece uns aos outros. Nós temos umas questões por resolver... E o bom Deus, que é sempre presente nos conferirá os elementos necessários. Demos apenas tempo ao tempo. Há que atender para essa lógica irremovível. Suas palavras me tornavam excelentemente confiante. Sua influência superior me alentava. Lá nos confins de mim mesmo, porém, alguém parecia perguntar: “Quem lhe ministrou a extrema unção fui eu... Como é que está assim, e eu venho das brumas, de um mundo onde só havia muito vento e gente nada escrupulosa?” Achei bom, porém, não discutir alto. Por vaidade ou o quer fosse, preferi silenciar. Aquela jovem lúcida, depois de sorrir inteligentemente, perorou: – Não tenha receio de pensar como bem quiser, tão alto quanto puder. Cada um de nós, aqui, ou já fez o mesmo ou poderá vir a fazer. Somos, pois, bem irmãos em tudo. E sobre ter pretendido libertar a mim ou a muita gente à custa das atitudes que tomou em certas ocasiões, presumindo perdoar pecados ou salvar, disso também não faça conta... Afinal, senhor Adão, não fez isso por primeiro e nem por último. Muita gente faz isso ainda e julga-se certa, quer na terra, quer nestas plagas da morte. Antes que melhor verdade ordene as mentes para melhor destino, quanto disso ainda haverá? Deixe-se, portanto, arrastar pelo aluvião da vida, pois está garantido contra perigos bem menores, estando a ombrear-se por estes sítios. O pior já se foi... Basta queira ser sincero para que melhores tons psíquicos em si mesmo se manifestem. Escancare sua alma... Não faça caso do seu orgulho... A simplicidade é força poderosa... E tal era o poder de influenciação dela imanente, que lhe disse tudo o que pela alma dorida me rondava, como se fora vírus perigoso. Fiz-lhe saber do que em mim se passava, com relação aos direitos que julgava ter, pelos ofícios no mundo esposados. E quando, por imprevidência lhe quis contar um pouco daquele país feio onde tantos anos arrastei-me, disse-me ela, ponderadamente: – O que fazemos devemos fazer de fato. Acenar com promessas não convém, principalmente quando essas promessas, sobre pretensas prerrogativas espirituais, nos forram de imediato o bolso e o estômago, sem falar
a outros respeitos. Cobrar caro por prometer apenas é dura chantagem. No entanto, senhor Adão, prometeu e cobrou no momento, enquanto os crentes em suas afirmações, com nada saíam de sua presença. Que direito tinha de fazer isso? Não alegue a tradição e nem a sua própria crença, porque a Justiça Divina nada tem com isso. Nós somos emanação divina e trilhamos a senda do progresso; ninguém, por alegar a tradição ou o quer seja, aliena-se ao dever de melhorar sempre, de forçar sempre no sentido do mais puro e do mais verdadeiro. Cleros, estatutos e rotinas, senhor Adão, são coisas do homem. – Nunca julgaria ser a coisa desse modo.. – confessei-lhe, compungido, por relembrar tristes ações. – No entanto – emendou ela – basta queira ser igual aos outros para que venha a sentir-se cada vez melhor... Não é preferível ser verdadeiro a ser afilhado de estatutos humanos? Não é melhor ficar bem na ordem das leis de causa e efeito, do que julgar-se amparado por favoritismos e especialismos? Não é mais digno tomar parte consciente na lei de origem e destino comuns, do que pretender encontrar em Deus guarida para precedentes indecorosos? Que seria dos pequeninos se a atoarda dos religiosismos valesse mais do que a Sabedoria Divina? Ou devemos querer que a Soberana Vontade do Todo perca para o nosso rastejante sectarismo? Singulares radiações a envolviam, talvez por estar falando tão sinceramente a respeito de assunto tão sublime. E notando o meu cansaço, convidou-me a sair um pouco, em passeio pela interessante cidade. Deixando os seus, acompanhou-me por longo tempo, conversando sobre coisas de sua região. Depois, despedindo-se, foi sumindo nos confins de um céu, que também era como o da terra, embora mais vivo o azul e mais sonhadora a distância.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.