Voltar ao livro Confissões de Um Padre Morto

Capítulo 17 de 28

Trinta Dias Depois

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

Aos trinta dias, de ordem superior, fomos à região intermediária onde havíamos deixado, em preparatórios educacionais, o padre. Tinha ele, em si, elaborado um grande serviço de identificação com a realidade universal, sem o que ninguém se liberta das tramas prisioneiras. Há que atender para esta ordem de pensamento – a Justiça Suprema não se filtra segundo os angustismos sectários dos homens ou dos credos a que se filiem os mesmos homens. Vir para a morte engalanado com as pomposidades teorísticas dos sectarismos religiosistas do mundo, nem mais e nem menos representa, que topar com barreiras vibratórias intransponíveis. Quem se não estender em pensares e sentires pela comunhão universal, também nada obterá de paz, sem ser na proporção do seu estreitismo mental. Medir, ou pretender fazê-lo, à Justiça Divina, pelo prisma dos conchavismos religiosistas do mundo, dos tempos ou das épocas, é crime de lesa majestade. É lesar a majestade interior, o sagrado direito de galgar os cimos da espiritualidade. Quem pensa estreitamente, portanto, se enclausura no próprio estreitismo. E o padre, não mais ostentando as fingidas vestes com que no mundo passava por ministro de Deus, veio a nós, sorrindo e dizendo: – Encantado com a vossa vinda!... Aguardava-os há dias... Fazia orações, desejando a vossa chegada, pois temos o que conversar... – Com ou sem conversa, amigo, aqui estamos para levá-lo para melhores lugares, em virtude de ter correspondido aos desejos superiores – disse-lhe Égas. O homem, ex-padre, estacou e se pôs profundamente meditativo. Tinha o pensamento longe, bem longe, quem sabe mais longe do imaginável, pois parecia estar com ele lá pelas profundezas de si mesmo, onde o homem consegue conversar com o seu Senhor. – Tal é a realidade! – tornou Égas, simplesmente. – Não olho para cima e nem para baixo, porque em Deus e para Deus tal não há, sendo Ele mais que a cosmogonia, onde disso também não existe; mas no templo sagrado de minha individualidade, onde Deus é FUNDAMENTO, rendo graças e me comprometo a ser útil – foi o que disse ele, repassando em emoção santificada. De fato, suas faces banhavam-se em lágrimas de contentamento. – Podemos ir – convidou Égas. E o ex-padre fez sinal que sim, sem mover-se do lugar, a dois passos de nós. Em pouco nimbava-se, ultra feliz, pelos espaços. Com o viajar lento, fomos conversando. Minha vontade era fazer perguntas, o que julguei oportuno, pois ele e eu vínhamos do mesmo painel de atividades. – Que tratos deu à bola, companheiro de práticas no mundo? – Também foi padre?... – Também... Infelizmente, também... – Pensei muito e cheguei a uma conclusão, principalmente em virtude do catecismo que me deram para ler – explicou ele. – Que confrontos fez? – inquiri, desejoso de particularidades.

– Primeiro dei-me a confrontar, como seria normal, entre o Cristianismo que Jesus Cristo viveu, curando, expelindo maus espíritos, confabulando com os bons, produzindo, enfim, toda aquela avalanche de fenômenos revelacionistas ou mediúnicos; depois, passando os olhos pelo original do livro “CONSOLADOR, O UNIFICADOR RELIGIOSO”, onde todas as revelações são estudadas, desde os Vedas, cheguei a uma conclusão. E como não se pronunciasse, fui obrigado a indagar, ao que respondeu: – Tudo aquilo me fez entender que sou tão onipresente para com Deus, para com o TODO BÁSICO, assim como o é Ele para comigo. E que nenhum de nós depende da tradição religiosa do Planeta para libertar-se da inferioridade, uma vez que para isso é preciso trabalhar no próprio eu, coisa que nada tem que ver com a tradição. A tradição, pois, como a reclamam os credos do mundo, em virtude do interesse dos seus proprietários, nada mais faz que torpedear o verdadeiro interesse do espírito desejoso de emancipação. Pelo menos, a tradição faz o homem perder-se num emaranhado de formas de pensar; exige do homem que pense por tabela. E quem pensa por tabela, como poderá compreender, faz valer mais a tabela que a si próprio. – Você realizou um portento mentalístico! – observei, impressionado. – O homem, de quando em quando, não deve apenas mudar de roupa... – epilogou o nosso homem. Agora, bem o entendia, não devia perturbá-lo. Os panoramas deviam estar a impressioná-lo, com as suas belezas por vezes indescritíveis. E foi Égas quem me abordou os ouvidos, entre-dentes: – Ele não decorou apenas; procurou avançar no terreno à vista... De fato, cada um de nós é, em si, mais que a tradição, o tempo e o espaço... As tradições, as épocas, as revelações, tanto podem servir de motivos de progresso como de retardamento, se o ser não se puder colocar acima de seus despotismos... No mundo, onde os egoísmos de todo jaez medram livremente, têm essas coisas muito cabimento; mas aqui, para nós, precisamos compreender as coisas tal como elas são. E se a tradição encravou o Cristo-carne na cruz, por ser intolerante e retrógrada, como respeitá-la? Que a respeitem os assassinos de quaisquer tempos!... Os que precisam de tabelinhas supersticiosas, os que carecem de termos decorados. Resumindo, Gaspar, o nosso homem, ficou sendo meu companheiro de quarto. E os trabalhos prosseguiram, consistindo em arrebanhar almas aos serviços necessários, subtraindo-as aos trêdos países.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.