Voltar ao livro Confissões de Um Padre Morto

Capítulo 15 de 28

No Dia Seguinte

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

No dia seguinte, bem cedo, recebi uma carta da Provedoria da Região. Égas ma passara, acrescentando: – Deve responder o quanto antes, se quer ficar nesta região ou demandar à que de fato lhe cabe. Se fica, entra para o quadro de servidores em certo departamento de atividade; se parte, vamos à cata de outro a quem beneficiar. – Mas eu já lhe disse que fico! – respondi. – Deve dizê-lo ao chefe da Provedoria, não a mim. – Muito bem. Deve ser um bom homem. Terei prazer em ter mais um amigo. Devo fazê-lo por escrito? – Como queira; mas seria bom ir pessoalmente. – Vamos já? – resolvi. E como Égas dissesse sim, Ema correu, dizendo querer ir também. E comentou: – Gosto da presença dos seres superiorizados. Aqui não é como na terra, onde a superioridade é, na maioria das vezes, ocasional. Aqui, senhor Adão, os rótulos não prevalecem. Quem não é, não tem e de nada vale discutir em contrário. Com aqueles dizeres, naturalmente, fiquei ansioso de ir ao encontro do chefe da Provedoria da Região. E afianço que, dados os recalques terrenais, fazia dele a idéia que se faz dos casacudos do mundo, onde as atitudes estudadas e formalidades protocolares encobrem deficiências de variada ordem. Ao chegar pois à Provedoria, e ser introduzido na sala respectiva, deparei com um homem franzino de corpo, de sorriso amabilíssimo nos lábios. Ostentava um porte elevado, mesmo embutido numa simplicidade de encantar. Todos os seus traços eram belos, sendo seu olhar profundamente inteligente. Ao falar, sua voz ganhava modulações sonoras interessantes. De resto, um homem do povo. – É com muito júbilo que o aceitamos como servidor desta região. Aqueles que abdicam de melhoras de direito, para poderem servir onde de fato há mais necessidade, muito mais de nós merecem respeito e gratidão – falou ele. – Eu é que me sinto devedor de tudo, meu senhor. Encontrei nesta região, aquilo que me trouxe compreensão e me fez sentir, ao extremo, seja louvado, em vossas pessoas, pois sendo todos servidores da Sua Vontade, valem por leis sublimes, a que se devem subidos respeitos. Quando Ema se chegou à porta, ele, pegando-a pela mão, fê-la sentar e dirigiu-lhe palavras de muita amizade. Quando logo mais aproximou-se Égas, que havia ficado em conversa no corredor, também se entregou a manifestações de urbanidade. – Onde e quando viveu na terra? – indaguei. – Fui professor num ginásio, numa grande cidade brasileira. Há uns cinqüenta anos que vivo por aqui, administrando estes serviços. Esta Provedoria é de serviços, e, como sabe, arranjar trabalhadores e servidores, e estar ao par do quanto temos por fazer, muito auxilia de certo modo, a quem quer enriquecerse em bens que garantirão, para mais tarde, outras sortidas felizes.

E como seus olhos inteligentes se fizessem vagos, como quem olha longe demais para ser interpretado ao justo, arrisquei de novo: – Deseja reencarnar e ocupar posto superior na orientação de algum povo? – Sim. Tenho que voltar à carne. Assim depõe lei cíclica e, já que tem que ser, quero completar a medida com disposição nobilitante. É prova tremendamente perigosa; mas, confio no plano superior. Amigos me garantem auxílio em inspirações precisas. Se não olvidar as obrigações de consciência, cumprirei meu mandato e volverei para ocupar posto mais trabalhoso em região mais influente. De todo o feito, ficou combinado que continuaria a morar com Agildo, assim mesmo trabalhando em conjunto. Como cada trabalhador recebia da Provedoria da Alimentação o de que necessitasse, deram-me o documento de direito. Assim mesmo para as demais Provedorias. Estava, pois, a contento, com trabalho e regalias. À saída, convidou-nos o Provedor das Provedorias, para uma reunião espiritual a realizar-se num santuário da cidade, de mim já conhecido. Ali se faziam preces e se discutiam princípios. Francamente, ali se estudavam as preces e os princípios. Isso é o que de fato se dava, pois procuravam os mais ilustres, os mais racionais, livrar as composições e as idéias, das coisas piegas e obstrusas, das expressões lamurientas e dos estorvos concepcionais. Como todos somos vindos da terra, e como todos carreamos lastros idólatras no pensar e sentir, o trabalho de aferição era e é feito com aprumo discernitivo. Quem quiser notar o alcance do que digo, repare nas expressões viciadas em pieguismos, em babujas, em ronceirismos, que muitos espíritos enviam aos encarnados, por meio da canaleta mediúnica. É a tara do mundo que se expõe, por recalque operando nas vidas e nos milênios. Porque também por estas zonas da vida, a Deus mais se teme do que mesmo se compreende e se ama. Que questão faziam e fazem ainda os revisores? Fazem questão de que o homem se compenetre de suas imensas virtudes em potencial, virtudes que jamais serão patenteadas à custa de choramingueiras babosas. Não foi para isso que fomos pelo ESPÍRITO ESSENCIAL tornados centelhas individuais manifestas, com direito à organização da personalidade. Sem a vontade do ser não quer contar com o SUPREMO TODO, e, isso significa que nos quer ver e ter em compenetração de deveres e direitos. As expressões que dizem ser os homens, de si, somente inferioridade, vício, crime, mazelas, execrandismos, etc, tudo isso é rebotalho mental que vem das anfractuosidades supersticiosas, lavradas pelo antropomorfismo degradante, no espírito, na bagagem intelectiva dos homens. Deus não quer pieguismo. O Cristo a ninguém deseja ver de joelhos. A VERDADE, empregando o termo como síntese geral, a ninguém pretende ter em postura rastejante. A questão, pois, resume-se em dizer ao homem de que elemento é ele oriundo. E sendo genericamente divino, lembram-lhe dedicação ao AMOR e à CIÊNCIA. Como saber da divina origem é adquirir responsabilidade, cada qual procura conduzir-se decentemente, que é a religião do homem de bem. Porque Deus quer caridade e não sacrifício; dedicação e não oferendas idólatras; conhecimento e não peditórios lagrimosos; trabalho emancipador e não contemplações vadias e ocas em tudo. Oferecer gestos e palavras, saibam, não constitui religião nesta zona astral. Para fazer religião se precisa, viver em

perene estado de compenetração das origens, e em franco desenvolvimento de trabalhos fraternais. E foi isso ao que assistimos, à noite. Estudos de preces, análises de concepções; recitações, declamações, músicas, cantos. No final, seres de esferas mais elevadas se fizeram visíveis, tornando os espaços a coisa mais linda que até hoje pude ver! Cores e sons tais, como nunca supus pudessem existir, além das formas belíssimas que alguns deles projetavam no éter cósmico, como arabescos vivos e que se multiplicavam. Seres, cores, sons, vibrações, flores. Por fim foi cantado um hino de louvor ao Divino Monismo, por todos, por nós e por eles. E com a mentalização da SUPREMA UNIDADE, a nossa forma de terra e os céus, tão brilhantes se fizeram, que mal, muito mal, se podia olhar para aquilo. O Provedor, ao encerrar a reunião, disse apenas: – Encerrada está a nossa reunião, com as mesmas graças com que foi aberta. O que os cumpre é lembrar daqueles nossos irmãos que medram nas trevas, esquecidos de que em si mesmos possuem as claridades celestiais; esquecidos de que o Senhor lhes aguarda o pronunciamento da vontade desejosa de engrandecimento interno. Tratemos de instruí-los, tratemos de convocá-los a uma vida de amor!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.