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Capítulo 16 de 28

Ao Rés Do Chão

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

Ao dia seguinte, pela manhã, recebemos três ordens de serviço. Vinham do Centro de Socorros. Um padre, uma mãe de família e um positivista, tais eram os espíritos com quem deveríamos encontrar, para os encaminhar. O padre foi o primeiro com quem topamos, em zona inferior do astral, lugar onde todas as coisas medíocres da terra se haurem de forças. As coisas que dizem respeito às idéias e organizações prepostas. Porque nessas zonas revivem tudo e de modo extremadamente fanático. Impérios, religiões, políticas, trustes, cambalachos, egoísmos, sandices, etc. A animalidade campeia livre em tais zonas! E humanidades devedoras sofrem e purgam, nas mãos de chefes violentos e cruéis. Enfim, amigos, as duplicatas etéreas da terra compõem-se, das mais abjetas às mais divinas. E não há mistérios e nem milagres que façam qualquer coisa para isso ser ou deixar de ser; tudo é natural e racional. Tudo em ordem, portanto, para que cada qual tenha, segundo seus merecimentos. Por isso mesmo, quem tiver ouvidos de ouvir, trabalhe antes por crescer em as qualidades ingênitas, porque sem isso nada adiantam peditórios e lamúrias. Não somos filhos espúrios de quem quer; somos emanações divinas! Usemos a inteligência, usemos o sentimento, pois que essas faculdades não nos são por favor, e sim de direito natural. Ao dizermos ao padre que da parte da Diretoria do Planeta lhe íamos buscar, para outra compreensão e melhores pronunciamentos de sua vontade, ele nos respondeu, secamente: – Pois para sermos chefes e condutores de almas fomos prepostos, já da vida na carne! Não vedes que estou em franca função, outorgada pelo Senhor? Que faço aqui, que não seja cumprir mandato superior? – Existem céus e céus e mandatos e mandatos, padre. Outros céus existem, que de si não são conhecidos, onde a religião se executa de outro modo e com outros objetivos. Mandato religioso não é privilégio de certos homens e certas classes ou organizações. Mandato religioso é obrigação de todos, em conhecimento da VERDADE e aplicações fraternais. Nas zonas superiores não existem destas coisas que por estes baixios se desenvolvem à vontade de qualquer déspota; nas zonas melhores, cada qual levanta no seu íntimo o tabernáculo da fraternidade cósmica. Ninguém tem a pretensão de precisar pensar pelos outros, sendo que cada qual dá de si o exemplo mais santo. O dever do melhor é sempre maior! – E como sou sacerdote e não sei disso? Por que, então, não me deram função mais elevada em plano superior da vida? – irrompeu o homem, zangado. – Falta de merecimentos.Veio ser padre déspota, em lugar e para gente que só isso poderia merecer. Agora chegou a hora de melhorar. Caso não queira nos atender, em si mesmo baixará mais em padrão, vindo a ter que migrar para zonas muito piores. Como devia saber, é pela vibração específica que o ser se coloca no lugar devido. – Deveis mesmo vir da parte de Deus!... – monologou o padre, baixinho. Houve silêncio por uns minutos. E a seguir, disse: – Devo comunicar ao bispo sobre minha partida... Aguardem um instante... – Não precisa fazer isso... O bispo já está a par de tudo – explicou Égas.

O padre sorriu, satisfeito. – Vamo-nos? – consultou-o Égas. – Por qual caminho? – volveu o padre, entusiasmado. – Pelos caminhos do céu... – Eu nunca pude fazer isso! Eu nunca tive esse prazer!... E nos fomos, os três, para o lugar devido. O padre ficaria, por uns tempos, em região intermediária. Mais tarde, de conformidade com o seu desenvolvimento nas coisas da adoração em espírito e verdade, seria cambiado para a nossa região de habitação. Devo dizer que isso ele logo o mereceu, graças ao catecismo que lhe demos para ler, aquele mesmo que eu também li, como já vos disse. Demais, falei-lhe de mim mesmo, que padre também fora, por ofício na terra; lembrando-lhe que tive de abandonar todas as idéias sobre prerrogativas que imaginava de direito. E ele foi isso mesmo entendendo por si. Quando o conduzimos a uma sessão espírita, na casa de Jasmim, lembrando a relação da mesma com o fenômeno do Pentecostes, ele foi quem nos lembrou o sistema de culto dos Apóstolos, citado em Paulo na primeira carta aos Coríntios, capítulo catorze, afirmando ser o culto católico a corrupção prevista por Jesus Cristo, por ser a antítese do Consolador, no Pentecostes por Jesus estabelecido. A mãe de família, fomo-la buscar no leito de morte. Doze filhos a cercavam, sendo que dezenas de netos teciam orações pela avozinha que se iria do convívio do lar terreno. Ninguém iria ter esperanças sobre possível cura, dada a ordem de doença que a acometia e o fator idade. As orações eram ao seu espírito votadas. E o ambiente era respeitável, porque muitos parentes, antes para cá vindos, muitos deles em formosidade de condições, ali presenciavam o abandono lento do corpo, por aquela que tanto bem havia espargido no mundo, em forma de cuidados maternais. Já tinha eu visto coisas belas! Mas meu coração de homem da morte ficou suspenso, ao observar o que garante a um espírito, o apostolado maternal bem vivido. Não há dúvida que religião é o cumprimento do dever, por compenetração do sagrado mandato da vida, que resume em si toda a Soberana Vontade de Deus, ou do Sagrado Princípio que nos é Fundamento, Sustentáculo e Destino. Assim como da terra adubada, de elementos em putrefação, levanta-se o arbusto que se orna em floriduras, assim foi ela subindo e ganhando forma humana definida, sob a tutela de gente destes países. Égas, o encarregado de cortar o liame fluídico, a pedido e por deferência a quem de bem mais alto lhe pedira, concedera em ceder o direito ao ato libertador. Destacada, pois, do invólucro esgotado, volveu os olhos a ele e disse, cheia de gratidão, testemunhando educação espiritual. – Obrigada, muito obrigada, instrumento bendito!... – Vamo-nos... – disse-lhe Égas, que tinha ordem de a não deixar no recinto, para poupá-la à angústia de certos transes, por via dos sentires daqueles que lhe deviam gratos serviços prestados no mundo. Faltava atender ao positivista. Este, pelo que lêramos em seu fichário, fora um homem de vida regular, como familiar e como cidadão. Não lhe tinha acontecido nada de anormal, pois só lhe sucedera ficar na própria casa, no seio dos familiares, onde se impertigava

pelo fato de lhe não darem atenção. Isto, a princípio; depois, pelas conversas ouvidas, começou a matutar na possibilidade de ter de fato deixado a carne. E que fazer em tal contingência? Ele mesmo disse: – Estando vivo depois da morte, cumpria reverenciar a vida e suas conseqüências. Tornara-me positivista em virtude de umas mazelas observadas na vida de um padre. Aquela coisa observada na infância, e mais as briguetas religiosas notadas na adolescência, acolitadas aos estudos de física e química, indicaram-me o positivismo como regra de fato. E não me envergonho disso, sem ser que ele não convida a pensar na imortalidade da alma, vindo assim a sofrer duras perdas em corolários que a esse axioma dizem respeito. Aqui estou, portanto, para tomar o rumo que bem desejardes. Não sou um santo, mas sei respeitar o direito alheio, sendo capaz de ser útil ao próximo, mesmo tendo que, para tanto, resignar a direitos pessoais. – É um caso interessante! – comentei, dirigindo-me a Égas. – O culto do bem não complica a quem quer, sendo que para respeitar a Deus e verdades daí decorrentes, precisas se fazem certas corroborantes. Tenho certeza que esse irmão adorou ao Deus que é impessoal, que é o Deus que é. – Sempre atendi para o fato de haver uma Fonte Primária. Mas nunca supus viável a sobrevivência do espírito, em forma de personalidade. Pensava que se desfaria na Essência Básica, como pregam os panteístas. Eu era panteísta... – O ideal seria o pantiteísmo, porque representa o monismo. Existem perguntas feitas, por um pensador, que exigem respostas interessantes. Tenhoas aqui no bolso, escritas, e vou enumerá-las, visto que o nosso homem bem nos facilitou o serviço, com a sua feliz maneira de pensar. E Égas emendou, pouco mais ou menos, esta série de perguntas: 1. Deus seria uma individualidade? 2. Deus seria de fato Criador? 3. Como teria criado a tudo? 4. Teria usado de algum milagre? 5. Teria lançado mão dalgum mistério? 6. Que elementos teria usado? 7. Que são os mundos, os seres e tudo o que forma a chamada Criação? 8. Se criou, seja da forma ou por ter usado processo qualquer, que é o universo e como seriam seus limites, se os tivesse? 9. Poderia diminuir ou crescer o todo criado, o universo em geral? 10. Que seria Deus, na Sua Essência? 11. Reconhecendo nós os seis Estados Básicos, Espírito, Energia, Gás, Vapor, Líquido e Sólido, e seus matizes em dinamismos e densidades, como diríamos estar Deus, o Espírito Absoluto, em tudo? Sofreria em si limitação, pelo contato com aqueles mais densos estados de si mesmo?

12. Sendo, um alto espírito, virtude inteligente esplendorosa, capaz de produzir feitos e efeitos grandiosos, manifestações gloriosas em sons, cores, vibrações, etc, que poderíamos dizer de Deus, em Sua totalidade? 13. Que relação haverá entre Deus, o tempo e o espaço? Que dizeis disso, irmãos? Como responderíeis a tais perguntas? Foi ele mesmo que leu um trecho, nestes termos: “É no próprio Espírito Divino que está a chamada Criação, por ser Deus a ESSÊNCIA-CAUSA. Só há uma ESSÊNCIA, assim diremos, que é ESPÍRITO, sendo em si mesma tudo, o que há de manifesto e imanifesto. Deus é em si mesmo tudo, como ESSÊNCIA impessoal, sendo a Chamada Criação, eclosão de Suas Virtudes, eclosão operada em si, por meio, modo ou processo que não podemos penetrar. Assim sendo, Deus é em tudo onipresente, por ser tudo modo de Deus exposto. Logo, Deus não criou, sendo que se manifesta em ordem infinitamente vária.” – E quem poderia duvidar de que é parte do TODO? – indagou o expositivista. – Sim – aparteou Égas – mas você não acreditava, porque não sabia, das coisas da imortalidade da alma e suas conseqüências. Logo, não basta saibamos que somos parte do TODO ou formas de manifestação de Deus. Há que atender para uma questão – como se deu, como se dá a manifestação inicial, na profundidade do TODO, para que no curso dos milênios nós tenhamos individualidades distintas? E que relação guardamos, nas profundezas de nós mesmos com a ESSÊNCIA TOTAL? O fato de a Lei de Equilíbrio surgir de dentro de nós, para nos qualificar, muito bem nos sugere que estamos ligados ao TODO, sendo reconhecidamente PARTES. – Sempre ouvi dizer aos sabidos em espiritualidade, que bem se fala com Deus, por meio da própria consciência bem educada; isso prova que o liame existe, e que sendo PARTES, somos ligados ao TODO, por natureza – opinou o homem. – Então, como é que podemos descrer da imortalidade? Não digo isso por atender ao seu caso; falo em tese. Pois sendo partes do que é infinito em todos os sentidos, como poderemos ser tão torvos em certos casos? – julguei bom dizer. – Por falta de educação, que quer dizer falta de evolução. Mais uma vez fica provado, então, que somos parte e relação, contando com o direito de organização da personalidade. Assim, pois, seremos por natureza deuses, e por direito de individualidade, cidadãos do universo. Tomamos parte no que há de melhor, pois sendo de Deus somos de nós mesmos, cumprindo-nos não esbarrar na LEI GERAL, para nos garantirmos paz e glória. Daí, portanto, em virtude de lei de relação, ser o AMOR, ou a força de união, a lei máxima por atender. O ex-positivista nos surpreendera com a sua lógica. Devia ter instrução a respeito. Com mais algumas palavras, singramos com ele espaços, até deixá-lo no lugar citado na ordem de serviço. Era mais um irmão ganho, para os trabalhos de cooperação no programa de Jesus Cristo.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.