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Capítulo 12 de 28
Entre Irmãos Encarnados
Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro
À tarde, como estava combinado, a casa se encheu de gente amiga. Todos queriam assistir aos trabalhos de Espiritismo; uns por vencer em si certos impasses, e outros por prosseguir em ações nobilitantes. O encanto estava naqueles que em si mesmos não pensavam, balanceando só e apenasmente, o bem ao próximo. Estes, é certo, radiavam superioridade excelentemente psíquica. Forravam-se de aura simpática ao extremo, chegando a emanar ondas multicores e sonoras, por mais que as procurassem ocultar. Era uma grande casa, aquela onde por primeiro entramos. A sessão, no entanto, era privada aos serviços de orientação de seres altamente endurecidos. Este termo, disseram-me, cabia a mais cristandade do que a expressão “espírito imundo”, tão repetida na Bíblia. E ninguém é mais, em verdade, que sensível ou endurecido, no quadro dos tons hierárquicos. Chegavam, aos poucos, trabalhadores do bem, arrastando empós de si levas de irmãos relativamente ressarcidos. Outros vinham amarrados, enjaulados, etc. Outros monstruosamente deformados, por via da corrupção intelecto-moral, por desejarem insanos cometimentos. Assim, portanto, a assembléia estava seleta, constituída de gente de toda a ordem hierárquica, que eu pudesse desejar. Para exercício de confrontação, análise em torno à livre disposição de ânimos, e conseqüente auto-classificação, ali estavam seres que brilhavam e seres que amedrontavam. E os valores não se confundiam. – Na essência – disse-me Égas – somos todos iguais; mas na organização da personalidade variamos uns dos outros, pelo uso que fazemos de nós mesmos. Quem quiser brilhar, que faça de si uso sábio e amorável; e quem quiser entrevar-se, tanto lhe basta propor-se a isso pelas obras. Sempre as obras. Há quem diga estar o Determinismo ingenitamente em nós, para o usarmos contra ou a favor, ainda que inconscientemente. E creio mesmo nessa alternativa concepcional, pois justiça imparcial, só mesmo nessas condições. Nós mesmos, pois, é que fazemos o nosso destino. – O homem poderia acusar a extra-imposição, como sendo um possível elemento contra si; e poderia culpar ao princípio de Justiça Superior. Ao falhar, só teria que atirar a culpa sobre a intensidade da prova extra-imposta – argumentei. – É conceito que deve desaparecer das concepções religiosas, pois a expiação não é imposta por Deus, mas sim pelo próprio ser, em virtude de suas obras. O livre arbítrio de hoje, mal usado, sem dúvida que virá a ser no amanhã o triste determinismo ou cruel destino. Devemos acabar com essa coisa de julgar a Deus como um vingador. De fato, pelo que virá a poder estudar, compreenderá que a dor, de ordem qualquer, espiritual, moral, mental, intelectual ou física, decorre sempre de obras más, de ações vis. Como já tivemos oportunidade de conversar, Deus será mesmo o CÓDIGO INABALÁVEL; mas nós seremos tudo o mais que comporte o programa judiciário em execução. Embora a maioria o não possa compreender ainda, mas nós temos em nós mesmos tudo – Juiz, jurado, réu, acusação, defesa, condenação, apelação, etc. – Majestosa é a Soberania do Supremo Senhor, sendo assim. Não deixa campo às argumentações do cinismo e da má fé. Tudo, pois, do que carece o homem, é de conhecimento da VERDADE – anuí, com inteireza de ânimo.
– E para isso o homem conhecer, foi que Jesus Cristo veio trazer-nos um batismo de Espírito; isto é, veio escancarar os portais do mediunismo, do intercâmbio entre os ditos vivos e ditos mortos. A lição, portanto, assim quer o Diretor Planetário, deve ser por espontânea feição da própria vida, em manifestação. O que é exato é que de si mesmo deve dar testemunho. Por isso mesmo é que disse aos Apóstolos e presentes, que eles viriam a dar disso testemunho. E você me diga uma coisa – que diria aos encarnados, sobre a VERDADE, se pudesse hoje mesmo falar-lhes? Não teria que contradizer o que pensava ontem ser o justo? Pois o que está tendo pela frente, nos fatos que ante si se desenvolvem, é a palavra imortal do Divino Mestre. Eis que aqui estamos, amigo Adão, para testemunhar aos do plano da carne e países inferiores do astral, sobre Deus, o Cristo, a imortalidade da alma, a evolução, a reencarnação, a comunicação, a pluralidade dos mundos e planos habitados, e, acima de tudo, a interioridade da Justiça Divina, para consolidar na consciência humana, a certeza de que temos em nós mesmos o céu e o inferno, para os despertarmos segundo a vontade, pelas obras. Uma sineta espargiu som, comprimida pelo presidente do ato. Imediatamente, o ambiente psíquico transmudou-se, tornando-se sublimado. Ao toque de reunir, cada consciência se pôs em função espiritual. Eflúvios luminosos cortavam o éter em todas direções. Ondas luminosas e musicais nos atingiam, sensibilizando-nos. – Eis o que podemos fazer com o pensamento! – acudiu Égas. – São verdadeiras fontes de luz divinizada! – anuiu Sofia, lagrimando. – É que desejam ser úteis aos irmãos sofredores... – comentou Gama, o filho do casal. Toda a minha capacidade e ternura se volvia para aqueles devotados discípulos do Mestre. Não é que eu já possa sentir, em extremos de percepção, ao poder tremendo, em moral, que é pensar em amar muito ao próximo. Nem que seja capaz de medir, a que ponto aquela gente já podia sintonizar com a onipresente ESSÊNCIA DIVINA, para assim tornar-se reflexiva. É que sentia em mim, qualquer coisa que deles emanava, a envolver-me, a enredar-me em santos laços de puro amor. Eu não estou qualificado para discernir o amor; mas me qualifico a mim mesmo como capaz de dar testemunho, assim como o é da vontade de Jesus Cristo, que força maior jamais poderia conceber. É coisa que nos bate às portas d’alma, envereda pelos recônditos do eu, transborda em maviosos acordes, enleva, sublima, diviniza, infundindo-nos uma sensação de celestialidade indizível. Que sei eu o que é, isso que é o AMOR, meu Deus? Mas, Senhor, eu sei o que é; és TU, Senhor, a repontar nos horizontes de nossa educação espiritual, sob a forma de um sentimento intraduzível. Ao cabo de empolgante prédica feita por um irmão encarnado, cujas palavras vinham a nós como portadoras de tremendo potencial eletromagnético, falou o espírito patrono da casa espiritista. Depois, Égas, falando com aquele mentor, combinou a comunicação do jovem casal, que sentia incontido desejo de agradecimento a quem lhe havia sido de grande valia. E em seguida fomos para a casa paupérrima de Jasmim, apadrinhados na amizade de Ambrósio.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.