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Capítulo 3 de 28

Introdução

Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro

Quem vive na carne, como homem educado em moldes espirituais dogmáticos, nunca poderia supor, fossem as condições de vida no mundo espiritual, tão a par com as condições humanas. Imaginar, seja no céu, no inferno ou no purgatório corresponde, para o encarnado em tais tons instruído, a qualquer coisa muito diferente, estado de estar extremamente incorpóreo, condição de estar totalmente inversa à da vida nos quadros da carne. Para o céu ou para o inferno, contanto se fale no pós-morte, arranja-se logo a idéia de lugar especial, de habitat excêntrico. Não pode ser que a mente humana funcione em igualdade de idealização, de concepção, desde tenha que pronunciar-se a respeito daquilo que tenha de ser e acontecer para depois da cancelagem do meio carnal. Há que ser diferente! Gritaria a razão humana. Mas, porque um advérbio já é suficiente para por o mundo mental humano em polvorosa, eis que existem verdades que são como são, sem o beneplácito dessa mesma presumida senhora. E, então, amigos, a coisa muda muito. E muda muito porque em nada muda! Quando devia mudar-se, isto é, quando devia tomar aquela feição por nós imaginada, e desejada, ainda que nas piores hipóteses, eis que tudo continua como dantes. Uma carne mais densa fica para trás? É apenas sinal de que outra menos densa lhe estava à espreita. Reclamava-lhe o posto, simplesmente. Tinha que ser. E é toda a explicação. E para que mais explicação? Essa história de explicar é uma história muito complicada e cheia de tremendas incongruências e responsabilidades. Desde que o mundo é mundo e talvez até consiga sê-lo, gente haverá falando em nome da autoridade, querendo ser o tal que fala em seu nome. Mas, sobre as afirmativas humanas, precisamente por serem humanas, pairarão outras e outras afirmativas. Sobre isso, amigos, prefiro fazer silencioso respeito. Não por misticismo; mas por consciência da mediocridade. Como posso rir dos mestres religiosos do mundo! Que não se limitam a dizer como Deus é, mas querem à viva força imporem-lhe modo de ser e de conduta, em face dos problemas de Moral e de Justiça. Sofro em mim a dor de fazer pouco por mim mesmo, como cidadão do mundo; mas, muito mais sofreria pelo próprio Deus, tivesse que ser Ele, como quisesse ou fosse do gosto do mais bem intencionado dos seus propagandistas entre as gentes. Cada um crê na sua crença; e se diz esclarecido a ponto de afirmar de pés juntos, ter de posse o retrato de Deus, com toda a configuração de Suas veleidades em geral. E a humanidade assim vive a ser orientada. Por ser igual o conduzido ao condutor, aquele que o conduz, eis que nada o mundo em mar sectário, eis que temos os homens entregues ao culto do mais ferrenho espírito de facciosidade. Medram as seitas e com elas as estultices mais agravantes para o pós-morte da chamada criatura. Porque o homem que deixa o plano da carne empanturrado de idéias exclusivistas, de pretensos favoritismos da parte do Supremo Espírito, esse, só por isso, tem contra si o princípio de equilíbrio que rege o universo em geral. Porque há uma LEI geral de equilíbrio, que, fracionando-se ao infinito, a tudo e todos abrange com o seu tentáculo. É tolice exigir exclusivamente perante a Suprema Judicatura, por alegar preponderância sectária ou mesmo real

conhecimento da VERDADE. E isso pelo simples fato de não se abalar ela pelo fanatismo de quem quer, nem pelo simples teorismo do seu mais arguto apologista. Que é a VERDADE? A VERDADE que é não é a que salva, pois por ser simplesmente VERDADE não confere favor por aceitação teórica, apenas. Então, qual a VERDADE que liberta? A VERDADE que liberta é aquela que o homem pratica, desde que em consonância com aquela outra, a fundamental. Por isso, e simplesmente por isso, tanto melhor para aquele com quem esteja, em teoria e prática decentes, a melhor verdade, a simples verdade com “v” minúsculo. Todavia, como facilmente se reconhece, o mundo está inçado de religiosismos salvadores e absolvicionistas. Isso, porém, não impede que os tredais do espaço se junquem à custa de seus adeptos. Como é, ou como chega a ser ridícula a atitude daquele que deixa a carne mais densa, embebedado pela cantilena das sereias do milagrismo, dos favores sectários, dos conchavismos renitentes. Porque, assim o fornecedor de bugigangas salvacionistas cessa a fala, a lei cíclica vence, colocando o ser imortal noutro continente vibratório, já a LEI de equilíbrio entra em função, e especificamente, de dentro para fora do mesmo ser, aquilatando segundo as obras, segundo as ações diuturnas no trato social, e não segundo os escapulários com que se armou, pretendendo com isso colocar-se acima ou à margem da mesma LEI. Tudo o que existe está embutido num princípio de CAUSA e EFEITO, que por isso mesmo significa universalidade. Há que atender, portanto, para o tônus vibratório interno, para o melhor em intensidade. E sem cuidar bem, por assim dizer, das coisas do cérebro e do coração, nada feito! O homem, pois, é um ser inteligentizável por natureza, por cuja razão subirá na escala de si mesmo, no âmbito das leis gerais de harmonia. Sem, porém, subir em PUREZA e SABEDORIA, ninguém conte com céu algum! Os cerimoniais religiosos podem ser coisas divertidas; menos, no entanto, libertadores de consciências. Instruir o cérebro e sensibilizar o coração, eis a medida geral. Direis que teremos assim apenas o homem teórico? Não é real. Ninguém se torna rico de conhecimento e grande em sentimentos nobre, sem praticar tais valores; porque para ser nobre não basta ter só vontade. Faz-se preciso saber e aplicar. O senso de nobreza instiga no sentido de cada vez mais e melhor aplicação. O homem veramente nobre não é feliz na ociosidade, bem assim como sabe bem que, para cada vez mais e melhor poder ser útil, tanto mais precisa saber. É, pois, aquele que avança perenemente em busca de mais subidos valores, quer de ordem moral, quer científicos, na consciência de que, para dar, para aplicar, é preciso ter. E em que dédalos se perdeu ou se perde, aquele que viveu ou vive, confiante nas expressões salvacionistas concentradas nos escapulários seitistas? Sou uma testemunha dessa falta de lógica natural. Sim, de lógica natural, pois os inventos salvadores humanos não alcançam impressionar as leis de harmonia, em que se espraia pelo infinito a LEI GERAL DE EQUILÍBRIO, a Lei de Deus, a quem o homem sempre procurou dar configuração idólatra e situação externa. A lógica de fato, embora em rudimentos de expressão, não se confunde ante a visão total; o pingo d’água não teme os sete mares, por serem entre si similares. A infusibilidade em valores os torna unidade perfeita.

E os escapulários seitistas conseguem, assim, tornarem-se infusos à LEI GERAL DE EQUILÍBRIO? Os simulacros comprados aos homens ou aos credos conseguem forçar o céu, por assim dizer? Em nome de que ginásticas adquiridas no mundo pode um espírito reclamar gozos nos rincões da morte? Não pode falar em nome dos sacramentismos exteriores, porque a Justiça Suprema não precisa de testemunhos estranhos; e não adianta alegar a autoridade dos vendedores de tais simulacros, porque eles mesmo nada poderão alegar em defesa própria. Quando aleguei minha condição de padre de certa igreja, ouvi resposta assim: – Muito embora ainda possam prevalecer as atenuantes decorrentes da falta de melhores conhecimentos, é de saber-se que o simples fato de viver à custa da Religião é imoralidade. Não procure, portanto, eximir-se de culpa. Não terá o que dizer, a fim de pôr-se melhor em face das insuficiências íntimas. O melhor é compenetrar-se do que lhe falta e fazer por conquistar. O céu, como o salientou o Divino Mestre, é de ordem íntima. E para tê-lo, não há outro recurso sem ser despertá-lo. Não acuse o quer seja; seria perder tempo. Ou quereria informar ao Deus interno? Égas, o meu instrutor, passou a sorrir, vendo-me perplexo. Eu nada entendia, em sã razão, de tudo isso que é muito do conhecimento dos espíritas. Deus me era exterior e tudo se conseguia junto Dele, através prosternações de toda ordem. Compreendia o valor dos atos decentes, mas como complemento às obrigações seitistas ou às práticas sacramentais. Antes da Lei de Deus, importava estivesse o catecismo sectário. Acima das elevadas virtudes do espírito, deviam pairar os cânones eclesiásticos. Assim, bem assim é que tinha sido educado mentalmente. De pai e mãe recebi tais encomendas; e mais tarde foi isso que me inculcaram os mestres em teologia. Afinal, quem lê, como deve ler? Quem ouve, como deve ouvir? E quem se emprega o que deve fazer, como deve agir, sem ser dando fiel guarida aos encargos subestimados? Por isso mesmo, que tinha a fazer, sem ser sofrer toda e qualquer impulsividade ablaqueante? E o bom Égas, instrutor consciente, e que também havia vindo do mundo nas mesmas condições em que eu vim, enlaçando-me pela cintura, e muito mais pelo coração falou com serenidade: – Adão, não julgue a Sabedoria Divina pelo que sabe. Essa tolice fica bem lá pelo mundo da carne e aqui nos nossos planos inferiores de vida. Aqueles que se julgam donos ou de posse de toda a VERDADE, esses mesmos estão-se a indicar como alheios a ela, por isso mesmo pensarem sobre si mesmos. De tanto pensar em um Deus à margem da chamada Criação, o homem se isola de si mesmo, marchando à cata de formalismos exteriores, como sendo a regra para a conquista dos bens eternos. Deus, amigo Adão, é íntimo a nós e a tudo. Ir bem ao Supremo Espírito, sem despertar os divinos dotes internos, isso jamais será possível. – E as ações de graça?!... – balbuciei, movido pelo recalque. – São muito válidas desde que praticadas junto dos irmãos em origens e destinos, em forma de auxílio de fato... – Mas não nos ouvia Deus?!... – tornei, angustiado, como que a sentir que se me derretia sob os pés, a rigidez do alicerce mais bem construído.

– Nada há para fazer ouvir fora meu amigo; tudo é questão de despertar dentro. Tão má é a educação recebida, tão infeliz a doutrina levantada pelos homens no lugar da do Senhor, que ao ingressarmos neste plano de vida pretendemos, e a todo custo, que nos valha Deus espiritualmente, por aquilo com que nos beneficiamos materialmente. Convém, pois, lembrar, que Deus é íntimo e para falar-lhe de fato, só mesmo pela linguagem do amor ao próximo. E para amar ao próximo, amigo Adão, só mesmo cooperando em suas necessidades evolutíveis. Fazer dele, pela fé que deposita num Supremo Senhor, motivo de exploração, isso é imoralidade. Além de ser imoralidade é truncamento do princípio inteligente. Pois não é certo que nos fizemos junto dele, intermediários perante Deus? No entanto, que se pretende ao colocá-lo distante de Deus, senão viver à custa de sua ignorância? O vendeiro, o quitandeiro, o dentista, não fazem negócio muito mais honesto? – Mas assim nos ensinaram!... – argumentei, sofrido. – Sim, os homens... Deus, porém, não ensinou assim pelos seus arautos mais credenciados. Como pode ficar sabendo bem, por confrontar, nada há em nossa igreja lá do mundo, e que aqui vive intensamente nos planos inferiores, daquilo que o Divino Mestre viveu nas ruas, nas praças e nos desertos da Palestina. Enquanto Ele filtrou a Vontade de Deus, por sintonização, e isto por despertar interno, que faz a nossa Igreja, sem ser que em Seu nome impõe formalismos vãos e caros? Que há na nossa igreja que se pareça com os dons intimamente despertos e aplicados pelo Mestre, no sentido de curar, de expelir maus espíritos, de manter contato com os bons, enfim, de tudo aquilo que fez e recomendou prosseguissem os homens fazendo? Tudo, no Cristo, não foi exercício contínuo no sentido de intercâmbio com o mundo dos espíritos? E não salientou sempre que o Pai Lhe era uno? E não repetiu que o céu era íntimo ao homem? E não afirmou sempre que Deus era Seu Pai e nosso Pai? E não reclamou sempre um amor a Deus à base de toda a inteligência e de todo o coração? E não deixou como pedido máximo o amor máximo entre irmãos? E por vivermos nós à custa dos irmãos, por terem uma fé, e por lhes impormos simulacros vãos, podemos dizer que somos mestres em as coisas do espírito? Falsificar os ensinos vividos por Jesus, à custa de seus poderes internos despertos, é porventura Cristianismo? Estava eu aturdido. De fato, entre o que diz o Evangelho, que Jesus Cristo fez e pediu repetissem sempre que possível os homens, e aquilo que fazia e fez a Igreja de quem eu era servo fiel, toda a diferença existe. Rótulo não é essência. Falar em nome do bom vinho não é garantia contra a venda do vinho falsificado. E contra os argumentos de Égas, tinha a antepor que arrazoados? Quem me teria lançado nas dores de um país onde vendavais açulavam a tudo e todos, de manhã à noite? Que poder me teria para ali arremetido, no seio daquela gentalha que vivia para blasfemar contra Deus e contra tudo e todos? Teria sido a argumentação de Égas, o seu libelo contra a Igreja? Não, pois ele fora, apenas, um daqueles que compunham a caravana libertadora. E a palavra usada fora a mais simples e irretorquível, a mais fiel tradutora de uma realidade que será eterna: – Adão, levante-se em seu pensar, erga-se em seu sentir, porque chegou para você a hora marcada pela Vontade Soberana de Deus, para que goze da paz, aquilo de que se fez merecedor, por purgação já experimentada. E como tinha aprendido a blasfemar, também, respondi-lhe:

– Esse Deus, então, para que faça alguma coisa é preciso que eu lhe confira as vantagens? Ele não pode fazer, por Si mesmo, independente de meus sofrimentos? – Adão – repetiu o mentor – quem não está bem aqui é por sua própria conta. Na terra o fator missão pode colocar o inocente no pelourinho; aqui, isso não se dá. E se dizemos que é hora, é porque a aferição se dá no íntimo do ser, por re-equilíbrio. A dor foi, como o fogo, retemperante. Todavia, Adão, se lhe não aprouver a conquista de melhor posto, daqui nos iremos, prometendo voltar ao término de outro período cíclico-purgatorial. Porque nós somos trabalhadores do Senhor, não diretamente, mas por escala hierárquica. E assim que chegue a hora, de um direito qualquer ser garantido, move-se a máquina jurídica organizada, em favor de quem deve ser movida. Nunca, porém, a ponto de espesinhar vontades. O que se quer é repercussão vibratória, é auxílio à ação, para que com menos trabalho se tire mais proveito. – Consultaram-me para me mandarem para esta terra de gente bruta e ventanias incessantes? Há quantos anos estou aqui?... Dezenas! Dezenas!... E a voz serena tornava a doutrinar: – Ninguém consultou sua vontade, porque sua vontade estava expressa na organização do seu caráter. O homem lavra em si sentença, pelas obras, em padrão vibratório que se faz. O Judiciário Supremo deixa a cargo do próprio homem a formação do julgamento específico. Como se fez o ser, precisamente assim se tem. Portanto, amigo Adão, não é de Deus que vem libertação ou condenação para quem quer que seja. No homem estão os elementos de edificação e a vontade de pô-los em função, assim como um fazendeiro dá ao trabalhador, que é racional e dispõe de órgãos e vontade, ferramenta e seara onde aplicar-se. O homem que pensa ganhar o céu de favor, ou por comendas compradas ou vendidas, é como o trabalhador que se dispensa da razão, dos órgãos e da vontade, desprezando ainda, por cima, a ferramenta e a seara onde lavrar. Sofrerá inanição, por certo, por auto insuficiência. Fiz-lhe ver que não podia pensar bem, ao que ele argumentou, com sublime inflexão de voz: – E quem lhe pede para que perca tempo, amigo Adão, com delongas contra a Soberana Lei, que não pode ser falha por ser interior a tudo e todos? Nós o estamos convidando a sair daqui deste triste país, sem exigir mais do que pensamento de respeito pelas coisas superiores da VIDA. E com eles saí andando, andando, mas andando pelo espaço em fora, até me ver noutra terra, noutro país, onde um sol muito lindo enfeitava uma exuberante natureza, e onde uma gente muito amiga tornava a vida uma doce embalagem do Senhor. E foi ali que senti imensa necessidade de dormir. E me deram de tudo para fazer, tempo, casa, leito, livros, amizades, atenções, etc.

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