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Capítulo 10 de 28
Regressando
Confissões de Um Padre Morto · Osvaldo Polidoro
Quando de volta ao domicílio, sentia-me assenhoreado de valorosos elementos em conhecimento. Digamos como a coisa é. Na terra, pelo menos no credo que esposei e de modo profitente, julga-se que em face do céu basta uma atitude teórico-contemplativa, uma vez que tudo cinge-se a gestos e formalismos subservientes. Aqui, depois de um curso prático pelos rincões da dor, e outro intelectual, e outro moral, e outro aplicado, sente-se a pressão tremenda exercida pelo fator ignorância sobre o indivíduo. A boa vontade é só boa vontade. É fator respeitável, mas, nada além de boa vontade. E é por isso que miríadas de seres vivem se comunicando, por todas as medidas e tons de canaletas mediúnicas, nem por isso deixando de ser realidade, que noventa e nove por cento do que dizem, não vai além do medíocre, daquilo que ficaria bem na boca de qualquer encarnado de educação cultural bem inferior. Que lhes falta? Falta-lhes a visão da realidade, daquilo em que, graças ao Supremo Poder, se expande a vida em suas tremendas realidades ingênitas. Os religiosismos do mundo, a respeito do céu, só ensinam a diminuir! E a operação mais singela, por aqui, é multiplicar por muito e muito! Eis, portanto, que o candidato a morto, em alguns credos formado, é antes de tudo preposto aos porões da atividade. Precisam recomeçar de novo e custosamente, por falta de força de embalagem. E disso devem estar cientes todos aqueles que assistem a sessões de Espiritismo. Quase tudo ramerrão, cópia rasa do linguajar dos planos da carne. No quer que pense, no quer que diga, nota-se aumento em fé mística, em desejos de utilidade; mas a pobreza dos conceitos, como a curteza de visão e a carência de concepções elevadas, patenteiam-se a todo instante. Noto isso em mim mesmo; por que, pois, não dizê-lo? Confessar tal verdade seria crime? Ambrósio, o vosso já conhecido amigo, estava presente quando chegamos, de volta. Tinha feito, por razões do serviço, amizade com esta bela família. Assim apresentado, passou a falar, a perguntar, a argumentar. Notei-lhe, pois, o embaraço. Também esse amigo sofria a influência do não saber. Também não tinha tido, no mundo, um bom roteiro intelectual sobre as coisas daquém túmulo. Admirava-se com pouco e com menos ainda se contentava. Julgue como quiser quem me ler, principalmente se for do apostolado de alguma crença formal. Mas terá que se haver com muitas dificuldades, terá que ficar de boca-aberta em face de coisas bem simples, de acontecimentos e fenômenos ainda superficiais, ao deixar a carne. Por esse tempo, já ia longe o exercício de Ambrósio no campo socorrista. Desconhecia muito, é certo, sobre o porquê de muitos fenômenos; mas, praticamente, em seu dossiê formavam excelentes haveres. A muitos havia servido com esforço, de muito lhe valiam aqueles poucos comandados de Jasmim, a mulher de cor por quem se desfazia em respeitos espirituais. Foi para lá que me convidou, assim julgou me estivesse com isso, propiciando fraternais
favorabilidades. – Aceito – falei-lhe – pois me sinto ansioso por todo aquele saber que tanta falta me faz. Assistir a algum desses trabalhos me fará muito bem, principalmente no campo ilustrativo, onde, reconheço, sou como um vácuo. Lamento ter passado pelo mundo, a julgar tudo segundo o triste ângulo de visão,
Vide o livro “ÀS MARGENS DO MAR MORTO”
pelo qual me dei a ver. Sei que perdi oportunidades... Muitas e sublimes oportunidades... É de fato um crime o dispensar alguém, os elementos de aprendizado que da encarnação decorrem, por franca aceitação de um postulado dogmático e idólatra, só aureolado pelo vazio de uma fé contemplativa, formal e levianamente anti-racional. – Conte, antes de mais nada, com o que de mais alto lhe aponta a Direção Intelectual do Planeta; é de cima que administram, isso o sei bem, mesmo tendo de confessar que nada sei de particularidades a si referentes. – Fico-lhe, amigo Ambrósio, imensamente grato pela amizade e proposta em serviços cooperadores. Com mais alguns amigos dessa ordem, estarei devendo ao Supremo Espírito a minha dívida de gratidão. É uma benção do céu ter bons amigos. – Muito maior benção é já estar compenetrado de que em Deus não existem mágicas e nem sortilégios, e sim lei de relações, de causa e efeito. Quando toda a humanidade da terra, dos planos da carne e daqui, souber que Deus atua em uns por intermédio de outros, para efeito de aplicação de leis, então teremos uma terra francamente integrada nos serviços de redenção. Desse dia em avante, começará a diminuir o número dos que pranteiam e se debatem em misérias de toda ordem. Porque, o que de fato falta, para a boa realização social, é simplesmente a consciência do fator básico, que é fraternidade exercitada destemidamente. A fraternidade das religiões é ainda empírica, é apenas contemplativa e separatista. Falar no amor ao próximo, e virar o rosto ao topar com o semelhante caído numa sarjeta, ou deixar de pagar uma dívida, ou passar avante uma calúnia, essa é a fraternidade das religiões e dos religiosos, por enquanto. E isso é hipocrisia... – Levantemos, no mundo, o estandarte do Cristianismo do Cristo, daquele vivido pelo Divino Mestre nas ruas, nas praças, nos desertos e nos casebres, à custa do culto mediúnico o mais ostensivo. De tal modo convidaremos os homens do plano da carne a considerar sobre estes países, que eles mesmos hão de tecer raciocínios melhores sobre a Justiça Divina, que age no indivíduo de dentro para fora. E quando o homem souber bem, que se tem assim como se fez, então estará ele preparado para melhores lanços em busca de si mesmo. O reino do céu é de ordem interna. Começar a despertar é preparar campo para outras auroras, mais claras e mais distintas. Chega de focalizar o céu pelo prisma dos exteriorismos fáceis, porque apenas contemplativos e formais. O céu está no âmago de tudo e todos, porque é a Essência Máxima que a tudo dá origem e sustentação. Identificar-nos com ela, sem ser pelo despertá-la, é impossível. E isso devemos relembrar aos homens em geral. Relembrar, sim, pois apenas estamos repetindo velhíssimas lições, lições que foram transmitidas pelos grandes arautos do Senhor, desde os Vedas, passando pelos Budas, por Rama, pelos Zoroastros e pelos Hermes, pelos Profetas e tantos mestres de verdade. A terra está passando por tremenda convulsão transitória, como premissa de ingresso em ciclo superior de civilização. Cumpre a todos essa compenetração, para que a lei de equilíbrio do fenômeno não seja obrigada a agir violentamente, causando maiores dores do que aquelas julgadas indispensáveis. Porque há necessidade de abalos. Consideramos, porém, ser obrigação geral o fazer que não se prolonguem para além do necessário, os cataclismos que assolam a humanidade do presente ciclo.
Em ouvindo assim falar a Égas, voltei meu pensamento para as profecias do Divino Mestre, quando da necessidade de reposição das coisas no lugar, citando mesmo o nome de Elias, como sendo aquele que devia vir encabeçando tal movimento. E pensei na forma em que o faria, possivelmente. Estava meditando, quando Égas, tornando à fala, elucidou: – Em que sentido poderia fazê-lo, amigo Adão, sem ser pela disseminação das leis mediúnicas para com isso forçar infusibilidade entre um e outro planos da vida? E sem o conhecimento dessa continuidade da vida, e das condições de vida, como restaurar a Doutrina Cristã? Não reparou ainda, Adão, que o batismo de Espírito, como tantas vezes deve ter lido, foi em comunicação entre vivos e mortos, tendo os Apóstolos falado às gentes todos os idiomas? E se o Cristo lançou, do alto de Sua Cátedra Diretora, a ordem de conúbio entre um plano e outro, não foi para que o homem se capacitasse da extensão mecânica da vida e da Justiça em que se funda? Que julga da lição do Pentecostes, então? – A Igreja, amigo Égas, não interpreta assim... – foi o que então respondi – E eu só fiz o que a Igreja mandou fazer, infelizmente. – Por causa da Igreja é que estamos trabalhando pela disseminação da Doutrina do Cristo; sem corrupção não haveria necessidade de restauração. E o Consolador é em si a verdade que no Pentecostes fluiu da orientação do Senhor. Assim como o Divino Mestre passou pela vida em perene contato com o mundo dos espíritos, expelindo maus, confabulando com os bons, curando mediunicamente, assim, também, terá que fazer o Seu discípulo. Sem esse conhecimento, como chegará à compreensão da Suprema Justiça? Ficaria toda a eternidade a comprar bugigangas das mãos dos corruptores da Doutrina Excelsa? Precisamos é de homens que conheçam e vivam a VERDADE; não porém, de servidores da traficância e da corrupção. O Espiritismo está no mundo, não apenas expresso pela vigência eterna de suas leis fenomênicas, mas sim pela organização em base doutrinária segura. A palavra do Cristo, com referência à reposição das coisas no lugar, está cumprida. Quem quiser, que de si mesmo dê frutos pela prática. O Espiritismo deplora a todo o exteriorismo; e faz prevalecer a ciência e o amor. Olhou-me significativamente e sentenciou: – Creio que entende para o que está sendo chamado... Busquei nas profundezas de mim mesmo o que dizer. E disse, refletindo o que me ia pela alma sensibilizada: – Um homem honesto não é o que tem um ponto-de-vista, ou o que nisso faça fincapé fanático; é antes o que vive de alma escancarada ao progresso contínuo, às sábias lições que o Supremo Senhor oferece, pelos escaninhos da vida em si. Eu quero ser um homem honesto. Ensinem-me, guiem-me, que longe vai o tempo em que pretendia impor ao próprio Senhor, a minha sectária visão espiritual, o exclusivismo degradante que emanava da ignorância em que me detinha, caprichosamente. A vida nos ensina, deste lado mais do que naquele, que é Deus quem governa, e não o estultismo sectário dos homens e dos seus religiosismos facciosos. Sinto, em mim, bem viva a sentença do Senhor – “A VERDADE VOS LIVRARÁ”. Não disse o Senhor que a libertação viria pela religião, mas sim pela VERDADE. Égas sorriu. Seus olhos brilharam mais e sua boca moveu-se, para dizer:
– A Religião salva, a Religião liberta... Mas é a Religião com “R” maiúsculo. Quando o homem fizer do culto da VERDADE a RELIGIÃO, então, amigo Adão, aparecerá no mundo quem diga, com propriedade – “A RELIGIÃO VOS LIBERTARÁ”. Isso acontecerá. Era hora de refeição, naquela duplicata etérea da terra; Sofia, a mãe de família, convidara-nos ao ato. E comemos e bebemos daquilo que convinha e condizia às nossas necessidades. Cada plano, como seja mais ou menos eterizado, assim confere elementos. Há intransferível relação entre os seres e as coisas, para efeito de comodidade. O padrão vibratório interno limita e determina a necessidade de utilização de fatores externos. Quem quiser o melhor, portanto, que se melhore. É a lei. De resto, que melhor Justiça do que essa, que emana do merecimento interno? Entender as leis vibratórias é como entrar para um curso de aperfeiçoamento – só resta exercitá-lo praticamente.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.