Voltar ao livro Atendimento a Desencarnados

Capítulo 3 de 26

Parte 3 de 26

Atendimento a Desencarnados · Chico Xavier, pelo espírito Emmanuel

Na comunicação ostensiva de desencarnado para encarnado há transmissão do pensamento. A mente do médium capta também via perispírito e reproduz com suas próprias palavras. É o médium alguém à mercê do Espírito e portanto alguém passível de ser atuado à sua revelia? De modo algum. A menor oposição magnética ou uma vontade formalmente contrária pode deter, perturbar ou retardar a Toda ligação entre mentes se faz num preciso momento através da afinidade, da semelhança de pendores, afinidade esta que abre o campo para que se estabeleça a sintonia num acoplamento de ondas afins.

No médium ostensivo, além dessa mecânica que é comum a todos, está ele envolto no intuito de servir, portanto, abandona-se e permite que o outro se comunique para, através do diálogo que se seguirá, ser auxiliado. Assim, um Espírito ao se comunicar tem seu perispírito expandido. O médium, em igual processo, capta o que ele está exteriorizando. Nesse momento, o Espirito sente o peso da matéria do encarnado; pela diferença vibratória, fica em condições parecidas dos pacientes hipnotizados. Tomam-se em consequência, sugestionáveis, sofrendo considerável atuação em sua faculdade de memória, fato próprio que facilita o aceite do pensamento alheio e das emoções que o acompanham.

No ato mediúnico da comunicação pela palavra há como que uma fusão no sentido de mistura, união, entre o perispírito do desencarnado e o do médium. O estado emocional do Espirito irradia-se do seu corpo perispiritual sendo captado pelo corpo espiritual do médium. Ao “toque” desses dois perispiritos há um leve choque que altera o psiquismo de ambos: o Espírito, através da palavra, como que desperta do estado monoideado no qual se detinha; o médium sente sua desdita e exterioriza esse penar. Aconteceu a interpenetração fluídica que permite ao Espírito manifestar-se. O médium fala como intérprete de uma situação que embora não sendo sua, pessoal, naquele momento, permite ao Espírito num gesto de amor, a oportunidade de esclarecer-se na sua situação de Espírito imortal que é.

O médium toma-se instrumento no qual o Espírito se sente vivo. Ouve os raciocínios que o atendente lhe oferece, pergunta, reclama, insiste para depois perceber sua real situação - a de alguém detido em um momento de dor, de ódio, de confusão e que necessita de ajuda e encaminhamento. A prática espírita assim orientada é fonte de consolação, progresso moral e ajuda recíproca para encarnados e desencarnados. Desenvolvem-se aí trocas fluídicas, providencias delicadas, tratamentos, diminuição das fixações mentais, coleta de energias animalizadas, regressão de memória. Ainda há a formação de quadros fluídicos nos quais o comunicante vê a própria realidade facilitando o entendimento de suas dores, como veremos nos episódios reais que constituem esse volume da série.

As comunicações inteligentes exteriorizadas na escrita e palavra constituem realidade importante da fenomenologia espírita As mani festações físicas podem até servir para despertar, entretanto, só estas últimas estudadas na sua mecânica e recordadas nas histórias que seguem, e que contribuem para formar certezas e crença sólida, uma vez que se dirigem à razão, estruturando a fé raciocinada que, segundo Allan Kardec, é aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade. Raciocínios embasados em: KARDEC,Allan, O Livro dos Médiuns, 48a.ed., 1983 FEB, Rio de Janeiro-RJ, cap. 112a.parte, cap. 1 - 53 e 54.KARDEC.Allan. O Livro dos Médiuns, 48a.cd.. 1983 FEB, Rio de Janeiro-RJ, 2a.parte a partir da p.69. KARDEC, Allan, Revista Espirila-Jomal de Estudos Psicológicos, ED1CEL ,1985, Sfto Paulo-SP, 1858, p.6-8 Fatos — Histórias - Estudos -1- - Não adianta, não insista... você não vai fazer comigo o que fez com os outros... - E o que foi feito com os outros? - Ficaram presos aqui. - Por que acha que ficaram presos? —Porque eles não mais voltaram. - Já pensou que talvez eles decidiram ficar porque encontraram algo que lhes agradasse, uma vez que não é feitio da casa prender ninguém? - E... eu então não estou preso?

—Não. E livre... podemos continuar a conversa ou poderá ir-se, caso queira. Estabelece-se silêncio ao final do qual pergunta: - O que eles encontraram para decidirem ficar? - Talvez algo que respondesse às suas inquietações e dores. Mas, diga-me: como está? O que se passa?

Sinto-o em desassossego... Silêncio... —... sabe o que é? Destruiram minha vida... vaguei sem rumo, odeio e só tenho um objetivo — achá-los e devolver-lhes em dobro o que me fizeram. Após muito tempo, indo de lá pra cá, encontrei um grupo que se dispôs ajudar-me a encontrá-los e então fazer justiça.

Um, escondido com outra máscara, já encontrei; faltam os outros... -E ao entrar para esse grupo, encontrar um de seus algozes, isso lhe fez, lhe faz bem? - Não. Encontro-me muito mal, não melhorei nada. - E por que não melhorou? Há um grupo que é amparado por eles, já identificou um, tem o objetivo de encontrar os outros... por que não melhorou? —Acho que é porque não consegui ainda reuni-los e vingarme... - Realmente, antes disso não seria melhor o senhor cuidar- se um pouco?... Veja suas roupas... olhe suas unhas... seu cabelo...

O que acha de primeiro procurar ficar melhor? Como isso é possível?! Só consigo pensar neles na vingança, no ódio... Tomei-me um trapo... — Veja, convido-o a ficar alguns dias aqui onde será acolhido com todo carinho, tratado.

Haverá pessoas experientes que, conhecendo seu drama, poderão juntos verificar detalhes, possibilidades. O senhor analisará, entenderá melhor os acontecimentos e com segurança fará escolhas... O que lhe parece?... Silêncio e após... -Estou cansado... muito cansado. Vou ficar e ver o que acontece.

Análise Note-se que o atendente não se deteve em querer convencê-lo de que os outros não haviam sido forçados a ficar. As perguntas do atendente levaram-no a sair de uma apreciação já fechada para ele. Forçavam-no a pensar, a refletir, a perceber outras razões ou possibilidades. Nada lhe foi oferecido tentando convencê-lo de que eles ficaram por decisão própria. Quando diz que se juntou a um grupo não há repreensão.

Apenas lhe é questionado: foi bom?, sentiu-se melhor...? Tão logo estampou-se alguma tranquilidade, habilmente o atendente voltou-se para ele... “e o senhor como está?”,... “como se sente?”... Reflita-se que esse senhor há muito deixou de pensar em si como pessoa com anseios e necessidades...

Apergunta do atendente o surpreende e choca ao mesmo tempo. Constata sua realidade... “Tomei-me um trapo...” O atendente não se aprofunda nessa constatação dele e carinhoso, firme, sem forçar, intimidar ou prometer, convida-o a momentos que busquem algum refazimento, alguma paz, nos quais muitas situações necessárias se aclararão dentro de inúmeras outras providências que certamente acontecerão. Observação Quando o atendente coloca-“veja suas roupas, suas unhas, etc.”, o fez talvez inspirado, mas principalmente por deduzir que alguém que se ocupa como ele em praticamente “caçar” os outros, não olha para si, o que é lógico - o Espírito está em fuga dele mesrao. Caso alguém não se sinta seguro nessa direção da abordagem, também funciona bem, simplesmente perguntar-e sua aparência, como está? - talvez, levasse mais algum tempo, mas chegaria ao mesmo final. Atendimento A Desencarnados -2- - Não vou lhe dar nada... Tira, tira as mãos...

Essas coisas são minhas... Não é porque é minha sobrinha que pode apropriar-se... sai... sai Fala com a atendente como se fosse ela sua sobrinha... Esta escuta, não pergunta que coisas são essas. O Espírito após expressar sua indignação pergunta à “sobrinha”: - Você entendeu bem?! Isso é meu! e silencia.

A atendente pede-lhe que a olhe bem e identifique-a como não sendo sua sobrinha. A surpresa é enorme. - E quem é você? -Atendo aqui as pessoas que chegam. O senhor estava aflito e eu aproximei-me. Posso ser útil? - Por que minha sobrinha não me ajuda? Por que nossos entes queridos somem? - Muitas vezes, não é que os familiares não querem.

Há situações em que não podem. Certamente o fato de o senhor estar aqui, deve-se a pensamentos deles desejando que o senhor esteja bem. Já pensou nessa hipótese? - Não. Não havia pensado, mas... será que há algo que eu possa fazer para que eles se aproximem e eu sinta que eles gostam de mim?... - Certamente; isso é possível sim, mas precisamos analisar em maior profundidade toda essa situação para buscar as respostas que deseja. - Como isso se fará? - Há companheiros nossos especializados nessa sua necessidade. Se quiser acompanhá-los, creio que achará as respostas. - Isso me interessa muito.

Vou com eles... estou muito interessado em entender o que se passou... ou melhor, o que se passa. Análise Tudo indica que esse senhor desconhecia haver desencarnado. Permanecendo no local onde vivera, vê a sobrinha mexer em suas coisas. Revoltando-se com o que qualificava desrespeito e invasão de sua privacidade, toma-se-lhe ideia fixa impedi-la. A atendente não se detém em querer explicar-lhe o porque da sobrinha estar com suas coisas, nem que ele morreu etc. etc.

Esse detalhe, importantíssimo por sinal, não era o ponto principal e sim a necessidade de agir no seu campo mental no sentido de que ele saísse daquilo que lhe estava sendo afrontoso. Isso aconteceu quando a atendente pediu-lhe que olhasse bem para ela. No momento em que identificou que a atendente não era sua sobrinha e sim outra pessoa, saiu do campo fechado no qual se mantinha e abriu-se ao diálogo, interessando-se em entender. Observação Não seria melhor, após ter saído o Espírito da situação fechada em que se achava, levá-lo a perceber que já havia desencarnado? Nesse caso, ele não ofereceu chance para que a conversa se encaminhasse para esse campo.

O atendente tirou-o de cerceamentos: - a guarda das coisas - a “sobrinha” e quando lhe respondeu que muitas vezes os familiares não podem. Surgiu aí já para ele, outro interesse “como sentir que eles gostam de mim?...” Nesse caso, o atendente não teve outra forma, senão encaminhá-lo para os amigos espirituais... Felizmente ele coloca: “estou muito interessado em entender o que se passou... Atendimento A Desencarnados -3- - O reino de Deus está próximo! O reino de Deus está próximo!

Preparai-vos! Arrependei-vos!... Repetia tais afirmações sem parar. Quando fez uma pausa a atendente pergunta: - Por que sinais o senhor percebe essa chegada? - São muitos, são muitos... a Terra verterá sangue... será pai contra filho... irmão contra irmão... fogo... fogo... - O senhor se lembra de uma passagem na qual Jesus disse que o reino de Deus está dentro de cada um de nós e que na medida em que cada um se pacificar esses vaticínios não acontecerão? Parece pcnsar...quer saber mais, faz perguntas.

A atendente responde sobre cada questionamento feito. Silêncio. Parece refletir. - Você é alguma missionária enviada por Deus? E posto a par que não, que somos apenas atendentes servindo neste posto. - Não. Você precisa sair e ir avisar as pessoas sobre esse equívoco em relação à mensagem cristã. -Veja... por ora meu trabalho é aqui.

Tranquilize-se: há outras equipes, outros grupos que fazem esse trabalho... Demonstra perceber a presença de amigos espirituais, uma vez que pergunta: -São eles? - Sim, eles e outros. - Mas, chamam-me para ir com eles... Posso?! - Sem dúvida! Seja feliz! Análise A atendente em nenhum momento acirrou o ânimo do Espírito tentando provar-lhe que seu entendimento era falso.

Se tivesse agido dessa forma, estabelecer-se-ia discussão que não levaria a nada. Delicadamente levou-o a lembrar-se de Jesus, de seus ensinamentos. Trouxe depois esse convite do Mestre para aplicação hoje, em cada um. Refletiu com ele, levou-o a pensar. Quando ele diz à atendente que saia e vá dizer isso aos outros, novo ensinamento - há outros que já realizam essa tarefa.

Ao dizer-“são eles?” - praticamente encerra-se o atendimento pois os amigos o convidam a partir. Atendimento A Desencarnados -4- — Assassinos! Assassinos! Arrancaram meus olhos! Veja como estou! Assassinos!

Assassinos! Desesperado, repete sem cessar a acusação acima. Agita- se, chora; não oferece oportunidade a que se fale nada. O atendente entra em prece, plasmando com seus pensamentos, fluidos balsamizantes a envolvê-lo. Aos poucos o Espírito vai se acalmando, só chorando baixinho, sentidamente.

O atendente tranquilo e amoroso, fala-lhe do lugar onde está e que tentasse perceber o tratamento que estava sendo feito em seus olhos. Depois de algum tempo em silêncio, como que tomando consciência de uma nova realidade comenta: — Já não ardem tanto... acho que estou sonhando... parece que estou vendo uma pequena claridade... — O senhor não está sonhando não... São os tratamentos que precisam prosseguir para que fique bom. Aceita ficar conosco?

— Sim, sim muito obrigado! Análise Se o atendente tivesse tentado interferir visando acalmá-lo ou tentando de algum modo demovê-lo do sofrimento, nada iria conseguir. A dor é muito grande, o sentimento de aviltamento e a impotência de nada poder fazer, só levariam a que ficasse mais revoltado. A prece, no sentido como foi feita, envolveu-o em fluidos anestesiantes e a voz calma e firme do atendente surge-lhe como âncora na qual ele se apega, principalmente quando sente menos dor e tem a impressão de ver algo. -5- - Epouco... é pouco... tem que sofrer... sofrer... precisa correr sangue... cortar a carne... Não é justo não acontecer o que me fez sofrer.

Cala a boca... cala a boca senão vou buscar a segunda filha. E prossegue não ouvindo, não dando atenção ou respondendo às tentativas do atendente em abordá-lo. - Minhas filhas... minhas três meninas e diante de mim, seu pai... é muita dor... e o chicote cortava... os bichos nasferidas e ele ria, ria... Nesse desespero prossegue cada vez mais aflito, vingativo em sofrimento atroz. O atendente, em oração é inspirado a dizer-lhe, em voz baixa, carinhoso, porém firme, com certeza: -0 senhor tem razão... sofreu muito, mas veja... olha quem chega... - É ele?! E ele?!

E agora, vou pegá-lo... Súbito silêncio. Chorando convulsivamente, apenas diz: -Filhas... minhas filhas... Análise Um caso difícil no qual o Espírito está totalmente monoideado, detido, centrado nos fatos sofridos. Tão logo o atendente notou tal fato, absteve-se de qualquer palavra.

Deixou-o falar, expressar a pungência de seu drama, enquanto envolvia-o em fluidos da prece ao mesmo tempo em que se abandonava para captar a direção que lhe viesse à mente. Essa confiança foi-lhe abertura necessária para convidá-lo a olharem determinada direção. Note que o atendente não lhe sugeriu ver as filhas, mas a certeza de que os amigos espirituais usariam da melhor providência, imprimiu-lhe na ternura firme da voz, energias que o levaram a olhar. Atendimento A Desencarnados Observação Outra hipótese seria, ao invés do atendente pedir-lhe que olhe ao redor, perguntar - O senhor gostaria de receber notícias de suas filhas? Podemos providenciar... -6- — Eles estão chegando... eles estão chegando... está ouvindo... são eles... eles vão perguntar... perguntar... não vou dizer... sou retardada... nãããooseii... nããoosei...

Expressa-se com a voz enrolada, a cabeça entortada para um lado, a boca torta em esgares. Passando algum tempo nessa atitude, volta a falar: — Por enquanto eles cansaram e se foram... mas voltarão... não aguento mais... Eu sei onde está escondido... meu irmão me mostrou e meu irmão..., meu irmão falou para eu não contar e toda vez que eles viessem me perguntar que eu me jogasse no chão, desmaiasse, puxasse a perna, batesse o braço e falasse enrolado quase cuspindo neles... e sabe... eu vi... eu vi quando deram um tiro na cabeça do meu irmão... e eu estou aqui e eles não desanimam... veja... eles voltam... Inesperadamente, o atendente diz-lhe: Preste atenção... não são eles que chegam... veja... quem está aqui? —E meu irmão... é meu irmão... ele veio me buscar...

Análise Situação de problemática muito parecida com a do caso n°5, porém, com detalhes interessantes da “proteção” do irmão em relação à irmã. Destaca-se a prudência em não esmiuçar querendo saber o que estava escondido, o envolvimento com os amigos espirituais ali presentes para que sentisse o melhor momento de intervir e o que dizer. -7- - Não quero conversar... não quero falar vá embora... quero ficar quieta aqui no meu canto... - E isso é bom para a senhora? - Ê... - Como é esse seu canto? - Você não está vendo?... é aqui no cantinho da parede... escuro... quietinho... ninguém me vê aqui... —E um bom esconderijo, não é? —Esconderijo? Por que esconderijo? - Não sei.

Só a senhora sabe do que ou de quem está fugindo... - Vá embora... vá embora... - Não será melhor procurar entender por que a senhora foi magoada a tal ponto que a levou a fechar-se assim? Pranto convulsivo no qual o atendente, em prece, constrói mentalmente quadros em que a acalenta, confortando-a, alisando- lhe os cabelos. Quando se acalma, retoma: - Ele me abandonou eeuo amava com todas as minhas forças... Ao abandonar-me, a família, quando soube, também me expulsou de casa. Procurei-o... nova desilusão... já tinha outrafamilia...

Desesperada, sozinha, matei-me... encontrei esse canto e aqui fico... Nada tem sentido para mim... O atendente pergunta-lhe como está se sentindo agora, depois de ter falado sobre sua dor, de sentir-se aconchegada amorosamente. - Estou bem, mas parece que há um buraco dentro de mim, ao mesmo tempo em que sinto medo... muito medo... - Medo? Em relação a quê? Medo do quê? - De ter que voltar para o meu canto...

Nesse ponto, o atendente, mentalmente envolvendo-a, pede-lhe que olhe ao redor, para ver se identifica companheiros que vieram buscá-la. Ela olha para um lado, para outro, fixa-se em determinada direção, ameaça um sorriso e, entre lágrimas que silenciosamente escorrem, apenas diz, demonstrando, porém, alguma alegria tranquila... — Você... você veio... Análise Note-se que o atendente não tentou provar-lhe que era bom conversar. Levou-a a analisar se tal atitude era boa pra ela, se lhe fazia bem, etc. etc.

O fato em si demonstrava que ela fugia de algo ou de si mesma. O atendente, porém, nada lhe diz; leva-a a interiorizar-se, a pôr-se frente a frente consigo e daí tudo transcorre na sequência que lhe aflora à mente. Quando diz que se matou, o atendente não interfere, não contesta, “não prega” e continua levando-a a analisar- se como se sente após falar de si. É nesse momento em que, num misto de avaliações, ela toma consciência -já não mais gostaria de voltar ao canto, mas para onde ir? Daí o medo manifestado e a prudência do atendente em simplesmente pedir-lhe que olhe ao redor e identifique alguém em que sinta poder confiar. -8- - Tirem-me desta caixa... olha... está cheia de bichos... eles andam em cima de mim.

Tira... tira... que nojo... que cheiro... Em aflição terrível, debate-se, faz gestos de como se tirasse algo de si, feia sem parar, sem oferecer brecha a qualquer reflexão. 0 atendente ouve-o por algum tempo, e como recomeçasse, é interrompido e com certa energia convidado a sair dali... —Venha, dê-me sua mão... vim para tirá-lo daqui... venha. Quando começa a demonstrar mais calma, o atendente pede-lhe que respire fundo, sinta o ar fresco. Acalma-se mais e mais e diz estar sentindo muito sono.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.