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Capítulo 2 de 21
Parte 2 de 3
Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 1
dos âugures romanos. Quer em particular, quer em públi co, predizem catâstrof es sociais, para a quais eles não s dispõem de remédios. Ou então, envolvem os seus orá culos sombrios em eufemismos prudentes. Sob tais aus pícios, a literatura e a arte perderam o sentido do divi no. Desacostumada dos horizontes eternos, uma grande parte da mocidade caiu naquilo que os seus novos mes tres chamam naturalismo, degradando o belo nome da Natureza. Aquilo que eles decoram com essa denomina ção é apenas a apologia dos instintos baixos, a lama do víci baixezas so o ou a pintura complacente das nossas ciais, em uma palavra, a negação sistemática da alma e da inteligência. Tendo perdido as asas, a pobre Psiqué geme e suspira estranhamente no íntimo daqueles mes mos que a insultam e negam. A força de materialismo, de positivismo, de ceticis mo, este fim de século chegou a uma falsa idéia de Ver dade e de Progresso. Os nossos cientistas que praticam o método experi mental de Bacon, para o estudo do universo visível, com precisão e resultados admiráveis, têm da V,erdade uma idéia exterior e material. Eles supõem que para nos apro ximarmos dela basta acumularmos um grande número de fatos. No seu domínio, eles têm razão. Mas o pior estã em que os nossos filósofos e os nossos moralistas aca baram pensando do mesmo modo. Sendo assim, as causas primeiras e os fins últimos permanecerão sempre impenetráveis ao espírito humano. Supondo que soubéssemos exatamente o que ocorre em todos os planetas do sistema solar ou soubéssemos que espécie de· habitantes povoa os satélites de Sírius e de diversas outras estrelas da Via Láctea. Certamente, S·eria maravilhoso sabermos tudo isso. Mas estaríamos melhor inf onnados sobre a totalidade do nosso conjunto este lar, não falando da nebulosa de Andrômeda e das nuvens de Magalhães? Daí resulta que, em nossa época, consi deramos o desenvolvimento da humanidade como a eter na marcha para uma verdade indefinida, indefinível, para sempre inacessível. Tal é a concepção da filosofia· positivista de Augusto Comte e Herbert Spencer, que tem prevalecido em nos sos dias.
Ora, para os sábios e teósofos do Oriente e da Gré cia, a Verdade era outra coisa· inteiramente diferente. Sem dúvida, eles sabiam ser impossível · adquiri-la e pos sui-Ia sem um conhecimento sumário do mundo físico. , acima de tudo, ela se Mas também compreendiam que encontra em nós mesmos, nos pri�cípios intelectuais, na vida espiritual da alma. Para eles, a alma era a única e divina realidade, a chave do universo. Concentrando a vontade, desenvolvendo as faculdades latentes, atingiam esse foco vivo, qu e denominamos Deus, cuja luz faz en tender os homens e os seres. O que nós chamamos o Progresso, ou seja, a história do mundo e dos homens, era a evolução, no tempo e no espaço, dessa Causa cen tral, dessa Finalidade derradeira. · Talvez suponham que esses teósofos fossem contemplativos puros, sonhadores estéreis, faquires no alto das suas colunas. Erro. O mun do não conheceu maiores homens de. ação, no sentido mais fecundo e mais amplo da palavra. Brilham . como estrelas de primeira grandeza no céu das almas. Cha mam-se Crisna, Buda, Zoroastro, Hermes, Moisés, Pitá goras, Jesus, e foram poderosos modeladores de espíri tos, formidáveis despertadores de almas,·. salutares orga nizadores de sociedades. Vivendo somente para a idéia, pela idéia, sabedores de que a morte pela Verdade é a aç,ão eficaz e suprema, sempre dispostos a morrer por ela, criaram as ciências e·· as religiões e, conseqüentemente, as letras e as artes, cujo sumo ainda nos alimenta e nos -faz viver. E o que está sendo produzido pelo positivismo e ceticismo em nossos dias? Uma geração seca, sem ideal, sem luz, sem fé que não crê nem na alma nem · em Deus, nem no , futuro da humc).nidade, nem nesta vida nem na outra, sem energia de vontade, duvidando dela n1esma e da liber dade humana. "Vós os julgareis pelos seus frutos", disse Jesus. Estas palavras do Mestre dos mestres tanto se aplicam às doutrinas como aos homens. Sim, . impõe-se este pen samento: ou a verdade será para sempre inacessível ao homem, ou já foi, em larga medida, possuída pelos maio res sábios, elos primeiros iniciados na terra. Ela se en p contra, portanto, na base de todas as religiões, nos livros
sagrados de todos os povos. Somente será necessário saber achá-la. Se considerarmos a história das religiões com um olhar esclarecido por esta verdade central, que somente a iniciação interior pode conceder, ficaremos ao mesmo tempo surpresos e maravilhados. O que então se descobre em nada se parece com o que a Igreja ensina, que limita a revelação ao Cristia nismo, admitindo-a somente em seu significado primá rio. Mas isso também se parece muito pouco com o que a ciência ensina, de um ponto de vista estritamente natu ralista, em nossa Universidade. Esta no entanto se colo ca. em um ponto de vista mais amplo, situando todas as religiões no mesmo plano e aplicando-lhes um único mé todo de investigação. Sua erudição é profunda, seu zelo admirável, mas ainda não se elevou ao ponto de vista do esoterismo comparado, que mostra a história das reli giões e da humanidade, sob um aspecto inteiramente novo. Dessa altura, vejamos o que se descortina. Todas as grandes r�ligiões têm um'a história ,exterior e uma histó ria interior, uma aparente, outra oculta. Por história exte rior, entendo os dogmas e os mitos ensinados publica mente, nos templos e nas escolas, reconhecidos no cul to e nas superstições populares. Por história interior, entendo ·a ciência profunda, a doutrina secreta a ação , oculta dos grandes iniciados, profetas, ref armadores, que criaram, sustentaram, propagaram essas mesmas reli giões. A primeira, a história oficial, a que se lê em toda parte, ocorre à luz do dia, mas nem por isso deixa de ser menos obscura, embrulhada, contraditória. A segun da, que eu chamo a tradição esotérica, a doutrina dos Mistérios, é muito difícil de decifrar. Ela se passa no interior dos templos, nas confrarias secretas. Seus dra mas mais impressionantes desenrolam-se no íntimo da alma dos grandes profetas que não transmitiram a ne- · , nhum pergaminho, a nenhum discípulo as suas crises supremas, os seus êxtases divinos. E necessário advinha .. -la. Mas, sendo vista, ela aparece luminosa, orgânica, sempr.e em harmonia com ela mesma. Bem se .poderia denominá-la a história da religião eterna e universal .. Nela se esconde o fundamento das coisas, . o centro da cons ciência humana, da qual a história mostra apenas o avesso complicado. Aí nós percebemos o ponto gerador da Religião e da Filosofia,. que se reúnem no outro extre mo da elipse pela ciênci integral. É o ponto correspon a dent,e às verdades transcendentes. Ai achamos a causa, a origem e o fim do prodigioso trabalho dos séculos. Essa é a única história de que me ocupei neste livro. Para a raça ariana, o germe e o núcleo estão nos Vedas. Sua primeira cristalização histórica aparece na doutrina trinitária· de Crisna, que confere ao bramanis mo seu podedo, à religião da tndia seu cunho . indelé vel. Buda (segundo a cronologia dos brâmanes, poste rior a Crisna 2.400 anos), apenas revela uma- outra face da doutrina oculta, a da metempsicose e a série de exis tências encadeadas pela lei do Carma. O budismo foi uma revolução democrâtica social, moral, adversa ao bra , manismo, mas o seu fundamento metafísico é o mesmo, mbora incompleto. e No Egito, a antigüidade da doutrina secreta é tam bém impressionante: suas tradições remontam a uma civilização muito anterior ao aparecimento da raça aria na na cena da história. Até hã pouco tempo, seria lícito admitir que o monismo trinitário, exposto nos livros gre gos de Hermes Trimegisto, fosse uma compilação da escola de Alexandria, sob a dupla influência judaico cristã e neo-platônica. Hoje, em face das descobertas da epigrafia egípcia, essa teoria não prevalece. A autenti cidade dos livros de Hermes, como documentos da anti ga sabedoria do Egito, decorre triunfante dos hieróglifos explicados. Não somente as inscrições das estelas de Te bas e de Menfis confirmam toda a cronologia de Mane ton, mas também demonstram que os padres de Amon-Ra professavam a alta metafísica, ensinada de outra manei ra às margens do Ganges. Aqui se pode dizer com o profeta hebraico que "a pedra fala e o muro solta um grito". Pois, semelhante ao "sol da meia noite" que bri lhava nos Mistérios de lsis e de Osíris, o pensamento de Hermes, a antiga doutrina do verbo solar, reacen deu-se nos túmulos dos reis e brilha até nos papiros do Livro dos Mortos, guardados pelas múmias dur�te 4.000 anos.
Na Grécia, o pensamento esotérico é, ao mesmo tempo, mais visível e mais velado do que em outros luga res. Mais visível porque se processa através de uma mitclogia humana, arrebatadora, a' correr como um san gue ambrosíaco nas veias daquela civilização e ressuma por todos os poros daqueles deúses, como perfume e como orvalho celeste. Por outro lado, o pensamento pro fundo e científico, que presidiu à concepção de todos es ses mitos, é muitas vezes mais difícil de penetrar, por causa da sua própria sedução e dos ornatos criados pelos poetas. Mas os sublimes princípios da teosofia dórica e da sabedoria délfica ,estão gravados em caracteres de ouro nos fragmentos órficos e na síntese pitagórica, mais do que na vulgarização dialética e um pouco fantasista. de Platão. Depois, a Escola de Alexandria apresenta as chaves para a sua interpretação, pois ela foi a primeira a publicar, em parte, e a comentar o significado dos mistérios, na época de decadência da religião grega e em face do Cristianismo. A tradição oculta de Israel procede do Egito, da Caldéia e da Pérs�a. Fo conservada sob formas singula i res e obscuras, sem prejuízo da profundeza e da exten são, na Kabbala (tradição oral), depois no Zohar e no Sepher Yézirah, atribuindo a SIMÃO BEN YocAI, até aos comentários de Maimônides. Estâ velada no Gênese, no simbolismo dos ··profetas, apresentando-se de maneira im pressionante no trabalho de F ABRE o'OLIVET sobre a lín gua hebraica restabelecida. Esse escritor procura re constituir a verdadeira cosmogonia de Moisés, segundo o método egípcio, conforme o tríplice sentido de cada o versículo e, quase de cada palavra nos dez primeir s ca pítulos do Gênese. Quanto ao esoterismo cristão, ele ref ulge nos Evan gelhos, sob a hiz das tradições essenianas e gnósticas. Emana da palavra de Cristo, das suas parábolas, do in terior daquel incomparável alma verdadeiramente divi a , na. O Evangelho de São João dá-nos as chaves do ensi no íntimo e superior de Jesus, com o significado e o alcance da sua promessa. Ai encontramos a .doutrina da Trindade e do Verbo divino, já ensinada clesde milênios, nos templos do Egito e da lndia, mas reforçada e perso- 'I nificada pelo príncipe dos iniciados, pelo maior entre os filhos de Deus. A aplicação do 1nétodo que denominei esoterismo comparado à história das religiões conduz-nos a um resultado de alta importância, que se resume assim: a antigüidade, a continuidade e a unidade essencial da doutrina esotérica. Devemos reconhecer que é um fato notável. Dele se conclui que os sâbios e profetas dos e mais div rsos tempos"� chegaram a conclusões idênticas, quanto ao fundo, embora diferentes na f arma, a respeito das verdades primeiras e últimas, utilizando-se do mes mo proce.sso, o da iniciação interior e · da meditação. Esses sábios foram os maiores benfeitores da huma nidade, os salvadores cuja força · redentora tirou os ho mens do abismo da natureza inferior e da negação . . Depois disso, não conviria dizer, segundo a expres . são de LEIBNIZ, que há uma espécie de filosofia eterna, perenis quoedam philosophia, constn:uindo o laço primor dial da ciência e da. religião assim como sua unidade? · A antiga teosofia, professada na lndia, no Egito, na Grécia, coristituia uma verdadeira enciclopédia, geral mente dividida em quatro categorias: 1 - A Teogonia, ciência dos princlpios absolutos, idêntic· à Ci�ncia dos Números, aplicada ao Universo, a ou matemáticas sagradas; 2 - A Cosmogonia, realização dos princípios eter nos no espaço e no tempo, ou involução do espírito na · matéria; períodos do mundo; 3 - A Psicologia: constituição do homem; evo lu · ç<2o· da alma através da cadeia das existências; 4 - A Ffsica, ciência dos reinos da natureza ter restre e" das suas propriedades. O método indutivo e o método experimental com binavam-se e se verificavam reciprocamente, nessas di versas ordens de ciências e cada uma delas correspondia a uma arte. Tomando-as em ordem inversa e começando pelas ciências físicas eram: 1 - uma Medicina especial, fundada no conheci· mento das propriedades ocultas dos minerais, dos vege
tais, dos animais. A Alquimia ou transmutação dos 1ne tais, desintegração e reintegração da matéria pelo agen te universal, arte praticada no antigo Egito, segundo OLIMPIODORO, denominada por ,ele Crisopéia e Argiropéia, f abric.ação do ouro e da prata. 2 - As Artes psicúrgicas correspondentes às for. ças da alma: magia e advinhação. 3 - A Genetlíaca celeste ou astrologia, ou arte de descobrir a relação entre os destinos dos povos ou dos indivídu pelas os e os . marcados movimentos do universo, · revoluções dos astros. 4 _;,. A Teurgia, arte suprema do mago, tão rara quanto perigosa e difícil, a de colocar a alma em rela ção consci,ente com as diferentes classes de espíritos e de agir sobre eles. Como se vê�· ciências e artes, tudo se incluía nessa teosofia, a qual derivava de um único princípio que de nominarei, em linguagem moderna, o monismo· intelec· tual, o espiritualismo evolutivo e transcendente. Pode-se formular da maneira seguinte os princípios essenciais da · · doutrina esotérica: O ,espírito é a única realidade. A matéria nada mais é do que sua expressão inferior, mutável, efê mera, seu dinamismo no tempo e no espaço. A criação é eterna e contínua como á vida. O microcosmo-homem é ternário por sua cons tituição (espírito, alma, corpo), a imagem e o espe lho do macrocosmo-universo (mundo divino, hu mano, natural) , que é por sua vez o órgão do Deus inefável, do Espírito absoluto, o qual é por sua na tureza: Pai, Mãe e Filho (essência, substância e vida). Eis porque o homem, imagem de· Deus, pode tomar-se seu verbo vivo. A gnose ou a mística ra cional de todos os tempos é a arte de encontrar em si, descobrindo as profundezas ocultas, Deus as acuidades latentes da consciência. f A alma humana, a individualidade é imortal por essência. Seu desenvolvimento ocorre em um plano s existência ascendente e descendente, através de alternativamente espirituais e corporais. A reencarnação é a lei da sua evolução. Alcan dessa lei, voltando çando a perfeição, ela se liberta· ao Espírito puro, a Deus, na plenitude da sua cons ciência. Assim como a alma se eleva acima da luta pela vida, quando ela adquire consciência da sua _ humanidade, do mesmo modo ela se eleva acima da lei da reencarnação, quando adquire consciên cia da sua divindade. São imensas as perspectivas que se abrem, no limiar da t,eosofia, sobretudo quando elas se comparam c m o � . estreito e desolador horizonte em· que o matenahsmo encerra o homem ou com os dados infantis e· inaceitáveis da teologia clerical. Percebendo-as pela primeira vez, mbramento, um arrepio do entamos um deslu experim Infinito. Os abismos do Inconsciente abrem-se em nós, mos tram-nos o abismo de onde saimos e as alturas verti ginosas às quais aspiramos. Maravilhados por essa imen sidade, mas receiosos da viagem a ser feita, desejaríamos não existir, apelamos para o Nirvana. Depois, reconhece nhei mos que essa fraqueza é apenas o cansaço do mari ro que estâ quase abandonando o remo, no meio da bor rasca. Alguém disse: "o homem nasceu no côncavo de se es uma vaga·, nada conhecend.o do vasto oceano que tende para diante e para trás". t verdade. Mas, a mi sti ca transcedente impele nosso barco sobre a crista de uma vaga. Lá, sempre batidos pela fúria da tormenta, compreendemos o seu ritmo grandioso. O olhar, medindo a abóbada celeste, repousa na calma do azul. Mas a surpresa aumenta, se voltamos às ciências modernas. V,e os que des rificam de BACON e DESCARTES, involuntariamente, elas tendem sem vacilação a voltar aos dados da antiga teosofia. Sem abandonar a hipótese · dos átomos, a física moderna, insensivelmente chegou o que é a identificar a idéia de matéria com a de força,' rumo ao dinamismo espiritualista. Pa um passo ra expli car a luz, o magnetismo, a eletricidade, os cientistas ti veram de admitir uma matéria sutil, absolutamente im ponderável, enchendo o espaço, penetrando todos os cor-
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.