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Capítulo 12 de 21

Os Grandes — parte 9 de 13

Os Grandes Iniciados – Ed. 1980 – Volume 1

Desde aquele dia, Sarasvati e Nisdali não deixa­ ran1 de acompanhar Crisna, no grupo dos seus discípu­ los. Inspiradas por ele, instruian1 as outras mulheres. Cansa reinava ainda em Madura. Desde o assassi­ nato do velho Vasista, ele não encontrava paz no palá­ cio. Realizara-se a prof e eia do anacoreta. O filho de Devac estava vivo. O rei o vira e ao seu olhar, sentira fundir-se a sua força e a sua realeza. Vivia receioso pela sua existência e tremia como folha seca, muitas vezes. Quando saia do palãcio, embora acompanhado de guar­ das, voltava-se para trás, bruscamente, receiando ver o moço. herói, terrível e radios'o, em pé, à porta. Nisumba passava os dias enrolada nas púrpuras do seu leito, pensando nos podere perdidos. Quando ela s soube que Crisna, profeta, estava pregando às margens do Ganges, persuadiu o rei a mandar · um bando de sol­ dados prendê-lo e trazerem-no amarrado. Quando Crisna viu os soldados, sorriu e disse-lhes: -Sei quem sois e porque vind.es até aqui. Estou pronto a r convosco até a presença do vosso rei. Mas, i antes, deixai-me falar do rei do céu, que é o meu rei. E falou-lhes de Mahadeva, do s-eu esplendor, das suas manifestações. Quando ele terminou de falar, os soldados entregaram as armas a Crisna, dizendo-lhe: -Nós não te levaremos preso ao nosso rei, mas te acompanharemos até onde está o teu rei. E ficaram com ele. Sabendo disso, Cansa amedron­ tou-se, mas Nisumba àconselhou-o: -Manda os maiorais do reino. Estes foram até a cidade onde Crisna estava pre­ gando. Estavam resolvidos a não ouvi-lo. Mas não pude­ ram deixar de dar-lhe atenção, quando viram o seu olhar fulgurante, o seu porte majestoso e o respeito da mul­ tidão que o rodeava. Crisna falou-lhes da escravidão in­ terior daqueles que praticam o mal e da liberdade da­ queles que fazem o bem. Os guerreiros, surpresos, senti­ ram-se possuídos de alegria, tendo a impressão . de esta­ rem livres de um grande peso. E disseram-lhe: -És de fato, um grande mago. Nós tínhamos jura­ do levar-te até o rei, amarrado em correntes de ferro. Mas, não podemos fazer isso, pois tu nos livraste das nossas cadeias.

para o rei Cansa a quem disseram: Voltaram -Não pudemos trazer o homem. É um grande pro­ feta. Nada tens a temer dele. Então o rei triplicou o número dos guardas e man­ · d dou colocar correntes de ferro em todas as portas o palácio. Mas, um dia, ele ouviu gritos de alegria, um grande ruído na cidade, aclamações de alegria e de triun­ fo. Os guardas foram dizer-lhe: -Crisna está entrando na cidade. O povo está ar­ rombando as portas, quebrando as cadeias ·de ferro. Cansa tentou fugir, mas os guardas não deixaram. De fato, Crisna estava entrando na cidade, acon1pa­ nhado dos discípulos. Madura estava ornada de estan­ dartes e o povo parecia uma enorme vaga humana, agi­ tada pelo vento. Choviam sobre eles flores e grinaldas de flores. Todos o aclamavam. Diante dos templos, os brâ­ manes permaneciam agrupados, sob as bananeiras, para saudar o filho de Devac, o vencedor da serpente, o herói do monte Meru, sobretudo o profeta de Visnú. Seguido de um brilhante cortejo, saudado como libertador, pelo povo e pelos guerreiros, Crisna vai até a presença do rei e da rainha. Crisna declara a Cansa: - Reinaste pela violência e pelo mal. Mereces mil mortes, pois mataste o velho Vasista. No entanto, não morrerás logo. Quero demonstrar ao mundo que não ven­ inimigos, matando-os, mas perdoando-os. cemos os· Brada o rei Cansa: -Feiticeiro maldito, tu me roubaste a coroa e o reino! Mata-me! -Falas como um insensato! Se morreres na situa­ ção em que te encontras, louco, empedernido, criminoso, estarias, irrevogavelmente, perdido na outra vida! Mas se começares a admitir a tua insensatez, arrependendo-te, teu castigo será menor na outra vida. Nisumba sussurra-lhe ao ouvido: -Idiota! Aproveita-te da loucura do orgulho dele. Enquanto estamos vivendo há esperança de vingança.

Crisna compreendeu ·o que ela cochichara no ouvido do rei, embora não tivesse ouvido as palavras. Lançou­ -lhe severo e piedoso olhar, dizendo-lhe: Desgraçada! Sempre teu veneno! Feiticeira cor­ rutora, só tens veneno de serpente em teu coração. Eli­ mina-o ou eu serei obrigado um dia a esmagar-te a ca­ beça! Agora, em companhia do rei, iráS' para um lugar de penitência, a fim de · expiares os teus crimes, sob a vigilância dos brâmanes. Depois desses acontecimentos, apoiado pelos gran­ des do reino e pelo povo, Crisna sagrou Arjuna, seu dis­ .cípulo mais ilustre, descendente da raça solar, rei de Madura. Conferiu a autoridade suprema aos brâmanes, feitos conselheiros dos reis. Ele permaneceu como che­ fe dos anacoretas, que formavam o conselho superior dos brâmanes. Para evitar perseguições a ess·e conselho, man­ dou construir para o mesmo e ele, Crisna, uma cidade, rodeada de alta muralha e com habitantes escolhidos. Essa cidade chamava-se Duarca e no seu centro havia um templ importante es­ o para os iniciados, cuja parte mais tava oculta no sub-solo. (-iü) J\,las quando os reis do culto lunar souberam que havia ocupado o trono de Madura um monarca do culto solar, o que tornava os brâmanes senhores da tndia, · for­ maram uma aliança poderosa para o destronarem. Por .1io No Visnú-Purana, liv. V, págs. XXII e X.XX, lê-se: "Crisna resolveu construir uma cidadela onde a tribo de Iadu encontraria refúgio seguro. Até as mulheres podia'?n defendê-la. A cidade de Duarca · era protegida por muralhas elevadas, embelezada por seus jardins e reservatórios e tão esplêndida quanto Amaravati, a cida­ de de Indra". "Naquela · cidade, ele plantou a árvore "parijata" cujo odor suave embalsama a terra, desde longe. Todos Rqueles que se apro­ ximavam dela podiam lembrar a existência anterior". Essa árvore é evidentemente o simbolo da ciência divina e da iniciação, a mesma que enco tramos na tradição caldaica e que � de lá passou ao Gênese hebraico. Depois da morte e Crisna, a cidade sub ergiu, a árvore u­ ? � I? biu para o céu, mas ficou o templo. Se tudo 1ssn em um sentido � histórico, isso quer dizer, para quem conhece a lmguagem ultra­ -simbólica e prudente dos hindus que um tirano qualquer mandou arrasar a cidade e que a iniciação tornou-se cada vez ma;s se­ creta.

sua vez, Arjuna reuniu consigo todos os rei do culto � solar, de raça branca ariana, védica. No interior do seu templo de Duarca, Crisna vigiava-os, dirigia-os. Afinal encontraram-se os dois exércitos para uma batalha de�isiva. O encontro estava iminente. Arjuna sen­ tia-se desanimado, perturbado, pois o seu mestre estava .ausente. Mas, um dia pela manhã, Crisna apareceu na tenda do rei seu discípulo e censurou-o: - Por que não começas ainda o combate, que vai decidir se os filhos do sol ou os filhos da lua vão domi­ nar a terra? Desculpou-se Arjuna, dizendo: -Não podia fazê;.lo sem ti. Olha os dois imensos exércitos, essa multidão de homens que vão se matar uns aos outros. Na colina onde estavam, o senhor dos espíritos e o rei de Madura olharam, alguns instantes, os dois imen­ sos exércitos, dispostos em ordem de batalha, um de­ fronte do outro. Brilhavam as cotas de malha dourada dos chefes. Milhares de infantes, de cavalos e de elefan­ tes aguardavam o sinal de combate. Naquele instante, o chefe do exército inimigo, o mais velho dos Curavas, soprou na sua grande concha marinha, uma concha cujo som imitava o rugido do leão. No mesmo momento, no vasto campo de batalha, ouviram-se rinchos de cavalos, um confuso ruído de armas, de rufos de tambores e sons de trombetas. Arjuna tinha de subir ao seu carro, puxado por cavalos brancos e soprar em sua concha cor azul celeste, para dar aos filhos do sol o sinal de avan­ çar. Mas o rei desanima e compadecido exclama: -Ao ver essa multidão que vai lutar, sinto que me caem os braços. Minha boca ,estâ ressequida e meu cor­ po trêmulo. Meus cabelos arrepiam-se. Minha pele estâ quente. Meu espírito turbado. - . Vejo maus prenúncios. Nenhum benefício poderâ vir deste massacre. Que fare­ mos dos reinos, dos prazeres, da vida? Aqueles a quem desejamos a posse desses reinos, dos prazeres, das ale­ grias, lá estão dispostos à luta, esquecendo a vida e os bens. Preceptores, pais, filhos, avós, tios, netos, paren-

tes, vão estrangular-se uns aos outros. Se eu não tenho v.ontade de rriatá-los para reina.r nos três mundos, muito estou disp sto a combater para menos o reinar na terra. Que prazer posso sentir, matando meus inhnigos? Mor­ tos os maus, o pecado recairá sobre nós. Disse-lhe então Crisna: -Como te deixaste possuir deste medo indigno do

sábio, causador de infâmia, e que nos expulsa do céu'! Deixa de ser efen1inado. De pé! Mas Arjuna, abatido pelo desânimo, senta-se e diz: -Eu não combaterei! Então, sorrindo levemente, replicou Crisna;. -Chamei-te rei do sono porque teu espírito está se1npre vigilante. Mas, agora, teu espírito adormeceu e· teu corp dominou tua alma. Lamentas aqueles . pelos o quais não devias te lamentar. Tuas palavras carecem de senso. Os homens instruídos não lamentam, nem os vi­ vos, nem os mortos. Eu, tu, esses comandantes de regi­ mentos, temos sempre existido, jamais deixaremos de existir. Assim como nestes corpos, a alma experimenta a infância, a mocidade, a velhice, da mesma maneira ela sentirâ infância, mocidade e velhice em outros corpos. U1n homem co1n dfscernimento não se perturba por isso. Filho de Bârata, . suporta o desgosto, suporta o prazer com ânimo igual. Aqueles que vêem a essência real, percebem à eterna verdade que domina a alma e o corpo. Aqueles que são incólumes ao desgosto, ao pra­ zer, alcançam a imortalidade. Fica pois sabendo que aqui­ lo que atravessa, todas as coisas está acima da destrui­ ção. Ninguém pode destruir o Indestrutível!. Sabes que todos estes corpos duram pouco. Mas os videntes sa­ bem que é eterna, indestrutível, infinita a alma encarna­ da. Por isso vai combater, descendente de Bárata! En.ga-. nam-se também aqueles que supõem que a alma pode matar ou ser morta. Ela nem nasce, nem morre, não po­ de perder o ser que ela sempre foi.· Assim como uma pessoa deixa velhas roupas para vestir novas, assim a alma abandona o corpo· para assumir outros. Nem a es­ pada ·corta-a, nem o fogo queima-a, nem a água molha-a, nem o ar seca-a. Ela é impermeável, incombustível. Du­ rável, firme, eterna, ela atravessa tudo. Não te inquietes.

com a ento, nem nascim portanto, Arjuna, nem com o morte. Para quem nasce a morte é certa, para quem mor­ re também é certo o nascimento. Cumpre o teu dever do que melhor sem. ·nada hesitaçã o. Para um guerreiro, que entram iros um combat justo. os guerre e São felizes o céu. aberta para em um combate em uma porta como , abando­ justa Se não quise nesta batalha res combater um pecado. nando o teu cometerás dever e tua fama, E para ãmia. Todos inf os seres falarão da tua eterna do que a quem é pior tiver sido honrado, a infâmia morte! sentiu-se mestre, Arjuna Ouvin palavras do do essas também . veias e o sangue nas envergon agitar-se-lhe hado, de combate. e dá o sinal a co,rage Salta para o carro m. do campo de· e sai Então Crisna despede-se do discípulo dos filhos do Sol. batalha, certo da vitória para impor sua religião aos Crisna compreendera que mais difícil do que vencidos, seria necessária uma vitória O santo Vasista morrera, traspassado por a das armas. uma flecha, por ter revelado a verdade suprema a Cris­ na. Também Crisna devia morrer, voluntariamente, gol­ peado pelo inimigo mortal, a fim de implantar no cora­ ção dos adversários a fé que ele pregara aos seus discí­ pulos e ao mundo. Ele sabia que o antigo rei de Madu­ ra, em vez de fazer penitência, refugiara-se na casa do sogro Calaieni, o rei das serpentes. O seu rancor, sempre estimulado por Nisumba, induzira-o a manter espiões que espreitavam o momento propício para o inutilizarem . . Crisna sabia que sua missão terminara, tendo de findar pela suprema prova do sacrifício. Deixou portanto de evitar e de paralisar o desafeto pelo poder da vontade. Ele sabia que o· golpe o atingiria, o golpe há muito tem­ po meditado na sombra, se ele deixasse de usar sua von­ tade. Mas, o filho de Devac queria morrer longe dos ho­ mens, nas solidões do Himavant. Ali se sentiria mais perto de sua mãe radiosa, do velho sublime e do sol de Mahadeva. Caminhou para uma ermida em um local selvático e desolado, próxima dos altos cimos do Himavant. Nenhum dos seus discípulos percebera quais as suas intenções. Somente Sarasvati e Nisdali tinham sentido algo, pelo

s olhar do mestre, graças à intuição que hã nas mulher � e no amor. Quando Sarasvati percebeu que ele quena morrer, atirou-se-lhe aos pés e gritou: -Mestre! Não nos abandones! Nisdali, olhando-o, apenas lhe disse: -Sei aonde vais! Nós te amamos muito. Deixa-nos acompanhar-te. Disse-lhes Crisna: -No meu céu, nada se recusará ao amor! \'enham! Depois de longa viagem, o profeta e as mulheres chegaram a um grupo de cabanas, em torno de um cedro sem folhagem, no alto de um monte requeimado e pe­ dregoso. Lã viviam alguns eremitas, vestidos de cascas · árvores, cabelos compridos, torcidos em caçhos, bar­ de ba espessa, mal tratada, membros ressequidos pelo ven­ to e pelo calor do sol. Alguns tinham apenàs a pele so­ bre o esqueleto. Ao ver aquele local tão triste, exclamou Sarasvati: -A terra está long e o . céu mudo. Por que nos e trouxeste aqui, Mestre? Observou-lhe Crisna: -Reza! Se queres que a terra se aproxime e o céu te fale. Respondeu Nisdali: -Em tua companhia, estamos sempre no céu. Por que o céu nos quer abandonar? Falou então Crisna: -O profeta tem de morrer, atravessa.do por uma seta, a fim de que o mundo acredite em sua palavra. -Explica-nos este mistério - pediram as duas. -Depois da minha morte, vocês entenderão. Durante sete dias, os três estiveram orando e f azen­ do abluções. Muitas vezes a fisionomia de Crisna trans­ figurava-se e parecia irradiar luz. Depois daquela sema­ na, as duas mulheres viram alguns arqueiros caminhando para a ermida. Advertiu Sarasvati:

Mestre, de­ -Os arqueiro de Cansa procuram-te. s fende-te! Ajoelhado junto do cedro, Crisna ajoelhado não in­ terrompeu sua· oração. Chegaram. os arqueiros, homens rudes com as faces amarelas e negras. Quando viram o profeta, detiveram-se. Tentaram interromper o seu êxta­ se dirigindo-lhe palavras injuriosas. Crisna não se mo­ , veu. Agarraram.:no então, amarraram-no ao tronco do ce­ dro. Crisna parecia estar sonhando. Depois, os homens recuaram um tanto e dispararam as flechas. Ao ser tras­ passado pela primeira, Crisna ensangüentado, grita: -Vasista! Os filhos do sol estão vitoriosos! Ao ser ferido pela segunda, ele exclama: . -Mãe radias.a! Entrem comigo no céu, aqueJes que me amem! Quando o traspassou a terceira flecha, ele pronunciou apenas uma palavra: -Mahadeva! E depois, murmurando o nome de Brahma, expirou. O sol já baixara no horizonte: Surgiu uma ventania, desceu do Himavant uma tempestade de neve. O céu es­ cureceu. Varreu as montanhas um turbilhão negro. Os soldados aterrados fugiram.· As mulheres desmaiaram. O corpo de Crisna foi queimado por seus discípulos na ci­ dade de Duarca. Sarasvati e Nisdali atiraram-se à foguei­ ra, acompanhando o mestre. A multidão supôs ter visto um corpo luminoso levando consigo as duas esposas. Des­ de então, a tndia adotou o culto de Visnú, conciliando os cultos lunares na religião de Brahma.

O esplendor do Verbo Solar Essa é a legenda de Crisna, reconstituíçla e situada em perspectiva. histórica. Ela esclarece en1bora se as origens do· bramanismo, ­ ja impossível verificar, mediante documentos positivos, se por trás do mito de Crisna houve algum personagem real. · O tríplice véu á encobrir a origem das religiões é mais espesso na tndia, do que em outras nações. Os brâ­ ma nes, senhores absolutos da sociedade hindu, únicos de­ tentores das suas tradições, remoderam-nas no decurso dos tempos. No entanto é justo observar que não se des- . locou a base dessas tradições. Não saberíamos explicar. à maneira da maioria dos sábios europeus, uma figura como a de Crisna, dizendo: é uma estória de ama de leite, baseada em um mito solar, tecida com uma fanta­ sia filosófica. Ora, pensamos nós, não é assim que se institui uma religião, que permanece há milênios, que sus­ cita. uma poesia maravilhosa, várias grandes filosofias, é

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