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Capítulo 5 de 21
Parte 5 de 20
A Alma nos Animais · Ernesto Bozzano
toda uma classe de fenômenos de “bilocação” ), nada impede de admitirmos isso para uma parte das manifestações que são consideradas telepático-alucinatórias. Caso 14 (Visual) O Rev. Ellis G. Roberts enviou à revista Light (1921, pág. 241) o relato de um incidente paranormal que aconteceu com sua filha e que foi redigido por ela nos seguintes termos: “Tinha um cão fox-terrier irlandês chamado “Paddy”, ao qual eu era muito apegada; ele gostava muito de mim também. Uma manhã Paddy não apareceu na hora do café da manhã; não me preocupei, pois ele tinha o costume de ir passear sozinho, embora quase sempre ele viesse regularmente na hora das refeições. Por volta das nova horas, eu estava na cozinha, que desemboca em uma pequena área de onde, por uma outra porta, passamos para a despensa. A porta exterior estava aberta, e da posição que estava eu podia ver o jardim. Era uma manhã ensolarada, com o chão coberto de neve. Olhando para fora, vi Paddy chegar saltitando na neve, atravessar o jardim, entrar na área e desaparecer na despensa. Eu o segui, mas não pude encontrá-lo em nenhum lugar.
Espantada e perplexa, entrei na cozinha, onde havia várias pessoas que, não tendo visto nada, queriam me convencer que eu tinha confundido Paddy com um outro cão dálmata, de pelo curto, muito maior que ele e bem diferente de um fox-terrier irlandês. Este cachorro vivia em casa também. Não levei em conta essa tentativa de explicação porque ela era absurda: tinha visto bem sobre o fundo brilhante da neve meu cãozinho, e notado o contraste do seu pelo com a brancura da neve. Então, novamente fui à sua procura por toda parte, mas inutilmente: Paddy não se encontrava em casa. Uma hora e meia depois, eu o vi chegar em condições lamentáveis: ele tinha pedaços de pele arrancados do peito e das pernas, e quatro ou cinco dentes faltavam na sua boca. Logicamente o pobrezinho foi assolado e castigado sem dó, mas nunca conseguimos descobrir o que aconteceu com o cão. Ele morreu poucos meses depois; não acredito, no entanto, que sua morte tenha sido causada pelos ferimentos.”
O Rev. Ellis G. Roberts completa o relato com algumas linhas suplementares: “Minha filha nunca teve alucinações visuais; parece-me que a única explicação racional para o incidente seria reconhecê-lo como sendo um exemplo de telepatia entre um cachorro em apuros e sua dona, e que, necessariamente, o pensamento do cão se dirigia para ela devido à necessidade que ele tinha de ser socorrido.” As conclusões do Rev. Ellis G. Roberts parecem consistentes e sólidas; assim sendo, é inútil nos focalizarmos neste ponto. É mais útil observarmos mais uma vez que as condições em que o incidente se realizou corroboram para confirmar a regra à qual aludimos há pouco, ou seja, que as manifestações telepáticas se produzem geralmente a partir da “via de menor resistência” que elas encontram nas faculdades sensoriais do percipiente. Se não fosse assim, quando um agente telepático se encontra numa situação dramática e volta seu pensamento para um protetor distante, este último deveria invariavelmente perceber a imagem do agente e de acordo com a situação na qual ele se encontra.
De fato, a agitação produzida pela situação só pode ter invadido momentaneamente o campo inteiro do consciente do agente; assim sendo, é provável que não possa existir outra idéia a não ser aquela que o domina no momento da transmissão telepática. Ora, ao contrário, constatamos na prática que esta correspondência na representação verídica dos eventos se realiza raramente nas transmissões telepáticas; como ela não se realizou no caso da filha do Rev. Roberts, onde vemos que um cãozinho assolado e castigado, aparentemente voltando seu pensamento para sua protetora distante, determina nesta última uma manifestação telepática, após o que, a moça, ao invés de perceber a situação em que ele se encontra, o vê entrar na casa trotando calmamente, atravessando o jardim e penetrando na despensa, isto é, ela visualiza a maneira costumeira de uma atitude cotidiana.
Ora, esta diferença entre o pensamento do agente e a visualização do percipiente só pode ser explicada a partir da lei psíquica que já indicamos, segundo a qual todo e qualquer impulso telepático está sujeito a se transformar, no percipiente, na visualização do agente que lhe é mais familiar. Destacarei, por fim, que quando uma visualização telepática reproduz fielmente a situação na qual se encontra o agente, significa que as condições de relação psíquica entre o agente e o percipiente são tão harmônicas que não há entre eles empecilhos para a comunicação telepática. Caso 15 (Visual) Foi publicado na revista Light (1918, pág. 189) pela senhora Joy Snell, uma sensitiva-clarividente bastante conhecida, autora do livro The Ministry of the Angels, onde ela relata algumas das visões mais importantes obtidas ao longo do exercício de sua profissão (enfermeira diplomada), como as aparições de defuntos no leito de morte. Embora o relato seja longo e a primeira parte não remeta imediatamente ao assunto do qual tratamos, permitome transcrevê-lo por inteiro, tendo em vista o interesse psicológico contido nele.
A senhora Joy Snell assim se expressa: “Prince é um cão-lobo de raça russa. Embora ele não esteja mais entre os vivos há muitos anos, continuo a falar dele no momento presente porque, para mim, ele ainda está vivo; tenho certeza disso, pois ele me visita freqüentemente, mostrando que está ligado a mim como no passado. Quando aparece, ele me olha afetuosamente e coloca sua cabeça em meus joelhos, balançando alegremente o rabo... Aconteceume de encontrar pessoas que, por sua vez, perceberam Prince ao meu lado e deram uma descrição minuciosa, sem nunca tê-lo conhecido em vida. Eram pessoas que possuíam faculdades psíquicas análogas às minhas e graças às quais aquilo que normalmente não é visível pode se tornar de uma maneira excepcional. Quando Prince estava ainda neste mundo, sua principal ocupação consistia em me acompanhar em passeios a pé ou de carro. Numa tarde de verão, entrei em casa com o cão após um longo passeio.
Duas horas mais tarde, Andy, empregado da cocheira, veio me prevenir que o canil de Prince estava vazio e que não encontrava o cão em nenhum lugar. Prince nunca tinha infringido seus costumes dessa maneira; por isso, Andy se mostrou preocupada e aconselhou imediatamente a busca do cão. Mas eis que Prince aparece, saltando pelas cercas, e vem em nossa direção balançando o rabo. Após ter manifestado sua satisfação por não ter sido punido, ele me pegou gentilmente pela saia e arrastou-me até a porta. Ao chegar ali, ele levantou-se sobre as patas traseiras e, apoiando as patas dianteiras na porta, começou a me olhar e a latir. Como repetia muitas vezes a mesma cena, entendi que o cão queria que o seguíssemos para algum lugar; o empregado decidiu obedecer-lhe. Ele abriu a porta chamando Prince, mas este me puxou mais uma vez pela saia, dando-me a entender que ele queria que eu também fosse. Eram nove horas da noite e nós três nos colocamos em marcha.
Prince seguiu pela estrada por algum tempo e entrou nos pastos, correndo sempre na nossa frente; ele parou uns 50 metros adiante para nos aguardar. E assim nos guiou por duas milhas. Chegamos finalmente a uma vala rodeada por arbustos, uma abertura na qual havia um amontoado de raízes. Ali o cachorro parou, esperando que chegássemos, ao mesmo tempo em que nos olhava por cima dos ombros com uma estranha expressão de ternura. Ele tinha evidentemente chegado ao fim, onde devia existir alguma coisa misteriosa que queria nos mostrar. No entanto, não conseguia explicar a mim mesma porque ele não tinha anunciado, latindo, nossa chegada. Mas assim que cheguei ao local, compreendi o motivo de seu silêncio. Por entre as raízes estava estendida, profundamente adormecida, uma garotinha de três anos aproximadamente! Se tivesse latido, ele a teria assustado e a acordado. Agora, eis a maneira pela qual conseguiram me explicar o fato estranho de uma garotinha abandonada numa vala.
Ela tinha brincado o dia inteiro nos prados, com um grupo numeroso de crianças, enquanto os camponeses cortavam a grama; os camponeses tinham voltado para suas charretes, sem perceber que, entre todas aquelas crianças, faltava uma. Levei a garotinha para seus pais, os quais me agradeceram chorando e me abençoando. Este gesto magnífico de Prince fez com que ele ficasse famoso em toda a região. Enquanto isso, eu me perguntava, perplexa: “Como Prince pôde encontrar aquela garotinha?” As circunstâncias pelas quais a descoberta aconteceu mostram nitidamente que não podia se tratar do acaso, e por esse motivo não conseguia me dar conta do acontecido. Mas após alguns anos, não é mais incompreensível: sei, agora, que os cães – ou pelo menos alguns – são dotados de faculdades psíquicas e podem perceber os fantasmas dos mortos. A meu ver, na noite em que Prince foi à procura da garotinha perdida, ele foi levado a agir assim graças a uma Entidade que só ele percebeu, como acontece nos casos de pessoas dotadas de faculdades clarividentes.
Tal Entidade deve ter guiado o cão até a vala onde dormia a criança: a inteligência e o instinto generoso do animal fizeram o resto. O pobre Prince teve uma morte violenta, mas provavelmente sem sofrimento. Andy, o empregado, tendo de ir até a estação da estrada de ferro, tinha levado o cão para um passeio; Prince foi atropelado e esmagado por um trem que chegava. Naquele momento, eu lia perto da lareira; ao olhar por cima do livro, vi Prince estendido sobre o capacho. Gritei a mim mesma: “Já para cá, Prince!” Ao dizer isto, estendi a mão como que para acariciá-lo, mas a mão não encontrou resistência; o cão tinha desaparecido. Obviamente, concluí que aquilo tinha sido fruto de minha imaginação. Porém, uma hora depois, Andy chegou trazendo a triste notícia. Quando Prince apareceu para mim, era mais ou menos o momento em que tinha sido despedaçado pelo trem.”
A parte inicial do relato da senhora Joy Snell é interessante do ponto de vista da psicologia animal, já que ele apresenta um exemplo maravilhoso de inteligência e dos sentimentos generosos que possuem alguns espécimes da raça canina. Assim como o acontecimento tão bem notado pela senhora Snell, parece-me impossível explicar o fato da descoberta da garotinha perdida a partir da hipótese do acaso, uma vez que o cão tinha deixado, de propósito e contra todos os seus costumes, seu canil para ir procurá-la, como se tivesse agido por um impulso exterior que, nesse caso, só poderia ser de origem paranormal. Quanto à afirmação da senhora Snell, que ela continuava percebendo freqüentemente o fantasma do cão falecido e que diversas pessoas o tinham notado também, trata-se de uma afirmação que não podemos considerar uma prova, tendo em vista a natureza positivamente alucinatória de várias formas análogas de visões subjetivas e a impossibilidade de separarmos as formas alucinatórias daquelas que não o são.
Destaco, todavia, que, em casos como este, encontramos uma circunstância colateral que militaria a favor da realidade objetiva das aparições em questão; ela consiste no fato de que a mesma clarividente esteve sujeita a múltiplas formas de aparição subjetiva, da qual pudemos provar a natureza positivamente verídica, tais como, por exemplo, as inúmeras aparições de almas de moribundos no leito de morte que foram percebidas ao longo do exercício de sua profissão de enfermeira diplomada. Caso 16 (Visual-auditivo) Eu o extraio da Revue Scientifique et Morale du Spiritisme 10 (1920, pág. 351). A senhora Camier conta o fato que lhe aconteceu: “Tinha eu uma linda gatinha angorá, de longo pelo branco com pintas cinzas, olhos verdes rodeados de preto. Ela tinha uma índole meiga e afetuosa e causava admiração em todo mundo; porém, tinha um defeito: todas as noites ela tentava escapar para ir passear. A varanda da casa onde morava era dividida em duas por uma cerca, e ela escapava saltando por cima dela. Numa noite, cheguei à varanda bem a tempo de pegá-la, quando ela se dispunha a pular pela cerca.
Mal a tinha segurado em meus braços quando tive a surpresa de perceber outro gato angorá, em todos os aspectos idêntico à minha, que saltava por cima da cerca. Naquele tempo, não sabia nada a respeito da doutrina espírita; eu olhei do outro lado da cerca para entender aquele acontecimento estranho, consciente de que em todo o quarteirão não existia nenhuma gata igual à minha; no entanto, nada vi do outro lado. Mais tarde, tendo me iniciado na doutrina espírita, entendi que, naquele momento, minha gata, completamente invadida pela idéia de fugir, tinha liberado seu perispírito com tamanha intensidade que ela pôde parecer real. Após algum tempo, a pobrezinha ficou doente; tive de recorrer aos cuidados de um veterinário. Na noite em que ela morreu, senti – realmente senti – minha gata se segurar com suas unhas na coberta e subir em sua caminha, assim como ela fazia costumeiramente; a impressão foi tão real que estendi a mão para me certificar de que não estava enganada.
No dia seguinte pela manhã, fui ao veterinário, onde me contaram que a gata tinha falecido durante a noite; seu último sentimento tinha sido para mim.” Dos dois fenômenos de telepatia animal exibidos no relato da senhora Camier, o segundo não difere em nada daqueles que transcrevemos, enquanto que o primeiro é de natureza excepcional e interessante. Ignorando a explicação fantasista que dá o percipiente, podemos dizer, no entanto, que o incidente constitui um exemplo bastante característico de comunicação telepática entre o animal e o homem. Ele nos mostra o fenômeno de uma gata surpreendida por sua dona em flagrante delito de fuga; após uma brusca interrupção das intenções da culpada, a idéia que invade sua mente se transmite por telepatia à sua dona, a qual percebe uma gata alucinatória saltando por cima da cerca, idêntica à imagem-pensamento existente na mente da gata verdadeira.
O caso é curioso e instrutivo, tanto mais devido ao fato de que o agente se encontrava nos braços da percipiente. * * * Omito por concisão sete outros casos análogos, para os quais remeto o leitor aos livros e revistas que seguem: • Caso 17 (Visual) – Phantasms of the Living, vol. II, pág. 446; • Caso 18 (Visual-coletivo) – Journal of the S. P. R., vol. VI, pág. 375; • Caso 19 (Visual-coletivo) – Judge Edmonds, Letters and Tracts, pág. 336. • Caso 20 (Visual) – Rivista di Studi Psichici, 1900, pág. 350. • Caso 21 (Visual-coletivo) – Proceedings of the S. P. R., vol. X, pág. 181. • Caso 22 (Visual-tátil-coletivo) – Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, 1911, pág. 723.
• Caso 23 (Visual) – Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, 1920, pág. 25. Segunda categoria
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