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Capítulo 4 de 21

Parte 4 de 20

A Alma nos Animais · Ernesto Bozzano

d’Espérance, publicado pela revista Light, datado de 22 de outubro de 1904, pág. 511: “... Uma só vez aconteceu comigo algo parecido com uma prova pessoal da presença em espírito de um animal que tinha conhecido em vida. Tratava-se de uma pequena foxterrier, a favorita de minha família, a qual, após a partida de seu dono, tinha sido dada a um de seus admiradores que morava a uns 700 quilômetros de nós. Um ano depois, quando entrava pela manhã na copa, vi, para minha grande surpresa, a pequena Morna correndo e saltitando ao redor do quarto, aparentemente tomada por um frenesi de alegria; ela girava, girava, ora se escondendo sob a mesa, ora se enfiando por debaixo das cadeiras, como tinha o costume de fazer em seus momentos de excitação e de alegria, após um silêncio mais ou menos longo na casa. Obviamente concluí que o novo dono de Morna a tinha trazido para nossa casa, ou então que a pequena Morna tinha conseguido sozinha encontrar o caminho de seu antigo lar.

Fui logo em seguida questionar os outros membros da família a esse respeito, mas ninguém sabia de nada; aliás, embora a procurássemos por toda parte e a chamássemos pelo nome, Morna não se apresentava. Imaginamos então que eu poderia ter sonhado ou, senão, que eu poderia ter sido vítima de uma alucinação; após isso, o incidente foi rapidamente esquecido. Vários meses depois, ou talvez um ano tenha se passado antes de encontrarmos o novo dono de Morna. Quisemos logo saber notícias dela. Ele nos disse que Morna tinha morrido após uma série de ferimentos que tinha sofrido durante uma briga com um cão enorme. Ora, pelo que pude constatar, o combate tinha se passado na mesma data ou um pouco antes do dia em que eu a tinha visto (em espírito) saltitar, correr e rodear a copa do seu antigo lar.”

Este relato lembra a última consideração que fiz sobre o assunto precedente, ou seja, que nos casos envolvendo seres humanos era possível, por vezes, supor que não se tratava precisamente de uma alucinação telepática que reproduz a forma do agente, mas sim do espírito do próprio agente que, tão logo tenha se despojado dos laços materiais, voltaria ao meio onde viveu, encarregando-se de se fazer sentir presente pelos seus familiares. Ora, embora não se tratasse de uma criatura humana, mas de uma cachorrinha, é preciso, no entanto, reconhecer que a maneira pela qual se comporta o fantasma – correndo e saltitando no quarto, invadido por um acesso de alegria –, tal como a cachorra viva tinha o costume de fazer após um longo silêncio, sugere irresistivelmente a idéia da presença espiritual da cachorra falecida.

E, neste caso, a fim de evitar qualquer possível objeção em relação a esta suposição, que poderia parecer, de antemão, gratuita e audaciosa, lembrarei que na introdução deste livro já tinha prevenido meus leitores que relataria, no momento oportuno, alguns bons exemplos de aparições post-mortem de fantasmas animais identificados, que foram percebidos quer coletivamente por várias pessoas, quer sucessivamente por diversos percipientes que ignoravam reciprocamente a experiência dos outros. Segue daí que estes fatos, absolutamente de acordo com o que se produz nos casos de aparições post-mortem dos seres humanos, justificam e confirmam a suposição que acabo de antecipar. Caso 12 (Visual) O caso que segue foi extraído dos Proceedings of the Society for Psychical Research, vol. XIV, pág. 285; ele é relatado pela senhora Mary Bagot: “Em 1883, estávamos hospedados no Hôtel des Anglais, em Menton. Deixei em casa (em Norfolk) um cãozinho foxterrier preto-amarelado chamado Judy, meu preferido, aos cuidados do nosso jardineiro. Um dia, enquanto estava sentada à mesa do hotel, percebi, de repente, meu cãozinho atravessando a sala e, sem refletir, exclamei: “Olhe, como pode Judy estar aqui?!”.

Não tinha nenhum cão no hotel. Assim que pude subir para o quarto de minha filha que estava doente e de cama, contei-lhe o caso. Alguns dias depois, recebi uma carta na qual me informavam que Judy, após ter saído pela manhã com o jardineiro para seu passeio diário e comportando-se muito bem, tinha sido acometido por uma dor repentina, perto da hora do almoço, e tinha morrido em aproximadamente uma hora. Muito tempo se passou então e não estou mais em condições de me lembrar exatamente se existia alguma coincidência em relação às horas. No entanto, minha impressão era a de que o cãozinho morreu precisamente na noite em que o vi.” A filha da senhora Bagot, a senhora Woodhouse, a pedido de Fredrich Myers, enviou-lhe o diário que escreveu durante sua permanência em Menton. Nestes termos ela fala de sua mãe: “24 de março de 1883: mamãe, durante o jantar, viu o fantasma de Judy!”.

A mesma senhorita relata suas lembranças a este respeito; retiro do caso as palavras que seguem: “Lembro-me perfeitamente de que meu pai, minha mãe, minha irmã (Senhora Algernon Law) e minha prima (Senhorita Dawnay) entraram juntos no meu quarto e me contaram rindo que a mamãe tinha visto Judy (um fox-terrier pretoamarelado) atravessar a sala enquanto estava à mesa do hotel. Minha mãe estava tão certa de que o tinha visto que meu pai, acredito, foi perguntar a um funcionário do hotel se havia cães no local, o que lhe foi respondido negativamente.” Para outras informações a este respeito. remeto o leitor aos Proceedings, loc. cit., e ao Journal of the S. P. R., vol. VIII, pág. 243. Este fato é, em todos os aspectos análogo ao precedente, tanto que dessa vez o fantasma do cãozinho se limitou a atravessar o quarto sem dar o mínimo sinal de ter consciência do meio em que se encontrava, nem da presença de sua dona – modalidade de manifestação passiva, em conformidade com o que se produz nas alucinações telepáticas propriamente ditas; enquanto que, no exemplo anterior, o animal tinha se comportado de uma maneira espontânea e ativa, como se fosse a presença espiritual, no local, da pequena cachorrinha falecida.

Caso 13 (Tátil-visual, com telecinesia) Camille Flammarion comunicou aos Annales des Sciences Psychiques (1912, pág. 279) o relato seguinte que lhe foi enviado pelo senhor G. Graeser, que reside em Lausanne, Suíça: “... Permite-me relatar um pequeno fato que tem relação com aquilo que você fala em seu livro L’Inconnu? Não lhe falaria se não tivesse visto um caso como esse em seu livro. Não se refere a uma pessoa, mas a um animal... Um pouco solitário, amante do estudo e não do mundo, eu não tinha amigos, somente um cão. Ele era bem mais esperto que muitos homens. Era meu protetor; quando, à noite, eu ficava sozinho contemplando o céu, ele permanecia fielmente deitado aos meus pés, sua espessa pelagem (era um são-bernardo) cobria minhas pernas, e era difícil me mexer quando precisava seguir a cadência de uma estrela. Quando estava em meu quarto lendo, ele ficava me olhando; diria, inclusive, que ele me compreendia. Sentia que ele amava a solidão tanto quanto eu e era por isso que não nos deixávamos.

Eu digo isso a vocês para que possam compreender meu afeto por ele e o motivo por considerá-lo um verdadeiro amigo. Eis então meu relato: No dia 14 de dezembro de 1910, minha mãe levou Bobby consigo. Devo lembrar que, antes de tudo, ele tinha dois desagradáveis costumes: assim que alguém se aproximava, recebia-o com muita folia; em segundo lugar, que, quando discutia com meu pai, ele tomava minhas dores e se colocava ao meu lado. Após uma queixa, penso eu (soube tarde demais, infelizmente), meus pais decidiram sacrificá-lo. Eram sete e meia da noite. Estava em meu quarto e ouvi a porta se abrir (ele a abria sozinho e era tão grande quanto eu). Então, ouvi a porta se abrir e vi aparecer meu Bobby. Ele ficou, com ar de sofrimento, sobre a soleira. Eu dizia: “Venha aqui, Bobbi!”, sem levantar os olhos. Ele não obedeceu. Repeti minha ordem, então ele veio. Ele se esfregou em minhas pernas e se deitou sobre o tapete; quis acariciálo, mas... nada, ele não estava mais ali!...

Embora nunca tivesse lido histórias como essa no L’Inconnu, precipitei-me para fora do quarto; a porta tinha ficado aberta; telefonei para Lausanne (a dois quilômetros), para o matadouro, e eis então nosso diálogo: – Pois não, é do matadouro. – Teria o senhor visto uma dama de preto acompanhada por um cão são-bernardo? – Acabamos de sacrificá-lo, há mais ou menos dois minutos; ele está estirado, e a dama está aqui! Com estas palavras, caí no chão e desmaiei. Quando voltei ao meu estado normal, perguntei sobre meu cão: ele não estava ali, estava morto. Contaram-me todo o drama depois. Esta é a história de meu Bobby; é preciso ressaltar que no minuto em que ele morria, eu o vi com meus próprios olhos e o que retira toda e qualquer possibilidade de alucinação é o fato de que a porta se abriu sozinha...” Camille Flammarion pediu a um professor da Universidade de Lausanne para realizar uma pequena sondagem; o pesquisador respondeu confirmando o relato do senhor Graeser. Neste caso bastante interessante, encontramos duas circunstâncias de produção que se realizam raramente nos casos de alucinação telepática.

A primeira e mais importante consiste no fato de que a aparição do fantasma do cão foi precedida pelo fenômeno psíquico da porta que se abriu. Na fenomenologia telepática, encontramos amiúde episódios em que o percipiente vê se abrir uma porta e entrar o fantasma; porém, quase sempre a porta é, em seguida, encontrada devidamente fechada, o que mostra que o suposto fenômeno psíquico era tão somente uma alucinação complementar da outra. Em contrapartida, nesse caso – assim como, aliás, na maioria dos demais –, a porta foi encontrada aberta pelo percipiente; assim sendo, não se trata de uma alucinação e sim de um fenômeno psíquico de natureza paranormal. O fenômeno a que nos referimos só poderia ser explicado se reconhecêssemos o fundamento daquilo que tínhamos ressaltado anteriormente, ou seja, que as aparições denominadas telepáticas nem sempre se encaixam numa significação puramente alucinatória verídica relacionada à telepatia. Pode-se tratar algumas vezes de verdadeiras aparições objetivas, as quais implicam a presença de uma Entidade espiritual que se manifesta.

Tal Entidade, após a morte violenta bastante recente, permaneceria, durante algum tempo, saturada pela “força vital” e poderia, dessa forma, agir ainda sobre a matéria. Se o incidente da porta que se abriu for bem observado, somos então levados a concluir que o fantasma do cão era de forma alguma uma simples projeção alucinatório-verídica, mas sim a objetivação de algo análogo ao “corpo espiritual” do cão. A alegação seria, de certa maneira, confirmada pela circunstância que se produziu durante a manifestação, isto é, o cachorro respondeu ao convite de seu dono indo até o quarto, deitando-se aos pés do rapaz e se enfiando entre suas pernas. Todos esses detalhes são sugestivos a favo de uma presença real, uma vez que, em geral, as aparições telepáticas são inertes como as estátuas; quando se deslocam e andam, elas os fazem de maneira automática, como se ignorassem o meio em que se encontram – todas as modalidades se conformam com as teorias segundo as quais elas consistiriam em puros simulacros, projetadas exteriormente pelo pensamento do percipiente e influenciada pelo pensamento do agente.

De fato, em certos casos os fantasmas telepáticos provam não ignorar o meio onde se encontram nem as pessoas que os observam, aos quais, inclusive, eles emitem palavras. Unicamente em tais circunstâncias podemos nos perguntar se não se trata realmente, e sempre, de manifestações objetivas. Em suma, uma vez que tudo corrobora para provar que as aparições de fantasmas retiram sua origem de causas diversas, de tal maneira que, certamente, existem fantasmas objetivos (entre os quais se encontra

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