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Capítulo 14 de 21
Parte 14 de 20
A Alma nos Animais · Ernesto Bozzano
Após a publicação de meu caso, tive a oportunidade de assistir a um fato parecido. Eis a história resumidamente: Em 1896, estabeleci-me definitivamente em minha casa atual. Conhecia muito bem o local, pois o visitei inúmeras vezes; tinha sido inclusive avisada que ele tinha a reputação de ser assombrado. Todavia, não tinha me informado detalhadamente sobre isto, principalmente porque não conhecia quase ninguém nas redondezas; em seguida, porque não compreendiam minha língua e eu tampouco compreendia a língua do país. Depois disso, é fácil imaginar que as comunicações entre nós eram limitadas, ao menos durante um certo tempo.
Aquilo que vi ou que acreditei ter visto não deve, portanto, ser atribuído a um efeito dos rumores que poderia ter escutado. Em meus passeios diários, tinha o costume de ir até um pequeno bosque que eu gostava muito por causa da sombra fresca com a qual nos refrescávamos no verão e porque ali ficávamos protegidas dos ventos durante o inverno. Um caminho público o cortava de um lado. Ora, tinha, com freqüência, observado que os cavalos tinham medo daquele lugar; isto sempre tinha me intrigado, pois não sabia a razão desse medo. Noutras ocasiões, chegando àquele lugar, meu casal de cães se recusava obstinadamente a entrar naquele bosque; eles se jogavam no chão, metiam o focinho entre as patas e ficavam surdos tanto para as insistências quanto para as ameaças.
Se me punha em qualquer outra direção eles imediatamente seguiam-me alegremente, mas se persistia em querer entrar naquele bosque eles me abandonavam em debandada até a casa, invadidos por uma espécie de pânico. Esse fato, por ter se repetido inúmeras vezes, levou-me a ir falar com uma amiga, que era a proprietária daquele lugar. Soube então que incidentes parecidos tinham freqüentemente se reproduzido naquele lugar, desde tempos remotos, não constantemente, mas em intervalos de tempo, tanto com cães quanto com cavalos. Ela me contou também que esse pedaço da estrada que cortava o bosque era tido pelos camponeses do lugar como um local assombrado, por causa de um terrível crime que teria sido cometido no começo do século passado. Uma comitiva matrimonial tinha sido atacada pelo amante da noiva; esta tinha sido morta ao mesmo tempo que o marido e o pai.
O culpado fugiu, mas foi encontrado a dois ou três campos de distância do local pelo irmão do esposo, que o matou. Essa história, bastante conhecida, é autêntica; perto do pequeno bosque (mas não onde os cavalos ficam com medo) encontram-se três cruzes de pedra que marcam o local onde os três assassinatos foram realizados; uma outra cruz, situada a uns dois campos de distância, marca o ponto onde o culpado caiu. Tudo isto se passou há um século, mas a presença das cruzes serviu para revivificar, no país, a lembrança do drama; no entanto, isto não serviria para explicar a atitude dos cavalos e dos cães. Num dia de outono de 1896, tinha saído com uma amiga para fazer um passeio... Chegamos ao pequeno bosque pelo lado oeste, seguindo tranqüilamente nosso caminho...
Fui a primeira a me virar, e percebi um pequeno bezerro com um tom vermelho-escuro. Surpresa com a aparição inesperada daquele animal ao meu lado, soltei uma exclamação de espanto e o animal se escondeu imediatamente no bosque do outro lado da passarela. No momento em que ele penetrava na moita, um estranho clarão avermelhado se desprendeu dos seus grandes olhos: teríamos dito que eles lançavam chamas. Era a hora do pôr-do-sol, o que fez com que eu pensasse que os raios do Sol que incidiam sobre os olhos do animal bastavam para explicar aquele fato; os olhos brilhavam quase como as frestas de uma janela no momento em que elas são tingidas diretamente pelos raios do sol. Quando estávamos perto de nossa casa, minha amiga se deu conta de que tinha esquecido a capa de prata de sua sombrinha.
Ela se dirigiu a um dos jardineiros, pedindo-lhe que enviasse um homem para procurar o objeto perdido, dando-lhe as informações necessárias e indicando-lhe exatamente qual tinha sido o caminho que tínhamos seguido. O jardineiro respondeu que antes da noite ele mesmo teria ido lá, e explicou que os camponeses do lugar tinham um enorme pavor de ir naquele bosque, sobretudo à noite. “E por que?” perguntou minha amiga. O jardineiro então disse que a superstição daqueles camponeses, já bastante irritante e estúpida, tinha piorado ainda mais nos últimos dias por causa do boato de que o bezerro com olhos resplandecentes tinha sido visto no bosque, o que fez com que ninguém mais se atrevesse a aventurar-se ali... Minha amiga e eu trocamos olhares; não ousamos, no entanto, contradizer aquele sensato jardineiro.
Ele foi à procura do objeto perdido, e nós voltamos para casa. Desde então, outras vezes, com longos intervalos de tempo, corria o boato de que o bezerro com olhos resplandecentes tinha sido visto por alguém e o bosque era, cada vez mais, evitado pelos camponeses. Apesar disso, desde aquela época, poucos dias se passaram sem que eu atravessasse o bosque a pé ou a cavalo (exceto certos períodos durante os quais tive de me ausentar da casa), e quase sempre com meu casal de cães. Nunca mais, até recentemente, aconteceu-me de encontrar o bezerro misterioso. Era um dia sufocante e tinha me dirigido até o bosque para encontrar um local protegido do Sol e da reverberação ofuscante da estrada.
Estava acompanhada de dois collies (cães de pastores) e por um pequeno fox-terrier. Ao chegar ao limite do bosque, os dois collies se agacharam subitamente no solo, recusando a continuar o caminho; ao mesmo tempo, eles exerciam toda a arte de persuasão que possuíam para que eu fosse alhures. Ao ver que eu insistia em querer avançar, eles acabaram me acompanhando, mas com uma repugnância visível. Todavia, alguns instantes depois, eles pareciam ter esquecido e recomeçaram a correr de lá para cá, enquanto eu continuava tranqüilamente meu caminho colhendo amoras. Num certo momento, eu os vi chegar em debandada para se esconderem, tremendo e gemendo, aos meus pés.
Simultaneamente, o pequeno fox-terrier tinha saltado sobre os meus joelhos. Não podia explicar o incidente quando, num piscar de olhos, ouvi atrás de mim um pisotear furioso que se aproximava rapidamente. Antes que eu tivesse tempo de me afastar, vi correr em minha direção uma tropa de corças assustadas; em seus galopes desenfreados, elas faziam tão pouco caso de mim e dos cães que quase me jogaram no chão. Olhei ao redor de mim, assustada, para descobrir a causa daquele pânico e percebi um bezerro de cor vermelhoescura, o qual, retomando seus passos, se metia na mata. As corças tinham se dirigido rapidamente até a outra direção do bosque.
Meus cães, que, em circunstâncias ordinárias, teriam-nas caçado, mantinham-se encolhidos e trêmulos aos meus pés, enquanto que o pequeno fox-terrier se negava a descer dos meus joelhos. Durante vários dias, aquele cãozinho não quis mais atravessar o bosque e os dois collies entravam no local contra sua vontade, mostrando-se visivelmente desconfiados e com medo. O resultado de todas as nossas investigações confirmou ainda mais nossas impressões, ou seja, a de que o bezerro de cor vermelho-escura, ou, como se diz por lá, o bezerro de olhos resplandecentes não era um animal comum, vivo e terrestre... Mas a relação que podia existir entre o fato em questão e a tragédia que tinha acontecido naquele bosque é um problema cuja resposta eu não poderia encontrar. Não duvido, no entanto, que as faculdades de intuição e de clarividência específicas dos animais deviam ter feito com que eles conhecessem a existência de alguma coisa anormal ou paranormal no bosque, e que a repugnância deles diante dos fenômenos daquela natureza – repugnância esta que, no homem, chama-se superstição – era a causa verdadeira da estranha atitude que tomavam.
Se tivesse sido a única a ver o misterioso animal, é provável que não teria, de forma alguma, falado a respeito, mas a coisa se passou diferentemente, pois ele foi visto inúmeras vezes, em diferentes circunstâncias, por inúmeras pessoas do país.” (Revista Light, outubro de 1904, págs. 511-513). Tal é o caso bastante impressionante contado pela senhora E. d’Espérance, que observa justamente que, naquela circunstância, não podia se tratar de um bezerro vivo. Observarei que esta hipótese não resiste à mais superficial análise dos fatos; isto parecerá evidente se considerarmos três circunstâncias: primeiramente, um bezerro em carne e osso não poderia ter existido e aparecido numa mesma localidade ao longo de um século inteiro; em segundo lugar, os cavalos, os cães e as corças não estão acostumados a se assustar com um bezerro inofensivo; finalmente, com esta suposição, não explicaríamos de forma alguma o pânico que invadia os cavalos e os cães, enquanto que, aparentemente, não existia nada de anormal para o homem. * * * Para 22 outros casos pertencentes a uma ou outra das subdivisões desta categoria, remeto o leitor aos livros e jornais seguintes: • Caso 95 (Visual-auditivo-coletivo) – Proceedings of the S. P. R., vol.
V. pág. 470; • Caso 96 (Visual-auditivo-coletivo, com anterioridade do animal em relação ao homem) – Idem, vol. IV, pág. 262; • Caso 97 (Visual-auditivo-coletivo, com anterioridade do animal em relação ao homem) – Idem, vol. X, págs. 353- 354; • Caso 98 (Visual-auditivo-coletivo) – Journal of the S. P. R., vol.
II, pág. 149; • Caso 99 (Visual-auditivo-coletivo, com anterioridade do animal em relação ao homem) – Idem, vol. II, págs. 253, 254, 256; • Caso 100 (Visual-auditivo-coletivo, com anterioridade do animal em relação ao homem) – Idem, vol. II, pág. 348; • Caso 101 (Visual-auditivo-coletivo, com anterioridade do animal em relação ao homem) – Idem, vol. II, pág. 351; • Caso 102 (Visual-auditivo-coletivo, com anterioridade do animal em relação ao homem) – Idem, vol. II, pág. 120; • Caso 103 (Visual-auditivo-coletivo) – Idem, vol.
V, pág. 307; • Caso 104 (Animal como único percipiente) – Idem, vol. VI, pág. 16; • Caso 105 (Animal como único percipiente) – Idem, vol. IV, pág. 65. • Caso 106 (Visual coletivo) – Idem, vol. VI, pág. 172; • Caso 107 (Animal como único percipiente) – Idem, vol. VI- I, pág. 331; • Caso 108 (Visual-coletivo) – Robert Dale Owen: The Debatable Land, págs. 233-236; • Caso 109 (Visual-coletivo) – Senhora De Morgan: From Matter to Spirit, págs. 244-246; • Caso 110 (Visual-coletivo-sucessivo) – Journal of the S.
P. R., vol. XIII, págs. 256-262; • Caso 111 (Visual-coletivo) – Idem, vol. V, págs. 342-343; • Caso 112 (Visual-coletivo) – Idem, 1910, pág. 50; • Caso 113 (Visual-coletivo) – Light, 1901, pág. 46; • Caso 114 (Visual-tátil-olfativo) – Light, 1903, pág. 473; • Caso 115 (Visual-coletivo) – Light, 1917, pág. 311; • Caso 116 (Visual-coletivo) – Light, 1921, pág. 610. Sétima categoria
Materializações de animais Declaro, a bem da verdade, que as pesquisas experimentais a respeito das manifestações animais discutidas nesta categoria ainda encontram-se em condições rudimentares; tais fenômenos não podem, portanto, ser considerados sob um ponto de vista científico; por isso, contentar-me-ei em tocar no assunto a fim de que não haja uma lacuna em minha obra. Entre os relatórios de sessões experimentais com efeitos psíquicos, os casos em que fazemos alusões às materializações de formas animais não são muito raros. Unicamente, como se trata quase sempre de manifestações inesperadas e fugazes, as descrições que nos são fornecidas não são suficientemente detalhadas para que possamos considerá-las como sendo cientificamente comprovadas. Elas poderão, no entanto, adquirir, um dia, uma certa importância do ponto de vista da história desta ramificação específica de fenômenos; isto acontecerá quando estas manifestações forem incorporadas pela ciência ao mesmo tempo que outras ramificações mais evoluídas do mesmo tronco paranormal; podemos esperar isto sem, no entanto, mostrar-nos temerários quanto às previsões.
Tendo em vista a história futura deste novo ramo de pesquisas, disponho-me a transcrever alguns fatos desta espécie, a título anedótico, e, conseqüentemente, sem lhes atribuir uma ordem, já que não podemos incluí-los, por enquanto, numa classificação científica. * * * Se remontarmos meio século atrás na cronologia das manifestações mediúnicas, encontraremos uma primeira alusão às materializações de animais numa carta enviada à revista Light (1907, pág. 275) por Alfred Vout Peters, médium psicômetra bastante conhecido, carta que, ao falar da visão de um animal falecido que ele tinha acabado de ver, acrescenta: “Lembro-me de que, nas sessões mediúnicas com a senhora Corner (na época Senhorita Florence Cook), houve a materialização de um macaco, para grande espanto da médium, que não esperava uma materialização daquela.”
Encontramos outra alusão análoga, mas um pouco mais circunstanciada, no livro do doutor Paul Gibier, Analyse des Choses (pág. 210), em que, tratando de fenômenos de materialização que aconteciam com o coronel M., da École Polytechnique de Paris, o autor destaca: “Nas experiências com o coronel M. (no período de 1875 a 1877), observadas por diferentes personalidades científicas do exército, a médium era a filha do próprio coronel. Um fenômeno me surpreendeu bastante ao longo desta sessão de experiências e o transcrevo àqueles que são suficientemente iniciados nestes estudos: trata-se da materialização perfeita de um cãozinho, morto alguns anos antes e que pertenceu ao coronel.” No livro de Gambier Bolton, Ghosts in Solid Form, onde estão resumidas as principais manifestações obtidas ao longo de sete anos de experiências com médiuns particulares, encontramos casos de materializações de animais. Ao longo de uma sessão assistida pelo marechal-de-campo Lord Wolseley, ocorreu a materialização de uma foca; numa outra, a de um animal selvagem da Índia que tinha sido criado preso por uma senhora presente na sessão.
O animal, ao reconhecer imediatamente sua antiga dona, pulou do joelho do médium para os dela, manifestando sua alegria com gritos que ele emitia quando vivo em circunstâncias como aquela. No decorrer destas famosas sessões de materialização que aconteceram em Argel, em 1905, com a médium Marthe (Eva C. da senhora Bisson), na presença do professor Charles Richet e de Gabriel Delanne, uma forma animal se materializou; a Senhora X. fala assim a esse respeito: “O professor Richet falou somente das manifestações envolvendo a figura central de “Bien-Boa”, mas penso que ele não se oporá ao relato de um curioso incidente que aconteceu na sessão de 5 de setembro. A gatinha da casa tinha nos seguido, sem que nos déssemos conta dela, até a sala de sessões e, quando ocupamos nossos lugares, ela saltou em meus joelhos e não se moveu mais. Durante mais ou menos meia hora, vimos somente fenômenos fracos; em seguida, as cortinas do laboratório mediúnico foram puxadas por uma mão – enrolada em uma das cortinas –, permitindo ver o médium acompanhado da forma materializada de Aischa.
Imediatamente a gata pulou dos meus joelhos para os do médium; mas assim que chegou até ele, sua atenção pareceu se fixar em alguma coisa que estava no canto A do consultório. Um de nós observou: “O que vê esta gata?”. Uma voz vinda do canto A respondeu: “Ela percebe minha presença”. Simultaneamente, uma forma enrolada na cortina avançou na direção da gata, começou a acariciá-la e a brincar com ela. A gata respondeu alegremente segurando a ponta da cortina; mas ela a abandonou imediatamente para virar seu rosto para o canto B do consultório, com uma atitude de defesa, como se estivesse diante de uma criatura hostil; ela arcou suas costas e pôs-se a miar com um tom ameaçador. Uma voz, no canto B, disse: “Ela percebe um outro gato”. Ao mesmo tempo ouvimos, também no canto B, um forte miado que fazia eco ao da gata.
Esta saltou dos joelhos do médium para os da senhora Paulette, e um dos membros do nosso grupo de experimentação viu, enquanto escutávamos chegar do canto B, duas vezes seguidas, os miados do gato materializado, e uma massa negra, do tamanho de um gato, saltou nos joelhos do médium e ali ficou durante dois minutos aproximadamente, para em seguida desaparecer de maneira muito estranha, dissolvendo-se lentamente...” (Revista Light, 1921, pág. 594). Ao longo das sessões – cujo traço característico é constituído
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.