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Capítulo 10 de 21
Parte 10 de 20
A Alma nos Animais · Ernesto Bozzano
Animais e pressentimentos de morte Esta categoria está subdividida em três subgrupos distintos, mas somente o terceiro possui uma importância especial em relação ao assunto que tratamos. O primeiro subgrupo se refere aos casos de manifestações premonitórias percebidas coletivamente pelos animais e pelo homem; circunstância interessante, mas que, a nosso ver, não difere em nada das outras circunstâncias já examinadas nas categorias anteriores. O segundo subgrupo é composto por casos em que os acontecimentos premonitórios se repetem tradicionalmente numa mesma família, adquirindo normalmente uma forma simbólica, isto é, o acontecimento de morte é anunciado pela aparição – por exemplo, por uma dama de branco (como na família dos Hohenzollern) – ou pelo tiquetaquear característico que denominamos de “relógio da morte”, ou pelo estouro de um tiro de fuzil, ou, finalmente, pela aparição de um fantasma animal, sempre o mesmo para uma determinada família. Como podemos ver, o segundo subgrupo, em que o fantasma animal é apenas um símbolo, não apresenta nada em comum com as manifestações que tratamos neste livro, exceto a simples aparência.
Finalmente, o terceiro subgrupo é constituído por casos que julgamos importantes, pois eles se referem às faculdades premonitórias da “psique” animal e consistem no fato de que os animais domésticos manifestam algumas vezes a faculdade de pressentir, a curto termo, a passagem de uma pessoa de seu meio, anunciando-a por gemidos e berros característicos. Essa faculdade de várias espécies animais é bastante conhecida; os “ganidos de morte” dos cachorros fazem parte das tradições de todos os povos. Assim sendo, tratar-se-ia de uma faculdade análoga à faculdade premonitória do homem, embora esta esteja circunscrita em limites mais simples. Nestas condições, limitar-me-ei a transcrever um só exemplo pertencente ao primeiro subgrupo e dois outros, bem curtos, pertencentes ao segundo, reservando-me a desenvolver de maneira mais adequada o assunto do terceiro subgrupo. Primeiro subgrupo
Manifestações de morte percebidas coletivamente por homens e por animais Caso 68 (Auditivo-coletivo) Este caso foi publicado pela senhora Sidgwick no seu livro sobre premonições (Proceedings of the S. P. R., vol. V, págs. 307-308) e coletado e estudado por Fredrich Myers em abril de 1888. A senhora Cowpland Trelaor conta: “Durante uma noite do mês de junho de 1863, em nossa residência no vicariato de Weeford (Staffordshire, Inglaterra), minha irmã e eu fomos acordadas por uivos lastimosos. Visitamos todos os cantos da casa, sem nada descobrir. Nesta primeira circunstância nem nossa mãe nem os empregados foram acordados por aqueles gritos; mas, em contrapartida, encontramos nosso cão buldogue com o focinho enfiado numa pilha de lenhas e tremendo de medo. No dia 28 do mesmo mês nossa mãe morreu. O segundo caso que relataremos foi o mais impressionante e se produziu no mesmo vicariato, em agosto de 1879. Fazia algum tempo que nosso pai estava doente, mas suas condições de saúde permaneciam estáveis; no domingo de 31 de agosto, ele celebrava ainda na igreja, apesar de vir a morrer nove dias depois.
A família era, naquela época, composta por nosso pai, minha irmã, meu irmão, dois empregados, a ama e eu. Nós dormíamos em quartos separados, distribuídos pela casa; esta, para uma residência paroquial, era bastante ampla. Aquela era uma noite calma e serena dos últimos dias de agosto; nenhuma via férrea existia nas redondezas; não existiam casas na vizinhança, nem ruas que pudessem ser percorridas por algum transeunte retardatário; o silêncio era absoluto e a família permanecia mergulhada no sono. De repente, entre meia-noite e meia-noite e quinze, fomos todos despertados, exceto nosso pai, por uivos inesperados, aflitos e assustadores, com uma entonação diferente de qualquer voz humana e análoga àquela anteriormente escutada na ocasião da morte de nossa mãe, mas infinitamente mais forte. Os gritos vinham do corredor que levava ao quarto de nosso pai. Minha irmã e eu descemos da cama (ninguém teria dormido com tamanho tumulto); acendemos uma vela, fomos ao corredor sem sequer pensar em nos vestir; lá, encontramos meu irmão e os três empregados aterrorizados como nós.
Embora a noite estivesse calma, aqueles uivos desesperados eram acompanhados de rajadas de vento que pareciam repercuti-los ao longe: ter-se-ia dito que eles saíam do teto. Eles persistiram durante mais de um minuto, para em seguida se dissiparem pela janela. Uma estranha coincidência se ligou a esse acontecimento; nossos três cães, que dormiam comigo e com minha irmã, tinham corrido rapidamente para se esconderem nos cantos, com os pelos das costas eriçados. O buldogue tinha se escondido sob a cama e, como não conseguia fazê-lo sair com um chamado, tive de arrastá-lo à força; foi quando constatei que ele se agitava, tremendo convulsivamente. Corremos para o quarto de nosso pai, onde pudemos ver que ele dormia tranqüilamente. No dia seguinte, com as devidas precauções, nós fizemos, na sua presença, alusões aos acontecimentos da noite, e isto nos permitiu constatar que ele não tinha escutado nada. Ora, como era impossível dormir normalmente enquanto ressoavam aqueles gritos atrozes, é necessário supor que para ele os gritos não ressoavam. Quinze dias depois aproximadamente, e mais precisamente no dia 9 de setembro, nosso pai morreu.
E eis aqui o terceiro caso. Em 1885, eu me casei e fui morar em Firs (Bromyard), onde vivia minha irmã, senhora Gardiner. Meu irmão permaneceu a 35 km de distância e gozava naquela época de boa saúde. Numa noite, em meados de maio, minha irmã, a doméstica Emilie Corbett, os outros empregados e eu (meu marido estava ausente) ouvimos novamente os costumeiros uivos desesperados, embora menos terríveis que os da última vez. Pulamos de nossas camas, vasculhamos a casa e nada encontramos. No dia 26 de maio de 1885 meu irmão morreu. O quarto caso aconteceu no fim do mês de agosto de 1885. Emilie Corbett, os outros empregados e eu ouvimos novamente aqueles lamentos pungentes. No entanto, como nossa casa não ficava isolada, assim como o presbitério dos Weeford, e os uivos já não eram tão veementes quanto naquela ocasião, tive a sensação de que eles podiam vir de algum transeunte, embora não pudesse evitar uma certa preocupação com minha irmã, senhora Gardiner, que, naquele momento, não se sentia muito bem. Ao contrário, nada aconteceu com ela, que vive ainda.
Mas outra de nossas irmãs, senhorita Annie Cowpland, que estava perfeitamente saudável no momento em que os gritos foram ouvidos, morreu uma semana depois de difteria.” Senhora Cowpland Trelaor, Senhora Cowpland Gardiner, Emily Corbett. Avaliemos rapidamente este caso bastante interessante, estudado por Myers. Como já dissemos, do ponto de vista da classificação, este não possui nenhuma importância especial e é análogo aos casos relatados na quarta categoria, exceto a circunstância de que aqui não se trata mais de uma visão coletiva de fantasma, mas sim da percepção de sons de natureza paranormal. Lembraremos que o fato em si do pré-aviso de morte, transmitido neste caso sob a forma de gritos desesperados, explica-se a partir das idiossincrasias pessoais dos sensitivos para os quais a mensagem é transmitida; quer dizer que, ordinariamente, a forma de realização dos fenômenos premonitórios, assim como qualquer fenômeno paranormal, representa tão somente a “via de menor resistência” percorrida pela mensagem em curso, vinda do além ou das profundezas do subconsciente até a consciência dos sensitivos.
Isto, obviamente, remete às manifestações de ordem subjetiva que constituem a grande maioria dos casos de realização inteligente, enquanto que as circunstâncias de fantasmas ou de percepções fônicas de natureza objetiva se realizam em função de um sensitivo que fornece fluidos e força àquele que se manifesta, independentemente das idiossincrasias dos percipientes. Ora, no fato que acabamos de expor, notamos que existe a circunstância dos animais que perceberam, ao mesmo tempo em que os seres humanos, o som dos gritos premonitórios, circunstância esta que nos levaria a supor que se tratava, dessa vez, de sons objetivos. Neste caso, a circunstância do pai doente que não tinha escutado nada (porque ele não devia escutar) deveria se explicar com a suposição de que ele se encontrava mergulhado em um estado de sonambulismo. Segundo subgrupo
Aparições de animais sob a forma premonitório-simbólica Como acabamos de constatar, os fantasmas animais que têm estritamente a função de símbolo não pertencem à categoria de manifestações presentes neste livro, mas sim à categoria de “simbolismo nas manifestações metapsíquicas em geral” – um assunto de que tratei em outra monografia específica.14 Nessas ocasiões, o fantasma animal, independentemente de qualquer verossimilhança, representa apenas uma projeção alucinatória de uma idéia pensada e transmitida intencionalmente pelo agente telepático, e isso em conformidade com a circunstância de que, naquele meio familiar existe uma tradição segundo a qual a aparição de um fantasma específico equivale a um pré-aviso de morte iminente na família. Conseqüentemente, esta forma de premonição dependeria também de um tipo de idiossincrasia que teria se perpetuado de geração em geração entre os membros da mesma família. Conhecemos exemplos de mensagens simbólicas premonitórias que, desde muitos séculos atrás, repetem-se de forma idêntica, em um mesmo meio familiar; porém, tais mensagens são constituídas por simbolismos diferentes daqueles que tratamos aqui.
Devo acrescentar que os casos nos quais o simbolismo adquire a forma de um fantasma animal são raros e compreendem apenas um pequeno número de repetições da mesma aparição; assim sendo, deveríamos encará-los apenas como episódios rudimentares de simbolismo premonitório. Eis, como exemplo, dois breves casos: Caso 69 (Visual) Este caso encontra-se nos Proceedings of the S. P. R., vol. V, pág. 156. A senhora E. L. Kearney relata: “17 de janeiro de 1892. Meu avô estava doente. Descia, numa noite, pela escada interna de nosso apartamento, quando percebi, no corredor, um gato estranho que vinha em minha direção. Assim que me viu, ele correu para se esconder atrás de uma porta que dividia o corredor em duas partes. Essa porta ficava sempre aberta. Corri imediatamente até ela para espantar o estranho animal, mas fiquei extremamente surpresa ao ver que nada havia ali; foi impossível encontrar alguma coisa no restante do apartamento. Contei logo o ocorrido à minha mãe (ela me disse, há alguns dias, que se lembrava perfeitamente do incidente). Meu avô faleceu no dia seguinte. Isso parece ainda mais interessante se o considerarmos em relação à outra circunstância.
Minha mãe me contou que, na véspera do dia da morte de seu pai, ela também tinha percebido um gato que andava ao redor da cama do doente. Ela havia, como eu, tentado espantá-lo e, igualmente, nada tinha encontrado. Caso 70 (Visual) Retirado dos Proceedings of the S. P. R., vol. V, pág. 302. Eis o relato da senhora Welman: “Existe no tronco familiar materno de minha família uma tradição segundo a qual, pouco tempo antes da morte de algum de seus membros, um enorme cão negro aparece a um ou outro dos parentes. Num dia de inverno de 1877, por volta da hora do jantar, eu desci ao andar térreo; a casa estava iluminada e, enquanto me dirigia até o corredor que levava à escada, vi de repente um enorme cão preto que andava diante de mim sem fazer barulho. Naquela penumbra, pensei que se tratava de um cão pastor, entre os muitos que possuíamos, e chamei: “Lady!”, mas o cão não se virou e pareceu não ter me ouvido. Eu o segui.
Sentia uma leve sensação de malestar que, por sua vez, transformou-se em profundo espanto quando, chegando ao fundo da escada, vi desaparecer diante de mim todo e qualquer traço do cão, embora as portas estivessem todas fechadas. Não falei disso a ninguém, mas não podia me impedir de pensar constantemente no que tinha acontecido. Dois ou três dias depois, recebemos da Irlanda a notícia da morte inesperada de uma tia, irmã de minha mãe – fato que aconteceu após um acidente. Terceiro subgrupo
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.