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Capítulo 19 de 21

Parte 19 de 20

A Alma nos Animais · Ernesto Bozzano

Portanto, este quadro é suficiente para nos autorizar algumas conclusões acerca das sugestões retiradas dos fatos em questão, e a principal que devemos tirar é a seguinte: os casos em que os animais percebem antes do homem manifestações paranormais, ou as percebem quando estas são imperceptíveis para o homem, apresentam um valor decisivo a favor de nossa tese, já que eles demonstram que não existe nenhuma hipótese racional que possa se opor àquela que considera que os animais também são dotados de faculdades paranormais subconscientes tal como o homem. Tais conclusões, solidamente fundamentadas a partir de dados estatísticos, são ainda reforçadas pelas manifestações que coletamos na quinta categoria, onde tratamos de casos de cães “uivando para a morte”, ou seja, cães que prenunciavam, através de ganidos característicos e profundamente lúgubres, a morte iminente de uma pessoa de seu meio, e persistiam nisso até o falecimento da pessoa; manifestações estas que demonstram a existência, no subconsciente animal, de faculdades premonitórias e, conseqüentemente, de outra faculdade paranormal aliada àquelas enumeradas acima.

Esse dom misterioso já era, aliás, universalmente conhecido no reino animal sob a forma de previsão de perturbações atmosféricas iminentes, ou da proximidade de terremotos e erupções vulcânicas. Com base nos fatos apresentados, é possível afirmar, sem temer erros, que o veredicto da ciência futura só poderá ser favorável no sentido de que existem no subconsciente animal as mesmas faculdades que encontramos no subconsciente humano; e como o fato da existência latente, no subconsciente humano, de faculdades paranormais, independentes da lei da evolução biológica, constituía a melhor prova a favor da existência no homem de um espírito independente do organismo corporal e, conseqüentemente, que sobrevive à morte desse organismo, era racional e inevitável concluir a partir daí que, já que no subconsciente animal encontramos as mesmas faculdades paranormais, a psique animal está também destinada a sobreviver à morte do corpo. Mas estas considerações, logicamente incontestáveis, necessitavam ainda de uma confirmação complementar no plano experimental.

Se a hipótese da existência nos animais de uma psique que sobrevive à morte do corpo era fundamentada, deviam existir casos de aparições post-mortem de fantasmas animais de maneira análoga àquelas que se realizavam nos homens. Esta demonstração complementar é proporcionada ao longo de nossa classificação, onde reunimos um número suficiente de fatos desse tipo e onde deparamos com os mesmos traços característicos que servem como fatores de identificação espiritual nos casos correspondentes de fantasmas humanos. Conseguimos, assim, demonstrar a existência de dois grupos de fatos que constituem o problema, ou seja, que no subconsciente animal encontramos as mesmas faculdades paranormais que existem no subconsciente humano e que os fantasmas dos animais falecidos se manifestam como os fantasmas humanos. Assim sendo, deveríamos considerar que tínhamos alcançado a demonstração necessária para provar a existência e a sobrevivência da alma animal. Tal hipótese não podia ser considerada então cientificamente válida, mas somente a título de “hipótese de trabalho”, enquanto aguardamos poder julgá-la como verdade definitivamente adquirida pela Ciência, quando a acumulação dos fatos nos permitirá analisar minuciosamente este tema tão importante.

O tema tem, todavia, um nível de maturidade suficiente para nos permitir elaborar alguns resumos sobre as conseqüências filosóficas e psicológicas que apresentariam o fato da existência e da sobrevivência da alma nos animais. É o que me disponho a fazer resumidamente a fim de completar e de confirmar a tese defendida. Quero dizer que, após ter fornecido a prova experimental da existência e sobrevivência da alma animal, vou demonstrar em seguida a validade e a sua necessidade sob o ponto de vista das leis que regem a evolução biológica e psíquica dos seres vivos, bem como em nome da Justiça Eterna. * * * Homens de ciência que declaram convicções materialistas sustentam freqüentemente que o espírito dos animais, como o dos homens, por ser uma simples função do órgão cerebral, deixa de existir quando o órgão em questão deixa de funcionar após a morte.

Nada há de incoerente nessa tese, segundo a qual o destino dos animais é igual ao do homem; mas a incoerência se revela, em contrapartida, naqueles que acreditam na existência da alma humana – tanto os adeptos de diferentes confissões religiosas quanto os adeptos das doutrinas espiritualistas – e que pressupõem que o espírito dos animais é tão imperfeitamente estruturado que não sobrevive à morte do corpo e que, por conseqüência, se desfaz nos seus elementos constitutivos, diluindose praticamente no nada, exatamente como postulam aqueles homens de ciência. Lembrarei inicialmente que professar estas teorias é bastante perigoso para a doutrina da sobrevivência da alma humana, visto que elas nos levam a assumir que uma simples diferença gradativa na evolução do espírito é suficiente para determinar seu destino, por vezes efêmero sem qualquer culpa, outras vezes imortal sem o menor mérito.

Assim sendo, o que pensar do destino de uma grande parcela do gênero humano? De fato, se reconstituirmos a história da espécie humana com a ajuda da paleontologia, atingiremos um ponto em que o homem da mais remota antigüidade pré-histórica se confunde com as formas animais mais evoluídas. Se fizermos o mesmo para as raças humanas existentes, com a ajuda da antropologia, chegaremos a algumas tribos selvagens bem pouco evoluídas em relação aos animais com os quais vivem e onde a degradação dos indivíduos atinge um nível em que eles se mostram destituídos de qualquer senso moral, com uma mentalidade somente suficiente para guiálos em suas carências materiais de sua existência miserável, mais ou menos como acontece com os animais. Assim sendo, não podemos deixar de nos perguntar: “Qual o grau de elevação espiritual em que a alma de um indivíduo torna-se evoluída o suficiente para suportar a crise da separação do organismo corporal sem se diluir nos seus elementos constitutivos?”

Teremos que considerar que nossos primeiros antepassados, tão pouco evoluídos em relação aos macacos antropóides, e certos selvagens de nosso tempo, de quem podemos quase dizer o mesmo, seriam suficientemente evoluídos espiritualmente para merecer o dom da imortalidade da alma, enquanto que um generoso representante do reino animal, que perde a vida para tentar salvar uma criança que se afoga, ou que definha de saudade junto à sepultura de seu dono, terá que desaparecer definitivamente, por não ter alcançado essa suposta barreira dos imortais? Uma diferença gradativa na evolução espiritual dos seres não implica de forma alguma em uma diferença qualitativa, mas unicamente quantitativa, e esta não pode representar mais que uma etapa mais ou menos evoluída na escala da evolução anímica.

De fato, a vida, tal como ela se manifesta nos animais, é apenas a expressão exterior de um “espírito” que se encarnou em potência, e que só pode ser idêntico em essência ao espírito que se manifesta nos seres humanos mais baixos, passados ou contemporâneos – como nos povos atuais mais civilizados. Noutros termos, a vida, em todas as suas formas e em todos os casos, é a expressão num meio terrestre de um espírito que se encarnou numa determinada síntese de matéria organizada, indicando o grau de evolução que esse espírito alcançou e ponto final; pois qualquer espírito por si só pode ser absolutamente idêntico aos outros espíritos que animam qualquer outra síntese de matéria organizada, exceto em relação ao grau de progresso atingido.

Se tivesse que recorrer a uma imagem para ilustrar essa idéia, falaria de uma chama situada em um vaso de cristal cuja claridade reluz sem obstáculo; em seguida outra, situada num vaso de porcelana, que libera uma luminosidade atenuada; e finalmente uma terceira que, situada num vaso de esmaltada faiança ebânea, não libera nenhuma luz, exceto através das frestas que poderiam existir na tampa (fendas estas que, nos animais, corresponderiam às “saídas” através das quais emergem as faculdades de instinto e algumas vezes através das fissuras que poderiam se produzir no vaso – elas explicariam a emersão das faculdades paranormais subconscientes). Então poderíamos argumentar que o mesmo acontece com os destinos do Espírito, em suas inúmeras fases reencarnatórias, ao longo das quais o que muda são os envoltórios que ele reveste, e não o Espírito, que permanece em potência inalterado e inalterável. Obviamente, para admitir este fato fundamental da evolução da vida no universo é preciso se desfazer das doutrinas pueris aprendidas durante a adolescência, segundo as quais a alma é criada do nada no instante do nascimento.

Uma vez que nos desfizermos dessa crença absurda, só nos restará aderir à única doutrina capaz de explicar a evolução espiritual da vida; a da reencarnação progressiva de todos os seres vivos, doutrina esta que era intuitivamente conhecida pelos mais diversos povos, desde a antigüidade mais remota. É por acaso anticientífico supor que a evolução biológica da espécie, ilustrada pela Ciência, seja governada por uma evolução correspondente e paralela do Espírito, que se individualizaria gradativa e lentamente, adquirindo uma consciência de si mesmo cada vez mais forte, graças à acumulação de uma série de experiências adquiridas na transição através de uma infinidade de existências vegetais, animais e humanas?

De qualquer forma, não é menos verdade que a teoria da sobrevivência da alma animal – sobrevivência esta que, como pudemos ver, se demonstra através dos fatos estudados – careceria de uma base racional se esta não fosse completada pela hipótese da reencarnação, pois não poderíamos admitir uma condição de existência espiritual dos animais em que um quadrúpede, um réptil ou um pássaro tivessem que permanecer como tais eternamente. Logo, conclui-se que as formas animais da existência terrestre, assim como as variações da raça humana, só podem ser consideradas como formas transitórias pelas quais todos os seres vivos terão de passar; sem o que a vida no Universo não se explicaria e seria sem finalidade, assim como não existiria nenhuma justiça no mundo. Reitero este ponto: a escala infinita dos seres vivos só pode ser a expressão das manifestações da alma nas suas etapas progressivas de evolução espiritual.

Aquilo que se tornou atual no homem, graças a uma mais longa evolução, permanece em potencial nos seres inferiores. A involução precede a evolução. Não é de forma alguma a matéria que determina a evolução do Espírito, é o Espírito que, para evoluir por si só, necessita de todas as fases de experiências que se pode obter na Terra e, conseqüentemente, precisa revestir, sucessivamente, todas as formas mais refinadas que lhe pode fornecer a matéria organizada. As leis biológicas da “seleção natural”, da “sobrevivência do mais capaz” e da “influência do meio” são apenas os acessórios mais indispensáveis para esta evolução; entretanto, a verdadeira causa da evolução dos seres vivos é interior e chama-se “Espírito”. Certamente uma das melhores definições inteligíveis a respeito da natureza íntima dos processos evolutivos nas individualidades vivas foi transmitida por via mediúnica a Lady Cathness e incluída em seu livro Old Truth in a New Light.

Conquanto esta senhora fosse inglesa, a definição lhe foi inspirada em francês; eu a reproduzo fielmente. O gás se mineraliza, o mineral se vegetaliza, o vegetal se animaliza, o animal se humaniza, o homem se diviniza. Se aceitarmos as afirmações acima a favor da existência e da sobrevivência da “psique animal e de sua transição ascendente através da escala dos seres pelas reencarnações sucessivas até o estágio de se humanizar, uma nova luz iluminaria também o eterno problema que todos os filósofos e todos os religiosos se propuseram a solucionar: aquele da “finalidade da vida no universo”. Pobres dos povos que perderam qualquer fé a respeito do grande destino dos seres! Todos, na Itália, lembram-se das palavras desoladas pronunciadas no leito de morte pelo eminente filósofo Roberto Ardigò, que tentou se suicidar duas vezes: “Deixem-me então morrer: para que serve a vida?”.

Palavras que ressoam como uma terrível condenação sobre as teorias positivistas-materialistas professadas de boa-fé por esse brilhante pensador. Somos então levados a afirmar: “Eis aí um filósofo, pelo menos coerente com suas convicções!”. Sua lamentável concepção materialista da vida o tinha levado racionalmente e inevitavelmente a concluir que a vida não tinha nenhuma finalidade, pois, se tudo termina com a morte do corpo, a troco de que ter vivido, ter contemplado por um segundo a grandeza do Universo, ter estudado durante toda uma vida, ter sofrido tanto, moralmente e fisicamente? Talvez pelo bem das gerações futuras? Contudo, se estas, por sua vez, devem desaparecer sem deixar o menor traço; se, num determinado número de séculos, em conseqüência do resfriamento progressivo do planeta, nosso mundo deve também morrer, com todos os seres a quem ele dá a vida; e se é este o destino extremo de todos os mundos existentes no Universo, para que serve então o progresso da Humanidade?

A troco de que cultivar a Arte, o Belo, o Bem? A febre do saber, de se dedicar a um ideal? Para que serve a vida? Para que servem os mundos? Para que serve o Universo?

E, especialmente, qual é a finalidade das dores materiais e morais enfrentadas pelos seres, sem que estes as tenham pedido, o dom nefasto da vida? Que grande frustração para uma alma evoluída como a de Roberto Ardigò! Ele não podia se impedir de contemplar, desolado, o abismo da vaidade infinita do Todo; ele não podia se impedir de se revoltar na presença desta trágica ironia do destino. Seria melhor desafiar com bravura o destino da única maneira permitida para um ser vivo: liberar-se, através do suicídio, do suplício moral de contemplar, indefeso, a tragédia do ser. Roberto Ardigò era fiel às suas convicções; mas os filósofos que compartilhavam suas convicções materialistas, e que, apesar disso, não terminaram como ele através do suicídio, são por felicidade incoerentes; o que devemos atribuir ao fato de que no âmago de seus subconscientes existe uma faísca divina que sabem ser imortal, a qual consegue transmitir para suas consciências uma vaga intuição a respeito da verdade.

Assim, sem se darem conta, eles pensam de um modo e agem de outro; já Roberto Ardigò, por ter sido coerente, cometeu o suicídio. Chegou a grande hora de dispersar, nos meios filosóficos e científicos, os vapores asfixiantes do positivismo materialista, proclamando ao mundo a boa notícia de que no cume mais ensolarado da majestosa árvore do saber humano nasceu um outro galho luxuriante e fecundo de frutos regeneradores, galho este que se chama “Ciência da Alma”, e graças à qual se pode demonstrar a vaidade, a incoerência, o equívoco da concepção materialista do Universo. Esta “Ciência da alma” demonstra também que a germinação da vida nos mundos tem por objetivo a evolução do Espírito que, tendo encarnado em potência na matéria, deve se elevar ao estado de uma individualidade perfeita consciente, moral, angelical, graças às experiências incontáveis adquiridas através de todas as sínteses da matéria organizada, experiências estas que se alternam em ciclos de existência espiritual sempre sublimes, até alcançar os cumes supremos da identificação com Deus, finalidade suprema do ser.

O que não significa de forma alguma o aniquilamento do Eu, mas sim sua integração com o Divino, sem nada perder de sua individualidade, como as células do organismo humano concorrem aos milhões para criá-lo, sem nada perder da individualidade que lhes é inerente. Em outras palavras: ao Microcosmo-Homem, suprema síntese polizóica e polipsíquica no domínio do Relativo, corresponde o Macrocosmo-Deus, síntese transcendental polipsíquica e una, eterna, incorruptível, infinita, no domínio do Absoluto. * * * Vejamos como alma, evolução e destino do ser são definidos pelas famosas sentenças filosóficas redigidas mediunicamente por Eugène Nus: “Alma: porção de substância que Deus retira da Força Universal para cada individualidade.

Centro de atividade assimiladora incandescente que retoma, um a um, todos os atributos do Criador. Evolução: as moléculas simples, modificadas por atração direta, unem-se e se combinam para formar organismos diferentes: mínimos nos minerais, sensíveis nos vegetais e instintivos nos animais. Progredir, para o ser consciente, significa se transformar, empregando racionalmente os elementos internos e externos dos quais ele dispõe. Em graus sucessivos, o ser consciente realiza seu destino, percorrendo moralmente a longa caminhada da vida... vida livremente manifesta, mas subordinada às leis necessariamente determinadas pela Ordem do Universo. A finalidade suprema das individualidades é a de contribuir para formar o ser coletivo do qual somos as moléculas inteligentes, da mesma forma que a finalidade inconsciente ou o destino das moléculas, das forças puramente instintivas, ou inclusive menos instintivas, que interagem para formar nossos organismos, é a de criar o ser individual.

Para esse Todo, assim como para as partes, a vida é um vir-a-ser perpétuo e não é igual a ela mesma em nenhum momento de sua travessia pelo tempo.” * * * Porém, vejo que as especulações filosóficas sobre o instigante problema do ser me fazem perder o foco da tese bem mais modesta que se constitui no objeto deste livro. Minha tese consiste num ensaio inicial para demonstrar, através de um método científico, a sobrevivência da alma nos animais. Assim sendo, é preciso retomar nosso assunto e concluí-lo, lembrando que a existência de faculdades paranormais no subconsciente animal – existência esta suficientemente demonstrada através dos casos expostos – constitui uma boa prova a favor da psique animal. Devemos concluir, no tocante ao homem, que as faculdades em análise representam, no subconsciente, os sentidos espirituais pré-formados, aguardando para se manifestarem num meio espiritual (como as faculdades dos sentidos foram pré-formadas no embrião, aguardando para se manifestarem no meio terrestre). Se assim for, já que as mesmas faculdades se encontram no subconsciente animal, devemos logicamente concluir que os animais detêm, por seu lado, um espírito também, o qual sobrevive à morte do corpo.

Além disso, esta demonstração altamente sugestiva foi acompanhada por uma outra que lhe é complementar, e não menos válida: aquela retirada dos casos de aparição post-mortem de fantasmas animais identificados. Eis o porquê da conclusão legítima de que tudo concorre para demonstrar a realidade da existência e da sobrevivência da psique animal; embora, conforme recomendam os métodos de pesquisas científicas, antes de nos pronunciarmos definitivamente a esse respeito, é necessário esperar um acúmulo posterior de fatos, para que tenhamos condições de examinar a sua gênese em relação a uma escala maior, analisando, comparando, classificando extensamente, até afastarmos toda e qualquer dúvida autêntica em relação a essa questão de uma psicologia, filosofia e moral imensamente importantes. Somente desta forma o que é, por enquanto, apenas uma “hipótese de trabalho”, suficientemente baseada em fatos para ser levada em consideração, poderá se transformar em verdade demonstrada. As pesquisas atuais sobre esta questão não deixam nenhuma dúvida em relação ao fato de que o veredicto da Ciência futura deverá se pronunciar neste sentido.

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