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Capítulo 15 de 21

Parte 15 de 20

A Alma nos Animais · Ernesto Bozzano

por fenômenos de “voz direta” – com a célebre senhora Wriedt, na Inglaterra, obtivemos, freqüentemente, materializações de animais que se fazem entender pelas vozes. Limito-me a transcrever dois exemplos. No relatório das sessões de Cambridge – que aconteceram em 1914 na Inglaterra – um magistrado daquela cidade fala assim (Revista Light, 1914, pág. 296): “Ao longo da primeira sessão, que aconteceu em Wimbledon, minha mulher sentiu uma pressão característica em seus pés, mas não soube precisar o que era. Isto se repetiu inúmeras vezes, dando lugar a diversas suposições da parte dos pesquisadores. De repente, fomos pegos de surpresa pelo latido de um cão. Perguntamos ao doutor Sharp (o Espíritoguia) o que poderia dizer sobre esses latidos, e ele nos respondeu: “Há um cão fraldiqueiro aqui que pertencia a sua mulher”. De fato, há muitos anos tínhamos perdido um cãozinho a quem éramos muito apegados e que já tinha sido visto perto de nós em outras sessões com médiuns clarividentes. Nem é preciso dizer que o médium não tinha nenhuma informação sobre o fato.”

Em outra sessão com a mesma médium, cujo relatório saiu na revista Light (1921, pág. 490), o senhor A. J. Wood diz: “Convidei um amigo com sua mulher a uma sessão. A senhora Wriedt descreveu com bastante precisão um cão da raça collie, que ela distinguia ao lado de meus amigos. Num determinado momento, dirigindo-se a uma mulher, a médium disse: “Ele pôs a cabeça em seus joelhos”. No mesmo instante, ouvimos partir daquele lugar um latido alegre e vigoroso. Ora, com efeito, meus amigos tinham tido um cão collie, grande preferido deles que tinha morrido há vários anos e cujo aspecto correspondia exatamente àquele descrito pela médium.” Cito, por último, alguns trechos de relatórios das sessões com o médium polonês Franck Kluski, que saíram na Revue Métapsychique, onde constatamos que estamos realmente diante de uma primeira contribuição experimental séria a favor das materializações animais.

Já no fascículo de julho-agosto de 1921 (pág. 301), da revista em questão, o doutor Gustave Geley, que tinha assistido às sessões, anunciava a publicação para breve dos relatórios sobre o fenômeno extraordinário das materializações de animais nos termos seguintes: “As materializações de entidades animais não são raras com Frank Kluski. Nos relatórios das sessões da Sociedade de Estudos Psíquicos de Varsóvia, Polônia, que publicaremos oportunamente, veremos assinalados, em especial, uma grande ave de rapina que apareceu em várias sessões nas quais foi fotografada, e também um ser estranho, espécie intermediária entre o macaco e o homem. Ele é descrito como se tivesse o tamanho de um homem, um rosto simiesco, mas com uma testa desenvolvida e normal, de rosto e corpo cobertos de pelo, com braços bastantes longos, mãos fortes e compridas, etc.. Ele parece sempre comovido, pega nas mãos dos assistentes e as lambe como se fosse um cão. Ora, esse espécime, que nomeamos “O Pitecantropo”, manifestou-se várias vezes durante nossas sessões.

Um de nós, na sessão de 20 de novembro de 1921, sentiu sua grande cabeça aveludada se apoiar fortemente sobre seu ombro direito, contra suas bochechas. Aquela cabeça estava coberta de cabelos duros e rudes. Um odor de fauna, de cão molhado, desprendia-se dele. Um dos assistentes, ao levantar sua mão, foi pego pelo “Pitecantropo”, que, em seguida, lambeu-a três vezes seguidas. Sua língua era larga e macia. Outras vezes sentimos, sob nossas pernas, contatos que lembravam o toque dos cães.” O registro das sessões às quais ele faz alusão no parágrafo precedente foi publicado no número de janeiro-fevereiro de 1923 (págs. 27-39) da Revue Métapsychique. Recolho do relatório da sessão de 10 de agosto de 1919 o trecho abaixo: “... Notamos simultaneamente várias aparições. A primeira que se deixou ver foi uma aparição que já era conhecida pelos assistentes durante as sessões anteriores. Era um ser do tamanho de um homem adulto, bastante peludo, com uma crina enorme e uma barba embaraçada.

Ele era revestido com uma pele quebradiça; sua aparência era a de um ser que lembrava um animal ou um homem bastante primitivo. Ele não falava, mas lançava sons roucos com seus lábios, estalava a língua e rangia os dentes, procurando em vão ser compreendido. Quando o chamávamos, ele se aproximava; ele nos deixava acariciar sua pele aveludada, tocava com as mãos os assistentes e esfregava a mão bem devagar com as garras. Ele obedecia à voz do médium e não machucava os assistentes, tocando neles levemente. Era um progresso, pois nas sessões anteriores este ser manifestava muita violência e brutalidade. Ele tinha a tendência visível e uma vontade incontrolável de lamber as mãos e o rosto dos assistentes, os quais, por sua vez, se defendiam de suas carícias indelicadas. Ele obedecia a cada ordem dada pelo médium, não somente quando esta ordem era expressa por palavras, mas também quando era expressa pelo pensamento.”

Escolho esta outra passagem do relatório da sessão de 3 de setembro de 1919. O relator escreve: “Simultaneamente, o médium e as pessoas sentadas ao redor dele sentiram a presença do animal-homem primitivo, assim como nas sessões anteriores. Essa materialização passou pelos assistentes lambendo suas mãos e seus rostos, sobre as quais ele colocava sua mão ou sua pata aveludada, ou apoiava sua cabeça eriçada. Todos esses gestos foram lentos e não bruscos. Essa entidade mostrava somente uma certa animosidade contra a cadelinha da senhora Kluska (Frusia), que estava nos joelhos da senhora Grzelak. O ser materializado puxou os pelos e as orelhas da cadelinha, que começou a se aborrecer e a latir. Finalmente, bastante assustada, Frusia pulou dos joelhos de Grzelak e foi se refugiar no sofá, entre as pessoas que estavam sentadas, não se movendo mais.” O trabalho foi suspenso durante algum tempo; quando a sessão foi retomada, o “homem primitivo” se materializou de novo. O relatório continua assim: “Desde o início, vimos várias aparições, inclusive a do “homem primitivo”.

Este último ficou o tempo todo sentado no tapete, entre os assistentes; ele se comportava relativamente com tranqüilidade, mas não permitia acender a tela luminescente e, inclusive, rasgou com grunhidos a tela que a senhora Kluska segurava.” Os relatórios em questão contêm três outros episódios de materialização do mesmo fantasma do “homem primitivo”; não os reproduzo aqui porque estes são semelhantes aos precedentes. No que concerne às materializações da grande ave de rapina, encontro no relatório em questão apenas uma única alusão a um destes fatos, ao longo da sessão de 7 de setembro. O relator escreve: “Às 11:20, vimos um grande pássaro (como a águia ou o abutre da primeira sessão, bem materializado e bastante iluminado por cima da cabeça da senhora Jankowska). Ouvimos também estalos e barulhos de passos.” Importante lembrar que na Revue Métapsychique (janeirofevereiro de 1923) foi publicada uma linda fotografia da ave de rapina de que falo; vemos que ela está empoleirada no ombro esquerdo do médium, com suas grandes asas abertas e com olhar penetrante na direção dos experimentadores.

Estas são as manifestações recentes de materialização de animais, materializações estas que revestem uma importância ao mesmo tempo científica e metapsíquica; e a circunstância de que a grande ave de rapina foi fotografada é de um valor teórico decisivo, visto que ela é suficiente para eliminar a hipótese alucinatória. E quanto à esperança de que uma futura ciência paranormal-antropológica possa permitir a aparição materializada de um ser que apresenta todos os traços característicos de um de nossos longínquos ancestrais, elo de conjunção entre o homem e o macaco antropóide conforme as deduções dos naturalistas sobre a existência do Pitecanthropus alalus? O assunto é bastante interessante, sem dúvida, e sugere naturalmente considerações vastas sobre a filogênese humana; porém, não devemos nos aventurar aqui com discussões prematuras. * * * Da coleção dos casos mencionados até agora pudemos deduzir, em resumo, que os episódios de materialização de animais adquirem com freqüência o aspecto de provas de identificação espiritual para a raça animal, provas estas que são análogas àquelas de identificação espiritual para a espécie humana.

Decorre daí que, se esta nova ramificação de pesquisas puder evoluir, ela contribuirá, junto às demais, para se demonstrar experimentalmente a existência e a sobrevivência da alma animal. Antecipo a objeção que as pessoas poderiam ter a esse respeito: que os fenômenos de materialização humana, assim como os de materialização animal, podem ser explicados através da hipótese “ideoplástica”,22 sem que para isso seja necessário recorrer à hipótese espírita. Responderei que se a hipótese ideoplástica é suficiente para dar conta de certas modalidades de materializações humanas e animais e se ela é, inclusive, indiscutivelmente a causa destes fenômenos, seria, em contrapartida, absurdo e insustentável aplicar esta explicação a toda classe dos fenômenos considerados. Nesse sentido, não será nunca supérfluo dizer que Animismo e Espiritismo são dois termos insepará-

veis para um mesmo problema e que, conseqüentemente, nas materializações mediúnicas de qualquer tipo, encontramo-nos obrigatoriamente diante de modos de manifestações que são parcialmente anímicos e espíritas. Não poderia ser diferente, e seria absurdo achar o contrário, uma vez que, nos dois casos, o espírito que opera é o mesmo, mas com a diferença que num caso ele se encontra encarnado e no outro desencarnado. Assim sendo, nada mais natural que esta combinação inseparável das duas ordens de manifestações se realize também nos casos de fenômenos de materialização, entre os quais é relativamente fácil diferenciar fenômenos anímicos e espíritas. De fato, assim como já foi observado em meu outro livro – o caso do fantasma de Katie King, que conta ao filho de William Crookes sua existência terrestre, ou o de Estelle Livermore, que escreve ao seu marido longas cartas em francês (língua esta ignorada pela médium), ou ainda a carta de Nepenthès à senhora d’Espérance, na qual a primeira afirma ter vivido nos tempos heróicos da Grécia antiga e escreve uma mensagem de sete linhas em grego arcaico, língua ignorada por todos os presentes – estes caos não poderão jamais ser explicados pela hipótese ideoplástica e deverão ser considerados incontestavelmente espíritas.

Podemos dizer o mesmo do caso “Sven Stromberg-d’Espérance”, em que um humilde camponês sueco, emigrado e morto no Canadá, numa pequena região perdida no interior, manifesta-se pela escrita mediúnica 60 horas após seu falecimento; ele se materializa em seguida e é fotografado pelo professor Boutlerof, na presença de Alexandre Aksakof e de outros experimentadores respeitáveis; depois disso, a fotografia é enviada para a Suécia, na pequena região natal de Sven Stromberg, conforme o endereço dado pelo próprio Espírito, e lá é identificada por inúmeros compatriotas do falecido (Revista Light, 1905, págs. 43-45, e Shadow Land, pela Madame d’Espérance). É evidente que, nos casos semelhantes a este último, a hipótese ideoplástica está excluída se considerarmos que o poder criativo do pensamento do médium não podia certamente materializar os traços do defunto que nem ele nem seus assistentes sequer conheciam.

Assim sendo, a conclusão inevitável é a de que um defunto desconhecido por todos os assistentes conseguiu se materializar porque ele existe e age; esta conclusão não pode ser discutida, e como não há hipóteses racionais que possam contradizer o fato, ela possui um valor de prova decisivo. Unicamente, como se trata, no nosso caso, de materialização animal, vemos surgir, a este respeito, uma dúvida teórica importante. Podemos notar que, de fato, as materializações autênticas de Espíritos humanos desencarnados podem ser, até certo ponto, compreensíveis pelo fato de que podemos controlar as afirmações das personalidades mediúnicas para as quais as materializações se produziriam graças a um ato de vontade da entidade que se manifesta. E podemos controlar estas afirmações comparando os fenômenos de materialização com certas manifestações teratológicas do desenvolvimento orgânico, tais como os “desejos maternos” e os “estigmatas”, que podem ser assimilados a um fenômeno de ideoplastia subconsciente e, conseqüentemente, a uma tentativa rudimentar terrestre do poder criador da idéia.

Assim sendo, estas manifestações anormais tornam verossímil o fato de que os processos de materialização acontecem após um ato de vontade da Entidade que se manifesta. Mas não poderíamos dar conta das materializações de animais, para os quais, desprovidos da faculdade de raciocínio evoluída, o necessário ato de vontade não é possível. O tema é teoricamente interessante; também, antes de discutilo de acordo com meu modo de abordar as coisas, transcrevo abaixo a opinião de um homem profundamente envolvido com as pesquisas metapsíquicas, com quem troquei algumas cartas a esse respeito. Escreve esse pesquisador: “Não deveríamos nos perguntar se as faculdades subliminais dos animais – principalmente de alguns – não seriam infinitamente superiores àquelas que se manifestam durante a vida encarnada, ao longo da qual um animal é colocado numa situação tão inferior (por causa da estrutura rudimentar de seu organismo cerebral) em relação à alma do homem, reduzida momentaneamente ou definitivamente numa condição psicológica anormal (alienada, idiota, etc.)?

Por que um cão morto deveria encontrar mais dificuldades para se materializar do que um cão vivo encontra para ser agente de um fenômeno telepático? Ambos os fenômenos podem provavelmente se realizar automaticamente, assim como a ostra constrói automaticamente sua concha, a aranha sua teia, a abelha sua colméia e o mel, etc.. E isto, bem entendido, sem sequer entrar na questão obscura da inteligência, sobretudo matemática, que demonstram os animais no momento em que eles nos dão uma comunicação automática (cavalos de Elberfeld, cães de Manheim, etc.). Prefiro não levantar esta questão, justamente porque ignoro qual é o papel que pode interpretar nisso tudo a colaboração inconsciente do homem. Assim sendo, nossos médiuns sabem, por acaso, como eles produzem seus fenômenos paranormais não-espíritas e, por exemplo, as materializações puramente ideoplásticas?...” Estas são as argumentações racionais e convincentes sugeridas pelo meu correspondente a respeito da dificuldade teórica em questão.

Todavia, não posso deixar de lembrar que seu ponto de vista depende do fato de admitirmos que a mentalidade subliminal dos animais é muito superior àquela que se manifesta durante a vida encarnada, a tal ponto que a personalidade espiritual deles poderia manifestar o desejo de se materializar, desejo este indispensável numa circunstância como esta. Para aqueles que não estiverem em condições de atribuir à consciência animal uma vontade e uma inteligência quase humanas, lembro que é possível resolver o enigma de uma outra maneira, ou seja, aceitando as explicações que fornecem as personalidades mediúnicas que se comunicam e que afirmam que uma Entidade desencarnada, tanto humana quanto animal, não pode conseguir sozinha tornar-se tangível ao se materializar, devendo recorrer à ajuda de numerosos Espíritos auxiliares já familiarizados com os processos de materialização; conseqüentemente, no momento em que uma forma animal se manifesta, a vontade que comanda os processos de materialização é, na realidade, aquela dos Espíritos auxiliares. Oitava categoria

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