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Capítulo 16 de 21

Parte 16 de 20

A Alma nos Animais · Ernesto Bozzano

Aparições de fantasmas de animais identificados A categoria das percepções de fantasmas animais é repleta de episódios diversos; porém, se nos dispusermos a encará-los sob um ponto de vista rigorosamente científico, seremos levados a concluir que os dois primeiros grupos são os mais abundantes em números de casos. O primeiro compreende visões de fantasmas animais que não foram identificados com os animais que viveram ou que morreram recentemente nas redondezas. Estas visões podem ser facilmente explicadas a partir da hipótese alucinatória, embora haja exemplos em que os fantasmas animais foram percebidos coletivamente e sucessivamente por diferentes pessoas. O outro grupo de fantasmas animais a serem excluídos é o das visualizações subjetivas obtidas pelos sensitivos clarividentes, visualizações estas que, em sua maioria, são atribuídas a um fenômeno de “clarividência telepática”, ou seja, à leitura do pensamento na subconsciência do consultante, e isto como conseqüência da “relação” que se estabelece entre o subconsciente do sensitivo e o do consultante.

É o que se produz, sob outra forma, no caso da psicometria, onde os objetos presentes para o sensitivo servem para estabelecer a “relação” entre o subconsciente deste último e o do dono do objeto; isto faz com que diante da visão subjetiva do sensitivo surjam imagens que representem acontecimentos com traços do proprietário do objeto em questão e que constituam a representação mais ou menos simbólica das informações tiradas pelo sensitivo do subconsciente do consultante. Segue daí que as visões dos animais falecidos, quando acontecem em condições que permitam considerar a “clarividência telepática”, não podem revestir um valor de prova de identificação animal, exceto se houver alguma circunstância secundária capaz de corroborar para esta última interpretação, circunstância que se produz com bastante freqüência nas consultas em questão; assim sendo, podemos descartar a hipótese de “clarividência telepática propriamente dita” e não a de “clarividência espiritual-telepática”.

Esse aumento de manifestações análogas de origens diferentes contribui para mostrar o fundamento e a importância da lei metapsíquica à qual fizemos alusões anteriormente, lei segundo a qual todas as formas de vidência e de mediunidade podem ser alternadamente anímicas e espíritas, isto é, em conseqüência do fato essencial de que toda manifestação paranormal que se produz por intermédio de um “Espírito desencarnado” pode também se produzir por meio de um “Espírito encarnado”, quando este se encontra em condições transitórias de desencarnação parcial do Espírito – em condições leves ou profundas de sono fisiológico, em estado de sonambulismo mediúnico ou no momento de uma crise de doença grave, de síncope ou de êxtase. Resulta daí que, em todas as formas de manifestações paranormais, são as circunstâncias pelas quais os fatos se produzem que devem nos indicar as causas que as desencadearam e não as formas diferentes de vidência ou de mediunidade pelas quais elas foram obtidas, pois estas últimas são todas equivalentes, podendo ser “espiríticas” ou “anímicas”.

Agora chegamos à exposição dos casos coletados, começando por um episódio explicável a partir da “clarividência telepática”, passando por casos menos suscetíveis a esta interpretação e, finalmente, concluindo com exemplos em que esta hipótese deve ser absolutamente descartada. Caso 117 (Mediunidade vidente) O senhor P. G. Leymarie (pai), diretor de La Revue Spirite, publicou em 1900 o fato seguinte, que retiro da Rivista di Studi Psichici (pág. 347): “Em janeiro de 1887, a senhora Bosc, viúva de um conhecido engenheiro, estava sentada próximo da chaminé de nosso apartamento, no nº 7 da Rue de Lille, em Paris, no momento em que o conde De Lvoff, presidente da Alta Corte de Moscou, visitou-nos pela primeira vez. Nós o apresentamos à senhora Bosc e enquanto eu escrevia eles conversavam. Num certo momento, a senhora Bosc disse: “Percebo ao lado de vocês um grande cão terra-nova branco, com as patas e as orelhas pretas e uma estrela preta na testa.

Ele carrega ao redor do pescoço uma coleira de prata presa por uma pequena corrente que tem a inscrição “Sergei Lvoff” mais o nome do cão (que a vidente informou, mas que o senhor Leymarie esqueceu). Ele tem uma bela cauda longa e está olhando para você, fazendo-lhe agrados”. Com estas palavras, os olhos do senhor De Lvoff se encheram de lágrimas e ele disse: “Na minha meninice eu era esperto e inquieto; meus pais me deram um cão para cuidar, exatamente como você descreveu. Ele salvou minha vida mais de uma vez, tirando-me das águas do rio onde eu estava prestes a me afogar. Quando tinha doze anos perdi meu fiel amigo e lamentei a perda como se fosse um irmão. Então, sinto-me feliz em saber que ele está perto de mim, certo de que esses camaradas da nossa vida têm uma alma inteligente que sobrevive à morte do corpo e um corpo espiritual que pode restituí-lo com a coleira e a inscrição. Posso, além disso, reconhecer em você uma médium de grande sensibilidade que despertou em mim uma lembrança de quarenta anos atrás.

Obrigado, senhora, e que Deus a abençoe.” A senhora Bosc observou o cão expressar grandes manifestações de alegria; depois foi se esvaecendo pouco a pouco. Ora, não esperávamos de forma alguma o conde De Lvoff, o qual a senhora Bosc via pela primeira vez e nenhuma relação existia entre eles. Da minha parte, não sabia que o nome do senhor Lvoff era Sergei.” É desse modo que se produzem as manifestações da “clarividência telepática” em suas formas mais simples e características; por isso, é necessário concordar que se não conhecêssemos exemplos de leitura dos subconscientes alheios, obtidos através do sonambulismo magnético, não menos circunstancial ou impactante, como também um grande número de exemplos ainda mais impressionantes de psicometria, seríamos levados a atribuir um valor objetivo para casos análogos a este que acabamos de expor.

Porém, quem quer que possua espírito científico se deixará enganar pelas aparências e concluirá que, diante da ausência de circunstâncias colaterais que contribuam para provar a origem extrínseca da visão da senhora Bosc, é preciso encará-lo como um fenômeno de leitura de pensamento subconsciente. Não contesto de forma alguma que possa existir alguma coisa de misterioso no fato de uma clarividente desenterrar no subconsciente do outro um incidente que ocorreu há quarenta anos, ao invés de tantos outros mais recentes que, por isso, deveriam ser mais perceptíveis às faculdades paranormais. Sim, certamente, o fato apresenta alguma coisa de inconcebível e contraditório; no entanto, ele se encaixa incontestavelmente no caso de clarividência telepática; assim sendo, não nos resta nenhuma alternativa a não ser aceitar esta interpretação dos fatos.

Por outro lado, uma solução satisfatória do mistério poderia ser alcançada ao supormos que, neste caso, o assunto da conversa tenha trazido até a memória do senhor De Lvoff o adorável episódio de sua infância, transformando-o em algo atual para as faculdades penetrantes da clarividência telepática. Caso 118 (Criança vidente e bastante jovem) A revista Light o publicou em 1906 (pág. 387). O senhor Francis T. Harris recorda acontecimentos envolvendo um menino que faleceu quando tinha apenas sete anos. Quando nasceu, seus pais eram saudáveis e robustos; ele próprio era saudável, sem nenhuma debilidade neuropática e, no entanto, tinha mostrado, desde os primeiros anos de vida, disposições para a clarividência. O senhor Harris conta: “Nos primeiros anos de vida, seus pais tinham notado que ele via coisas invisíveis para os outros; esta particularidade tinha sido com freqüência discutida pelas pessoas ao seu redor. Antes mesmo que ele tivesse aprendido a falar, parecia freqüentemente assustado por alguma coisa invisível.

Noutros casos ele parecia, ao contrário, completamente contente com o que via e estendia seus bracinhos na direção do ser que só existia para ele. Ele ainda não tinha três anos, e se divertia com um de seus brinquedos em seu quarto, a dois metros de seus pais, quando foi invadido repentinamente por um medo enorme e correu gritando em direção à sua mãe. Quando esta lhe perguntou, soube que ele tinha se assustado com a visão de dois cães, um marrom e outro preto. Seu pai o pegou nos braços, tentando distraí-lo e acalmá-lo, dizendo-lhe que os dois cães só queriam brincar com ele. Dias depois, o incidente se repetiu no mesmo cômodo e de acordo com as mesmas circunstâncias; a criança correu até seu pai, mais assustada do que nunca com a visão dos dois cães, e se refugiou nos braços paternos. O pai o tranqüilizou, lembrando-lhe que os dois cães não lhe faziam mal algum; ao dizer isto, ele os chamou, primeiro assobiando, em seguida estalando os dedos e acariciando o ar perto dele.

Este ato levou o menino a fazer o mesmo; e seu espanto foi enorme quando ele viu que não podia apalpá-los. Apesar de tudo isto, ele conseguiu tirar o medo da criança; embora ela tenha visto ainda várias vezes os cães, não se amedrontava mais. É preciso observar que o pai do menino vidente tinha tido dois cães setter - um marrom e um negro – que tinham morrido três anos antes.” A ligação entre os fantasmas caninos que apareceram para o menino e os cães de cores semelhantes que o pai tinha tido não parece duvidosa. Em contrapartida, não poderíamos excluir por completo a hipótese da leitura do pensamento do pai pela criança; porém, esta hipótese não parecerá verossímil se pensarmos que a criança tinha se mostrado vidente desde o nascimento e que tinha, ao mesmo tempo, visões de uma natureza diferente que não poderíamos considerar como a leitura do pensamento e que os fantasmas dos cães lhe apareciam freqüentemente a ponto de se tornarem familiares.

Esta última circunstância é dificilmente conciliável com a hipótese da transmissão do pensamento paterno ou materno, pensamento este que deveria ser orientado para os cães falecidos cada vez que a criança os via. De qualquer forma, a gênese do caso continua duvidosa. Caso 119 (Visual) No livro de Arthur Hill, Man is a Spirit (pág. 117), lemos este episódio enviado ao autor pela percipiente, senhora Janet Holt: “Um dia meu marido trouxe para casa um grande cão buldogue. Disse que esse animal faria com que ele ganhasse dinheiro, apresentando-o como campeão nas lutas entre cães buldogues. O cão se chamava Charles; era um animal bom e afetuoso, ao qual não demorei a me apegar. Ele saiu vitorioso de muitos combates, mas uma vez ele foi vencido; meu marido, irritado com a derrota, apanhou-o e o jogou no rio. Anos depois, no momento em que tinha quase esquecido do pobre Charles, fui acordada numa noite por um sobressalto, como se alguém tivesse me sacudido com essa intenção, e me vi rodeada por uma luminosidade estranha.

Sentei-me na cama e, para meu grande espanto, vi Charles sentado ao meu lado. Ele parecia ter proporções normais, absolutamente idênticas àquelas que tinha quando estava vivo. Ele me olhou com insistência durante algum tempo, depois se esvaeceu lentamente. No dia seguinte, meu marido foi preso. É provável que Charles tenha se manifestado a título premonitório. (Meu marido era um grande patife, e tive de me separar dele para sempre. Ele encontra-se nesse momento nos EUA).” Que estranha e reveladora parece esta história, em que um cão morto cruel e injustamente por um dono malvado se manifesta para a mulher deste último justamente na véspera de sua prisão, isto é, no momento em que ele vai pagar parcialmente a pena por suas crueldades. Todavia, e justamente por causa desta coincidência, se o episódio não pode ser explicado pela clarividência telepática, ele pode ser encarado sob um outro ponto de vista que é o da sobrevivência da alma animal.

De fato, parece que podemos reduzi-lo a um episódio de visão simbólicopremonitória; neste caso, a aparição do fantasma do animal sacrificado por aquele que ia ser preso não seria de natureza objetiva, mas constituiria um símbolo transmitido por uma Entidade espiritual humana ligada por laços afetivos à percipiente Janet Holt. Uma variante desta mesma explicação consiste na suposição de que a Entidade espiritual em questão tenha, ao contrário, se proposto a ajudar o espírito do cão a se manifestar objetivamente para a percipiente, sempre a título simbólico-premonitório; neste caso, o fantasma do cão conservaria sua identidade espiritual. Seja qual for a explicação que preferirmos dar ao problema, está claro que o fato acima não apresenta teoricamente nenhuma base suficiente que nos permita concluir com segurança a respeito de sua origem.

Casos 120 e 121 (Visuais-auditivos-coletivos) O conde de Tromelin, conhecido no ambiente das pesquisas metapsíquicas e autor de dois livros sobre esse assunto, comunica à Revue Scientifique et Morale du Spiritisme (1913, pág. 40) os dois casos seguintes, nos quais esteve pessoalmente envolvido: “Até o mês de março de 1913, eu tinha uma cachorrinha chamada Flore que, por sua vez, tinha um filhote chamado Radium, muito parecido com sua mãe, mas esta tinha, a mais, uma estrela branca na testa. Fora isso, a pelagem dos dois cães era completamente amarela. No dia 25 de maço, um carro atropelou Flore, que me foi trazida agonizante; apesar de nossos cuidados, o pobre animal não demorou a morrer, para nossa grande tristeza. Restou o pequeno Radium. Ora, eis então o incidente curioso ao qual eu tive a oportunidade de assistir. Existe na frente da nossa residência um grande terraço, no centro do qual há uma mesa de mármore e à direita da entrada a casinha de Radium. No dia 3 de abril, às 11 horas da manhã, estava sentado à mesa em questão, conversando com a senhora Meille.

Estava sentado de modo que tinha diante de mim a casinha de Radium, cujas patas amarelas saíam pela abertura. A senhora Meille estava de costas para a casinha, olhando na direção do lado esquerdo do terraço. Conversávamos há cinco minutos sobre diversos assuntos, quando a senhora Meille se virou por um instante para olhar a casinha de Radium e em seguida exclamar: “Ah! Eis aí uma coisa extraordinária! Era sem dúvida Flore, visto que Radium está em sua casinha!”. Pedi explicações para aquelas palavras, dizendo: “Sim, Radium está na sua casinha; mas Flore, onde você a viu?”. A senhora Meille estendeu o braço indicando o lugar e descrevendo a cena com estas palavras: “Enquanto conversávamos, vi um cão acomodado ao lado do terraço, ali (e indicou com o dedo o lado esquerdo), que eu supunha que fosse Radium, não imaginando com certeza ter visto a pobre Flore, pois sabia que ela estava morta. No entanto, Radium era tão parecido com Flore que pensei: “Se não soubesse que Flore estava morta, juraria que o cão que me olhava era ela”.

Com efeito, a ilusão era perfeita, pois o cão me olhava com a expressão tão boa, doce e melancólica de Flore, e sobre a testa sua estrela branca. Mas sequer pensava imaginar Flore ressuscitada; então supus que a estrela branca que eu via era um efeito da luz. Perguntei-me, além disso, como Radium, que tinha o costume de se deitar sempre ao Sol, estava, daquela vez, sentado na sombra. Mas eis que, enquanto pensava assim, ouvi atrás de mim o rumor característico de um cão se coçando em sua casinha. Foi então que me virei por um instante para olhar, para em seguida perceber o outro cão que estava diante de mim há cinco minutos; porém, ele tinha desaparecido no breve intervalo de tempo em que tinha me virado. Daí minha exclamação de espanto. Tinha a prova de que o cão que me olhava sentado na sombra, diante de mim, e que se parecia tanto com Flore era realmente Flore ressuscitada, voltando por um instante ao nosso meio...”

Este é o relato da senhora Meille; é bem provável que, se não tivesse me virado no momento em que Flore estava visível para ela, eu a teria visto também. Em todo caso, pareceme que as circunstâncias pelas quais os fatos se passaram permitem, de qualquer forma, considerar autêntica e segura a aparição de Flore... Este não é um fato isolado... Possuía uma outra cachorra fox-terrier chamada Flore como a precedente, morta envenenada após longos sofrimentos, por maldade de um vizinho. Aqueles que me conhecem sabem que, no momento em que me deito, à noite, percebo visões e fantasmas de todo tipo desfilando diante de mim; isto aconteceu enquanto estava perfeitamente acordado e em plena consciência normal. Ora, no dia seguinte ao da morte daquela outra Flore, ela me apareceu subitamente; era ela, sem sombra de dúvidas. Todavia, nesta primeira visão, ela se esforçou em vão para se levantar sobre suas patas. No dia seguinte, em outras visões, Flore me apareceu pela segunda vez e conseguiu ficar sobre suas patas, para desaparecer imediatamente em seguida.

No terceiro dia, a mesma aparição se repetiu e, desta vez, ela parecia alegre e saudável. Ela deu alguns pulos de alegria e sumiu. Depois disso, nunca mais a revi; porém, algum tempo depois, numa noite, ela se manifestou com bastante barulho, fazendo-se ouvir com uma brincadeira bem especial de que ela gostava muito e que era bastante indicada para reconhecê-la. O traço característico mais evidente de Flore era sua paixão por brincadeiras com as pedras, que lançávamos e que ela trazia para em seguida fazê-las rolar no terraço ou alhures. Pois foi o barulho produzido por esta brincadeira de pedras rolando no terraço que nós percebemos nitidamente uma noite, a tal ponto que, se não soubéssemos que a cadela tinha morrido há seis meses, podíamos jurar que Flore estava ali se divertindo com as pedras... Deduzo a partir daí que, certamente, os animais domésticos que gostamos sobrevivem à morte do corpo e que nós os reveremos um dia no mundo espiritual, no qual acredito piamente.” Estas são as conclusões do conde de Tromelin. Nos casos mencionados, as visões subjetivas do relator não revestiriam por si mesmas nenhum valor de prova, porque elas lembram de perto

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