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Capítulo 3 de 21
Parte 3 de 20
A Alma nos Animais · Ernesto Bozzano
Foi grande sua estupefação ao ver que nem o guarda nem a cachorra estavam ali. Duas horas depois, um telegrama do guarda lhe informava que Creola tinha sido acidentalmente morta por um caçador.” Também neste caso, em que a alucinação verídica foi de natureza auditiva, não me parece ser possível duvidar da origem verdadeiramente telepática da manifestação. E no que concerne às condições em que o episódio se desenrolou, é útil sublinhar que elas mostram que o impulso telepático foi, dessa vez, de natureza indireta ou simbólica. Remetendo-nos às considerações que desenvolvemos sobre este assunto, concluímos que, como a cachorra morta tinha, quando viva, o hábito de arranhar a porta de seu dono e de latir até que ele a deixasse entrar, o impulso telepático, não conseguindo se realizar de maneira direta, chegou até ele de maneira indireta e simbólica, revestindo as modalidades de realização mais familiares ao percipiente e em relação ao pensamento do agente.
Destacarei que, neste caso, a circunstância de uma lei fundamental das manifestações telepáticas, realizando-se rigorosamente, inclusive quando se trata de um agente animal, oferece um grande valor teórico, visto que é óbvio deduzir a partir daí que, se as manifestações telepáticas animais se igualam às mesmas leis que as manifestações telepáticas humanas, a identidade da natureza do elemento espiritual em ação em ambas as circunstâncias resulta delas.
Caso 9 (Auditivo-coletivo) Eu destaco do Journal of the S. P. R. (vol. 4, pág. 289), o caso seguinte, relatado pela senhora Beauchamp, de Hunt Lodge, Twiford, em carta endereçada à senhora Wood, de Colchester, do qual reproduzimos a seguinte passagem: “Megatherium” é o nome do meu cachorrinho hindu, que dorme no quarto da minha filha. Na noite passada, levanteime de supetão ao escutá-lo pular no quarto. Conheço bem suas maneiras de pular, bastante características.
Meu marido, por sua vez, não demorou a acordar. Eu lhe perguntei: “Está ouvindo?” e ele me respondeu: “É Meg”. Acendemos rapidamente uma vela, olhamos por toda parte, mas nada pudemos encontrar no quarto; no entanto, a porta estava realmente fechada. Então, veio-me a idéia de que uma desgraça tinha acontecido com Meg; tinha a sensação de que ele tinha morrido naquele exato momento; olhei o relógio para ter certeza da hora e cismei que tinha de descer e ir imediatamente me certificar da intuição. No entanto, isso me parecia bastante absurdo e, além do mais, estava tão frio...
Permaneci por um instante indecisa, e o sono me venceu. Pouco tempo deve ter se passado até o momento em que alguém veio bater à porta; era minha filha que, com uma enorme expressão de tristeza, avisou-me: “Mamãe, mamãe, Meg está morrendo”. Descemos pela escada e encontramos Meg virado de lado, com as pernas alongadas e rígidas, como se já estivesse morto. Meu marido o levantou dali e certificou-se de que o cão ainda vivia: ele não se deu conta imediatamente do que havia acontecido. Constatamos enfim que Meg, sabe-se lá como, enrolou ao redor de seu pescoço a fita de sua roupinha de tal maneira que quase foi estrangulado por ela.
Nós o livramos imediatamente e, assim que o cão pôde respirar, não demorou a se reanimar e a se recobrar. Doravante, se me for dado sentir sensações dessa natureza em relação a alguém, proponho-me ir socorrer sem delongas. Juraria ter ouvido os saltinhos tão característicos de Meg ao redor da cama e meu marido pôde dizer o mesmo.” Para outras informações sobre este assunto, remeto o leitor ao citado jornal. Neste caso, mais uma vez, a gênese genuinamente telepática parece indubitável (tanto mais porque, dessa vez, duas pessoas tiveram as impressões auditivas); mais uma vez aqui, afirmo, a manifestação telepática se processa de forma simbólica: um chamado urgente de socorro, vindo da mentalidade do cão agente, chega ao percipiente transformado num eco característico do saltinho que o animal repetia todas as manhãs ao redor da cama de seus donos. Ora, é incontestável que uma percepção telepática dessa categoria, ao considerar as circunstâncias em que ela se produziu, não podia constituir a expressão exata do pensamento do cão, mas unicamente uma tradução simbólico-verídica do pensamento em questão.
De fato, se é lógico e natural pensar que um animal a ponto de morrer estrangulado tenha voltado intensamente seu pensamento para aqueles que eram os únicos em condições de salvá-lo, não seria, ao contrário, de modo algum admissível que o animal, naquele instante supremo, tenha pensado em outra coisa a não ser nas estripulias costumeiras que fazia todas as manhãs ao redor da cama de seus donos. Caso 10 (Auditivo, com percepção luminosa coincidente) Retiro o caso que segue do vol. VIII, pág. 45, dos Annales des Sciences Psychiques, o qual tinha sido reproduzido a partir da revista italiana Il Vessillo Spiritista: “A senhora Ludow Krijanowsky, filha do general de mesmo nome e irmã da senhorita Wera Krijanowsky (atualmente senhora Semenoff), conta-nos o fato que aconteceu com ela e que se relaciona com a questão imensamente debatida sobre a alma nos animais... Trata-se de um cachorrinho que era nosso favorito, principalmente de Wera; um pouco por causa desse afeto e dos mimos exagerados, o animal ficou doente. Sofria com falta de ar e tossia; o veterinário que tratava dele não imaginava que a doença fosse grave.
Todavia, Wera se preocupava muito com o animal; ela se levantava durante a noite para lhe fazer massagens e lhe dar os remédios; contudo, ninguém imaginava que ele pudesse morrer. Certa noite, o estado de Bonika (era esse o nome do cachorrinho) piorou de repente; ficamos apreensivos, principalmente Wera, e decidimos que logo pela manhã iríamos ao veterinário, pois se tivéssemos nos contentado em chamá-lo, ele teria vindo somente à noite. Assim, pela manhã, Wera e nossa mãe se foram com o pequeno enfermo: eu fiquei em casa e comecei a escrever. Estava tão concentrada que esqueci de que os meus tinham partido; de repente, num piscar de olhos, ouvi o cachorrinho tossir no quarto ao lado. Era ali que se encontrava o cesto e, desde que ele tinha ficado doente, mal começava a tossir ou a gemer que um de nós ia ver se ele precisava de algo, dávamos-lhe algo para beber e administrávamos os remédios dele, ou então refazíamos o curativo que ele tinha no pescoço.
Por costume, levantei-me e me aproximei do cesto; ao vêlo vazio, lembrei-me de que Wera e mamãe tinham saído com Bonika e fiquei perplexa, pois a tosse era tão barulhenta e tão distinta que era preciso rejeitar qualquer engano. Estava ainda pensativa diante do cesto vazio quando, perto de mim, ouvi um ganido parecido com os que Bonika fazia para nos receber quando chegávamos; em seguida, um segundo ganido parecia vir do quarto ao lado; finalmente, uma terceira queixa parecia se perder no infinito. Confesso que fui tomada e invadida por uma penosa tremedeira; em seguida, veio-me a idéia de que o cachorrinho tinha morrido. Quando olhei para o relógio de mesa, ele marcava 11:55. Preocupada e agitada, fui até a janela e esperei impaciente pelos meus.
Ao ver Wera voltar sozinha, corri em sua direção e lhe disse sem refletir: “Bonika está morto”. “Como é que você sabe?”, disse ela, perplexa. Antes de responder, perguntei-lhe se ela sabia qual a hora exata que ele tinha morrido. “Alguns minutos antes do meio-dia”, respondeume ela, contando-me o que tinha se passado: “Assim que chegamos ao veterinário, lá pelas onze horas, este já tinha saído; o empregado pediu-nos para aguardarmos alguns instantes, visto que ao meio-dia seu patrão deveria estar de volta, pois era a hora em que ele normalmente recebia os pacientes. Então ficamos, mas como o cachorrinho se mostrava agitado como sempre, eu o coloquei ora sobre o divã ora no chão e consultei impacientemente o relógio.
Para minha grande alegria, constatei que não faltavam mais de alguns minutos para o meio-dia, no momento em que o cachorrinho começou a sentir falta de ar. Quis colocá-lo sobre o divã, mas quando o levantei, vi, de repente, o animal, assim como as suas patas, cobrindo-se de uma luz purpúrea muito intensa e brilhante;7 nada compreendendo do que acontecia, eu gritei: “Fogo!”. Mamãe nada viu, mas como ela estava de costas para a lareira, pensou que o fogo estivesse em seu vestido e se virou assustada: ela verificou que não havia fogo na lareira, mas, logo em seguida, constatamos que o cachorrinho acabara de morrer, o que fez com que mamãe nem pensasse mais em censurar-me por causa de meu grito intempestivo e do susto que lhe tinha causado.” Constatei que este fato reveste, por sua vez, um caráter simbólico. Nada mais freqüente, de fato, que estes casos de transformação mais ou menos aberrante dos impulsos telepáticos em conformidade com as idiossincrasias dos receptores.
Contudo, quando os episódios desta natureza se realizam entre os seres humanos e cujo agente é um defunto, é possível supor que eles possam acontecer, por vezes, segundo a vontade do agente, o qual se conformaria então às idiossincrasias do percipiente; e assim o é, inclusive quando as modalidades pelas quais esses episódios se manifestam ainda dependem do fato de que um impulso telepático tenha necessariamente que seguir a “via de menor resistência” para chegar à consciência do receptor.
Nas coletâneas dos casos publicados pela Society for Psychical Research encontra-se um episódio em que uma Entidade se manifesta simultaneamente de três maneiras diferentes a três pessoas, em que uma percebe o fantasma, a outra ouve a voz que pronuncia uma frase de cumprimento e a terceira percebe um perfume suave de violetas, perfume que coincide com a circunstância que o cadáver do finado sobre a cama tinha sido literalmente coberto de violetas. Ora, em circunstâncias como esta, seria racional supor que a Entidade que se manifestava tenha agido por propósitos deliberados, de diversas maneiras, ao mesmo tempo em que se conformava às idiossincrasias pessoais dos percipientes, isto é, ela se manifestou de maneira objetiva na pessoa do “tipo visual”, transmitiu uma frase de cumprimento à pessoa do “tipo auditivo” e, finalmente, desencadeou uma sensação olfativa na pessoa cuja “via de menor resistência” era constituída pelo sentido olfativo.
O incidente que torna possível essa variante explicativa é constituído pela frase de cumprimento percebida pela pessoa do “tipo auditivo”, frase esta que pode dificilmente ter sido inventada, na passagem do subconsciente ao consciente, de um só impulso telepático, enquanto que tudo se explicaria facilmente com a suposição de que a frase em questão tivesse sido pensada e transmitida pela Entidade que se comunicava. Voltando ao caso em análise, destaco nele uma circunstância de fato que complica a interpretação teórica: o cachorrinho Bonika morreu nos braços de sua dona. Isto nos leva a pensar que o animal prestes a morrer não tinha razões emocionais que pudessem fazer com que seu pensamento voltasse para outra pessoa da família que tinha ficado em casa, determinando aleatoriamente um fenômeno telepático.
Nessas condições, deveríamos concluir que, provavelmente, acontece com os animais o que acontece amiúde com os seres humanos, isto é, o enfermo direciona, ao morrer, manifestações telepáticas pelo simples fato de emitir um sentimento de pesar ao meio distante em que viveu feliz por longo tempo. Todavia, destaco que, nos casos que envolvem seres humanos, existiria uma outra explicação, de natureza espiritual e não telepática, isto é, em circunstâncias especiais, o Espírito do falecido, tão logo tenha se desprendido dos laços materiais, voltaria ao meio no qual viveu e se esforçaria em fazer com que sua presença fosse sentida por seus familiares. Quanto ao fenômeno luminoso percebido por Wera, que tinha em seus braços Bonika no momento de sua morte, este não remete às manifestações que examinamos; apesar de que, sob uma outra perspectiva, ele não deixa de ser interessante e sugestivo, uma vez que fenômenos análogos se realizam algumas vezes no leito de morte dos seres humanos. Caso 11 (Visual) Retiro o presente caso de um interessante artigo de Elisabeth
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.