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Capítulo 7 de 21
André Luíz — parte 5 de 19
E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
Finda a aula e, recomendados pela senhora Tamburini, que não pudera acompanhar a reunião, Fantini e a senhora Serpa se demoraram em companhia do Irmão Cláudio, que os recebeu carinhosamente na intimidade. Não residia ali, explicou. O Instituto desdobrava serviços em todo o prédio, ocupando-lhe as dependências. Ainda assim, que os amigos se sentissem convidados para alguns dedos de prosa, em casa, onde, junto da esposa, teria prazer em recebê-los. Já que a senhora Tamburini o indicara, como sendo um explicador capaz de prestar-lhes informes, em torno de problemas que reputavam importantes, punha-se-lhes à disposição para atender no que lhe fôsse possível, conquanto se reconhecesse inabilitado a satisfazer como desejaria. Tudo isso era dito, cortesmente, em recinto enluarado, no jardim da instituição, onde pequenos grupos de estudantes se espalhavam, aqui e além. Ladeando mesa fixa, conversava o trio, animadamente. Tão grande e tão manifesta a familiaridade em pauta, que nada faria supor estivesse integrando um quadro que não fôsse essencialmente terrestre.
Em razão disso, não obstante a fisionomia cismativa de Ernesto, exprimindo incerteza e ansiedade, via-se Evelina senhora de si, absolutamente convencida de que se achava num recanto autêntico do mundo que sempre lhe fôra habitual. — Compreendo que se proponham a saber algo da nova residência — expôs Irmão Cláudio, imperturbável —, porqüanto a irmã Celusa Tamburini notificou que estão ambos despertos no hospital, de alguns dias para cá. — Sim, é bem isso — confirmou Ernesto —, e somos gratos pela atenção que nos dispensa. — Professor — interveio a senhora Serpa, confiante —, são tantos os comentários absurdos que já ouvimos, em nossos poucos dias de contacto com o novo meio, que, de minha parte, estimaria estar informada se dispomos da liberdade de perguntar ao senhor tudo, tudo o que nos causa espécie. — Oh! claramente. Indaguem tudo, embora não me veja capaz de a tudo responder. Convocado a exprimir-se pelo olhar percuciente do amigo, volveu Ernesto à palavra: — Evelina, quanto me ocorre, tem o espírito dominado por uma questão capital.
Isso lhe parecerá, talvez, uma criancice de doentes mentais, que, às vezes, temos ambos a impressão de ser, mas temos escutado, em circunstâncias diversas, a afirmativa de que somos mortos em recuperação num ambiente que não mais pertence aos homens de carne e osso... A princípio, rimo-nos francamente, categorizando isso à conta de grossa tolice; entretanto, as opiniões se avolumam. A própria senhora Tamburini está certa de que já cruzámos as fronteiras da morte, como quem vara uma noite de sono... Que nos diz a isso, professor? Irmão Cláudio esboçou significativa expressão facial, em que a admiração se misturava à piedade e obtemperou, sem cerimônia: — Estarão vocês em condições de acreditar em minha palavra, se lhes ratificar a notícia de que respiramos em plena Esfera Espiritual? — Mas, professor... — clamou Evelina, lívida. — Entendo — certificou ele, sorrindo —, a senhora, muito mais que o nosso
irmão Ernesto, opõe firme recusa mental à verdade, à vista de suas convicções religiosas, louváveis mas provisórias, convicções que jazem sõlidamente estruturadas em seu espírito... Apesar de tudo, porém, tenho a obrigação de assegurar-lhes que não mais pisamos a Terra que nos era comum e sim um departamento da Vida Espiritual. E ela: — Meu Deus, como pode ser isso? — Irmã Evelina, trabalhe com a própria mente. Se não abordássemos a Crosta Planetária pelo regaço materno, com o período da infância, logo após, constrangendo-nos a longos serviços de readaptação, não seria a mesma coisa? — Mas, a Terra... eu conheço. — Puro engano. Classificamos a paisagem terrestre e os pertences que lhe dizem respeito, submetidos aos conceitos de quantos estiveram nela antes de nós, ocorrendo análogas circunstâncias no ambiente a que nos acolhemos agora, e onde contamos com geólogos e geógrafos eméritos... Na realidade, porém, tanto lá quanto aqui, conhecemos, na essência, muito pouco acerca do meio em que vivemos.
Em suma, analisamos e reanalisamos coisas e princípios que já encontrámos feitos... — Entretanto, no mundo, como entendemos o mundo, guardamos a certeza de permanecer sobre bases de matéria sólida... — Irmã Evelina, quem lhe disse que não moramos lá, na arena terrestre, detidos igualmente num certo grau da escala de impressão do nosso Espírito eterno? Qualquer aprendiz de ciência elementar, no Planeta, não desconhece que a chamada matéria densa não é senão a energia radiante condensada. Em última análise, chegaremos a saber que a matéria é luz coagulada, substância divina, que nos sugere a onipresença de Deus. — O senhor quer afirmar mesmo que não estamos agora domiciliados no plano físico? — voltou Fantini a manifestar-se. — Chame-se a este mundo em que existimos, neste momento, «outra vida», «outro lado», «região extra-física» ou «esfera do Espírito», estamos num centro de atividade tão material quanto aquele em que se movimentam os homens, nossos irmãos ainda encarnados, condicionados ao tipo de impressões que ainda lhes governam, quase que de todo, os recursos sensoriais. O mundo terrestre é aquilo que o pensamento do homem faz dele.
Aqui, é a mesma coisa. A matéria se resume a energia. Cá e lá, o que se vê é a projeção temporária de nossas criações mentais... — Então, morrer?... qual a novidade em torno disso? qual o maior interesse em nos reconhecermos redivivos? — As incógnitas da vida exterior, com os desafios delas resultantes, são as mesmas; entretanto, se a criatura aspira efetivamente a realizar uma tomada de contas encontra neste novo mundo surpresas, muito fascinantes, no estudo e redescoberta de si mesma. Somos, cada um de nós, um astro de inteligência a perquirir e a aperfeiçoar por nós próprios. Ernesto sustentou o interrogatóriO — Todos os mortos estarão em todos os lugares da Terra, em condições idênticas às nossas? — Impossível. Revejamos, superficialmente, a Humanidade encarnada em si e perceberemos algo do assunto. Contamos na Terra, de onde somos egressos, milhões de pessoas sensatas e espiritualmente desequilibradas,
sadias e enfermas, instruídas e ignorantes, relativamente sublimadas e outras tantas ainda excessivamente animalizadas, confiantes e descrentes, amadurecidas na evolução ou iniciantes nela. Impraticável categorizá-las, depois da morte, segundo um critério exclusivo. Cada qual estará em seu grupo e cada grupo em sua comunidade ou faixa de afinidades. Nada fácil padronizar as situações dos Espíritos desencarnados. Basta recordar que 150.000 pessoas, aproximadamente, por dia, saem da circulação do ambiente físico, na média flutuante de 100 por minuto, largando afetos, realizações, compromissos, problemas... Ora, todos são filhos de Deus e recebem de Deus atenções e providências, análogas do ponto de vista do amor com que somos envolvidos na Criação, embora diversas nos modos múltiplos em que se exprimem. Razoável reconhecer que por muito se enfeitem, externamente, com as honras que lhes são prestadas pelos entes queridos, quando se despedem do mundo, os homens, quaisquer que sejam, chegam aqui como são... Porque hajam desencarnado, o louco não adquire o juízo, de um dia para outro, e nem o ignorante obtém a sabedoria por osmose.
Depois da morte, somos o que fizemos de nós, na realidade interna, e colocamo-nos em lugar compatível com as possibilidades de recuperação ou com as oportunidades de serviço que venhamos a demonstrar. — Estamos diante de trabalho imenso... — anotou Fantini, espantado. — Sim, no mundo dos homens, uma criatura não se modifica, de improviso, por haver atravessado o oceano, de um continente para outro... Acontece o mesmo, nos domínios do espírito. — Há tempos — sublinhou Ernesto — li mensagens de entidades desencarnadas, merecedoras de crédito, relacionando os sofrimentos e conflitos que experimentaram em regiões inferiores, individualidades, aliás, que me pareceram senhorear largo patrimônio de recursos intelectuais. — Nada de admirar. Por imposição de nossas necessidades, nós mesmos estamos residindo em zona dessas, na vizinhança das criaturas encarnadas. — Refiro-me às regiões tenebrosas ou infelizes, relativamente às quais ouvi tantas dissertações e onde se desarvoram tantos irmãos nossos... — Fantini, precisamos certificar-nos — clareou o mentor — de que esses lugares não são infelizes, de vez que infortunados são os irmãos que os povoam...
Os jardins e pomares que enriqueçam um manicômio deixarão de ser jardins e pomares porque existam enfermos a desfrutar-lhes as emanações nutrientes? — ? — Pois é, meu caro, as áreas do espaço, às vezes enormes, ocupadas por legiões de criaturas padecentes ou desequilibradas, estão circunscritas e policiadas, por maiores que sejam, funcionando à maneira dos sítios terrestres, utilizados por grandes instituições para a recuperação dos enfermos da mente. Você não ignora que existem doentes da alma, consumindo larga faixa da existência nos hospícios acolhedores da Terra. Isso acontece aqui também. Ladeando o nosso vilarejo, temos vasto território, empregado no asilo a irmãos desajustados, aos milhares, mantidos e vigiados por muitas organizações de beneficência, que trabalham no socorro fraternal. Evelina, que não acreditava no que ouvia, objurgou, insatisfeita: — Mas... se nos achamos num plano espiritual, que dizer das construções sólidas, vinculadas à arquitetura terrestre, com que somos defrontados?
— Nenhum espanto, quando ponderarmos que os edifícios no mundo dos homens nascem do pensamento que os esculpe e da matéria que obedece aos projetos elaborados. Aqui verificamos o mesmo processo, diferindo apenas as condições da matéria, que se evidencia mais intensivamente maleável à influência da idéia dominante. Reflitamos no progresso da indústria de plásticos, na atualidade do plano físico de onde viemos e perceberemos, com mais segurança, as possibilidades imensas para as edificações delicadas e complexas em nosso domicílio de agora. Naturalmente, também aqui estamos subordinados ainda às técnicas, às vocações, às competências pessoais e às criações estilísticas, no círculo das conquistas espirituais de cada um. O arquiteto que planeia uma casa e o obreiro que lhe cumpre as ordens, não servirão, de imediato, em lugar do diretor da manufatura de tecidos e do operário que lhe atende as determinações. Ainda aqui, o escritor não faz a obra do músico, em ação de improviso.
Somos criaturas em evolução, sem havermos atingido ainda a posição dos gênios polimorfos, apesar de esses gênios existirem igualmente aqui. A senhora Serpa não conseguia ocultar a incredulidade. — Tudo parece inverossímil — asseverou. — Nada se nos afigura mais inverossímil que a verdade — objetou Irmão Cláudio —; no entanto, porque prefiramos, por muito tempo, a ilusão em lugar dela, a realidade não deixa de ser o que é. O professor discorreu, ainda, por dilatados minutos, referentemente à vida e às condições da estância em que se demoravam, mas, por fim, Evelina se viu entontecida, fatigada, provisôriamente inabilitada a mais amplas ilações, e, moça de fé profunda, valeu-se de um intervalo na conversação, procurando saber: — Irmão Cláudio, não posso duvidar de suas afirmações, embora me custe a crer que estamos na posição de pessoas desencarnadas, conforme as suas expressões. Esteja certo de que não desejo perder, de modo algum, a sua orientação; contudo, gostaria de tomar contacto com um sacerdote, um padre católico, por exemplo...
Ficaria feliz se pudesse entregar-me à prática da confissão, permutar idéias livremente com um diretor da fé que me formou o caráter, sem qualquer constrangimento da vida social... O amigo bondoso sorriu compreensivo e esclareceu: — A Igreja aqui está positivamente renovada, posto que possamos encontrar representantes de todas as religiões terrestres, aferrados a dogmas, concepções estreitas, preconceitos e tiranias diversas do fanatismo, nas áreas vizinhas em que se congregam milhares e milhares de inteligências rebeldes e perturbadas. Aqui, própria-mente, os sacerdotes não a ouviriam em confissão de natureza religiosa. Enviá-la-iam a um dos nossos institutos de psiquiatria protetora, em que a irmã pode e deve ter a sua ficha para receber a assistência necessaria... — Para tratamento? — aparteou Fantini. — Tratamento e auxílio. Uma carteira de identificação para serviços de amparo e análise, numa casa de supervisão espiritual das que me refiro, é valioso documento para que não estejamos aqui, nos primeiros tempos de adaptação, num lugar intermediário entre planos inferiores e superiores, sem a assistência justa. É indispensável nos poupemos, tanto quanto possível, a dissabores desnecessários. — Oh! — exclamou Ernesto, entusiasmado —, esse tipo de confissão me
interessa... Se estamos mortos... — O seu se — obtemperou o mentor bem-humorado — demonstra que você e Evelina me consideram um contador de histórias inverídicas... Vocês ambos estão desencarnados com raízes pregadas no chão da Terra; todavia, isto é natural. Aguardemos o tempo. Em meio de puras vibrações de confiança e simpatia, a senhora Serpa e o amigo solicitaram o apoio do mentor, a fim de que pudessem realizar contactos com alguma das instituições psiquiátricas da cidade, ficando estabelecido que atenderiam a isso, tão logo a administração do hospital o consentisse.
Evelina Serpa
Devidamente credenciados, Evelina e Ernesto, após ligeiro trajeto pelas ruas da cidade que se lhes figurou encantadora, alcançaram o Instituto de Proteção Espiritual. Acolhidos carinhosamente pelo Instrutor Ribas, dedicado à clínica psiquiátrica, no departamento assistencial que lhe dizia respeito, sentiam-se tão à vontade, do ponto de vista do habitual, como se estivessem visitando moderno consultório terrestre. Em tudo, simplicidade, conforto, segurança. Atendentes à vista. Fichários. Aparelhos diversos para registro do pensamento. Depois das apresentações, o instrutor médico entrou no assunto: — Estamos informados de que se ficharão aqui em nosso gabinete e podemos começar por nossa irmã. Ato contínuo, acenou para um funcionário a quem nomeou por Irmão Telmo, e, obedecido pelo auxiliar, designou Ernesto a ele, anunciando: — Ficarão juntos, enquanto ouço a irmã Evelina... E para Fantini, bem impressionado: — Nada tema. Toda conversação em nosso Instituto está subordinada ao encorajamento e à saúde. Nada de pensamentos negativos. Tão logo termine o entendimento inicial com a nossa amiga, teremos nosso encontro. Revestia-se aquele quadro íntimo de tamanha espontaneidade, que os dois recém-chegados não conseguiram atinar com a verdadeira situação.
Estariam no Mundo Espiritual ou na Terra mesmo, na Terra que lhes era familiar, em algum sítio desconhecido, onde se lhes falava do espírito libertado com alguma finalidade terapêutica? — pensavam os dois. E chegavam quase a admitir que talvez tivessem estado loucos, achando-se agora em recuperação. Acalentando semelhantes dúvidas, Evelina acompanhou, docilmente, o médico, e, chegados a uma sala, mobilada com distinção e singeleza, assentou-se na poltrona que ele lhe indicou, explicando, atencioso: — Esteja tranquila. Nosso Instituto se consagra àproteção e ao tratamento de seus tutelados. Primeiro, a cobertura socorrista, depois, o reajustamento, se necessário. Em razão disso, teremos tão-só um entendimento fraternal. Nada de cerimônias. Conversaremos simplesmente e todos os seus informes serão gravados para estudos posteriores. A bem dizer, funciono aqui quase que apenas na condição de introdutor dos clientes, de vez que os nossos analisados possuem vasta coleção de amigos na retaguarda, amigos que lhes examinarão as palavras e reações, de modo a saber em que sentido e até que ponto lhes prestarão o auxílio de que se mostrem carecedores.
Diante de Evelina admirada, a um gesto do mentor grande espelho se fêz visível, junto à poltrona, dando a idéia de que a peça fora ligada ao sistema elétrico, por disposições especiais. — Nossa palestra será filmada. Simples recurso para que os seus contactos com a nossa casa sejam seguidos com segurança, no capítulo da assistência de que não prescindirá em seus primeiros tempos de vida espiritual. Tranquilize-se, compreendendo, porém, que todas as suas perguntas e respostas se revestem da maior importância para seu beneficio. Por suas indagações, a autoridade do Instituto identificará a sua posição no conhecimento e, por suas respostas, saberá o montante de suas necessidades.
Conversemos. Perante aquele olhar, brando e enérgico ao mesmo tempo, reconheceu-se Evelina qual criança de letras primárias, ante examinador experiente, e, concluindo que não lhe seria licito recusar a prova, perguntou com respeitosa coragem: Instrutor Ribas, conquanto o senhor tenha feito referências a meus «primeiros tempos de vida espiritual», é verdade que somos Espíritos desencarnados, pessoas que não mais habitam a Terra? — Perfeitamente, embora a irmã não consiga ainda certificar-se disso. — Porque semelhante inadaptação? — Falta de preparo na vida física. De modo geral, a sua posição de surpresa é comum à maioria das criaturas terrestres, em virtude da ausência de integração real com as experiências religiosas a que se afeiçoam. — Se estamos efetivamente mortos, acredita o senhor que eu, na condição de católica, devo apresentar ou deveria apresentar um índice mais completo de comunhão com a verdade espiritual que não estou conseguindo entender? — Claramente. — Como assim? — Se a irmã, durante a sua existência no corpo denso, pensasse firmemente nos ensinos de Jesus, o Divino Mestre que se reergueu do túmulo para a demonstração da vida eterna, se meditasse na essência dos ofícios religiosos de sua fé, todos eles dirigidos a Deus e, depois de Deus, aos mortos sublimes, como sejam Nosso Senhor Jesus-Cristo, sua Augusta Mãe e aos Espíritos heróicos que veneramos por santos da vida cristã, decerto não experimentaria o assombro que, até agora, lhe insensibiliza os centros de força, apesar da elevação e da delicadeza de suas aspirações.
Viu-se Evelina, de repente, transportada pelas molas mágicas da imaginação, ao seu velho templo religioso... Recordou as preces, os cânticos, as novenas e os rituais litúrgicos de que partilhara, como se únicamente ali, naquele gabinete de análise espiritual, pudesse penetrar-lhes o sentido. Como não se inclinara a interpretá-los, antes, por invocações ao Mundo Espiritual? como não lhes percebera, até aquela hora, a função de canais de comunicação com as Forças Divinas?... Em pensamento, aspirava a rever-se em São Paulo, caminhar para o recinto de sua devoção religiosa e saudar na própria crença o ponto mais alto da vida, aquele, através do qual, lograva entregar-se à proteção do Todo- Misericordioso, com as suas dores e alegrias, aflições e ânsias mais íntimas... Lembrou-se de Jesus, fôsse nas esculturas ou nos painéis, nas pregações e conversações, como sendo um Espírito Divino a bater-lhe, debalde, às portas do coração, tentando ensinar-lhe a viver e a compreender...
E, ao refletir no Mestre de paciência infinita, a cuja magnanimidade recorria em todas as dificuldades e tribulações, sem se dar ao trabalho de perquirir-lhe as lições e acompanhar-lhe os exemplos, entrou em crise de lágrimas, qual se a fé cristã, excelsa e piedosa, se lhe transfigurasse em juiz nos recessos da alma, exprobrando-lhe o comportamento. — Oh! meu Deus!... — inferia em pranto — porque precisei morrer para compreender? porquê, Senhor? porquê?... Ali comparecia para retratar-se moralmente, falar de si própria, prestar contas; entretanto, que trazia na própria bagagem senão o vazio de uma existência que lhe parecia então inútil? Tinha a idéia de que as trancas mentais
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