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Capítulo 16 de 21
André Luíz — parte 14 de 19
E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
terríveis que acalentamos na existência terrena. Ela aprovou e mantiveram-se em doce tête-à-tête, quando, por fim, Ernesto conseguiu conciliar o sono, dando-lhe oportunidade para retirar-se, em busca de ligeiro descanso. Amanhecia... No horário estabelecido para a volta, o veículo recolheu-os, de retorno. A senhora Serpa ardia em desejos de rever o pai; no entanto, o amigo julgava prudente não viesse a fazê-lo sem maior preparação. Ambos se reconheciam melhorados, quase refeitos, tanto assim que em viagem, qual ocorria com os demais passageiros, debatiam temas fundamentais da existência, quais sejam o amor, a reencarnação, o lar, o imperativo do sofrimento... Reinstalados na estância em que se domiciliavam, continuaram sonhando o futuro. Juntos conversavam. Juntos planeavam. Não seria mais que desejável o renascimento de Túlio, entre Caio e Vera, cujo matrimônio lhes competia favorecer? Generosa, lembrava-se Evelina do pai sofredor e acentuava que, se pudesse e se as circunstâncias permitissem, estimaria trabalhar igualmente para que o genitor revoltado aceitasse a reencarnação, a fim de esquecer, esquecer...
Ela e Fantini maravilhavam-se agora de como queriam tempo e mais tempo para os entes amados no mundo. Orariam por eles. Suplicariam a Deus lhes prolongasse a existência no mundo físico, no interesse da equipe familiar e deles mesmos. A senhora Serpa ja imaginava contemplar Mancini, no ambiente de Caio, para que se reconciliassem, e Ernesto concordava em que se fazia mister analisar a conveniência de uma aproximação, entre Amâncio e Desidério, a fim de que lhes fôsse concedido transfigurar aversão em simpatia e discórdia em união. Sonhavam, sonhavam. Decorridos dez dias sobre o primeiro regresso a São Paulo, quando ambos já se admitiam plenamente refeitos, solicitaram audiência com Ribas, de modo a expor-lhe as ideias novas e comentar os acontecimentos havidos.
O mentor acolheu-os com a lhaneza de hábito, ouviu-lhes atenciosamente os projetos; entretanto, com surpresa para os dois visitantes, sintetizou as respostas que ambos preferiam fôssem mais longas: — Meus caros, quando as súplicas de nosso Fantini chegaram até nós, não sômente promovemos o socorro preciso como também solicitámos anotações de todos os eventos familiares de que se vêem partícípes. Sabemos agora, em documentação adequada, tudo aquilo de que se informaram. Quanto aos nossos deveres de ordem moral, já nos entendemos aqui suficientemente em dilatadas entrevistas. Orientação, possuímos. Como é fácil de entender, alcançamos a faixa da ação plena no trabalho espiritual, que vocês, aliás, reclamaram, por reiteradas vezes. — Será justo continuar agindo, em favor dos nossos? — indagou Ernesto, no sincero propósito de acertar. — Obrigação, meu amigo, isto é nossa obrigação —declarou Ribas —, os que conhecem precisam auxiliar os que ignoram e não apenas auxiliar simplesmente, mas auxiliar com muito amor. — Acaso, ser-nos-á lícito mentalizar reencarnações para Mancini e meu pai, em futuro próximo? — abalançou-se a dizer Evelina, tímida. — Como não, minha filha? para isso, contudo, éindispensável estabelecer dados concretos, com planejamento exato. Sem dúvida, somos uma família só,
perante a Divina Providência, e estamos todos interligados, com o dever da assistência mútua. A evolução é a nossa lenta caminhada de retorno para Deus. Os que mais amam vão à frente, traçando caminho aos seus irmãos. — Estimaríamos alguma indicação, algum conselho para começar — aventou Fantini, evidenciando a preocupação de quem não desejava ser importuno. O orientador resumiu: — Estamos com esclarecimentos de dez dias passados. Enviarei observador imparcial ainda hoje a São Paulo, para conhecer as condições gerais dos irmãos implicados no assunto, ao passo que vocês dois, amanhã mesmo, poderão visitar o sul paulista, buscando o necessário contacto com os familiares que ainda não puderam rever. De volta, amanhã à noite, entraremos em estudos produtivos, de vez que disporemos de elementos esclarecedores, atuais e corretos. O entendimento foi encerrado. No dia seguinte, em condução regular da cidade espiritual para o mundo físico, os dois amigos atingiram a cidade, em cujos arredores Amâncio edificara o ninho doméstico. Seguida por aquele que se lhe fizera irmão e benfeitor inseparável, Evelina transpôs os umbrais da antiga residência.
E foi um doce voltar aos dias da meninice... Parecia-lhe estar regressando sequiosa de afeto ao domicílio solarengo, como nos tempos da juventude, quando se lhe abriam as férias escolares. Além, o pomar farto; aqui, a porteira vestida de trepadeiras silvestres. .. Mais alguns passos, o pátio enorme, espraiando-se na direção dos largos terreiros de tratamento do café... Apoiando-se no braço do amigo, a moça caminhou até à porta de entrada, sob o império das reminiscências que lhe senhoreavam a alma... Atravessou-a com o enternecimento de quem penetra um local profundamente sagrado ao coração... O mesmo ambiente revestido de paz; a sala de visitas com o velho mobiliário que lhe falava tão alto à lembrança; o relógio de parede que a genitora se orgulhava de haver recebido dos avós; os tapetes em peles dos bracaiás que Amâncio abatera, nos seus áureos tempos de caçador, quando de várias incursões em Mato Grosso; o lustre de cinco lâmpadas a penderem do teto e o piano em que tantas vezes acompanhara, extasiada, os ágeis dedos maternos, nas interpretações de Chopin...
Uma surpresa banhou-a de júbilo. Na parte superior do instrumento, ao lado de esquecidas composições musicais, jazia uma foto que a retratava na juventude e, junto a essa recordação de família, uma rosa desbotada lhe comunicava a ternura materna. A moça correu para a varanda lateral, em que Amâncio e a esposa costumavam descansar, após as refeições, e ali os encontrou em serena palestra, cada qual em sua poltrona. Então, dominada por indizível emoção, ajoelhou-se diante da genitora, em cujo rosto descobria mais rugas, emolduradas por mais amplas faixas de cabelos brancos, e depondo a cabeça em seus joelhos, chorou convulsivamente como o fazia nas contrariedades e caprichos da infância. Dona Brígida não lhe registrou a presença, em sentido direto; entretanto, parou o olhar cismarento no arvoredo próximo, sentindo, de súbito, intraduzíveis saudades da filha. Represaram-se-lhe lágrimas que não chegavam a cair... “Que vontade de rever minha querida Evelina!...” E esta, que lhe
captava os pensamentos. respondia: “Mamãe! Mãezinha, eu estou aqui!...” Escoados alguns minutos de silêncio, o dono da casa, que ainda se achava sob a curiosa observação de Ernesto a examinar nele os estragos do tempo, endereçou expressivo olhar à companheira e indagou: — Porque parou a conversa, meu bem? pensando em quê?... Carregava-se-lhe a voz da gentileza característica do homem que não se permite deteriorar a devoção pela mulher depois do casamento, surpreendendo Fantini pela delicadeza com que se vazava. — Não sei explicar, Amâncio — anotou Brígida —, mas venho sentindo imensas saudades de nossa filha... Dois anos de ausência... E mais concentrada: — Porque haveria de partir, assim tão cedo?... — Tolinha! — objetou o marido com admirável desvelo — o irremediável pede esquecimento, o passado não volta... — Creio, porém, que haverá outra vida, na qual se encontrarão os que muito se amaram neste mundo... — Os filósofos dizem isso, mas os homens práticos afirmam, e com razão, que nada se conhece dos finados, além da certidão de óbito...
Nesse momento, Ernesto tateou-lhe a cabeça com uma das mãos, como a pesquisar-lhe as elucubrações imanifestas, e identificou-lhe cravadas na memória as cenas vivas do assassínio de Desidério, profundamente bloqueadas nos escaninhos da mente; no entanto, algo lhe dizia no íntimo que lhe não era lícito convocar o espírito do companheiro a qualquer estado negativo, absolutamente inútil, quando tudo lhe fazia crer que Amâncio se transformara num esteio de trabalho respeitável para famílias numerosas. Via-o, ali, não sômente devotado e terno para com a mulher que lhe fora vítima, porqüanto era fácil adivinhar-lhe igualmente a condição de administrador estimado e digno, através dos empregados tranquilos e felizes que se lhe aglomeravam, em derredor da casa. Além disso, pensava, porque haveria de acusá-lo, se ele, Ernesto, apenas não exterminara Desidério por falta de pontaria? Perante Deus e a própria consciência não seria tão criminoso quanto o amigo que tivera a infelicidade de atingir o alvo?
Semelhantes reflexões escaldavam-lhe a cabeça, quando escutou Evelina que se queixava, em pranto, para o coração materno: — Oh! Mãezinha, sei agora que meu pai erra nas sombras da alma!. .. Transformou-se num Espírito empedernido no ódio... Que poderemos fazer nós duas para ajudá-lo? Até aí, a mente de Brígida, fundamente distanciada de qualquer preocupação com o primeiro esposo, nada pôde registrar em sentido direto, senão doloroso e vago impulso de retorno ao passado, sem permitir que a imagem de Desidério se lhe imiscuísse na lembrança, mas a filha insistiu: — Auxilie, Mãezinha, auxilie meu pai para que volte à vida terrestre!... Quem sabe? A senhora e meu pai Amâncio vivem quase sós nesta casa!... Um menino! um filho do coração!... Nesse trecho da súplica filial, a genitora deixou-se empolgar pela ideia de que estavam, ela e o segundo esposo, envelhecendo no corpo físico, sem qualquer descendente, e que uma criança perfilhada por eles seria talvez um apoio para o futuro. Ao contacto das palavras de Evelina, cresceram-lhe os pensamentos nessa
direção e passou a refletir, refletir... Um menino!... Alguém que lhes povoasse a existência de esperanças novas, alguém que lhes continuasse a sustentação dos ideais de trabalho naquele diminuto recanto de solo!... Movida pelo entusiasmo da filha que lhe assimilava os pensamentos de adesão ao tema fundamental da mensagem de alma para alma, Brígida sondou o companheiro: — Amâncio, muitas vezes penso em nossa velhice solitária, com tantas possibilidades em mão... Não concordaria você em que tomássemos um garoto para ser o filho que não temos? — Que idéia! Em nossa idade? — Não somos tão velhos... — Ora, Brígida, era o que faltava! Você não acha esquisito terminarmos a vida fazendo mamadeira para criança? — E se for o contrário? Deus poderá conceder-nos dilatado tempo ainda na Terra... E se deixássemos aqui um bravo rapaz, que nos administrasse a fazenda, dando continuidade à nossa organização? Não tenho o seu otimismo — apontou o marido, com generosidade e carinho a lhe transbordarem da voz —, mas sempre admirei os seus caprichos.
Não me oponho aos seus desejos, mas exijo que seja um homenzinho, que venha para cá ao nascer, sem que os pais nos incomodem e que chore pouco... Tudo isso, desde que você nada reclame da trabalheira... — Oh!... Amâncio, que alegria!... Ante o júbilo da esposa que se transfigurara, feliz, o interlocutor sentiu misteriosa ventura acariciando-lhe as entranhas do ser. Levantara-se Evelina e avançara para ele, osculando-lhe os cabelos agrisalhados, ao mesmo tempo em que lhe estendia a destra sobre o tórax, qual se lhe afagasse o coração.
Bases de novo porvir
No dia imediato, a conferência com Ribas. Ernesto e Evellna confiaram-lhe sucinto relatório da visita realizada na véspera, a que o mentor deu ouvidos atentos. Esmerando-se no aproveitamento das horas, o sábio amigo requisitou um grupo de fichas, alinhadas em arquivo próximo, e iniciou o trabalho mais importante da entrevista, analisando a situação de Túlio Mancini. Considerou que o jovem realmente evidenciava reduzido progresso; entretanto, isso não invalidava o compromisso da senhora Serpa, cujo auxílio junto dele não devia esmorecer, organizando-se-lhe o renascimento pró-ximo. Estabelecendo bases para o futuro, ele, Ribas, traçara um programa de ação imediata e mais claramente definida para os dois amigos, em cujo desempenho se lhes aplicassem as forças com a eficiência precisa. Evelina permaneceria, a sós, ao pé de Mancini, continuando a presidir-lhe, quanto possível, a renovação mental, ao passo que Ernesto se encaminharia diariamente ao plano físico, de maneira a colaborar, no limite de seus recursos, a benefício de Desidério e de Elisa, carecedores de urgente e fraternal socorro.
Entendera-se com diversos diretores de serviço, domiciliados em Esferas Superiores, e granjeara autoridade suficiente para funcionar na solução dos problemas alusivos aos renascimentos que se fizessem necessários, em favor do reequilíbrio do grupo. A moça, porém, no registrar-lhe as instruções, raciocinou, pesarosa: — Instrutor Ribas, não me será concedido, então, visitar meu pai e abraçálo agora? O senhor compreende as minhas saudades... — Entendo, sim, mas a condição atual de Desidério não nos aconselha espontaneidade nas atitudes. Para ajudá-lo com segurança, é imperioso examinar prévia-mente as nossas menores manifestações. — Mesmo as minhas? — Até mesmo as suas maneiras de filha entram em linha de conta. Aquele rebelde e nobre coração que lhe serviu de pai possui qualidades notáveis, que serão desentranhadas em momento oportuno. Convém, filha, não venhamos a estragar as oportunidades. Paciência... — Como assim? — Ele deve reencontrá-la em momento de mais alta compreensão.
Fantini assisti-lo-á, diariamente, através da palavra edificante, em tarefa idêntica ao apostolado doméstico que a sua dedicação desenvolve no amparo a Mancini, empenhando-se a despertá-lo para as alegrias da Espiritualidade Maior, ao mesmo tempo em que, nesse mister, ambos aprenderão a readquirir o respeito e o afeto mútuos... Depois de um sorriso amistoso: — Não é isso mesmo que sucede a você, em relação a Túlio? Evelina aquiesceu, compreensiva. — Isso, entretanto — prolongou-se o mentor —, não obstará sua intervenção nos acontecimentos, quando as circunstâncias no-la sugiram. Você pode e deve efetivamente rever seu pai terrestre; no entanto, a sua influência filial, a nosso ver, precisa ser usada em favor dele mesmo... A senhora calou-se e Fantini aparteou: — Instrutor, se não sou importuno, estimaria saber se o mensageiro de sua
confiança inspecionou a situação de nossos companheiros na residência do Guarujá... — Sim, mas não foram achados ali. Estão em São Paulo. — Na casa de Vila Mariana? — Caio e Vera, sim... — E Elisa? — Há precisamente seis dias foi internada para tratamento numa clínica de saúde mental. — Meu Deus!... Como as coisas se modificam!... Instada por Serpa, a filha assumiu responsabilidades e a doente não pôde resistir. As notícias recebidas, no entanto, destacam enorme gravidade nos prognósticos, quanto à nova posição orgânica de Elisa. Sou constrangido a comunicar-lhes que a enferma piorou muito, quanto ao processo obsessivo de que é vítima, e, à face dos recursos circulatórios precários, surgiu-lhe uma trombose cerebral progressiva, indicando desencarnação próxima. Tudo isso, após terrível desgosto... — Que desgosto? — interpelou Fantini, atônito. O instrutor, imperturbável: — Averiguamos que Serpa, de algumas semanas para cá, pressionou Vera para que se retirasse da genitora a faculdade de dirigir os próprios negócios.
Advogado de muitas relações, muniu-se de influências diversas e, assim que convenceu a futura sogra a hospitalizar-se para tratamento, assegurando não passaria de dois a três dias, obteve, com as certidões devidas, o despacho da autoridade competente, favorável aos seus propósitos. E apresentou esses propósitos aos amigos, em todas as providências, como sendo da jovem a quem promete desposar. Claro que o choque para Elisa foi algo de muito doloroso, ao reconhecer, na instituição de saúde em que se encontra, a impossibilidade de mobilizar os seus recursos econômicos. Isso porque, apesar de obsessa, está perfeitamente lúcida. Para nós, é a criatura de mediunidade torturada, com fenômenos psíquicos por agora incompreensíveis a quantos lhe desfrutam a convivência... Para Serpa e Vera, é um caso de senilidade precoce... — Caio, então... agora... A frase hesitante de Ernesto esmoreceu-lhe na boca. Ribas, no entanto, completou-a: — É o procurador de nossa doente e da filha, com poderes legais para manejar-lhes todos os bens...
Ante os dois interlocutores, espantados: — A vista dos fatos e admitindo o imperativo de nosso entendimento tão arejado quanto possível, é forçoso informar você, Fantini, de que os seus terrenos em Santos já foram vendidos, anteontem, conforme resoluções de Serpa, que se investiu na posse de alguns milhões de cruzeiros, a título de corretagem. Não digo isso como quem julga o comportamento menos feliz de um companheiro, mas sim porque necessitamos planejar o futuro, com a obrigação de nos determos em minudências mesmo indesejáveis... — Que ladrão!... — o grito acusativo de Ernesto vibrou, insopitado. — Meu Deus!... Mais uma vez, Caio, malfeitor! Ribas fixou um gesto de paternal benevolência e opôs a contradita: — Evitemos a crueldade, fujamos de qualquer violência. Indispensável envolver Serpa e Vera em ondas de nossa melhor simpatia. — Porquê? — bradou Fantini, desolado. — Vocês não devem esquecer que os dois, na equipe doméstica, são
amigos providenciais. Se vocês operarem com segurança, no apoio afetivo de que Caio não prescinde, esposarâ Vera e será o pai de Mancini na existência próxima. Sem dúvida, agindo assim, resgatará o débito que lhe é próprio, porqüanto, havendo subtraído Túlio à vida física, é obrigado a restituir-lhe esse mesmo patrimônio, segundo os princípios de causa e efeito. Além disso, porém, tranquilizará Evelina, encarregando-se no mundo da reeducação de um Espírito, cujo destrambelho emotivo tanto trabalho vem custando à nossa amiga. — Entendo tudo isso, mas... — abalançava-se Fantini a interpor argumento menos favorável, que Ribas cortou, esclarecendo: — Sei, Fantini, o que você pensa. Você, apegado ainda à família consanguínea que o Senhor lhe emprestou na Terra, reconhece que Serpa começou a apoderar-se daquilo que foi sua razoável fortuna. Você, indiscutivelmente, não se deve iludir.
Assim como já negociou os lotes que lhe pertenciam em Santos, disporá talvez de todo o material que você aprecia ainda como sendo os seus apartamentos de aluguel em São Paulo, a sua residência de Guarujá, as suas apólices, as suas jóias, os seus depósitos bancários e até mesmo o seu pequeno mundo doméstico de Vila Mariana... Aceite a realidade, meu amigo. Todas as suas propriedades no campo físico, mediante a desencarnação, passaram ao domínio de outras vontades e ao controle de outras mãos. A vida reclama o que nos empresta, dando-nos em troca, seja onde seja, o que fazemos dela, junto dos outros... Todas as transformações a que nos referimos virão, na certa, logo Caio consiga fazer de sua filha a esposa legítima. Entretanto, abstenhamo-nos de classificá-lo por ladrão e malfeitor. Ele é, sim, um filho de Deus, tanto quanto nós, sacando no futuro. Toma hoje, por empréstimo, à sua viúva e à sua filha os recursos que você lhes deixou, por fruto de uma existência imensamente laboriosa, julgando que realiza brilhante proeza de inteligência...
Entretanto, a pessoa enganada é ele mesmo, o nosso pobre amigo... — Mas, como? O mentor, sereno, clareou o assunto: — Supondo senhorear largos créditos, Caio apenas assume largas dívidas, perante as Divinas Leis. Retendo os patrimônios materiais de Elisa e Vera, experimentará, instintivamente, a fome de ação para enriquecer-se cada vez mais. Apaixonar-se-à pelo dinheiro e tão cedo se sentirá saciado. Ao invés de aproveitar as alegrias da vida simples, andará distante da verdadeira felicidade, escravizado que ficará, por muito tempo, àambição de ganhar e ganhar, amontoar e amontoar... E isso tudo, no fim, será revertido em benefício... Sabe de quem? — Estimaria saber... — apontou Ernesto, estomagado. — Dos seus familiares, meu caro, e principalmente de Elisa, a quem ele presentemente impele à desencarnação prematura, com apontamentos insensatos, sequioso de lhe governar as vantagens econômicas em regime de ilusória impunidade. — Oh! Explique-nos!... — solicitou Ernesto, ansioso.
Ribas apanhou pequeno mapa, dentre os papéis que compulsava, e elucidou, indicando figurações aqui e ali: — A desencarnação de Elisa está prevista para breves dias, mas o renascimento dela, depois de reequilíbrio seguro em nossa estância, poderá ocorrer, conforme nosso esquema, dentro de cinco a seis anos. Com a
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.