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Capítulo 17 de 21
André Luíz — parte 15 de 19
E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
permissão de nossos Maiores, será ela filha de Serpa e Vera, se vocês trabalharem no socorro a ambos, com muito amor... Renascerá depois de Mancini, que lhes será o primogênito... Como é fácil de perceber, daqui a trinta anos, mais ou menos, ocasião considerada provável para o retorno de Caio à Vida Espiritual, devolverá ele à sogra espoliada — então sua filha — tanto quanto a Vera Celina, na condição de viúva, todos os patrimônios de que hoje se apropria. E restitui-los-ápositivamente aumentados, acrescidos de grandes rendimentos, ao mesmo tempo em que terá trabalhado o bastante para legar a Túlio, na existência nova, uma situação material invejável... Diante de Evelina e Ernesto estupefatos com a segurança das Leis de Deus, Ribas pareceu encerrar os estudos, advertindo: — Longe de nós a intenção de categorizar Serpa à conta de larápio ou delinquente; ele é nosso aliado, nosso amigo. O que nos compete fazer, de imediato, é rogar ao Senhor fortalecê-lo com a bênção da saúde física e da euforia espiritual, a fim de que viva tranquilo, no casulo terrestre, por muitos e muitos anos.
E, sorrindo: — Chegará o tempo em que vocês dois se aprestarão, quanto possível, a fim de resguardar-lhe as garantias pessoais e ampliar-lhe os lucros dignos, de maneira a proteger o futuro dos entes caros. Imploremos a Deus faça dele um homem rico e bondoso, diligente e realizador. Precisamos dele e, consequentemente, Caio precisa de nós. Notando a senhora Serpa que a conversação descambava para o término, apressou-se a dizer: — Instrutor, e meu pai? Venho sonhando para ele o regresso ao berço terreno. . — Isso igualmente já consta de nosso esquema. Sabíamos, Evelina, que você, filha dedicada e amorosa, cogitaria de ajudá-lo... Fomos informados de que você ontem já lançou no coração materno a idéia-semente que frutificará com o Amparo Divino, suplicando à nossa irmã Brígida o recolha, no lar, como menino perfilhado. Seu apelo foi muito feliz e, com semelhante medida, Amâncio Terra, seu padrasto, receberá o socorro merecido. Em verdade, ele exterminou o corpo de Desidério, seu pai, alucinado na paixão que lhe enceguecia o espírito, e apossou-se-lhe da casa e dos recursos...
É um homem ateu e evidentemente criminoso, mas profundamente humano e caritativo. Recolheu os bens de seu pai; no entanto, ao dilatá-los, com administração judiciosa e profícua, fêz-se o esteio econômico para mais de duzentos espíritos reencarnados, os seus servidores e rendeiros, com os descendentes respectivos... Há mais de vinte anos, a todos protege, com a vigilância de um pai atento e bom. Nunca abandonou os que enfermassem, nunca desprezou os caídos em prova, nunca deixou crianças ao desamparo... Sim!... Ele assassinou Desidério, seu pai, e responderá por essa falta, nos tribunais da vida, mas escravizou-se a Brígida, sua genitora, de quem procura satisfazer os menores desejos na posição de marido honesto e fiel... Tantas preces sobem do mundo, a favor dele, para a Infinita Misericórdia de Deus, pelas consolações e alegrias que espalha, que chegou a merecer mais amplas atenções de nossos Maiores... Fomos recomendados ontem para que a sua filial rogativa seja atendida no momento oportuno... E quanto a seu pai, segundo a sua petição, retornará, com a Bênção do Senhor, ao convívio do homem que ainda odeia, mas aprenderá a ver-lhe as qualidades nobres e amá-lo-
áenternecidamente, como a um pai verdadeiro, de quem receberá abnegação e ternura, apoio e bons exemplos. Ribas silenciou por momentos e, em seguida, acentuou, qual se estivesse respondendo a certas dúvidas dos ouvintes: — É inegável que Amâncio possui apenas mais dez anos de permanência no corpo físico, de acordo com os dados esclarecedores que nos foram enviados, com objetivos de estudo; no entanto, para um homem com os serviços prestados que ele tem, não nos será difícil obter, junto aos Poderes Superiores, moratória de quinze a vinte anos a mais, prolongando-se-lhe o tempo na existência atual... Á face de tudo isso, esperamos possa ele realmente conquistar do Senhor a felicidade de receber Desidério por filho — através do concurso de um casal humilde —, a fim de conferir-lhe vida nova e devolver-lhe, no porvir, todos os bens de que foi, um dia, despojado... Esteja certa, Evelina, de que seu pai, reorientado pelo verdugo de outro tempo, hoje transfigurado em obreiro do bem, na escola do trabalho, será um homem equilibrado e com todos os recursos para ser feliz.
Ribas pausou, de novo, alguns instantes e, logo após, anunciou: — Nosso esquema inclui um acontecimento importante. .. Nos dias que virão, seremos chamados a aproximar os lares de Serpa e Amâncio, porqüanto Desidério e Elisa, reencarnados, realizarão venturoso matrimônio em plena juventude... Envidaremos esforço máximo, para que Desidério se despeça de nós, em breve tempo, na direção da vida física... Evelina chorava de jubilosa emoção, meditando na justiça perfeita de Deus, e Ernesto refletia, empolgado de assombro, ante a lógica do plano estabelecido. Sopitando a comoção encharcada de lágrimas, a senhora Serpa articulou nova pergunta: — E minha mãe? — Sua mãezinha — aclarou o mentor — acompanhará os destinos de Amâncio... Seu pai desposou-a, mas não amava... Tanto assim que, nas anotações e relatórios de que dispomos, você ainda estava no berço terrestre e ele já gravitava para outros campos sentimentais. — Tantos projetos! — especulou Fantini transformar figuras em obras exige trabalho e trabalho... quem se responsabilizará pela execução de semelhantes planificações?
O mentor lançou-lhe benevolente olhar e falou para ambos: — Vocês já ouviram falar em guias espirituais? Ernesto e a companheira esboçaram silencioso gesto de estranheza. E Ribas: — Pois é... Vocês dois serão os encarregados do serviço em perspectiva, com todas as tarefas-satélites que lhe forem consequentes. Esforçar-se-ão para que Serpa e Vera se consorciem; para que Elisa se recupere após a desencarnação, no menor prazo possível; para que Desidério volte ao renascimento físico, nas condições desejáveis, e auxiliarão, ainda, a Elisa, no retorno à Terra, com o dever de amparar-lhes o berço e a meninice, além de que estarão colaborando não só para que a futura genitora de Desidério conquiste recursos adequados a acolhê-lo no claustro materno, como também para que o nosso amigo, a reencarnar, venha a sentir-se convenientemente instalado, na posição de filho adotivo... E nada de esquecer nosso Mancini, que prossegue requerendo atenções especiais; o encaminhamento dele no futuro, o
enlace de Elisa e Desidério, mais tarde, depois das providências com que nos empenharemos a reaproximar as famílias Terra e Serpa... Num gesto marcante de bom-humor: — Trabalho para trinta anos, meus amigos! Para início de ajuste, considerem-se vinculados à nossa cidade, em serviço, no mínimo de trinta anos pela frente!... Ernesto contemplou Evelina, tomado de profundo enternecimento. E pensava que ela e ele haviam sido rechaçados da memória dos que mais amavam, quase que totalmente esquecidos, recusados, afastados, substituidos. A ex-senhora Serpa — pois que a moça se reconhecia francamente liberada pelas atitudes de Caio, quanto ao prosseguimento de qualquer compromisso de natureza afetiva — fixava Ernesto e sintonizava-se-lhe com a onda de ideias e emoções. Estavam os dois com a paz de consciência e a sós um com o outro, na empresa que os chamava. Fantini pareceu-lhe mais espiritualizado pelos sofrimentos dos dias últimos, qual se a fogueira de aflições ocultas lhe houvesse remodelado a forma e retocado o semblante. Entreolharam-se e compreenderam-se.
Todos os entes queridos, da Terra, exceção de Brígida que ainda mantinha pensamentos de ternura e saudade para a filha distante, dispensavam-lhes a presença e o concurso. Entretanto, necessitavam agir e construir, a favor deles mesmos. E ao modo de aliados que se reencontram para veneráveis misteres, no campo da vida, se prometeram, sem palavras, irmanar os corações, transferindo um para o outro os sagrados tesouros afetivos que se lhes devolviam da Terra, convencidos de que precisavam da escora recíproca para a longa jornada que se lhes descerrava aos anseios de redenção.
Ernesto em serviço
A obra de assistência espiritual por parte de Fantini e Evelina avançava com segurança, entre as melhoras de Túlio e os tentames de reaproximação com Desidério, que não se desvinculava de Elisa, então relegada às próprias reflexões no sanatório a que fôra conduzida. O trabalho para Ernesto se fazia, porém, cada vez mais difícil, porqüanto o adversário não perdia ocasião de arrancar-se contra ele, através de acusações e achincalhes. Por outro lado, as condições orgânicas de Elisa pioravam, de dia para dia, e os seus esforços, no sentido de abeirar-se dela, redundavam quase nulos. Preocupado com o rumo da situação, procurou Ribas, a quem expôs o problema, inquirindo por que motivo um Espírito sofredor e enrijecido nas idéias de vingança adquirira tamanho poder de penetração, a ponto de apontar-lhe as mínimas falhas de caráter. — Ah! meu amigo, meu amigo!... confessou o Instrutor — nossos irmãos atrelados ao desespero e a revolta encontram razões para censurar-nos, sempre que preferimos desempenhar na Terra a função de personalidadeslegendas. — Como assim? — Muita vez, somos no mundo titulares desses ou daqueles encargos, sem que venhamos a executá-los de modo efetivo.
Costumamos ser maridoslegendas, pais-legendas, filhos-legendas, administradores-legendas... Usamos rótulos, sem atender às obrigações que eles nos indicam. Entendeu? Igualmente, já fui esposo-legenda na Terra, isto é, casei-me, abracei compromissos de família, mas acreditei que as minhas responsabilidades se limitassem a ostentar a chefia da casa e a pagar as contas de fim de mês. A rigor, jamais compartilhei as inquietações da companheira, na educação íntima dos filhos e, que eu me lembre, nunca me sentei, junto de qualquer deles, para sondar-lhes as dificuldades e os sonhos, conquanto lhes exigisse conduta que me honrasse o nome. Assinalando a delicada objurgação, Fantini viu-se mais uma vez espicaçado pela própria consciência. Concluía, sinceramente, de si para consigo, que não fora o esposo e o pai que deveria ter sido. Somente ali, naquela estância espiritual, depois da morte do corpo físico, percebia, nas duras refregas da autocorrigenda, que o dinheiro não faz o serviço do coração. Sentindo-se rebaixado, triste, absteve-se de quaisquer divagações nos temas da consulta, ao passo que o mentor, risonho, deteve-se a confortá-lo nas despedidas: — Nada de desânimo!...
Ouçamos os opositores nas críticas que assaquem contra nós, buscando aproveitá-las com humildade no que mostrem de verdadeiro e de útil. Usemos essa chave, Fantini — a humildade —... Ela funcionará com acerto na solução dos maiores enigmas. Sejamos cristãos autênticos, amando, servindo, desculpando... Atento às lições constantes do amigo, consagrava-se Ernesto, cada vez mais, aos misteres da fraternidade legítima, fôsse tolerando as diatribes da mulher debilitada pelo sofrimento, ou suportando, com resignação heróica, os baldões do irmão infeliz, sempre disposto ao espancamento verbal. Depois de vinte e seis dias de frequência correta ao clima de serviço, verificou, surpreso, que Serpa, pela primeira vez, vinha ao encontro da futura
sogra. Muito bem apessoado, postou-se o causídico à frente da enferma, em sala particular, com o beneplácito da administração do instituto, pois, segundo anunciou, desejava colher impressões claras e pessoais, com alusão à doente, a fim de prestar informes positivos à noiva. Em derredor de ambos, apenas os dois acompanhantes desencarnados, Desidério e Fantini, ambos ansiosos pelos resultados da entrevista. Quando se acharam a sós, Elisa expôs, com palavras serenas de mãe, o desejo de abraçar a filha, a fim de que ela lhe testemunhasse a sanidade mental e lhe patrocinasse o regresso para a casa, sensibilizando tanto a Fantini quanto a Desidério, pela atitude humilde em que vazava as súplicas de mulher derrotada pelas circunstâncias.
Serpa, no entanto, contrariou-a, inflexível: — Absolutamente, a senhora não terá alta, assim como pretende, pois os prognósticos a seu respeito não ajudam... — Porquê? — As informações relativas ao seu comportamento não nos autorizam a retirá-la. — Comportamento? que comportamento? — Continua chorando sem propósito, conversa sozinha, interpela sombras... — Simplesmente, não sou compreendida, o que vejo, vejo... — Vera telefona diariamente e os enfermeiros são concordes em declarar que as suas perturbações não diminuíram. — Serpa — admoestou Elisa, carregando a voz de mal-estar —, apesar de tudo, insisto com o seu cavalheirismo, a fim de que me traga Vera... — Para quê? para traumatizá-la com as suas fantasias? Não acredita que sua filha já sofreu o bastante com os seus choros e noites em claro? — Oh!
Serpa!... — A senhora sabe que já sou quase seu genro, tenho direito a interferir... — Não sei quem teria o direito de interferir entre as mães e os filhos — reivindicou a enferma, agora suplementando cada palavra com inflexão de funda tristeza. — Não reclamo contra a sua ingerência nos negócios de minha casa, a ponto de me achar interditada, no tocante a emitir um simples cheque... — Não se lamurie — atalhou Caio, agressivo —, aceitei o papel de seu procurador, por exigências de sua filha. Tenho serviço que me baste e não disputaria a condição de seu empregado... — Não lamento e conto com a sua honestidade para proteger os interesses de minha filha... Quanto a mim... — Que quer dizer? — Quanto a mim, vocês dois não se afligirão por muito tempo.
Alguns palmos de terra... — Porque fala nisso? que há de mais? a morte é o fim de nós todos, e, se a senhora se expressa dessa forma para comover-me, está muito enganada... — Oh! meu Deus, só desejava ver minha filha!... — Pois enquanto não se normalizar, enquanto não puder recebê-la sem causar-lhe impressões negativas, não conseguirá. — Mas porque me impõe essa recusa, se sempre recebi você em minha casa, como se fôsse meu próprio filho?
— Mentira! a senhora me detesta... Não me expulsou, porque Vera não permitiu, porque sou o homem que ela escolheu para lhe dirigir o futuro... E ante a penosa estupefação da doente: — E saiba que tanto ela quanto eu estamos fartos de saber que a senhora já viveu sua vida e que precisamos viver a nossa... Não será uma sogra velha que frustrará nossos planos. Inopinada revolta anuviou o cérebro de Elisa, que se aprestou para a reação, exclamando, frenética: — Infame!... Surgida a indignação, Desidério — o desencarnado que, a rigor, lhe controlava todas as faculdades — senhoreou-lhe a mente, de forma espetacular, e a crise se desencadeou dominadora, terrível... Elisa, possessa, investiu sobre o visitante, buscando asfixiá-lo, a meio de impropérios que se lhe estranhavam na boca. Serpa recuou, sob indisfarçável espanto, dando lugar à paciente enfermeira que imobilizou a viúva, ao mesmo tempo que, de outro lado, Ernesto, a pulso, impedia os movimentos desordenados do companheiro. Restabeleceu-se a ordem. A moça de serviço reconduziu a doente para o quarto, apoiada no concurso de duas auxiliares, e voltou para as escusas. — Não se aflija, doutor.
Foi uma crise como tantas... Isso passará. — Compreendo — revidou Caio, gentil. — Dona Elisa sempre me tratou com carinhos de mãe. Pobre amiga! tem os nervos positivamente destrambelhados. Enquanto a conversa prosseguia, Fantini segurava Desidério, amistosamente, coadjuvado por outros tarefeiros desencarnados, em atividade no sanatório. Um deles solicitava prisão para o agitado agressor, ao passo que os demais informavam que, desde a entrada de Elisa no estabelecimento, era ele um prestativo e pacato acompanhante da enferma, que encontrava nele um amparo e um amigo. Ouvindo alusões a encarceramento provável, o pai de Evelina percebeu que se achava diante da possibilidade de perder-se da criatura querida, e asserenou-se. Valeu-se Ernesto da circunstância e o apresentou como sendo para ele um irmão caríssimo, no intuito de sossegar as sentinelas, acentuando que o pobre se desmandara ligeiramente, à vista de certas provações de família. Entretanto, ele, Fantini, estava ali justamente a fim de ajudá-lo a se desvencilhar de quaisquer lembranças destrutivas. Dispersaram-se os guardas. Depois disso, Ernesto convidou o rival a segui-lo, no que foi atendido, sentando-se ambos em espaçoso banco de jardim próximo.
Desidério chorava, colérico, impedido que se vira de surrar o advogado como desejara. — Você viu que crápula? — explodiu, encarando Fantini com expressão menos cruel — não sei porque ainda não aniquilei esse pulha de Serpa!... Primeiro, assassinou um colega, o advogado Túlio Mancini, depois matou minha filha aos poucos, e agora quer arrasar Elisa, após furtá-la, descaradamente... O amigo fitou-o com bondade e ajuntou:
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