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Capítulo 5 de 21

André Luíz — parte 3 de 19

E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

buscou a campainha, rente a ela. Apertou o botão de chamada e uma senhora de semblante doce e atraente apareceu, saudando-a com palavras de irradiante carinho. Evelina aceitou com naturalidade a cooperação da desconhecida. — Enfermeira — falou para a recém-chegada —, posso rogar-lhe o favor de chamar meu marido? — Tenho instruções para, antes de tudo, informar o médico sobre suas melhoras. A senhora Serpa concordou, afirmando, no entanto, que sentia necessidade de reencontrar os familiares, de maneira a repartir com eles o próprio júbilo. — Compreendo... — redarguiu a serviçal, com inflexão de ternura. — Tenho sede de entender-me com alguém — aditou a convalescente, animada —, como se chama a senhora? — Chame-me Irmã Isa. — Decerto, a senhora me conhece. Sou Evelina Serpa e devo ter aqui minha ficha... — Sim. — Irmã Isa, que me sucedeu? Estou bem, mas num estado estranho que não sei definir... — A senhora passou por longa cirurgia, precisa descansar, refazer-se... Para Evelina, em verdade, nada havia de surpreendente naquelas palavras articuladas em tom significativo. Sabia-se operada. Passara pela dolorosa ablação de um tumor. Estivera em casa, melhorara tanto que obtivera um passeio com o marido pelas estradas do Morumbi.

Apesar de tudo, reconheciase novamente hospitalizada, sem poder ajuizar dos motivos. Enquanto alinhava indagações mudas, não viu que a atendente pressionava um ponto cinza, em determinado recanto, comunicando-se com o médico de plantão. Em dois minutos, um homem de branco entrou, calmo. Cumprimentou a doente, examinou-a, sorriu satisfeito. — Doutor... — começou dizendo, ansiosa por justificar-se. E pediu informes. Desejava saber como e quando conseguiria rever o esposo e os pais. Não seria justo dar aos seus a notícia do êxito com que o hospital a brindava? O facultativo ouviu-a, paciente, e rogou-lhe conformidade. Retornaria aos parentes, mas precisava reajustar-se. Gesticulando carinhosamente, qual se sossegasse uma filha, aclarou: — A senhora está melhor, muito melhor; entretanto, ainda sob rigorosa assistência de ordem mental. Em se ligando a quaisquer agentes suscetíveis de induzi-la a recordações muito ativas da moléstia que sofreu, é provável que todos os sintomas reapareçam. Pense nisso. Não lhe convém, por agora, recolocar-se entre os seus. E com um olhar ainda mais compreensivo, ajuntou: — Coopere... Evelina ouviu a observação, de olhos lacrimosos, mas resignou-se. Afinal, concluiu intimamente, devia ser reconhecida aos que lhe haviam granjeado a bênção da nova situação. Não lhe cabia interferir em providências, cujo significado era incapaz de apreender.

Adivinhando que o médico se dispunha a sair, solicitou com humildade se lhe seria permitido ler e, se essa concessão lhe fôsse feita, rogaria que a casa lhe emprestasse algum volume em que pudesse colher ensinamentos de Cristo. Sensibilizado, o médico lembrou o Novo Testamento e, a breves instantes, a atendente trouxe o livro mencionado. Restituida à solidão, Evelina começou a ler o Sermão da Montanha; todavia, a advertência clínica se lhe intrometia na imaginação, insistentemente. Se estava restaurada, qual se via, porque simples lembranças lhe imporiam retorno aos padecimentos de que se acusava liberta? Porquê? Percebia-se na posse de inenarrável euforia. Deliciosa sensação de leveza lhe mantinha a disposição para a alegria, como nunca sentira em toda a existência. Tais recursos de equilíbrio orgânico seriam assim tão fáceis de perder? Retirou a atenção do livro e engolfou-se em novas cogitações... E se reconstituisse em espírito a presença de Caio e dos pais, com veemência? e se concentrasse os próprios pensamentos nas dores que havia deixado à retaguarda?

Infelizmente para ela, confiou-se a semelhantes exercícios e, decorridos alguns minutos, a crise revelou-se, agigantando-se-lhe no corpo em momentos rápidos. Regelavam-se-lhe as extremidades, enquanto que mantinha a ideia de que um braseiro a requeimava por dentro, com a dispneia afrontando-lhe o peito. Desencadeados os sintomas, quis reagir, contrapor conceitos de saúde aos de doença; entretanto, era tarde. O sofrimento ganhou-lhe as forças e passou a contorcer-se no suplício de que se admitira definitivamente distanciada... Atônita, premiu a campainha e a prestimosa atendente se desdobrou na tarefa assistencial. O médico reapareceu e administrou sedativos. Ambos, nem ele nem a enfermeira, lhe endereçaram o mínimo reproche, mas a doente lhes leu no olhar a convicção de que tudo haviam compreendido. Em silêncio, davam-lhe a saber que não lhe ignoravam a teimosia e que, com toda a certeza, não se acomodando aos avisos recebidos, quisera experimentar por si mesma o que vinha a ser um tipo de mentalização inconveniente. Conquanto a bondade de que dava mostras, o médico agiu com energia.

Forneceu instruções severas à companheira de serviço, depois da injeção calmante que ele próprio aplicou à senhora Serpa, em determinada região da cabeça, e recomendou medidas especiais para que ela dormisse. Aconselhável obrigá-la a repousar mais tempo, controlada por anestésicos. A doente não podia e nem devia entregar-se a ideias fixas, sob pena de voltar a sofrer sem necessidade. Evelina registrou as observações dele, em franca modorra. Depois, abismou-se em pesado sono, do qual despertou muitas horas após, consciente de que lhe competia cuidar-se, evitando novo pânico. Mostrou o desejo de alimentar-se e foi imediatamente atendida com caldo quente e reconfortante, que lhe calhou gostosamente ao paladar, à feição de néctar. Refêz-se, vigilante. Reconhecia-se sob uma espécie de assistência cuja eficácia e poder não lhe cabia agora subestimar. Finda uma semana em descanso absoluto, com entretenimentos de leitura escolhida pelas autoridades que a cercavam, passou a caminhar no recinto do

quarto. Ao retomar a verticalidade, assinalava em si mesma inequívocas diferenças. Os pés se lhe patenteavam leves, qual se o corpo houvesse diminuído de peso, intensivamente, e, sobretudo, no cérebro, as idéias lhe nasciam em torrente, vigorosas e belas, quase a se lhe materializarem diante dos olhos. Numa tarde em que se via mais amplamente estimulada a reaver os movimentos normais, abeirou-se da janela que dava para um pátio enorme e, do alto do terceiro andar que a hospedava, contemplou dezenas de pessoas que conversavam alegremente, muitas delas sentadas em torno de irisada fonte que se erigia em centro de florido e extenso jardim. Aquela sociedade serena atraiu-a. Tinha sede de convivência, atreita que se achava a austeras disciplinas. A vista disso, consultou a enfermeira se lhe era concedido descer, travar conhecimento com alguém. Afinal, sugeriu com otimismo, uma casa de saúde não deixa de assemelhar-se a um navio, em cujo bojo as criaturas se interessam umas pelas outras, estendendo-se as mãos. A serviçal achou graça e escorou-a nos braços, para a descida. Poderia, sim, divertir-se ali.

O ambiente lhe faria bem, ao mesmo tempo que lhe seria lícito granjear uma que outra amizade. Deixada a sós, fitou ansiosamente os rostos que a rodeavam. Figurou-selhe estar no seio de vasta família de pessoas afins pelo coração, mas quase todas desconhecidas entre si, qual acontece num balneário. Todos os circunstantes acusavam-se na posição de convalescentes, adivinhando-se-lhes, sem dificuldade, os vestígios das enfermidades de que haviam conseguido evadir-se. Evelina interrogava-se, quanto ao melhor processo de estabelecer contacto com alguém, quando viu um homem, não longe, que a fitava, evidentemente assombrado. Oh! não era aquele cavalheiro, exatamente Ernesto Fantini, o improvisado amigo das termas? O coração bateu-lhe agitado e estendeu, na direção dele, os dois braços, dando-lhe a certeza de que o aguardava, de alma aberta. Fantini, pois era ele mesmo, ergueu-se da poltrona em que se guardava e avançou para ela, a passos rápidos. — Evelina!... Dona Evelina!... Estarei realmente vendo a senhora? — Eu mesma! — respondeu a moça, chorando de alegria. O recém-chegado não foi estranho à emotividade daquele minuto inesquecível. Lágrimas lhe rolaram no rosto simpático e sisudo, lágrimas que ele buscava enxugar, embaraçado, procurando sorrir. — Há quantos dias aqui? — Positivamente, não sei — adiantou notando fome de conversação.

Entendimento fraternal

— Há quantos dias aqui? — Positivamente, não sei — adiantou Ernesto, denotando fome de conversação. E completou: — Tenho matutado bastante naquele nosso entendimento de Poços de Caldas, acalentando sempre a esperança de revê-la... — Gentileza de sua parte. Evelina confidenciou a perplexidade em que vivia. Despertara naquela instituição de saúde que desconhecia de todo, ôbviamente transferida de casa por imposição da família, porqüanto o único fato de que se recordava com clareza era justamente o desmaio em que descambara no tope de uma crise das piores que havia atravessado. E salientou, sorrindo, que tivera a impressão de morrer... Quanto tempo desacordada? Ignorava. Retomara-se apenas quando viera a si do sono profundo e sem sonhos, ali mesmo, no quarto do terceiro andar. Desde então, andava intrigada com o mistério que a administração fazia, em torno dela própria, de vez que não obtivera permissão para telefonar ao marido. Fantini escutava, atencioso, sem articular palavra. Em derredor, algumas pessoas se mantinham sentadas ou caminhavam com naturalidade, lendo ou palestrando, aqui e ali.

Rosas, miosótis, jasmins, cravinas, begônias e outras flores, sob árvores recordando amendoeiras, fícus e magnólias, embalsamavam o ar, extremamente diáfano, com perfume delicioso. Alongados os comentários que anotava, curioso, Fantini mostrou estranho brilho no olhar e concordou com Evelina. Declarou achar-se em brasas. Revelou que também sofrera esquisita fuga de si mesmo, com a diferença de que isso lhe ocorrera, logo após a cirurgia, quando voltava para o leito, segundo acreditava. E registrara aquele mesmo fenômeno de retrospecção, a que se reportava a senhora Serpa em seus apontamentos confidenciais, no qual se vira repentinamente devolvido ao pretérito, desde os primeiros momentos de espanto até os dias primeiros da infância... Depois, dormira pesadamente. Incapaz de explicar-se, quanto ao tempo exato em que se demorara obtuso, inconsciente, tomara acordo de si próprio naquele nosocômio, dez dias antes. Conservava, igualmente, a mesma estupefação, perante as normas de serviço ali regulamentadas, porque não conseguira o mínimo contacto com a esposa ou a filha, das quais se despedira na cela hospitalar, horas antes do trabalho operatório a que se submetera. Achava-se, por isso, inquieto.

Ela, Evelina, experimentara o enigmático desmaio, no círculo doméstico, ao pé dos entes queridos. Ele, porém, deixara a família em meio de agoniada expectativa, sem que lhe fôsse facultado qualquer recurso de comunicação com os parentes. Reconhecia que o estabelecimento de saúde a que se

abrigava agora não era o mesmo onde se internara para o tratamento. Chegava a duvidar de que estivesse realmente em São Paulo. O firmamento parecia-lhe um tanto diverso à noite e a piscina de que se servira continha água tenuíssima, embora fôsse compreensível tivesse aquela casa filtros e engenhos especiais para a medicação da água comum. E Ernesto acabou o relatório, indagando: — A senhora já foi às termas? — Ainda não. — Verificará minha surpresa quando for até lá. — E admite que irei? — retorquiu Evelina com o ar brejeiro de quem se via um tanto mais consolada. — Perfeitamente. Já ouvi dizer que a hidroterapia aqui é obrigatória. Fantini sorriu significativamente e enunciou, carregando cada palavra de recôndita inquietação: — Sabe da hipótese mais razoável? Desconfio de que nos achamos, com autorização de nossos familiares, numa organização psiquiátrica. Nada sei de medicina; no entanto, estou supondo que os problemas da supra-renal nos transtornaram a cabeça.

Teremos talvez enlouquecido, entrando pelas raias da absoluta alienação mental e, com certeza, a segregação terá sido a providência aconselhável... — Porque pensa assim? — volveu a senhora Serpa, muito pálida. — Dona Evelina... — Não me chame «dona»... Insisto em que somos amigos e agora mais irmãos... — Seja — aquiesceu Fantini. E continuou: — Evelina, você verá os aparelhos engraçados com que nos aplicam raios à cabeça, antes do banho medicinal. E creia que todos os doentes acusam melhoras gradativas. Desde anteontem, quando fui à imersão pela primeira vez, sinto-me mais lúcido e mais leve, sempre mais leve... — Acaso não se vê em boa posição mental, desde que despertou? — Não tanto. Aflito por notícias dos meus, voltei a sentir agudas crises. Bastava lembrar a mulher e a filha, concomitantemente com a intervenção cirúrgica, e via-me, quase que de imediato, sob asfixia terrível, a desfalecer de sofrimento. Evelina rememorou a própria experiência, mas silenciou. Sentia-se cada vez mais inquieta. — Através do cuidado com que as autoridades me respondem às interpelações — estendeu-se Fantini —, entendo que se esforçam por manternos em harmonia e tranquilidade.

Admito que teremos passado por algum trauma psíquico e que nos achamos presentemente na reconquista do próprio equilíbrio, o que vamos obtendo, muito a pouco e pouco. Segundo creio, fomos colocados sob terapêutica puramente mental. Ainda ontem, renovei a reclamação de sempre, solicitando comunicação com meu pessoal e sabe o que a enfermeira de plantão me respondeu, perfeitamente senhora de si? — ? — «Irmão Fantini, esteja tranquilo. Seus familiares estão informados de sua ausência.» Mas não querem conversar comigo? nem me chamam ao telefone? —indaguei. E a assistente respondeu: «Sua senhora e sua filha sabem que não podem aguardar tão cedo a sua

presença em casa.» Porque eu recalcitrasse, exigindo providências, a moça declarou: «pOr enquanto isso é tudo o que lhe posso dizer.» — Que deduz de suas próprias observações? — Concluo, salvo melhor juízo, que estivemos, claramente sem o sabermos, na condição de alienados mentais — sugeriu Fantini, quase novamente bem-humorado —, e decerto emergimos, agora, com muito vagar das trevas psíquicas para o estado normal de consciência. Os médicos e enfermeiros que nos rodeiam estão plenamente justificados, quanto ao propósito de resguardar-nos contra quaisquer tipos de preocupação com a vida exterior. O menor vinco de aflição na tela mental de nossas impressões do momento, assim penso, nos traria talvez grande prejuízo às emoções e idéias, qual ocorre à pequena distorção que desfigura a simetria das ondas elétricas. — É possível. Expressiva pausa caiu entre os dois. Após fundo mergulho no mundo de si mesmo, Ernesto rompeu o intervalo: — Evelina, quando você entrou na crise terrível de que me fala, ter-se-á confessado antes? que lhe teria dito o sacerdote? recebeu dele quaisquer conselhos?

A interlocutora assustou-se, perante a angústia com que semelhantes inquirições eram moduladas e contra-indagou: — Oh! porquê? porquê, meu amigo? confessei-me antes do desmaio, sempre que pude... mas, porque procura saber? para chasquear? Fantini, porém, não brincava. Os olhos dele entremostravam indisfarçável mal-estar. — Não se amofine. Pergunto por perguntar —devaneou ele, tamborilando os dedos da mão esquerda sobre o tripé que se erguia à frente —; numa conjuntura perigosa, qual a que atravessamos, toda a assistência é pouca... Lembrei-me de que você tem uma religião e de que ainda sou um homem sem fé... Ernesto ainda não rematara de todo a última frase, quando uma jovem, num grupo de três que caminhavam a curta distância, se rojou ao chão, como quem fora subitamente acometida por violento acesso de histeria, gritando em meio de manifesta agonia mental: — Não!... Não posso mais!... quero minha casa, quero os meus!... Minha mãe ..... onde está minha mãe? Abram as portas!... Bandoleiros! Quem é bastante corajoso aqui para derrubar comigo estes muros? A polícia!... Chamem a polícia!...

Tratava-se, inquestionàvelmente, de um caso de loucura, mas havia tanto sofrimento naquela voz que os circunstantes mais próximos se levantaram, espantadiços. Uma senhora, irradiando paciência e bondade, exibindo na blusa as insígnias de enfermeira da casa, surgiu de chofre, abriu caminho no grupo de curiosos que começava a adensar-se e inclinou-se, abraçando, maternalmente, a menina revoltada. Sem o mínimo impulso à repreensão, soergueu-a, notificando com inexcedível brandura: — Filha, quem lhe disse que não voltará a sua casa? que não reverá sua mãe? Nossas portas jazem abertas... Venha comigo!... — Ah! irmã — suspirou a jovem repentinamente asserenada por aquelas mãos fortes e boas que a enlaçavam —, perdoe-me!... Perdoe-me! Não tenho

razão de queixa, mas estou com saudades de minha mãe, sinto falta de casa! Há quanto tempo estou aqui, sem qualquer dos meus? Sei que sou doente, recebendo o benefício da cura, mas porque não tenho notícias?... A assistente ouviu calma e apenas prometeu: — Você as terá... Passando-lhe, em seguida, o braço carinhoso acima dos ombros, concluiu: — Por agora, vamos ao repouso!... A menina, como quem surpreendera na benfeitora alguma recordação do calor materno de que sentia exacerbada carência, encostou a loura cabeça ao peito que lhe era ofertado e retirou-se, soluçando... Evelina e Ernesto, que haviam acorrido para o auxílio possível, contemplaram o quadro, entre aflitos e magoados. Em ambos, a sede de esclarecimento. Que ilação recolher da súplica chorosa da doentinha atribulada pela ausência do ninho doméstico? que hospital era aquele? um pronto-socorro para alienados mentais? um nosocômio destinado à recuperação de desmemoriados?

Num impulso de curiosidade que não mais pôde sopitar, abeirou-se Evelina de uma senhora simpática que acompanhara a cena, denotando aguda atenção, e cujos cabelos grisalhos lhe recordavam a cabeleira materna, o assuntou com discrição: — Desculpe-me, senhora. Não nos conhecemos, mas a aflição em comum nos torna familiares uns aos outros. A senhora pode dar alguma informação, acerca da pobre menina perturbada? Eu? eu? — redargüiu a interpelada. E advertiu: — Minha filha, eu aqui, pràticamente, não sei da vida de ninguém. — Mas escute, por favor. Sabe onde estamos? em que instituto? A matrona achegou-se mais para perto de Evelina que, a seu turno, recuou para junto de Fantini, e cochichou: — A senhora não sabe? Ante o assombro indisfarçável da senhora Serpa, dirigiu o olhar penetrante para Ernesto e aduziu: - E o senhor? — Nada sabemos — comunicou Fantini, cortês. — Pois alguém já me disse que estamos todos mortos, que já não somos habitantes da Terra... Fantini sacou o lenço do bolso para enxugar o suor que passou a escorrerlhe abundantemente da testa, enquanto Evelina cambaleou, prestes a desfalecer.

A desconhecida estendeu os braços à companheira e recomendou, preocupada: — Minha filha, contenha-se. Temos aqui dura disciplina. Se mostrar qualquer sinal de fraqueza ou rebeldia, não sei quando voltará a este pátio... — Repousemos — interveio Ernesto. E dando o braço a Evelina, ao passo que a dama prestimosa ajudava a escorá-la, rumaram os três para largo assento próximo, sob grande fícus, onde passaram a descansar.

Informações de Alzira

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.