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Capítulo 3 de 21

André Luíz — parte 1 de 19

E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

Uberaba, 18 de abril de 1968.

Encontro inesperado

O vento brincava com as folhas secas das árvores. quando Evelina Serpa, a senhora Serpa, decidiu sentar-se no banco que, ali mesmo, parecia convidála ao repouso. Na praça ajardinada, o silêncio da tarde morna. Raros turistas na estância mineira, naquela segunda quinzena de outubro. E, entre esses poucos, ali se achava ela, em companhia da governanta que ficara no hotel. Afastara-se do bulício caseiro, sentindo fome de solidão. Queria pensar. E, por isso, escondia-se sob a tolda verdejante, contemplando as pequenas filas de azáleas desabrochadas, que timbravam em anunciar o tempo de primavera. Acomodada, rente à espessa ramaria, deu asas às próprias reflexões... O médico amigo aconselhara-lhe revigoramento e descanso, ante a cirurgia que a esperava. E, sopesando as vantagens e os riscos da operação em perspectiva, deixava que as lembranças da curta existência lhe perpassassem o cérebro. Casara-se, seis anos antes. A princípio, tudo fora excursão em caravela dourada sobre correntes azuis. O esposo e a felicidade. No segundo ano, após o enlace, veio a gravidez, carinhosamente esperada; no entanto, com a gravidez, apareceu a doença. Descobrira-se-lhe o corpo deficitário.

Revelaram-se os rins incapazes de qualquer sobrecarga e o coração figurara-se motor ameaçando falhar. Ginecologistas ouvidos opinaram pelo aborto terapêutico e, conquanto a imensa mágoa do casal, o filhinho em formação foi arrancado ao claustro materno, à maneira de ave tenra, escorraçada do ninho. Desde então, a viagem da vida se lhe transformara em vereda de lágrimas. Caio, o esposo, como que se metamorfoseara num simples amigo cortês, sem maior interesse afetivo. Passara fàcilmente para o domínio de outra mulher, uma jovem solteira, cuja inteligência e vivacidade podia aquilatar através dos bilhetes que o marido esquecia no bolso, portadores de frases ardentes e beijos pintados no papel com os próprios lábios úmidos de carmim. O retiro e o desencanto que padecia em casa talvez fôssem os fatores desencadeantes das crises terríveis de opressão que experimentava, periodicamente, na área cardíaca. Nessas ocasiões, sofria náuseas, dores cruciantes de cabeça com sensação de frio geral, que se faziam acompanhar por impressões de queimadura nas extremidades e aumento sensível da pressão arterial.

No ápice da angústia, admitia-se prestes a morrer. Em seguida, as melhoras, para cair, dias depois, na mesma condição crisíaca, bastando, para isso, que os ‘contratempos com o ‘esposo se repetissem. Arruinara-se-lhe a resi Stência, esvaíam-se-lhe as forças. Por mais de dois anos, vagueara de consultório a consultório, sondando especialistas. Finalmente, a sentença unânime. Tão-sômente uma delicada operação cirúrgica viria recuperá-la. No íntimo, algo lhe dizia ao campo intuitivo que o problema orgânico era grave, talvez lhe impusesse a morte. Quem poderia saber? — indagava-se.

Ouvia os pardais chilreantes, cujas vozes lhe serviam por música de fundo à meditação, e passou, de repente, a calcular quanto ao proveito da própria existência, enumerando aspirações e fracassos. Valeria furtar-se aos perigos da cirurgia, que sabia difícil, para continuar doente, ao lado de um homem que passara a desconsiderá-la no tálamo doméstico? e não seria razoável aceitar o socorro que a ciência médica lhe oferecia, a fim de recobrar a saúde e lutar por vida nova, caso o marido a abandonasse de todo? Contava apenas vinte e seis anos; não seria justo aguardar novos caminhos para a felicidade, nos campos do tempo? Embora sentisse profundas saudades do pai, que desencarnara ao tempo em que ela não passava de frágil criança, havia crescido, na condição de filha única, sob a dedicação de carinhosa mãe, que, por sua vez, lhe dera um padrasto atencioso e amigo; ambos, com o marido, lhe constituíam a família, o lar da retaguarda.

Naquela hora, mergulhada nas virações do entardecer, mentalizava os entes queridos, o esposo, a mãezinha e o padrasto distantes... De súbito, lembrou o pai morto e o filhinho morto ao nascer. Era religiosa, católica praticante e mantinha, com respeito à vida além da morte, az ideias que lhe eram infundidas pela fé que abraçava. Onde estariam seu pai e seu filho? — perguntava-se. Se viesse a morrer com a moléstia de que se achava acometida, conseguiria, acaso, reencontrálos? Onde? Não lhe era licito pensar nisso, já que a idéia da morte lhe visitava insistentemente a cabeça? Atirara-se, avidamente, ao monólogo íntimo, quando alguém lhe surgiu à frente, um cavalheiro maduro, cujo sorriso bonachão lhe infundiu, para logo, simpatia e curiosidade. A senhora Serpa? — perguntou ele, em tom respeitoso.

E a um aceno confirmativo da interpelada, que não lhe escondia a surpresa, acrescentou: — Perdoe-me a ousadia, mas soube que a senhora reside em São Paulo, onde moro também, e, através de circunstâncias muito inesperadas para mim, fui informado, por pessoa amiga, de que temos ambos um problema em comum. — Estimo ouvi-lo — disse a jovem senhora, em lhe percebendo o constrangimento. Ante a inflexão de bondade daquela voz, o homem apresentou-se: — Nada receie, senhora Serpa. Sou Ernesto Fantini, um criado seu. — Encantada em conhecê-lo — falou Evelina e, fitando aquela fisionomia enrugada, que a doença abatia, acrescentou —, sente-se e descanse. Estamos numa praça enorme e, ao que parece, somos agora os únicos interessados no refazimento que ela oferece.

Encorajado pela gentileza, acomodou-se Fantini em assento próximo e voltou a expressar-se, avivando o diálogo que a atração mútua passou a presidir. — A dona do hotel, onde nos achamos, fêz-se amiga da governanta que lhe acompanha a viagem e vim a saber, por ela, que a senhora enfrentará também uma cirurgia de caráter difícil... — Também? — Sim, porque estou nas mesmas condições. — Tenho a pressão arterial destrambelhada, o corpo à matroca. Há quase três anos, ouço os especialistas. Ultimamente, as radiografias me acusam.

Tenho um tumor na supra-renal. Pressinto seja coisa grave. — Compreendo... — reticenciou Evelina, pálida —, conheço tudo isso... O senhor não precisa contar-me. De quando em quando, deve atravessar a crise. O peito a sufocar, o coração descompassado, as dores no estômago e na cabeça, as veias a engrossarem no pescoço, as sensações de gelo e fogo ao mesmo tempo e a ideia da morte perto... — Isso mesmo... — Em seguida, as melhoras de algum tempo para depois começar tudo de novo, a qualquer aborrecimento. — A senhora sabe. — Infelizmente. — O médico repetiu algumas vezes para mim o nome da moléstia de que sou portador. Gostaria de saber se a senhora já ouviu a mesma informação a seu respeito. Fantini sacou do bolso minúscula caderneta e leu, em voz alta, a palavra exata que lhe definia o problema orgânico. A senhora Serpa dissimulou a custo o desagrado que a enunciação daquele termo científico lhe causava, mas, dominando-se, confirmou: — Sim, meu marido, em nome do nosso médico, deu-me a saber este mesmo diagnóstico, em se referindo ao meu caso.

O recém-chegado percebeu o aborrecimento da interlocutora e ensaiou bom-humor: — Deixe estar, senhora Serpa, que temos uma doença de nome raro e bonito... — O que não impede tenhamos crises frequentes e feias — replicou ela, com graça. Fantini contemplou o céu muito azul da tarde, como quem se propunha elevar a palestra, no rumo de planos mais altos, e Evelina seguiu-lhe a pausa, em silêncio comovido, entremostrando igualmente o propósito de alçar a conversação, sofrimento acima. sedenta de refletir e filosofar.

Na porta da intimidade

Não longe surgiu pequeno carro de passeio. Vinha devagar, muito devagar. Vendo o animal que se aproximava, a passo lento, o cavalheiro disse à dama: — Compreendo-lhe a necessidade de repouso, mas se aceita uma excursão pelas termas... — Agradeço — respondeu —, contudo, não posso. Refazimento é agora minha maior terapêutica. — Efetivamente, nosso caso não comporta sacudidelas. A pequena viatura passou rente ao sossegado retiro. Os dois perceberam a razão da marcha morosa. O veículo fora decerto acidentado e mostrava uma roda partida, avançando dificilmente; enquanto isso, o jovem baleeiro, a pé, guiava o animal com extremado carinho, deixandoo quase livre. A senhora Serpa e o improvisado amigo seguiram-nos com o olhar, até que desaparecessem na esquina próxima. Em seguida, Fantini fixou um grande sorriso e enunciou muito calmo: — Senhora Serpa... Ela, porém, cortou-lhe a frase com outro sorriso franco e corrigiu, jovial: — Chame-me Evelina. Creio que, sendo nós irmãos numa doença rara, temos direito à estima espontânea. — Muito bem!... — acentuou o interlocutor e aduziu: — doravante, sou também apenas Ernesto, para a senhora.

Ele deixou cair a mão descorada no encosto do banco enorme e prosseguiu: — Dona Evelina, a senhora já leu algo de espiritualismo? — Não. — Pois quero dizer-lhe que a charrete, ainda agora sob nossa observação, me fêz lembrar certos apontamentos que esquadrinhei, nos meus estudos de ontem. O interessante escritor que venho compulsando, numa definição que ele mesmo considera superficial, compreende a criatura humana como um ternário, semelhante ao carro, ao cavalo e ao condutor, os três juntos em serviço... — Como pode ser isso? interrogou Evelina, sublinhando a palavra de surpresa e gracejando com o olhar. — O carro equivale ao corpo físico, o animal pode ser comparado ao corpo espiritual, modelador e sustentador dos fenômenos que nos garantem a existência física, e o cocheiro simboliza, em suma, o nosso próprio espírito, isto é, nós mesmos, no governo mental da vida que nos é própria.

O carro avariado, qual o que vimos aqui, recorda um corpo doente, e, quando um veículo assim se faz de todo imprestável, o condutor abandona-o à sucata da natureza e prossegue em serviço, montando consequentemente o animal para continuarem ambos, no curso de sua viagem para diante... Isso ocorreria, de maneira natural, na morte ou na desencarnação. O corpo de carne, tornado inútil, é restituido à terra, enquanto que nosso espírito, envergando o envoltório de matéria sutil, que, aliás, lhe condiciona a existência terrestre, passa a viver em outro plano, no qual a roupa de matéria mais densa para nada mais lhe

serve... Evelina riu-se, sem perder embora o respeito que devia ao interlocutor, e alegou: — Teoria engenhosa!... O senhor me fala da morte, e que me diz desse trio durante o sono? — Muito razoàvelmente, no sono físico, há descanso para os três elementos, descanso esse que varia de condutor para condutor, ou melhor, de espírito para espírito. Quando dormimos, o veículo pesado ou corpo carnal repousa sempre, mas o comportamento do espírito difere infinitamente. Por exemplo, depois de copioso repasto para o condutor e o cavalo, éjusto se imobilizem ambos na inércia, tanto quanto o carro que carregam; entretanto, se o boleeiro se caracteriza por hábitos de estudo e serviço, quando o veículo se detém na oficina para reajuste ou reabastecimento, ei-lo que utiliza o animal para excursões educativas ou tarefas nobilitantes. De outras vezes, se o condutor é ainda profundamente inábil ou inexperiente, patenteando receio da viagem, sempre que o veículo exija restauração, ei-lo que se oculta nas imediações do posto socorrista, esperando que o carro se refaça, a fim de retomá-lo, à feição de armadura para a própria defesa.

Evelina estampou um gesto de incredulidade e obtemperou: — Nada conheço de espiritualismo... — É profitente de alguma religião particularizada? — Sim, sou católica, sem fanatismo, mas francamente determinada a viver segundo os preceitos de minha fé. Pratico as instruções dos sacerdotes, crendo neles. — A senhora deve ser louvada por isso. Toda convicção pura é respeitável. Invejo-lhe a confiança perfeita. — Não é religioso, o senhor? — Quisera ser. Sou um procurador da verdade, livre atirador no campo das ideias... — E lê espiritualismo por desfastio? — Por desfastio? Oh! não! Leio por necessidade. Dona Evelina, a senhora esqueceu? Estamos na bica de uma cirurgia que nos pode ser fatal... Nossas malas talvez estejam prontas para uma longa excursão!... — Da qual ninguém volta. — Quem pode saber? — Entendo — ajuntou a dama, sorrindo —, estuda espiritualismo, à maneira do viajante que aspira a conhecer o dinheiro, a língua, os costumes e as modas do país estrangeiro que tenciona visitar. Informações resumidas, cursos rápidos... — Não nego.

Tenho tido mais tempo ao meu dispor e desse tempo faço hoje os investimentos que posso, nos domínios de tudo o que se relacione com as ciências da alma, principalmente com - aquilo que se refira à sobrevivência e à comunicação com os Espíritos, supostos habitantes de outras esferas. — E o senhor já encontrou a prova de semelhante intercâmbio? conseguiu mensagens diretas com algum de seus mortos queridos? — Ainda não. — Isso, acaso, não lhe desencoraja a busca? — De modo algum. - Prefiro as minhas crenças tranquilas. A confiança sem dúvida, a oração sem tortura mental...

— Será uma bênção o seu estado íntimo e acato, com todo o meu coração, a sua felicidade religiosa; no entanto, se houver uma outra vida à nossa espera e se a indagação aparecer em sua alma? — Como pode falar desse modo se ainda não obteve a suspirada demonstração da sobrevivência? — Não me é possível descrer do critério dos sábios e das pessoas de elevado, caráter, que. a tiveram. — Bem — explicou-se Evelina bem-humorada —, o senhor estará com os seus pesquisadores, eu ficarei com os meus santos... — Não faço qualquer objeção, quanto à excelência dos seus advogados — revidou Fantini no mesmo tom —, mas não consigo furtar-me à sede de estudo. Antes da moléstia, reconhecia-me seguro da vida. Comandava os acontecimentos, nem sabia, ao menos, da existência desse ou daquele órgão no meu corpo. Entretanto, um tumor na supra-renal não é uma pedra no sapato. Tem qualquer coisa de um fantasma, anunciando contratempos e obrigando-me a pensar, raciocinar, discernir... — Tem medo da morte? — chasqueou a moça, com fina verve. — Não tanto, e a senhora? — Bem, eu não desejo morrer.

Tenho meus pais, meu esposo, meus amigos. Adoro a vida, mas... — Mas?... — Se Deus determinar a extinção dos meus dias, estarei conformada. - Porventura, não tem problemas? Nunca sofreu a influência dos males que nos atormentam o dia-a-dia? — Não diga que me vai examinar a consciência; já tenho que dar contas de mim mesma aos confessores. E rindo-se, desembaraçadamente, reforçou: — Admito os males que outros nos façam como parcelas do resgate de nossos pecados perante Deus; no entanto, os males que fazemos são golpes que desferimos contra nós mesmos. Supondo assim, procuro preservár-me, isto é, reconheço que não devo ferir a ninguém. Em razão disso, busco na confissão um contraveneno que, de tempos a tempos, me imunize, evitando a explosão de minhas próprias tendências inferiores. — Admirável que uma inteligência, qual a sua, se acomode com tanto gosto e sinceridade à confissão. — Certamente preciso saber com que sacerdote me desinibo.

Não quero comprar o Céu com atitudes calculadas e sim agir em oposição aos defeitos que carrego e, por isso, não seria correto abrir o coração diante de quem não me possa entender e nem ajudar. — Compreendo... Retomando o trato intimo, à base de respeitosa confiança, a senhora Serpa considerou: — Acredite que também eu, ante a enfermidade, tenho vivido mais cuidadosa. Até mesmo na véspera de minha vinda para cá, harmonizei-me com os deveres religiosos. Confessei-me. E das inquietações que confiei ao meu velho diretor, posso dizer-lhe a maior. — Não, não!... Não me conceda tanto... — tartamudeou Fantini, espantado com a devoção carinhosa em que Evelina se exprimia. — Oh! porque não? Estamos aqui na ideia de que somos amigos de muito tempo. O senhor me fala de suas preparações ante as probabilidades da morte

e não me deixa tocar nas minhas? Desataram-se ambos em riso claro e, quando a pausa mais longa se intrometeu no diálogo, entreolharam-se, de modo significativo. Um e outro fixaram no rosto inequívoca nota de susto. A mirada recíproca lhes fazia observar que haviam caminhado, a passos compridos, para a intimidade profunda. Onde vira antes aquela jovem senhora que a beleza e o raciocínio tanto favoreciam? — pensava Ernesto, atordoado. Em que lugar teria encontrado alguma vez aquele cavalheiro maduro e inteligente que tão bem conjugava simpatia e compreensão? — refletia a senhora Serpa, incapaz de esconder o agradável assombro que a dominava. O intervalo consumiu segundos inquietantes para os dois, enquanto o crepúsculo, em derredor, acumulava cores e sombras, anunciando a noite próxima.

Ajuste amigo

Fantini percebeu que a interlocutora havia sido sulcada mentalmente pelo olhar que lhe endereçara e dispôs-se a tranqüilizá-la: — Continuemos, Dona Evelina. Minha presença não lhe fará mal. Observeme, não direi com a sua gentileza, mas sim com o seu discernimento. Sou um velho enfermo que pode ser seu pai e acredite que a vejo como filha... A voz dele esmoreceu, de algum modo, entretanto cobrou ânimo e terminou: — A filha que estimaria ter, em lugar da que possuo. Evelina adivinhou o sofrimento moral que as palavras dele destilavam e reajustou a posição emotiva, sentenciando: — O senhor não se alegraria com uma filha doente qual estou. Mas... voltemos ao meu caso, o caso da confissão. — Não me conte tristezas... — Certo. Já não dispomos de muito tempo. E continuou com um sorriso de mofa: — Conversando com tanta franqueza, num lugar que talvez seja a antecâmara da morte para um de nós dois, desejo dizer-lhe que só um fato me perturba. Tenho as desilusões comuns a qualquer pessoa.

Meu pai morreu, quando eu mal completara dois anos; minha mãe, então viúva, deu-me um padrasto, algum tempo depois; ainda na infância, fui internada num colégio de religiosas amigas e, depois disso tudo, casei-me para ter um marido diferente daquele que eu sonhava... No meio do romance, uma tragédia... Um homem, um rapaz digno, aniquilou-se por minha causa, seis meses antes do meu casamento. Precedendo o ato que lhe impôs a morte, tentou o suicídio ao verse posto à margem. Compadeci-me. Busquei reaproximar-me, ao menos para consolá-lo, e, quando meu sentimento balançava entre o pobre moço e o homem que desposei, ei-lo que se despede da vida com um tiro no coração... Desde aí, qualquer felicidade para mim é uma luz misturada de sombra. Embora o imenso amor que consagro a meu marido, nem mesmo a condição de mãe consegui. Vivo doente, frustrada, abatida... — Ora, ora! — aventou Ernesto, diligenciando encontrar uma escapatória otimista — não se julgue culpada. Não fôsse supostamente pela senhora e o moço agiria de igual modo por outro móvel. O impulso suicida, tanto quanto o impulso criminoso...

A voz dele empalideceu de novo, qual se o íntimo recusasse certas reminiscências que as palavras em curso lhe suscitavam à memória; contudo, dando a ideia de quem agia fortemente contra si mesmo, prosseguiu: — São incógnitas da alma. Talvez sejam ápices de doenças psíquicas, demoradamente mantidas no espírito. O suicídio e o crime são de temer em qualquer de nós, porque são atos de delírio, que fundos processos de corrosão mental determinam em qualquer um. — O senhor procura apaziguar-me com a sua nobreza de coração — exclamou Evelina, cismativa —, decerto não conheceu, até hoje, um problema assim agudo, a conturbar-lhe a consciência. — Eu? eu? — gaguejou Fantini, desconcertado —, não me faça voltar ao passado, pelo amor de Deus!... Já cometi muitos erros, sofri muitos enganos... E, no objetivo de contornar a questão sem escalpelá-la, Ernesto sorriu à

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