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Capítulo 18 de 21
André Luíz — parte 16 de 19
E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
— Desidério, perdoe-nos por todo o mal que já lhe fizemos e escute-me!... Acalme-se, por amor de Deus! Não lhe peço isto por nós, mas por Elisa, a quem você ama tanto... Presentemente, nada mais disputo senão a paz entre nós. Tranquilize-se, para arrostarmos a realidade; posso informar a você que a nossa enferma está no fim da resistência física!... — Tenho alguma idéia disso — replicou Desidério menos hostil, patenteando intenções de acordo e entendimento, pela primeira vez —, mas lutarei como um touro para defendê-la. Darei a ela as minhas forças, minha vida. Minha alma é a dela, assim como o corpo em que ela respira é o meu corpo... Habitamos a mesma cela de carne, pensamos pela mesma cabeça!... — Graças a Deus — concordou Fantini com humildade — compreendi que assim é e que assim deve ser... Demonstrando o elevado grau da despersonalização que ia adquirindo: — Desde que você me falou com clareza fraterna, em nosso primeiro reencontro, reconheci que Elisa descobriu em você a sustentação de que necessitava, e creia que, se atualmente algo aspiro em relação a ela, anseio vê-la feliz ao seu lado...
Estou convencido de que a nossa doente não perseverará mais por muitos dias no corpo terrestre e o choque de hoje, com certeza, pesará na balança... — Ah! esse Caio, esse miserável... — Não, Desidério! Assim, não... Suplico a você paciência e tolerância... Acaso, não estaremos cansados de rebeldia e de ódio? Ante a minha falta, no propósito de suprimir você, amarguei a existência terrena, perdendo em remorso e fuga incessante de mim mesmo os melhores tempos da vida no mundo dos homens, e você, meu caro, por não haver desculpado a mim e ao nosso Amâncio, tem estado na selva das provações, que se reservam aos Espíritos impenitentes e sofredores... O leito das lágrimas de Elisa não poderia ser o ponto terminal de nossos disparates? o santo lugar de apaziguamento? Elisa se libertará dos suplícios corpóreos, e nós, meu amigo? que será de nós, se, largado o corpo de matéria pesada, continuamos de espírito atormentado nas idéias de culpa e condenação, crime e castigo? Ela partirá...
Desidério, porém, transtornado pelos argumentos que lhe anunciavam separação, bradou, impulsivo: — Elisa não partirá de meus braços, não me abandonará!... Não a deixarei!... — Inúteis, Desidério, quaisquer protestos nossos contra as forças da vida. As leis de Deus se cumprirão. Elisa sustenta-se em você, mas igualmente ama a filha, e, sabendo-se irremediàvelmente afastada da ternura filial, inconscientemente aspira à morte e há de tê-la mais depressa, depois que se certificou das atitudes menos felizes de Serpa... Com toda a certeza, a pobrezinha se deterá no pensamento da desencarnação, supondo-se no rumo direto de sua companhia; no entanto, verificar-se-á o imprevisto... A morte vai situá-la em pólo oposto ao seu... Ela não tem a sua estrutura mental, nem a sua disposição para demorar-se nestes sítios... Ressentida hoje contra o genro, amanhã saberá absolvê-lo e patrociná-lo, acomodando-se com os Mensageiros da Vida Maior, através da oração... Apesar do temperamento irritadiço que lhe conhecemos, não odeia a ninguém e nunca demonstrou vocação para a vingança. Desidério abaixou-se para o solo, agarrou a cabeça entre as mãos e desfez-se a prantear com maior desespero.
— Perdoe, meu amigo!... perdoe a nós todos, incluindo Caio em sua compaixão!... — Nunca, nunca!... — Sou eu quem reconhece as injustiças que perpetrámos contra você, sou eu quem lhe observa a nobreza de coração... Revele-me e ouça!... Agradeço o seu devotamento à mulher que eu não soube fazer feliz e a ternura pela filha, para a qual você se transformou em abnegado zelador... Por tudo isso, peçolhe ainda para que estenda até nós, os seus carrascos, as vibraçôes de sua piedade e de sua simpatia... — Ah! Fantini, Fantini!... — rugiu o interlocutor, como a guerrear-se para não se render à emoção — porque me tenta assim a uma conciliação impossível? que razões para tanto empenho em modificar-me? — Desidério, no mundo físico, trabalhamos particularmente com a matéria pesada e transfiguramos pedras, metais, glebas, fontes... Aqui na Espiritualidade, lidamos, de modo especial, com as forças do espírito e renovamos almas e consciências, a começar de nós mesmos... Atenda-me!... Lembre-se de que Elisa possui muitos amigos para requisitá-la aos Planos Superiores, como os teve a sua querida Evelina!...
Por amor de Evelina, que você guarda na memória, à feição de um gênio tutelar, não quererá você sublimar atitudes, principiando pelo perdão que imploramos e carecemos?... — Evelina!... Evelina, minha filha!... — suspirou o desventurado em lágrimas copiosas — não, não posso imiscuí-la em nossa conversação!... Evelina deve habitar na casa dos anjos!... que eu padeça no inferno, acalentado por mim mesmo, que eu me debata no lameiro que mereci, mas que a felicidade abençoe minha filha nos Céus!... — E se ela própria vier, um dia, ao seu encontro para advogar nossa causa, amparar-nos, rogar a sua misericórdia de credor para nós outros, os seus devedores? Desidério esforçava-se para falar, rompendo a barreira de dor que lhe comburia o âmago da alma; no entanto, compassivo assistente espiritual da instituição veio até aos dois para notificar-lhes o inesperado. Finda a crise violenta de angústia, caíra Elisa em funda prostração, ante a ruptura de delicado vaso cerebral, prenunciando-se-lhe a desencarnação para breves horas. Esqueceram-se ambos, para o socorro preciso.
Através de telefonemas à pressa, Vera e Serpa, alarmados, cientificaramse quanto ao novo rumo que se imprimira à situação e, juntos, demandaram o estabelecimento, encontrando Elisa agonizante, em ambiente de tranquilidade e carinho. O médico amigo, não obstante expender argumentos de consolo e esperança, foi claro no aviso: «nada mais a fazer, senão aguardar.» Vera Celina, em soluços, ajoelhou aos pés daquela cuja boca não mais se abriria para abençoá-la com os recursos do corpo terrestre. Caio, evidentemente contrafeito, contemplava a cena, fumando cigarros sucessivos. Enfermeiras iam e vinham, no afã de se fazerem mais úteis, e auxiliares espirituais formavam cadeias magnéticas de apoio à viúva Fantini, a fim de que o trânsito de um mundo para outro lhe fôsse mais rápido e menos intranquilo. Ernesto demandou a residência da Espiritualidade, a fim de colher as instruções de Ribas, diante da emergência, e Desidério se plantou à cabeceira, imerso em revolta e desesperação.
Durante oito horas consecutivas, o coração ainda sustentou o corpo tombado inerte. Sobrevindo a madrugada, Elisa abriu as pálpebras, desmesuradamente, e tentou fixar os olhos na filha para endereçar-lhe a inexpressável despedida; no entanto, descortinou a presença de Serpa, que a fitava, rente ao leito, e, não obstante incapaz de nutrir quaisquer resquícios de ódio no âmago da alma, cerrou o coração em densa nuvem de mágoa, pedindo mentalmente a Desidério que a resguardasse e defendesse. Bastou essa deliberação irrefletida e, qual se lhe agarrasse, ávido, os pensamentos que lhe seriam os derradeiros, no envoltório carnal, o acompanhante colou-se a ela, dando a idéia de quem lhe sorvia todas as forças... Vera pressentiu que a genitora se rendia, por fim, ao grande repouso e, ansiosa, procurou debalde reanimar-lhe a vida orgânica, suplicando: — Mãe! Mãe!... Minha mãe!... Da boca hirta, contudo, não surgiu qualquer resposta. Elisa Fantini pendeu a cabeça nos travesseiros, enquanto o corpo se lhe imobilizava para sempre.
Na enfermaria do sanatório, caía o pano da morte sobre aquela existência, fértil de tribulações e problemas, na ribalta do mundo; todavia, por trás dos bastidores, na esfera espiritual, o drama não terminara. Jungido à morta pela fórça dos últimos desejos que ela mesma enunciara, Desidério, inflamado em labaredas de ódio, retivera-lhe uma das mãos na destra rude, impedindo-lhe a retirada... Elisa, embora semi-inconsciente, percebeu que se achava presa a ele e algemada ao cadáver, ouvindo o desventurado companheiro a repisar e repisar que jamais a deixaria.
Irmãos da Terra, em meio às vicissitudes da experiência humana, aprendei a tolerar e perdoar!... Por mais se vos fira ou calunie, injurie ou amaldiçoe, olvidai o mal: fazendo o bem!... Vós que tivestes a confiança traída ou o espírito dilacerado nas armadilhas da sombra, acendei a luz do amor onde estiverdes!... Companheiros que fostes vilipendiados ou insultados em vossas intenções mais sublimes, apagai as ofensas recebidas e bendizei os ultrajes que vos burilam o coração para a Vida Maior!... Irmãs que padecestes indescritíveis agravos na própria carne, desprezadas pelos carrascos risonhos que vos enlouqueceram de angústia, depois de vos acenarem com mentirosas promessas, abençoai aqueles que vos destruíram os sonhos!... Mães solteiras que fostes banidas do lar e batidas até a queda na prostituição, por haverdes tido suficiente coragem de não assassinar no próprio ventre os filhos de vossa desventura, com a insânia do aborto provocado, mães agoniadas às quais tantas vezes se nega até mesmo o direito de defesa, conferido aos nossos irmãos criminosos nas cadeias públicas, perdoai os vossos algozes!. ..
Pais que trazeis nos ombros escalavrados de sofrimento a carga dolorosa dos filhos ingratos, filhos que aguentais na carne e na alma o despotismo e a brutalidade de pais insensíveis e cônjuges flechados entre as paredes domésticas pelos estiletes da incompreensão e da crueldade, absolvei-vos uns aos outros!... Obsidiados de todos os climas, tecei véus de piedade e esperança sobre os seres infelizes, encarnados ou desencarnados, que vos torturam as horas! Criaturas prejudicadas ou perseguidas de todos os recantos do mundo, perdoai a quantos se fizeram instrumentos de vossas aflições e de vossas lágrimas!... Quando sentirdes a tentação de revidar, lembrai-vos daquele que nos concitou
a «amar os inimigos» e a «orar pelos que nos perseguem e caluniam»! Recordai o Cristo de Deus, preferindo ser condenado, a condenar, porque, em verdade, quantos praticam o mal não sabem o que fazem!... Convencei-vos de que as leis da morte não excetuam ninguém e não vos esqueçais de que, no dia do vosso grande adeus aos que ficarem na estância das provas, somente pela bênção da paz e do amor na consciência tranquila é que podereis alcançar a suspirada libertação!...
Evelina em ação
Antes que o Sol reaparecesse, Ernesto, Evelina e alguns amigos do Instituto de Proteção Espiritual — dentre os quais se destacava o Irmão Plotino que, a pedido do Instrutor Ribas, chefiava a diminuta caravana socorrista — abordaram em São Paulo, no intuito de cooperarem com os assistentes espirituais, empenhados na libertação de Elisa, encerrada na prisão dos próprios restos. Informados de que a filha determinara a remoção da morta para casa, demandaram Vila Mariana. Evelina trazia o coração ensôfrego. Veria o pai pela primeira vez. Acariciava na memória a imagem dele, colhida em retratos de familia. Ansiava compreendê-lo, ampará-lo. Ernesto encorajava-a. Quase no limiar da residência, Plotino recomendou parada à equipe e comunicou que, primeiramente, ganharia o interior, desacompanhado, de maneira a efetuar ligeira inspeção, examinando o serviço a fazer.
Sob as atenções da filha que se apoiava em Serpa e em alguns amigos da vizinhança, tanto quanto guardada pela vigilância de vários benfeitores espirituais, Elisa, semidesperta, jazia no impasse, de vez que agarrada por Desidério por uma das mãos e alentada pelas forças dele, que lhe invadiam a alma, parecia comprazer-se com a estranha hipnose. Às primeiras inquirições de Plotino, o piedoso enfermeiro desencarnado que se encarregaria do apoio magnético para exonerar a viúva dos despojos a que se imanizara, confessou o receio de que se via acometido; se constrangesse a senhora Fantini a largar o carro físico inutilizado, não lograria violentar-lhe o pensamento perfeitamente lúcido. Forçar-lhe-ia a retirada, mas não dispunha de meios para isolá-la mentalmente do acompanhante rebelde, a cujo patrocínio ela mesma se confiara. Imprescindível a intervenção de alguém com suficiente poder de persuasão para compelir Desidério a mudar de atitude. Irmão Plotino abeirou-se dele com delicadeza fraternal e suplicou-lhe o concurso para que Elisa fôsse liberada e conduzida a mansões de refazimento.
Acomodado ao pé da morta, o interpelado se achegou ainda mais para ela e simplesmente rugiu em voz selvagem: — Palhaços!... Não me tirarão daqui... Que querem nesta casa? Ela é minha mulher... Ninguém me demoverá com petitórios e ladainhas. Tenho experiência! Conheço os que não se separam nas furnas tenebrosas que recebemos por moradias... Ninguém, mas efetivamente ninguém, me arrancará desta sala!... — Alguém fará isso, irmão Desidério — enunciou Plotino sem alterar-se. — Quem?... diga quem!... O emissário sorriu paciente e murmurou apenas: — Deus. O inconformado amigo trovejou blasfêmia terrível e Plotino voltou sobre os passos percorridos, pondo-se ao encontro dos companheiros. Explicou-lhes o que se passava e imaginou as providências cabíveis. Aquele era o momento para a intervenção pessoal de Evelina. Todo o grupo persistiria em oração, a fim de apoiá-la, porqúanto a companheira deveria entrar a sós, no refúgio
doméstico, de modo a tentar a renovação do pai, que, decerto, não hesitaria em obedecer-lhe. Viu-se, para logo, o prodígio dos pensamentos congregados em um só objetivo. Sem qualquer indução à teatralidade, mas sim fundidos no só intuito, profundo e sincero, de projetar as energias do amor na obra socorrista, aqueles corações em prece lançaram vasto lençol de safirina luz sobre a porta de entrada, credenciando a companheira para a abençoada missão que se lhe delegara. Espiritualmente ligada aos amigos que se lhe haviam metamorfoseado em base de equilíbrio e sustentação, Evelína penetrou o recinto, qual se fora uma estrela repentinamente transfigurada em mulher. Desidério, aterrado, fixou a aparição e caiu de joelhos .... Era ela, sim — pensou —, a sua filha, a sua amada filha que jamais lhe escapara da lembrança, mesmo quando se mergulhara em aventuras nas trevas mais densas!... À medida que Evelina o fitava, entremostrando radiante e doce ternura, o infortunado genitor contemplou-se no suave clarão que a mensageira irradiava...
Viu-se na penúria de um sentenciado que persistisse, por anos e anos, no fundo de um cárcere, sem o menor cuidado para consigo mesmo. Qualificou-se por monstro, à frente de um anjo, e, à maneira de um cão batido e aviltado, intentou arrastar-se para fugir... A moça adivinhou-lhe o propósito e falou, simples: — Meu pai!... Desidério sentiu que aquela voz lhe alcançava as entranhas... Sim, aquelas duas palavras lhe vinham daquela alma querida que ele julgara nunca descesse do Céu para interpelá-lo... Tornando a fletir os joelhos trêmulos, o assombro se lhe rebentou no peito, numa explosão de lágrimas: — Pois é você, minha filha, é você a quem Deus manda para me pedir o impossível? Evelina abeirou-se dele, colocou-lhe a destra na fronte padecente, e o diálogo prosseguiu. — Meu pai, decerto que Deus abençoa esta hora de reencontro, mas somos nós mesmos, o senhor e eu, os promotores, não do impossível, mas de nossa reaproximação, em nome dele mesmo, nosso Criador e Pai de Misericórdia... — Que quer você de mim!... — Venho convidá-lo a estar comigo...
Admitiria o senhor que o tempo desaparecesse, sem que eu sonhasse com este momento? Atravessei a infância e a juventude, namorando seus retratos, casei-me, um dia, na Terra, rogando a sua bênção nas minhas orações e, quando os Desígnios Divinos me retiraram do corpo físico, formei o ideal de reencontrá-lo!... O infortunado esboçou um gesto de autocompaixão, e gemeu: — Veja, minha filha, o que fizeram de mim, os criminosos que nos destruiram... — Oh! meu pai, não acuse!... O senhor terá sofrido, mas a dor é sempre bendita perante Deus, o senhor terá suportado provas difíceis; no entanto, aprendemos, presentemente, que todo dia é ocasião de renovar e partir para destinos mais altos!... — Com certeza, nas Moradas Divinas, que você mereceu, ficou sabendo que não perdi meu corpo em acidente algum...
— Sim, conheço hoje toda a verdade a nosso respeito... — Não pode, então, ignorar que os meus verdugos são igualmente os seus, nós dois fomos esbulhados pelos mesmos bandidos!... Se no Céu não existe memória para o mal, é preciso recordar a você que Amâncio Terra, o celerado que se arvorou em seu padrasto... Porque os soluços o compelissem a compridas reticências, Evelina aclarou com humildade: — O senhor não se agastará comigo se disser que ele me quis bem e me respeitou sempre como sua própria filha... Se é inegável que cometeu falta grave para com o senhor, diante das Leis Divinas, creio que o arrependimento que ele carrega, há mais de vinte anos, fala pela regeneração que fêz dele um homem de bem... — Você não pode esquecer que ele exilou você de casa, ainda em tenra idade... — Enviou-me para a escola, meu pai.
Deu-me disciplinas que me livraram de tentações, nas quais eu teria sucumbido em muitos erros, durante a permanencia no mundo; nunca me regateou assistência e nem me contrariou os impulsos para o matrimônio; em minha meninice, encorajava-me nos estudos, interessava-se por minhas notas, premiava a minha boa vontade com brindes e carinhos que somente o senhor me poderia dar... É verdade que meu padrasto nunca substituiu o senhor em meu coração, meu pai, mas sua filha não deve ser ingrata a quem lhe deu tanto!... Em casa, foi sempre um protetor de nossa felicidade. .. Nunca lhe vi o mínimo gesto de desconsideração para com minha mãe... — Ah! não me fale de Brígida, aquela infame!... — Oh! pai de meu coração, porque condenar aquela que nos uniu? que conseguiria fazer minha mãe ainda tão moça, a carregar-me nos braços, não fôsse o apoio de um companheiro?
Aceitando a colaboração de Amâncio, ela não acolhia deliberadamente o desditoso caçador que lhe impusera a desencarnação, mas sim o amigo que o senhor mesmo, um dia, levou para a nossa casa, segundo as confidências de mãezinha, em suas horas de saudade e desolação... Saiba que minha mãe sempre me ensinou a reverenciar a sua memória e a enobrecer o seu nome... Ante a compreensão superior que a filha punha em evidência, Desidério chorava com mais força, em suas manifestações de autopiedade, dando a impressão de quem se propunha buscar, de qualquer modo, novas razões para ser infeliz - Você talvez não desconheça que me acho aqui, ao pé da família de outro inimigo que não posso exculpar, Ernesto Fantini, o traidor que intentou matar-me, dando a seu padrasto o figurino pelo qual me aniquilou... Esta mulher cadaverizada, mas viva em minhas mãos, foi a esposa dele, pela qual, consumido de ciúmes, pretendeu ele assassinar-me, nada fazendo com isso, senão aproximar-me dela, já que o comportamento de Brígida me bania do lar...
Pense no doloroso destino de seu pai!.. - Expulso de minha casa, depois da morte do corpo, à face da influência de um perseguidor, tive de asilar-me em casa de outro, porque no pensamento da companheira, hoje morta para o mundo, encontrava o meu sustento!... — Quem penetrará os designios de Deus, meu pai? não estaremos todos numa rede de testemunhos de amor, em vista de faltas e compromissos nas existências passadas? Peço à Providência Divina abençoe nossa irmã
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