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Capítulo 12 de 21

André Luíz — parte 10 de 19

E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

nesse estado de emoções negativas, fêz-se vaso de uma entidade nas condições em que supunha haver precipitado o moço menos feliz. À vista disso, converteu-se automàticamente em desventurada mãe de um companheiro suicida, no anseio de expiar a própria falta. Endereçando afetuoso olhar para a senhora Serpa: — Enunciando inconscientemente o desejo de exculpar-se, o seu propósito alcançou o coração de amigos e benfeitores, no Mundo Espiritual, que lhe advogaram a concessão da bênção a que já nos referimos. Você padeceu, pois, antes da desencarnação, a pena de que se julgava merecedora, sequiosa que se achava de propiciar a Mancini a supressão do mal que lhe havia causado. Você não pagou em Túlio o débito em que se viu incursa, mas resgatou essa conta, junto a suicida anônimo, tão filho de Deus quanto nós, redimindo-se no foro íntimo, segundo a lei que rege a tranquilidade de consciência.

E o irmão desconhecido, ao mesmo tempo que amargou a provação do berço prematuramente inutilizado, começou a ressarcir a dívida que assumira para consigo mesmo, aprendendo quanto custa e como custa o tesouro de um corpo físico, utensílio de aperfeiçoamento e progresso. Ernesto e Evelina escutavam, surpresos. — Cumpre-se a Eterna Justiça no mundo de cada um de nós — rematou o professor. — Deus não nos condena nem nos absolve. O Amor Universal está sempre pronto a soerguer-nos, instruir-nos, burilar-nos, elevar-nos, santificarnos. O destino é a soma de nossos próprios atos, com resultados certos. Devemos sempre a nós mesmos as situações em que se nos enquadra a existência, porqüanto recolhemos da vida exatamente o que lhe damos de nós. — E agora? — interrogou Evelina, espantada. — As circunstâncias trouxeram-lhe o credor ao ambiente pessoal, porque você, minha irmã, está felizmente em posição de prosseguir no trabalho restaurador! — Que fazer, meu amigo? — Se você está realmente disposta a renovar o caminho, chegou o momento de ajudar Mancini a desvencilhar-se das ideias enfermiças que a sua conduta de moça menos responsável lhe instalou na cabeça, tornando-se presentemente para ele em devotada preceptora, a reformular-lhe a visão da vida, no plano espiritual. — Não posso desempenhar, junto dele, o papel de companheira...

Ribas acarinhou-lhe a mão com ternura paterna e apontou: — Se os erros da mulher não foram perpetrados, na categoria de parceira da vida sexual de um homem, ela não tem a obrigação de ser-lhe a esposa, tão-só porque lhe deva essa ou aquela indenização no reino do Espírito, sucedendo o mesmo ao homem, referentemente à mulher. Não obstante esse princípio, a lei de amor deve efetivar-se, independentemente das formas em que o amor se expresse. E num tom de enternecimento profundo: — Aqui mesmo, você pode regenerar o campo emotivo de Túlio e sublimar os seus próprios sentimentos em relação a ele, amparando-o e instruindo-o no grau de mentora maternal. Quase sempre, a recuperação de alguém é uma planta sublime da alma que sômente vinga porque a abnegação de outro alguém se dispõe a adubá-la com a proteção da ternura e com o orvalho das lágrimas... Identificava-se Evelina banhada de esperança, Fantini mergulhou em alta

meditação acerca das realidades eternas e Ribas, pressionado pelo horário que lhe convocava a presença em outros setores, prometeu continuar a esclarecedora conversação, logo lhes surgisse a desejada oportunidade, em momentos seguintes.

Trabalho renovador

Vida nova começou para Evelina e Ernesto, especialmente para Evelina. Indispensável auxiliar Túlio, abençoá-lo, renová-lo. Para isso, os dois amigos se matricularam em colégio de estudos preparatórios de mais altas ciências do espírito. Radiantes de esperança e entusiasmo, adquiriam conhecimentos em torno de evangelização, reforma íntima, sintonia mental, afeição, agressividade, autocontrole, obsessão, reencarnação. A fim de conversar construtivamente com aquele que se lhe extraviara à conta pessoal, a senhora Serpa munia-se de instruções com que lhe pudesse ganhar o raciocínio. Competia-lhe o esforço mais grave, desfazer-lhe na mente o quisto de ilusões que ela própria criara. Fantini, contudo, que se compadecera fundamente do rapaz menos feliz, de acordo com avisos do Instituto de Proteção, poderia acompanhá-la a pequena distância, com a obrigação de intervir quando necessário. No dia marcado para início da tarefa, a subdividir-se em visitas de esclarecimento e enfermagem três vezes por semana, Ribas seguiu em pessoa os dois obreiros para o refúgio de saúde mental em que os novos deveres se lhes impunham.

Integrando diminuta comunidade de enfermos da alma, o jovem Mancini se achava recluso em solitária dependência que o Instrutor informou estar erguida àbase de material isolante contra o impacto de vibrações suscetíveis de agravar-lhe a sede de companhias menos recomendáveis. O orientador apresentou ambos os companheiros às autoridades e auxiliares do pouso de reajuste e, tanto Evelina quanto Ernesto, sob o beneplácito da simpatia geral, puseram mãos à obra. Túlio acolheu, encantado, a presença da moça e, de começo, reafirmavalhe os protestos de devoção afetiva em ditirambos de lealdade e ternura. A senhora Serpa, no entanto, redobrou cautelas emolduradas de carinho, suplicando a inspiração da Vida Maior, para não falhar na missão que abraçara. Os diálogos terapêuticos prosseguiam, pontualmente. Apesar disso, Mancini não se desfixava da paixão que o absorvia, lembrando um barco chumbado ao solo, incapaz de afastar-se do cais. Principiasse Evelina a preparar clima adequado às lições e ele choramingava, à maneira de criança doente. Declarava-se indisposto e inabilitado para o estudo, desconsiderado, ofendido nos brios próprios.

Asseverava-se infenso a qualquer ponderação filosófica, alegando não sentir inclinação para assuntos de fé. Insistia em reconhecer-se unicamente um homem-homem, na definição dele mesmo, e, nessa condição, não queria uma enfermeira ou preceptora, mesmo solícita quanto a moça se revelava, e sim uma companheira, a mulher dos seus sonhos. Evelina ouvia pacientemente os remoques e lamentações incessantes, aparando-lhe os golpes e podando-lhe as impressões destrutivas, sempre assistida por Ernesto que lhe supervisionava os esforços com generosa atenção. Imbuída das responsabilidades que lhe assinalavam agora a vida e sendo criatura profundamente emotiva, a senhora Serpa concentrava-se, de modo constante, no esposo, nele investindo toda a carga de seus potenciais afetivos. Para sentir-se na posição de tutora maternal de Mancini, ex-

perimentava a necessidade de ser mais entranhadamente a mulher de Caio. Por essa razão, mentalizava-lhe a imagem, a cada passo, endereçando-lhe em silêncio os seus mais belos pensamentos de amor. É verdade que Serpa não lhe havia sido o consorte ideal. Além disso, sabia-o agora homicida, com refinados recursos de inteligência para ocultar-se. Evelina, porém, humana quanto qualquer ser humano, ponderava, de si para consigo, que ele se fizera criminoso por amá-la. Eliminara a existência de Túlio para disputar-lhe o coração, em agoniado lance afetivo. Aspirava a revê-lo em pessoa, haurir-lhe o calor da presença, a fim de revigorar-se para os embates morais a que se confiava; entretanto, por mais solicitassem permissão para visitar a família terrena, Fantini e ela obtinham regularmente a mesma resposta dos mentores: «muito cedo». Reconfortavam-se, por isso, com estudo e trabalho. De vez em vez, o têteã-tête entre ambos. As confidências. Ernesto falava enternecidamente da esposa Elisa e da filha Celina.

Sensibilizado, entretecia no mágico painel da saudade a imagem das duas por espelhos cristalinos de amor, em que se comprazia mirar-se, conquanto a filha o tratasse, muitas vezes, com rebeldia cruel... Decerto que a viúva e a jovem não arrostavam dif Iculdades materiais de vulto maior. Legara-lhes renda expressiva. Boa casa. Algum dinheiro em mãos honestas a fornecer-lhes pensão sólida e os seguros em que montara a defensiva doméstica. Mas... e a ausência? Indagava-se, constantemente, junto da amiga que se lhe transformara em irmã de todas as horas. A ausência, a distância!... Perdiam-se os dois em conjeturas, prelibando alegrias de reencontro. Achavam-se suficientemente informados de que entre eles e os amados do mundo se levantava agora o muro das vibrações diferentes. Em vista disso mesmo, não mais lhes seria possível retomar-lhes a atenção como quem volta de uma viagem. Competia-lhes a obrigação da conformidade, perante quaisquer transformações a que se lançassem. Nesse sentido, até ali, haviam registrado as mais diversas narrações de mortos que procediam da Terra, desacoroçoados e tristes, ante a impossibilidade de serem vistos, ouvidos, assinalados, tocados pelos parentes.

Muitos voltavam consolados e esperançosos, como que libertos de laços e algemas que lhes fôssem pesados aos corações, mas outros muitos regressavam desencantados e sorumbáticos, evidenciando pouca disposição para conversar. Referiam-se a amigos e a mudanças radicais na vida caseira, mencionavam desastres e falências na ordem afetiva de almas inolvidáveis. Eles dois, porém, se identificavam otimistas, confiantes. Evelina entusiasmava-se, derramando-se em nobres impressões, diante de Ernesto, atento. Caio, na opinião dela, caíra em deslizes; todavia, reabilitara-se-lhe no conceito de esposa pelo alto gabarito de ternura e abnegação a que se elevara, durante os dias últimos da enfermidade que lhe fora fatal ao corpo físico. Em verdade, podia ter sido desleal, durante algum tempo, lá isso podia. Era um homem com as exigências naturais da vida comum e obviamente se distraía, enquanto lhe aguardava a cura e o refazimento, mas à frente da morte, diante da longa separação .... modificarase, parecia haver recuperado a condição do noivo, amoroso, terno...

E Evelina, ao contemplá-lo com os olhos da imaginação, supunha-o agoniado e infeliz, no anseio de livrar-se da carne, a fim de reacolhê-la nos braços. Antecipava opiniões, enquanto Fantini lhe guardava, com interesse, a doce expectativa. Solenizando alegações, asseverava que Serpa cometera até mesmo a loucura

de eliminar a presença de Túlio, no intuito de desposá-la. Fora isso terrível calamidade, fora. No fundo, porém, Evelina mostrava traços inequívocos da vaidade de sentir-se querida. Declarava, resoluta, que tal qual se esforçava por Mancini, desvelar-se-ia, mais tarde, por Serpa. Esmerar-se-ia em ajudá-lo em qualquer reparação que se fizesse precisa. Ernesto volvia, então, a biografar-se, contando histórias do lar. Amava a esposa, entranhadamente, e confessava que praticara muitos disparates, quando mais moço, de maneira a preservar a tranquilidade doméstica. E a filha? Celina era uma bênção que lhe acalentara o coração na madureza. Sempre terna, compreensiva, devotada. Sonhara para ela um marido bom, amigo; no entanto, deixara-a aos vinte e dois de idade sem casamento à vista. Conquanto a dor de pai, distanciado de casa, depunha na filha a maior confiança. Não lhe temia o futuro. Além de provida com mesada apreciável, lecionava Inglês com mestria. Ganhava dinheiro e sabia guardar. Mantinham-se, desse modo, sucessivas conversações entre os dois. Sentimentais. Saudosistas.

Passados seis meses de atenção e doutrinação, a benefício de Túlio, Ribas veio examiná-lo em pessoa, segundo promessa havida. Após verificar a pontualidade e a eficiência de Evelina, através de anotações referendadas pelas autoridades orientadoras da casa, penetrou o aposento do enfermo, categorizado para ele como médico em acurada inspeção. Ao primeiro olhar, porém, reconheceu que Mancini apresentava escasso proveito com as lições recebidas. Apático, denunciava na mente uma ideia central: Evelina. E com Evelina no miolo das mais profundas cogitações, vinham as ideias-satélites: o anseio de transformá-la em objeto de posse única, o tiro de Caio, o desejo de vingança e as escuras alusões da autopiedade. Ribas não descobria a mais ligeira fresta, naquele coração pesado de angústia, para filtrar um só raio de otimismo e esperança. Ás primeiras manifestações do inquérito afetivo, respondeu ao Instrutor, com a tristeza de um doente que se sabe sem cura: — Qual, doutor, sem Evelina comigo, nada consigo entender.

Se ouço Evangelho, penso que ela — ela só — é o anjo capaz de salvar-me; se anoto ensinamentos, acerca de autocontrole, vejo-a no pensamento, como sendo a única alavanca, bastante forte para governar-me; se escuto exortações à fé, acabo querendo-a para meu reconforto exclusivo; se recebo esclarecimentos em torno de obsessão, termino a aula confessando a mim mesmo que, se pudesse, largaria este hospital a fim de persegui-la e tomá-la em meus braços, ainda que para isso devesse caminhar até os derradeiros confins do mundo!... O mentor sorriu, paternal, e aconselhou calma, equilíbrio. — Reflitamos, meu filho, que somos espíritos eternos. Urge conservar serenidade, paciência... Felicidade é obra do tempo, com a bênção de Deus. O rapaz revidou ácido, irreverente. Não pedira, não aceitava conselhos. Hábil psicólogo, Ribas despediu-se. Á noite, esteve com os amigos e elogiou o trabalho de Evelina. A empresa de reeducação fora efetuada com segurança. Túlio, entretanto, não reagira construtivamente. Mostrava-se abúlico, embutido nas fantasias que estabelecera em prejuízo próprio. E terminou dizendo para Fantini e a senhora Serpa que o ouviam, atentos:

— Não vejo qualquer interesse para Mancini na permanência aqui. Forçoso envidarmos esforços para que aceite, voluntàriamente, a miniaturização. (1) — Renascer? — redarguiu Evelina, assustada. —Será preciso tanto? E Ribas: — Nosso amigo está mentalmente enfermo, profundamente enfermo, traumatizado, angustiado, fixado. O remédio será começar de novo... Ainda assim, terá dificuldades e desajustes pela frente. O benévolo mentor não traçou advertências, nem articulou qualquer sugestão. E tanto Ernesto, quanto Evelina, enfronhados agora nos imperativos e provas da reencarnação, silenciaram de chofre, pensando, pensando...

(1) Miniaturização ou restringimento, no Plano Espiritual, significa estágio preparatório para nova reencarnação. — Nota do autor espiritual.

Assuntos do coração

Esvairam-se dez meses sobre a tarefa assistencial de Evelina e Fantini, ao pé de Túlio necessitado, quando os dois solicitaram entendimento com o Instrutor Ribas, ao redor de problemas que lhes escaldavam o pensamento. Aspiravam, sobretudo, a rever os parentes no plano físico. Convertera-se Ernesto num poço de memórias sobre a esposa e a filha, a senhora Serpa não mais suportava as saudades do marido e dos pais. Porque ansiassem pelo retorno, ardiam na sede de informes e explicações. O orientador acolheu-os com a lhaneza habitual e, após registrar-lhes o pedido de bons ofícios para que lhes fôsse obtida a concessão, acentuou, simples: — Creio que vocês já estejam em condições satisfatórias para a execução do empreedimento. Dedicam-se pontualmente ao trabalho, conhecem agora o que seja reencarnação, autodisciplina, burilamento próprio... E evidenciando entranhado carinho: - Algum motivo particular, mais intimamente particular, na petição? Adiantou-se a moça, acanhada: — Instrutor, venho experimentando desoladoramente a falta de Caio... — Esposos que se amam — interferiu Ernesto —, quando distanciados um do outro, fazem-se noivos outra vez...

Porque não confessar que também eu ando aflito por abraçar minha velha? — Caro amigo — aventurou-se Evelina, fixando o mentor de maneira expressiva —, em nos reportando à ligação conjugal, arriscaria uma consulta... — Diga, filha... — O senhor não ignora que, em meu primeiro reencontro com Mancini, senti-me, por momentos, a jovem menos responsável que fui, observando-me fortemente atraida para ele. Depois, reagindo, vi-me, de novo, recuando mentalmente para o domínio de Caio, o marido que ficou no plano físico, dando a mim mesma a impressão de que sou um satélite, gravitando entre os dois... Passei a esforçar-me em auxílio de Túlio e, aos poucos, venho reconhecendo que ele não é, absolutamente, o homem que eu desejaria para companheiro... Entretanto, para ajudá-lo e tolerálo, presentemente, sinto necessidade de um estímulo... — O amor a Deus. — Compreendo hoje que todos respiramos na própria essência de Deus; contudo, o mistério para mim está nisso...

Sei que nada conseguimos sem Deus, mas, entre Deus e a obrigação que me cabe cumprir, preciso de alguém que me escore o espírito, que se me erija em apoio, na movimentação do cotidiano, em busca daquele estado de alma que apelidamos por paz interior, euforia ou mesmo felicidade. .. Esta fome espiritual que me faz pensar dia e noite na reintegração com Caio significará que ele, meu esposo, é realmente o meu amor absoluto? aquele espírito que será o sol de bênçãos a envolver-me para sempre, quando chegarmos à perfeição? Ribas sorriu e filosofou: — Todos nos destinamos ao Amor Eterno e no entanto, para alcançar o objetivo supremo, cada qual de nós possui um caminho próprio. Para a maioria das criaturas, o encontro do amor ideal assemelha-se, de algum modo, à

procura do ouro nas minas ou de diamante nas catas. É indispensável peneirar o cascalho ou mergulhar as mãos no barro do mundo, a fim de encontrá-lo. Sempre que amamos profundamente a alguém, transformamos esse alguém no espelho de nossos próprios sonhos... Passamos a ver-nos na pessoa que se nos transforma em objeto da afeição. Se essa criatura efetivamente nos reflete a alma, o carinho mútuo cresce cada vez mais, assegurando-nos o clima de encorajamento e alegria para a viagem nem sempre fácil da evolução. Nessa hipótese, teremos obtido apoio seguro para a subida do acrisolamento moral... Em caso contrário, a pessoa a que particularmente nos devotamos acaba devolvendo-nos os próprios reflexos, à maneira de um banco que nos restituisse ou estragasse os investimentos por desistência ou incapacidade de zelar por nossos interesses.

Então, surgem para nós aquelas posições espirituais que nomeamos por mágoa, desencanto, indiferença, desilusão... — O senhor desejará talvez afirmar — recordou Fantini — que caminhamos na existência pelas vias da afinidade, de afeição em afeição, até achar aquela afeição inesquecível que se nos levante na vida por chama de amor eterno? — Sim, mas entendendo-se o conceito de afeição, sem a estreiteza do sexo, de vez que a ligação esponsalícia, embora sublime, é apenas uma das manifestações do amor em si. Determinado homem ou determinada mulher podem confirmar na esposa ou no esposo a presença do seu tipo ideal; entretanto, talvez prossigam, após o casamento, mais intimamente vinculados ao coração materno ou ao espírito paternal... E, às vezes, sômente encontrarão o laço de eleição num dos filhos. Em amor, a afinidade é o que conta... — Instrutor — enunciou Evelina, impressionada e as uniões de suplício, os casamentos infelizes? Sim, a reencarnação é também recapitulação. Muitos casais no mundo se constituem de espíritos que se reencontram para a consecução de afazeres determinados.

A princípio, os sentimentos se lhes justapõem, no setor da afinidade, como as crenas de duas rodas que se completam para fazer funcionar o engenho do matrimônio. .. Depois, percebem que é imperioso burilar outras peças dessa máquina viva, a fim de que ela produza as bênçãos esperadas. Isso exige compreensão, respeito mútuo, trabalho constante, espírito de sacrifício. Se uma das partes ou ambas as partes se confiam a desentendimento, a obra encetada ou reencetada vem a cair... Então? — a pergunta de Evelina pairou no ar, revestida de imensa curiosidade. Então, aquele dos cônjuges que lesou o ajuste, ou ambos, conforme as raízes da desunião, devem esperar pela obtenção de novas oportunidades no tempo para a reconstrução do amor que dilapidaram. — Instrutor, permita-me uma pergunta. A união conjugal de duas criaturas que se amam, quando interrompida pela morte no mundo, pode ser reatada aqui? Ribas, expressivo: — Perfeitamente, se os cônjuges realmente se amam... Fantini aparteou: — E quando isso não acontece? — Aquele que ama sinceramente continua trabalhando, neste lado da vida,

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