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Capítulo 6 de 21
André Luíz — parte 4 de 19
E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
— Conversemos — convidou a nova amiga. Receosa, ante os serviços de vigilância, manifestava a intenção de despistar. Dispunha-se a todo custo demonstrar naturalidade, temendo que alguém pudesse haver assinalado o choque da companheira. Fantini compreendeu e esmerou-se a coadjuvá-la. Pretendendo ignorar a lividez com que a senhora Serpa os ouvia, fêz as apresentações com aparente serenidade. — Sou Alzira Campos — identificou-se a matrona, recém-chegada ao grupo —, e moro em São Paulo. Deu o endereço, reportou-se à família, caracterizou o bairro em que residia e adiantou: — Desde que caí em casa, trouxeram-me desacordada para este hospital e, pelas contas que faço, há quase dois meses espero alta. Estabeleceu-se o diálogo entre ela e Ernesto, enquanto Evelina se reasserenava, lentamente. — A senhora já se sente restabelecida? — Completamente. — Já travou relações com alguma autoridade que lhe possa orientar com indicações precisas, quanto ao futuro? — Sim.
A irmã Letícia, que me assistiu, de início, nos banhos medicinais, avisou-me anteontem que não está longe o dia em que me será possível decidir, relativamente a permanecer aqui ou não... — Que terá ela desejado dizer com esse «permanecer aqui ou não»? — Realmente, sabendo-se quanto anseio voltar a casa, muito me encabulei ao receber-lhe esse apontamento. — Nada mais indagou? — Sim. Roguei mais claras instruções, pedi minudências. Ela, contudo, apenas me disse, gentil: - «Você compreenderá melhor, mais tarde». — Dona Alzira — sussurrou Ernesto, com firmeza— a senhora não acredita que estamos numa organização de saúde mental, num asilo de loucos? A matrona relanceou o olhar em derredor, à feição de doente amedrontada com a vigilância de guardas severos, e opinou: — Se vamos examinar assuntos graves, não nos convêm isolar a companheira. Nossa amiga Evelina pode acelerar o próprio refazimento. Peçamos para ela um tônico adequado. Conjugando ação à palavra, premiu diminuto botão que se incrustava à mesa e surgiu um rapaz de serviço, diligenciando saber em que lhes poderia ser útil. Alzira encomendou refresco para três. — Qual o sabor? — Maçã.
Num átimo, o portador trazia três taças com róseo líquido aromatizado em safirina bandeja. — Este, a meu ver, é o melhor refrigerante que encontrei aqui, até agora, porque tem pretensões a sedativo — avisou a dama quando se viram, de novo, a sós.
Evelina sorveu um gole, àvidamente, com a impressão de haver bebido um néctar, mais vaporoso que líquido. O inesperado reconstituinte revigorava-lhe as forças, ao mesmo tempo em que lhe reacomodava os pensamentos. — Estou melhor — notificou de súbito —, graças a Deus!... Alzira sorriu e confirmou a disposição de palestrar, dando aos amigos todos os esclarecimentos que se lhe fizessem possíveis. Fantini segredou: — Voltando ao assunto, não considera a senhora que nos achamos sob assistência especializada, do ponto de vista da mente? — A princípio — aclarou Alzira —, também pensei assim. Notem que nos sentimos aqui de pensamento mais leve e cabeça sempre mais clara por dentro. As ideias fluem com tanta ligeireza e espontaneidade que parecem tomar corpo, junto de nós. Concordo em que nos encontramos num tipo de vida espiritual diferente, muito diferente daquela em que vivíamos, até a nossa vinda para cá. Apesar disso, porém, não creio estejamos nós num manicômio. Certamente já sabem que estamos rodeados por vida citadina muito intensa.
Residências, escolas, instituições, templos, indústrias, veículos, entretenimentos públicos... — Quê?... — disseram Evelina e Ernesto a um só tempo. — É como lhes digo. Isto aqui é uma cidade relativamente grande. Nada menos de cem mil habitantes e, ao que dizem, com administração das melhores. — A senhora já conseguiu alguma experiência lá fora? já se afastou alguma vez destes muros? — interrogou Ernesto, a desfazer-se em curiosidade. — Sim, na semana finda, obtive permissão para visitar uma família que não conhecia, acompanhando duas amigas. Até agora, essa foi a única vez em que me ausentei do hospital. E posso afirmar que a excursão foi realmente deliciosa, conquanto o pasmo de que me vi tomada, ao fim do passeio... — Que viu e a quem viu? — sondou Ernesto. — Não se aflijam. Vocês conhecerão tudo a seu tempo. A cidade é linda. Uma espécie de vale de edifícios, como que talhados em jade, cristal e lápislazúli. Arquitetura original, praças encantadoras recamadas de jardins. Creiam vocês que caminhei, fascinada, de rua em rua. O irmão Nicomedes, pois assim se chama o dono da casa, acolheu-nos com muita gentileza.
Apresentou-me a filha Corina, uma bela jovem, com quem para logo simpatizei. Intima de uma das amigas que eu seguia e com a qual entraria em combinação sobre assuntos de serviço, salientou a alegria festiva do lar, falando-nos de esperados júbilos domésticos. Mostrou-nos os lustres novos, as telas e os vasos soberbos... Tudo seguia num crescendo de doces supresas para mim, quando surgiu a bomba... Achávamo-nos no terraço, admirando um canteiro de jasmins suspensos, quando ouvimos o «Sonho de Amor», de Liszt, tocado ao piano. Corina informou-nos de que o pai dedilhava o instrumento com grande mestria. Enterneci-me de tal modo que manifestei o desejo de ouvi-lo, mais de perto. A nossa anfitriã conduziu-nos, de imediato, à sala de música. E foi um deslumbramento. O irmão Nicomedes, absorto, revelava-se num mundo de alegrias profundas, que se lhe irradiavam da vida interior, em forma, de melodias, das notáveis melodias que se sucediam umas às outras. Em dado momento, apontei: «ele parece mergulhado num longo êxtase, toca como
quem Ora», ao que a filha respondeu: «estamos efetivamente muito felizes; minha mãe, ao que sabemos, deverá chegar nesta semana». «Ela está de viagem?» perguntei. Com a maior naturalidade, a moça esclareceu: “minha mãe virá da Terra. Quando ouvi isso, experimentei horrível choque, como se acabasse de receber uma punhalada no peito. Faltou-me o ar, entrei, desprevenida, numa terrível crise de angústia... Á simples idéia de que nos situávamos em lugar fora do mundo que sempre conheci, me fazia voltar às dores anginosas que, desde muito tempo, não registrava. Corina me entendeu sem palavras e trouxe um calmante. Meu estado de perturbação, ao que observei, se comunicou a todo o ambiente, porque o dono da casa interrompeu-se, de improviso, quando executava um belo noturno... Via-me prestes a desmaiar, O pequeno grupo congregou atenções junto de mim e fui levada para o ar livre. Sentaram-me numa poltrona de pedra, semelhante ao mármore. Tateei com força o respaldar da curiosa cadeira e, ao verificar a dureza do material sob minhas mãos, comecei a tranquilizar-me...
Em seguida, olhei para o céu e vi a lua cheia, fulgindo com tanta beleza que me asserenei de todo. Percebi a sem-razão do meu susto. E refleti, de mim para comigo: «porque não existirá uma cidade, uma vila, um lugarejo qualquer de nome Terra?» O quadro que me cercava era positivamente um recanto do mundo... Indiscutivelmente, a esposa de Nicomedes estaria sendo esperada de alguma aldeia anônima... Ruminava minhas conclusões, quando o chefe do lar indagou, compadecido: «há quanto tempo nossa irmã Alzira está conosco?» «Pouco mais de dois meses», participou uma de minhas guardiãs. Nada mais se comentou a meu respeito. A visita foi encerrada. De retorno ao hospital, as irmãs a quem seguira, por sinal duas excelentes enfermeiras, não fizeram a mínima referência ao meu sobressalto... — Não tem trocado idéias com mais ninguém? —objetou Fantini, interessado. - Apenas durante os banhos, ouço uma que outra companheira. Em cada uma, encontro a dúvida, pairando...
A maioria supõe que nos vemos defrontados por outra vida... — Nenhuma delas tem certeza absoluta? — interveio a senhora Serpa. — Unicamente a senhora Tamburini se mostra plenamente convencida de que não mais nos situamos no domicílio terrestre. Contou-me que vem frequentando um gabinete de estudos magnéticos, aqui mesmo em nossa organização hospitalar, e sujeitou-se a testes que lhe deram a confirmação de que não está de posse do corpo físico. Escutei-a com atenção e ela acabou convidando-me para algumas experiências, mas agradeci a gentileza, sem aceitá-la. Essas histórias de clarividências e reencarnações não se afinam com a minha fé católica. — Ah! a senhora é católica? — interrompeu-a Evelina. — Oh! sim... — E já que respiramos no clima de grande cidade, não temos aqui sacerdotes? — Sim, temos. — Já se entendeu com algum deles? — Estou convidada para visitar uma igreja e farei isso, logo obtenha permissão. Devo, porém, dizer-lhe que, segundo informações de boa fonte, os padres são muito diferentes nestas paragens...
— Em que sentido? — Dizem que são sacerdotes médicos, professores, cientistas e operáriOs e não se restringem aos serviços da fé. Prestam socorro espiritual, eficiente e positivo, em nome de Jesus. Fantini observou que o pátio esvaziava. Todos os doentes se recolhiam. Alzira, a nova amiga, apalavrou novo encontro para depois, enquanto cumprimentava às despedidas. Logo após, Ernesto e Evelina regressaram aos aposentos, na expectativa de se reverem no dia seguinte.
Encontro de cultura
Ernesto Fantini e a senhora Serpa usufruiam horas e horas de confortadora intimidade no pátio, mantendo interessantes conversações. Mais de quinze dias haviam transcorrido sobre o primeiro reencontro. Evelina, tanto quanto o amigo, já se familiarizara com os banhos terapêuticos e ambos já haviam entrado em contacto com a senhora Tamburini, que Alzira indicava como sendo a pessoa mais culta de suas relações. Essa prestimosa criatura lhes hipotecara a promessa de conduzi-los, tão logo possível, ao Instituto de Ciências do Espírito, que funcionava ali mesmo, num dos recantos do grande jardim. Sem qualquer dúvida, para os dois, as considerações da senhora Tamburini eram, até então, as mais esclarecedoras que tinham ouvido.
No têteâ-tête quase diário, solicitava-lhes maior reflexão em torno da matéria, a escalonar-se em diversos graus de condensação, e mais amplo exame das percepções da mente, a se alterarem, conforme os princípios de relatividade; noutros lances dos repetidos entendimentos, rogava-lhes estudar neles próprios a extrema leveza de que se viam possuidos, a agilidade do corpo sutil que envergavam agora e a maneira singular em que exprimiam o pensamento, como se as ideias se lhes esguichassem do cérebro, em forma de imagens, acima das suas possibilidades habituais de contensão. Que se detivessem também a perquirir naquele novo clima de vida as ocorrências telepáticas, a se erigirem, ali, em fenômeno corriqueiro, apesar de não prescindirem da linguagem articulada. Bastava maior grau de afinidade, entre as pessoas, para que se entendessem harmoniosamente, em derredor dos assuntos mais complexos, com o mínimo de palavras. Acolhiam satisfeitos as judiciosas apreciações da senhora Tamburini, que aceitava plenamente a convicção de serem criaturas desencarnadas em algum departamento do Mundo Espiritual; entretanto, não obstante o respeito que lhes mereciam, não logravam admiti-las por verdade inconteste.
Evelina, sentada no chão relvoso, ao pé de Fantini que se acomodava num pequeno escabelo, iniciou o diálogo, avaliando, cismarenta: — De fato, a cada dia me sinto mais leve, sempre mais leve. E, com isso, vou perdendo o controle de mim mesma. Noto que os meus sentimentos sobem do coração para o cérebro, à maneira das águas de um manancial profundo ao jorro da fonte... Na cabeça, observo que as emoções se transfiguram em pensamentos que me escorrem imediatamente para os lábios em forma de palavras, a partirem de mim, quais as correntes líquidas que se estendem, para além do nascedouro, terra avante... — Bem lembrado. Você definiu com precisão meu próprio estado de espírito. - Mas, escute Ernesto — advertiu a moça, tocando a base de árvore robusta —, que vê aqui? — Um tronco. — E ali, no canteiro mais próximo? — Cravos. — Seria este o Mundo Espiritual se a matéria e a natureza estão presentes em tudo, segundo as conhecemos? — Concordo em que para nós dois, que não possuimos estudos claros,
com referência às nossas atuais condições, tudo isto aqui é absurdo, alucinante, mas... — Mas?... — Sim, nada podemos afiançar, de afogadilho. — Você está influenciado pelas ideias da Tamburini? — Não tanto. Faço minhas próprias ilações. - Ouça, Ernesto. Se estamos mortos para os entes que amamos, porque não nos vieram ainda buscar os seres queridos de nossas famílias, aqueles que nos precederam na vida nova? Nossos avós, por exemplo, e os amigos íntimos que todos vimos morrer?... — E quem disse a você que eles já não terão vindo? — Como justificar esta alegação? — Recorde, Evelina, as lições elementares de casa. Um televisor capta imagens que não vemos e no-las transmite com absoluta lealdade. Um rádiomirim assinala mensagens que não escutamos e no-las entrega com a maior clareza. É muito provável estejamos sendo vistos e ouvidos, sem que tenhamos, até agora, despertado a faculdade precisa de escutar e enxergar neste plano. - Ernesto, e as orações? Se somos Espíritos libertos do chamado corpo carnal, alguém no mundo ter-se-á lembrado de nós em prece...
Sua senhora, sua filha, meus pais, meu esposo... — Não conhecemos o mecanismo das relações espirituais, nem temos qualquer estudo de ciências da alma. Quem afirmará que não estaremos ambos sendo sustentados pela força das orações daqueles que amamos ou daqueles outros... que ainda nos amem... — Que quer dizer? — Que contas já nos foram apresentadas neste hospital? a que e a quem devemos os cuidados e gentilezas que nos são dispensados, diàriamente? não compramos as nossas roupas novas e nem as utilidades que usufruimos... Você, tanto quanto eu, já endereçamos a alguma enfermeira aquela conhecida pergunta: «quem paga»? — Já indaguei... — Qual foi a resposta? — «Aqueles que vos amam.» — Quem são esses, no seu modo de ver? — Em meu caso, meu esposo e meus pais... — Tenho minhas dúvidas. De início, supus estivéssemos em recuperação num instituto de saúde mental; entretanto, cada dia que passa nos surpreende em nível mais alto de consciência, no que diz respeito aos nossos raciocínios.
Se nos demorássemos num hospício, depois de algum colapso nervoso, a nossa restauração não se faria assim tão rápida... Quebrou-se, porém, o fio da interessante conversação. A senhora Tamburini abordou-os, à pressa, a fim de avisar que o encontro de cultura espiritual estava marcado para a noite que se avizinhava e urgia se aprestassem. Munidos do necessário consentimento, ei-los que se dirigem para a organização, às sete da noite, junto da amiga, que os recomenda à estima do mentor em serviço, o Irmão Cláudio. Acolhidos com simpatia no recinto, onde se instalavam vinte e três pessoas, notaram a presença de enorme globo que, decerto, se prestaria como ponto de
partida para valioso aprendizado. O orientador principiou a reunião, notificando que a turma estaria em aula dialogada e que não era, ali, senão um companheiro dos demais, com erros, hipóteses, aproximações e acertos, em tudo aquilo que viesse a dizer. — Qual é o tema, professor? — sindicou senhora distinta. — “Da existência na Terra.” Em seguida ao esclarecimento, o diretor do grupo teceu preciosos comentários, em torno das funções do orbe terrestre na economia cósmica, e prosseguiu: — Reflitamos, meus amigos. Quem de nós, na atualidade de nossos conhecimentos incompletos, conseguirá deitar sabedoria, no campo da inteligência, tão-só pelo testemunho das impressões pessoais? Não ignoramos que a Terra é um gigantesco engenho no Espaço, transportando consigo quase três bilhões de pessoas físicas, conduzindo-as pelas vias do Universo, sem que saibamos, ainda, ao certo, em que base de força se dependura, informandonos ünicamente de que semelhante colosso realiza, ao redor do Sol, uma órbita elíptica com a velocidade média de 108.000 quilômetros por hora; enquanto certas regiões do Planeta se encontram aprumadas perante o zênite, em outras, as criaturas se acham de cabeça para baixo, diante do nadir, sem que ninguém dê por isso; até ontem, qualquer pessoa asseverava que a matéria densa de uma paisagem se constituía de elementos sólidos em repouso; hoje, porém, qualquer jovem estudante sabe que essas impressões são imaginárias, de vez que a matéria, em toda parte, se dissolve num misto de elétrons, prótons, nêutrons e dêuterons, encerrando-se em energia e luz; qualquer homem reside num corpo do qual se faz inquilino, respira e atende aos impositivos da nutrição, sem maior esforço de sua parte.
De que maneira dogmatizar afirmativas sobre causas, processos, acrisolamento e finalidade de nossa existência terrestre pelos acanhados recursos dos sentidos comuns? Estabelecendo-se comprida pausa, aventou um cavalheiro: — Professor, com estas deduções, o senhor quer dizer... — Que a vida na Terra deve ser interpretada como um trabalho especial para o espírito. Cada qual nasce para determinada tarefa, com possibilidades de evolver para outras, sempre mais importantes, e que, por isso mesmo, não será possível arrebatar às criaturas os princípios religiosos de que dispõem, sem prejuízos calamitosos para elas próprias. A ciência avançará, desvendando segredos do Universo, resolvendo problemas e suscitando desafios novos a sua capacidade de investigação; no entanto, a fé sustentará o homem nas realizações e provas que é chamado a atravessar. O Espírito renasce no mundo físico, tantas vezes quantas se façam necessárias para utilizar-se, aperfeiçoar-se, lucificar-se; e, à medida que se aprimora, vai percebendo que a existência carnal é um ofício ou missão a desempenhar, de que dará ele a conta certa ao término da empreitada.
O explicador revelava tamanha altura cultural, através da exposição em andamento, que raros apartes se fizeram ouvir. Sem desviar, por isso, a espinha dorsal da preleção que pretendia, indubitàvelmente, preparar os ouvintes para a aceitação pacífica do novo estado espiritual a que se haviam transferido, comentou: — Se as leis do Senhor se manifestam claras e magnânimas, em todos os departamentos da experiência física, estaríamos, acaso, desprezados por Deus, quando ultrapassamos as fronteiras da morte? Referimo-nos, aterrados,
ao aniquilamento das vidas humanas, quando as guerras varrem a face do Planeta; entretanto, que concluir acerca dessas mesmas vidas humanas, a se extinguirem, metodicamente, nas épocas de paz? Conservar-se-ia o Senhor indiferente aos nossos destinos, em algum lugar do Universo? Ele, que inspira a graduação do alimento para a criança e para o adulto, relegaria ao abandono a criatura desencarnada, quando a criatura vestida de agentes físicos vive e age numa esfera de ação, na qual os fatores de previsão e proteção oferecem, todos os dias, os mais belos espetáculos de grandeza? Ninguém, ali, penetrava, a fundo, o caráter sibilino daquelas alegações. Os circunstantes, pelo menos em maioria, não se apercebiam de que estavam sendo adestrados, delicadamente, a fim de admitirem a realidade espiritual, sem barulho. Surgindo mais ampla quota de silêncio, em virtude de achar-se o professor interessado em averiguar posições geográficas, no globo à vista, Evelina cobrou ânimo e perguntou: — Irmão Cláudio, todas as pessoas registrarão sensações iguais entre si, depois da morte? — Não.
Cada qual de nós é um mundo por si e, em razão disso, cada individualidade, após largar o carro físico, encontrará emoções, lugares, pessoas, afinidades e oportunidades, conforme desempenhou o oficio, ou melhor, os deveres que lhe competiam durante a existência, na Terra. Ninguém pode conhecer o que não estuda, nem reter qualidades que não adquiriu. Cláudio entreteceu, ainda, apontamentos ricos de beleza e de lógica e, ao término da brilhante tertúlia, Ernesto e Evelina estavam reconfortados e felizes, ao modo de viajantes, sedentos de valores da alma, depois de se abeberarem numa fonte de luz.
Irmão Cláudio
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.