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Capítulo 20 de 21

André Luíz — parte 18 de 19

E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

Um lar, onde possas descansar, renovar-te, esquecer!... Filhos em que te revejas e o convívio de Vera, cuja presença te lembrará o refúgio maternal!... Diante daquelas santas evocações de paz e ventura que jamais experimentara, pela primeira vez, depois de muitos anos, Serpa chorou... Evelina continuava: — Sim, Caio, lava o coração na corrente das lágrimas!... Chora de esperança, de júbilo! Confiemos em Deus e na vida!... O Sol que hoje se põe, voltará amanhã! Contempla estas lousas, fita os sepulcros àfrente! De todos os lados, explodem verdura e flor, a dizerem que a morte é ilusão, que a vida triunfa, bela e eterna!... De um outro mundo, os que te amam regozijar-se-ão com os teus gestos de entendimento! Túlio te perdoará, Elisa há de abençoar-te!... Coragem, coragem!... O causídico, surpreso, incapaz de identificar-se visitado pelo espírito da companheira de outros tempos, reconhecia-se sübitamente consolado e eufórico, tangido por suave renovação, nos recônditos do ser.

À maneira de um doente que encontrara o remédio providencial e a ele se agarrasse, na sede da própria cura, instintivamente decidiu-se a não perder o precioso momento de exaltação construtiva em que entrara. — Vamos!... — insistiu Evelina — concede agora, mas claramente agora, a nossa Vera a certeza de que a protegerás num casamento digno!... Sucedeu o inesperado. Habitualmente agressivo e rebelde, Caio Serpa arrancou-se, humilde, do lugar em que se plantara, avançou sempre abraçado pelo espírito da exesposa, na direção do grupo em que a jovem se apoiava... Ali, de pensamento conjugado ao da mensageira espiritual, observou a moça sob novo prisma. Pareceu-lhe que começava a amá-la de maneira diversa. Viu-a mais cativante na dor que demonstrava, percebeu-lhe a solidão e a sede justa de companhia. Às súbitas, reconheceu-se também só, a requisitar-lhe mais intensivamente a dedicação e o carinho para viver. Já não sabia, naquele inolvidável instante, se a queria com a impertinência de um homem ou com a ternura de um pai...

Abordando-a, tomou-lhe o braço, de leve, e comunicou-lhe, em voz alta, no propósito de alicerçar a própria declaração com o testemunho dos amigos presentes: — Vera, não chore mais... Você não está sozinha! Amanhã mesmo, cogitaremos de organizar a documentação precisa para casar-nos tão breve quanto possível!. A interpelada lançou-lhe um olhar significativo e agradecido... E enquanto ambos se escoravam um no outro para o retorno a casa, Evelina e Ernesto, com os amigos desencarnados atentos às derradeiras homenagens à viúva Fantini, entraram em prece, agradecendo ao Senhor a bênção daquela transformação. Mais um passo importante estava articulado para o futuro melhor... Caio e Vera levantariam um lar com o Amparo Divino. Túlio Mancini ressurgiria para a Terra, no tronco daquele mesmo que lhe subtraira a existência, satisfazendo à Lei do Amor que determina sejam o ódio e a vingança para sempre banidos da Obra de Deus!... Mais tarde, Elisa se lhes reuniria por filha bem-amada!... Caio se reconfortaria e certamente seria outro homem, ao ver-se continuado na posteridade feliz, sob o olhar carinhoso de

Vera, que o amava ardentemente... Evelina cismava em tudo isso, incapaz de sofrear o pranto de júbilo... Continuava amando o ex-esposo, porém, noutro nível, e, com toda a alma, agradecia ao Senhor a existência de Vera Celina, a quem passara a reverenciar e querer bem, na condição de protetora, cujos serviços se manteriam para ela irresgatáveis. Em transporte de alegria, correu ao encontro dos noivos e, antes que Serpa se aboletasse no automóvel, junto da companheira, abraçou-o, reconhecida, e, pela primeira vez, bradou-lhe ao coração com a celeste emotividade do amor purificado a labaredas de sofrimento: — Caio, meu filho! Meu filho!... Sê feliz e que Deus te abençoe!... Em seguida, inclinou-se para Vera e beijou-lhe a mão com enternecimento indescritível. O auto rodou, de volta. Evelina e Ernesto, por longo tempo, ainda se demoraram em oração, no tranquilo santuário da morte, transfigurado ali para os dois em pouso de reconhecimento e alegria, ante as primeiras estrelas que começavam a luzir na selva da noite, quais lanternas de fogo e prata, clareando o caminho para Deus, a pleno céu azul.

E a vida contínua...

O matrimônio de Caio e Vera trouxe a Ernesto e Evelina nova fonte de incentivo ao trabalho. Túlio, algo melhor ante as promessas de futura assistência por parte daquela a quem amava tanto, concordou em matricular-se voluntàriamente no Instituto de Serviço para a Reencarnação (1), internando-se, de pronto, num dos gabinetes de restringimento, entregando-se aos aprestos necessários. Antecedendo, porém, a medida, certa noite, em que Serpa se ausentara do lar, foi levado à presença de Vera, para familiarizar-se, de algum modo, com aquela que o receberia nos braços de mãe. Ao vê-la na costura, em sua casa de Vila Mariana, o moço, de imediato, simpatizou com ela. Viu-lhe o semblante meigo, os olhos serenos de criatura sofrida, as mãos ágeis na tarefa, e respirou-lhe, encantado, o ambiente tranquilo. Recomendou-lhe Evelina para que a abraçasse, nela venerando a protetora que o abençoaria por filho, em nome de Deus... Mancini não apenas se confiou ao amplexo carinhoso, como também lhe osculou a fronte, enternecidamente.

(1) Organização do Plano Espiritual. — Nota do autor espiritual.

A filha de Ernesto não percebeu aquela manifestação afetiva, em sentido direto; no entanto, por alguns momentos, deixou que o cérebro divagasse, feliz. «Como desejava obter um filhinho!...» — pensou. — «Quanto anelava ser mãe!... » Aguardava essa bênção do Todo- Misericordioso que, decerto, não a esqueceria!... Por outro lado, não ignorava que o esposo ansiava acolher um herdeiro para o futuro e, por isso, nos sonhos que entremostrava, desperta, rogava conscientemente a Deus um menino!... À medida que as doces prefigurações da maternidade se lhe esboçavam no imo da alma, sintonizava, mais intensamente, com Túlio, na mesma onda de esperança e regozijo, ambos experimentando santo prelúdio de inenarráveis alegrias... Ao separar-se dela, às despedidas, formulou ele a pergunta esperada: quem lhe seria o genitor? a quem chamaria por pai? Evelina, porém, deu-se pressa em explicar que o dono da casa se achava distante e que ele, Mancini, o conheceria em momento oportuno. Na base da verdade prometida, Túlio renasceria de Caio Serpa, absolutamente magnetizado pelo devotamento materno, a fim de se reaproximar do antigo adversário e metamorfosear ressentimento em amor, pela terapêutica do esquecimento.

Ante as realizações em processo, o tempo para Fantini e a companheira jazia repleto de obrigações agradáveis e belas. Auxílio constante a Mancini, Caio e Vera, na formação do novo porvir, e amparo infatigável a Elisa e Desidério, convenientemente hospitalizados. Ernesto, renovado pelo sofrimento, como que remoçara, enquanto que Evelina, modificada pelas novas experiências, parecia haver amadurecido, qual se os dois houvessem combinado operar um reajuste da forma, com vistas à harmonização em nível de idade semelhante de um para o outro. Comungavam

as mesmas idéias, partilhavam os mesmos serviços. Impressionado com aquela conciliação gradativa, a surgir mecanicamente da associação sempre mais ampla e mais íntima dos dois, na obra da própria edificação espiritual, Ernesto procurou o Instrutor Ribas, inquirindo, respeitoso, se lhe seria cabível conhecer o passado, sem mais delongas, reavendo a memória de outras existências, ao que o mentor informou, sensato: — Não, Fantini. Desaconselhável a providência, conquanto possível. Você e Evelina estão abraçando longa empresa de serviço em nosso plano. Terão muitos problemas a resolver, muito trabalho a realizar... Desidério, Elisa, Amâncio, Brígida, Caio, Vera, Túlio, Evelina e você formam uma equipe de corações comprometidos uns com os outros, perante as Leis de Deus, há muitos séculos. .. Todos reciprocamente enlaçados no clima da provação, lembrando elementos químicos em cadinho fervente para o acrisolamento indispensável!... Outros componentes do grupo chegarão com o tempo para a vitória geral sobre os alicerces do amor que ainda vem muito ao longe!... Integramos, eu também com vocês, uma grande família...

E num sorriso amistoso: — Somos aqui milhares de criaturas nas mesmas condições, trabalhando e batalhando por nossa redenção, começando pelo aperfeiçoamento de nós mesmos, nos recessos do mundo individual. — Na Terra, não formulamos ideia do volume de obrigações que nos espera depois da morte... — Sem dúvida. Toda construção nobre há que ser dirigida. Primeiro, o projeto; em seguida, a execução... No plano físico, idealiza-se a continuação da vida, no mundo espiritual... No mundo espiritual, idealiza-se a correção, o reajuste, a melhoria e o polimento dessa mesma vida, no plano físico. Somos viajores do berço para o túmulo e do túmulo para o berço, renascendo na Terra e na Espiritualidade, tantas vezes quantas se fizerem precisas, aprendendo, renovando, retificando e progredindo sempre, conforme as Leis do Universo, até alcançarmos a Perfeição, nosso destino comum... — Isso quer dizer que, de futuro, talvez Evelina e eu venhamos a renascer, entre os homens, daqueles mesmos Espíritos, em cuja aproximação estamos colaborando... — Quem sabe? Isso é mais que possível, por obviamente natural...

O orientador ainda não havia articulado o esclarecimento, de todo, quando Ernesto aventou, tímido, qual jovem que estivesse abrindo o coração, diante da autoridade paternal: — Instrutor Ribas, Evelina e eu temos refletido, refletido... Fantini, receoso, não conseguiu terminar o enunciado. Foi o próprio Ribas que lhe completou a exposição, carregando as palavras de bom-humor: — Já sabemos, Fantini, vocês dois pensam num casamento compreensível e digno, conscientes agora da imensa obra de transformação e burilamento que estarão dirigindo, por muito tempo, no grupo espiritual a que se vinculam. — O senhor vê algum impedimento? — Absolutamente nenhum, de vez que, tanto Elisa quanto Caio já dispensaram vocês de qualquer compromisso afetivo... Fantini, acanhado, se dispunha a prosseguir, mas um auxiliar do Instituto veio chamá-lo, com urgência, para custodiar Evelina, de viagem para a esfera física, em ação de assistência a Vera, já em avançado processo de gravidez. Despedindo-se, o mentor afirmou-lhe, satisfeito:

— Esteja tranqüilo, Ernesto. Pensaremos no assunto. Os dias de Fantini e da companheira rodavam em plenitude de serviço. Pouco a pouco, percebiam quantos deveres precisavam aceitar para assegurarem um renascimento relativamente tranqüilo a um Espírito enfermo, qual Mancini, que requisitava cuidado incessante, para que o aborto não repontasse em prejuízo geral. Observavam que em milhares de outros casos não cabiam preocupações assim tantas. Entidades acomodadas ao mundo carnal ajustavam-se ao processo reencarnatório, com a simplicidade da mão, quando se adapta a uma luva. Noutras situações, as criaturas de regresso à esfera física, dispunham de tanta elevação que a presença delas, só por si, não apenas estabelecia distância aos Espíritos infelizes, como também bastava para propiciar sossego à mente materna...

Túlio, porém, não estava entre aquelas criaturas que tão-somente tocam, de leve, as forças do espírito para se refastelarem, de modo quase que absoluto, nos prazeres e mecanismos do mundo físico, e nem alcançara, ainda, a condição daquelas outras que simplesmente tocam na matéria grosseira tão-só buscando energia para se sustentarem, acima de tudo, nas tarefas e operações do Mundo Espiritual. Nem pisava o início do monte de elevação, nem lhe atingira os degraus mais altos. Era um homem de cultura e virtude medianas, com aguçada sensibilidade à mostra, em função de sua própria necessidade de burilamento, à vista de débitos contraídos em outras existências. Quaisquer choques no ambiente materno induziam-no à irritabilidade e quaisquer dificuldades pequeninas impediam-no a indisposições lamentáveis.

Certamente que se demorava em sono terapêutico no laborioso tratamento para a volta criteriosamente vigiada ao campo terrestre, a que na arena dos homens se dá sumariamente o nome de gravidez, como se gravidez, em definição tão rápida e simplista, fôsse acontecimento insignificante e igual para todos os reencarnados, com repercussões análogas para as mães que os hospedam; importa reconhecer, porém, que o sono terapêutico do Espírito, conjugado ao desenvolvimento fetal, se caracteriza por graus diversos e, por isso, nem sempre raia pela inconsciência total. Empreendimentos e obrigações se avolumaram, a benefício de Mancini, até o dia em que lhe ouviram os primeiros vagidos no berço, entre o êxtase de Vera e a emoção de Caio, maravilhados com o filhinho... Túlio varara a grande barreira entre os dois mundos e, daí em diante, reclamaria cuidados de outro tipo. Reconfortados e felizes com a execução gradual do programa estabelecido, Fantini e a companheira se acharam de espírito voltado para questão que se lhes impunha, de imediato: o retorno de Desidério à experiência carnal.

Era necessário instalá-lo no sul paulista, em casa de Amâncio, segundo o esquema do Instituto. Os dois amigos passaram às entrevistas preparatórias. Proposições e debates. Desidério dos Santos pedia, exigia, queixava-se... E, no fundo, não se lhe podia dar, de pronto, a extensão total da verdade, quanto ao porvir próximo, para que não a desacatasse com dúvidas injustificáveis ou desconsiderações prematuras. Cabia-lhe saber que era forçoso retomar o corpo terrestre e prometia-se-lhe a ida de Elisa, algum tempo depois dele, a fim de que se reencontrassem no domicílio dos homens, mas, no roteiro traçado, se lhe proibia a antecipação de informes, acerca do refúgio doméstico em que se lhe

outorgaria a nova oportunidade. Merecia a bênção da reencarnação; contudo, não lhe era lícito complicar ou desprimorar as situações, em que as autoridades do Plano Superior, sempre sábias e generosas, lhe assegurariam a concessão. Competia-lhe, sobretudo, defrontar-se com Amâncio e Brígida, tanto quanto os dois, já amadurecidos nas lides humanas, deveriam arrostá-lo em casa, para adquirirem a luz do amor recíproco, em regime de esquecimento do passado, de maneira a consolidarem os méritos que já possuiam perante a Lei. Desidério, no entanto, não era fácil de contentar. Interpunha recursos e alegava direitos, nas questiúnculas intercorrentes, que a filha, assessorada por Ernesto, se esmerava em aprovar, tanto quanto possível, angariando-lhe apreço, aceitação, cobertura e carinho.

Quando o tempo marcou precisamente um ano sobre a desencarnação da viúva Fantini e quando Túlio Mancini, em novo renascimento, orçava aproximada-mente dois meses de idade, Desidério deu por terminadas as exigências para o regresso pacífico ao mundo carnal, com exceção de uma só: queria rever Elisa e conversar com ela, inteiramente a sós, de modo a entretecerem projetos para o futuro. Encaminhada a solicitação ao exame de Ribas, o Instrutor aprovou o requerimento e, conduzido o peticionário às dependências onde Elisa, agora lúcida, se demorava convalescente e tranqüila, puseram-se os dois em palestra íntima, plenamente isolados, num tête-â-tête que perdurou por dez horas consecutivas. Nada transpirou do que ambos confidenciaram, entre si, naquele primeiro e último encontro, no Mundo Espiritual, antes da reencarnação; no entanto, algo ocorreu de inesquecível. Desidério voltou às instalações que lhe eram próprias, tocado de novo brilho no olhar. Desapareceram nele os ressentimentos e as interrogações. Mostrou-se, desde então, paciente e respeitador.

Concomitantemente, a ex-senhora Fantini rogou o amparo de Evelina para internar-se em algum educandário, a fim de estudar os problemas da alma e reeducar-se, quanto lhe fôsse possível, antes de retomar o envoltório terrestre. Informada de que partiria para a existência vindoura, daí a três anos, para reencontrar Desidério no mundo, sob a proteção dos benfeitores que ali os acolhiam, ansiava aprender, preparar-se e melhorar-se, ciente qual se achava de que todos os valores conquistados na Espiritualidade Maior se transformam em mais dilatados recursos de apoio e colaboração, para aqueles que os evidenciem, seja onde seja. Evelina anuiu, satisfeita. Nos três anos que lhe antecederiam o retorno ao próprio lar terreno, na condição de filha do casal Serpa, Elisa estaria internada em colégio adequado às suas necessidades, sob custódia e responsabilidade da filha de Desidério, cujos créditos e méritos aumentavam sempre no Instituto a que soubera dedicar-se e servir. Quem poderá medir a força colocada por Deus nos prodígios do amor?

Recolhido Desidério aos gabinetes de restringimento para a reencarnação, concluíram as autoridades que não lhe seria proveitoso o conhecimento prévio do lar em que lhe cabia renascer, porqüanto a condição de enjeitado haveria de compeli-lo a mergulho mais profundo no passado para a revisão de existências outras, em que fizera jus à prova em perspectiva, e não seria útil imergi-lo em avançados processos de memorização.

Felizmente, após a entrevista com Elisa, patenteava-se calmo, confiante, aceitando todas as promessas que se lhe formulavam. Por outro lado, Ribas e os companheiros categorizavam-lhe a volta ao convívio de Amâncio e Brígida, sem que os antigos associados de luta precisassem esperar por ele em futura reencarnação, por valioso ganho de tempo, com o amparo da Providência Divina. Situava-se, desse modo, nos serviços de introdução ao renascimento no plano carnal, quando o Instrutor Ribas convidou Fantini e a companheira para tomarem contacto com a senhora humilde e simples que seria para Desidério a benemérita genitora. Competia-lhes assisti-la e auxiliá-la quanto possível, na gravidez próxima, e orientar o encaminhamento do amigo renascido ao lar dos Terra, já que entre as colaboradoras e obreiras do Instituto, reencarnadas nas vizinhanças de Brígida, fora ela quem aceitara a incumbência de recebê-lo nos braços maternais, não obstante a penúria que lhe marcava a existência. Evelina e Fantini apanharam informes rápidos em torno daquela a quem passariam tanto a dever.

Tratava-se de mulher jovem, esposa de um lavrador que a tuberculose devorava, e mãe de quatro filhinhos em constrangedoras necessidades. Ela mesma, Dona Mariana, como era conhecida, já se achava em condições orgânicas deficitárias, sentenciada a contrair a moléstia, embora a tuberculose não assuma, na atualidade, entre os homens, a periculosidade que se lhe atribuía em outros tempos. Sucede, porém, que tanto o esposo quanto ela própria estavam encerrando valioso ciclo de provas regeneradoras no mundo e não conseguiriam sustentar-se, na frágil armadura de carne, por muito tempo. Desidério ser-lhes-ia o rebento derradeiro, antes da desencarnação, e aos dois amigos espirituais, erigidos ao encargo de guardiães, caberia o santo dever de criar as circunstâncias pelas quais o recém-nato entrasse no lar do velho casal Terra, na posição de filho adotivo. Noite alta no plano físico... Mariana, em desdobramento espiritual através do sono comum, penetrou a sala em que Ribas e os amigos a esperavam. Escoltada carinhosamente por um mensageiro, a recém-chegada não poderia apresentar-se de maneira mais simples.

Ao defrontar-se com os benfeitores, deteve-se perante Ribas, com a lucidez que lhe era possível, e, magnetizada talvez por aquele olhar brando e sábio, ajoelhou e pediu-lhe a bênção. O mentor, recalcando a emoção de que fora tangido, afagou-lhe a fronte, rogou a Jesus para que a protegesse e recomendou: — Levante-se, Mariana, temos algo a conversar... Ao vê-la convenientemente sentada, o orientador apresentou-lhe Evelina e Ernesto, demorando-se, todavia, a salientar Evelina, a fim de que ela lhe guardasse mais vivamente a figura na tela da memória, quando tornasse ao corpo denso: — Esta é a irmã que velará por você, na próxima gravidez. Por favor, Mariana, esforce-se para retê-la na lembrança!... A interpelada fitou-a com simpatia e implorou: — Anjo de Deus, compadecei-vos de mim!... A filha de Brígida, emocionada, retificou, de olhos úmidos: — Mariana, não sou um anjo, sou apenas sua irmã. A jovem mãe, cujo corpo descansava no mundo de matéria grosseira, como

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