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Capítulo 11 de 21

André Luíz — parte 9 de 19

E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

Disse que a minha covardia, recorrendo ao veneno, abalara o amor que existia entre ele e você... Tentei justificar-me... Quando me detinha a considerar a pureza de meu afeto, aquele brutamontes vomitou insultos que não consigo olvidar e, sacando um revólver, me alvejou no peito... Caí no piso e nada mais vi... Acordei, não sei quando, num quarto de hospital e, desde então, vivo enfermo e revoltado, buscando reaver a saúde para ensinar àquele biltre quanto vale a minha vingança... Um raio que caísse, ali, sobre os três, não teria arrasado o ânimo da senhora Serpa quanto aquela revelação terrível. Num átimo, percebeu que Túlio não largara o corpo em arrancada suicida, mas sim constrangido pela arma daquele a quem desposara no mundo, ao mesmo tempo que Fantini, estupefato, concluía que o rapaz fora vítima de um crime desconhecido entre os homens; e fôsse porque aflitivos pensamentos de culpa lhe azorragassem o cérebro ou porque notava no moço o anseio indisfarçado de ficar a sós com Evelina, rogou telepaticamente a ela não fizesse o mínimo esforço por trazer Mancini à realidade e sim tivesse paciência, até que pudessem estabelecer planos de socorro ao moço infeliz.

A senhora Serpa entendeu e Ernesto pediu licença para afastar-se. Queria pensar, repousar... Ao demais, informou, era natural que os dois tivessem confidências, de coração para coração. Mais tarde se reencontrariam. Embora contrafeita, Evelina aquiesceu. Quando se voltou, porém, para o ex-noivo, sentiu-se algo desamparada, qual se renteasse com perigos ocultos. Mancini convidou-a a pequeno passeio pelo parque da instituição que o albergava e, em poucos instantes, ei-los, um ao lado do outro, a passo vagaroso, entre sebes floridas e árvores protetoras, aspirando o vento embalsamado de nutrientes perfumes. — Evelina — recomeçou ele —, quem é este velho que você está trazendo a tiracolo? A interpelada mostrou-se penosamente impressionada com a frase agressiva, pronunciada em tom de sarcasmo; no entanto, respondeu, gentil: — Trata-se de amigo distinto, a quem devo inestimáveis favores. Ele chasqueou: — Compreenda que sofri muito para achar você... Agora, não cedo sua companhia a homem algum, mesmo que esse homem fôsse seu pai... Ela se dispunha a revidar, solicitando moderação; todavia, Mancini prosseguiu, eufórico: — Evelina, tenho um mundo de coisas a saber, a perguntar e a ouvir de você... Não sei, realmente, se tenho estado louco.

Onde estamos? que fazemos?... Entretanto, prefiro falar de você e de mim, ünicamente de nós dois... Nessa altura do diálogo, esbarraram com bonito e pequeno caramanchão, totalmente envolto de trepadeiras. Túlio, em voz suplicante, implorou fizessem ali uma parada de refazimento. Sentia dores, quando se movimentava em demasia, alegou. Desde o tiro sofrido, não se reconhecia o mesmo. Evelina obedeceu maquinalmente impulsionada pela compaixão. Acomodaram-se ambos num dos bancos existentes no recinto doce e

agreste. O moço relanceou os olhos, por todos os lados, como a certificar-se de que se viam absolutamente sôzinhos e, em seguida, cerrou a única porta da peça, que passou a receber luz e ar através das altas e estreitas janelas que quase se comunicavam com o teto. Em se voltando para a companheira, patenteava no semblante tamanha expressão de sensualidade que a senhora estremeceu. — Evelina!... Evelina!... — rogou ele, apaixonadamente — você sabe que tenho esperado por este momento de felicidade, em todos estes anos de angústia. .. Você e eu, juntos!. Ela não foi totalmente insensível ao apelo afetivo daquele homem jovem a quem amara, e enterneceu-se. Relembrou as noites de cochichada ternura, nos parques e nos cinemas, antes de comprometer-se com Serpa. Sim!... Aquele era Mancini, o rapaz que a impressionara tanto! A. mesma simpatia e a mesma voz de enamorado, acenando-lhe com a renovação do destino. Instintivamente, rememorou as infidelidades do marido, o escárnio revestido de belas palavras que recebera dele tantas vezes em casa e, por um momento, balançou-se-lhe outra vez o coração, entre os dois, qual ocorrera nos tempos do noivado...

Túlio estava, agora, diante dela, prometendo-lhe, de novo, um amor ardente e tranquilo... Achou-se como que inebriada pelas considerações que ouvia, mas a consciência vigilante impeliu-a a reajustar-se. Via-se dominada por estranho sentimento que a induzia para ele; no entanto, ao mesmo tempo, algo em Mancini, naquele instante, lhe impunha medo e certa repugnância. Não era ele mais o cavalheiro de outra época. Mostrava-se imponderado, desabrido. Moralmente refeita, Evelina confessava a si mesma que não lhe cabia o direito de ceder a quaisquer sugestões incompatíveis com a sua dignidade feminina. Casara-se. Devia ao esposo lealdade e acatamento. A consciência controlou a sensibilidade. A noção dos compromissos assumidos guardou-lhe a alma nobre e sincera. Impôs-se fortaleza e serenidade, resolvendo permanecer a cavaleiro de emoções que não se justificavam. Enquanto semelhantes reflexões lhe escaldavam a cabeça, Mancini continuava: — Deixe-me recostar em seu colo, um momento só!... Evelina, quero sentir o calor de seu coração... Tenho necessidade de você, qual o sedento quando se aproxima da fonte! Compadeça-se de mim!...

Observando os gestos de desconsideração que ele passara a assumir, a moça tentou recuar e replicou, valorosa: — Túlio, contenha-se! Não sabe você que desposei Caio, que tenho a responsabilidade de um lar? — Oh! o infame!... Compreendo que a minha ausência longa terá levado você a desposar aquele canalha, mas isso não fica assim, ...... E, depois de pausar, alguns instantes, prosseguiu para a companheira estarrecida: — Evelina, sei que você não é indiferente ao que sinto! Vamos!... Diga que me atende Ato contínuo, intentou beijá-la. Embora possuída de assombro e temor, ela ganhou ânimo e, retrocedendo, reagiu indignada: — Túlio, que é isto? estará você louco? — Tenho pensado em você, dia e noite... Desde que tomei o balaço

daquele patife que levarei à cadeia. não tenho mais ninguém na imaginação!... Não se compadece você de mim? O entono comovedor daquela voz feria-lhe fundo a alma; no entanto, a senhora Serpa objetou, firme: — Compreendo a sua estima e agradeço a lembrança, mas julga você justo atacar-me assim, desrespeitosamente, quando já lhe falei que tenho um marido e, por isso mesmo, contas a prestar? Mancini silenciou por momentos; em seguida, exibiu nos olhos esgazeados a perturbação que lhe passou a senhorear os mecanismos da mente, transfigurou o pranto em escárnio e desfez-se numa gargalhada terrível. — Um marido!... Um marido, aquele crápula!... — zombou. — O povo de onde venho agora, o povo da terra da liberdade, tem toda a razão... Entendo, você agora faz parte dos santos, mas eu não sou mascarado. Sou o que sou, um homem com as funções que me são próprias... Quero você e isso a escandaliza? Boa piada!...

Você é uma mulher como as outras, você não émelhor do que todas aquelas que conheço na terra da liberdade, apenas com a diferença de que você se oculta na capa andrajosa da disciplina... — Sim — suspirou Evelina, magoada —, não nego a minha fragilidade humana... Não acredita você, porém, que a disciplina é a melhor maneira de educar-nos e dignificar os nossos sentimentos? — Ah! Ah! Ah!... — galhofou ele — obediência é a camisa-de-força em que os hipócritas metem os simples, mas você mudará de idéia... A moça agoniada confiava-se à oração muda, implorando socorro aos poderes da Vida Maior. Enquanto isso, o companheiro avançava, mofando: — Olhe para dentro de você mesma e verificará seu disfarce... Você é um anjo de pé-de-chumbo, igual aos outros macacos fantasiados que andam por aí. Largue mão disso... Todos somos livres!... Livres filhos da Natureza para fazer o que quisermos!... Proclame a sua independência se não deseja acabar na senzala dos tartufos da sujeição!... Mancini investiu para ela e estava prestes a agarrá-la, quando alguém providencialmente bateu à porta. Constrangido embora, Túlio refez-se, de imediato, e foi atender.

O mensageiro declinou para logo a sua condição. Tratava-se de auxiliar do Instrutor Ribas e vinha da parte dele, a fim de conduzir a irmã Evelina Serpa ao Instituto de Proteção Espiritual, para a solução de assunto urgente. A senhora respirou aliviada e percebeu que fora ouvida na silenciosa petição e, enquanto agradecia, em pensamento, o amparo salvador, Túlio, seguido igualmente de perto pelo emissário, voltou à casa de reajuste, onde foi recolhido à cela especial, destinada a serviço de segregação e tratamento.

Momentos de análise

Atendendo à solicitação de Ernesto e Evelina que ansiavam por esclarecimento, no embaraço que a presença de Túlio lhes impunha à cabeça, o Instrutor Ribas marcou-lhes encontro, de que se valeram pontualmente. No ambiente acolhedor do Instituto, o amigo lhes ouviu pacientemente as arguições. Que significa a perturbação do rapaz? como lograriam os dois, notadamente Evelina, auxiliá-lo corretamente? ser-lhes-ia lícito rogar ao Instituto alguma informação, quanto às acusações de Mancini contra Caio Serpa? estariam ambos capazes de assumir responsabilidades para ajudar ao moço infeliz? Após ouvi-los, o orientador repartiu com eles um olhar de brandura e advertiu: — Vocês já reiteraram diversos pedidos de acesso ao trabalho espiritual; não estranhem se chegou a hora de começar. Depois de uma pausa, transformada em sorriso: — Túlio Mancini é o marco de início da obra redentora que abraçam. Investiguem os próprios corações, especialmente nossa irmã Evelina, e verifiquem a pena que as dificuldades dele lhes causam. Onde o amor respira equilíbrio, não há dor de consciência e não existe dor de consciência sem culpa. — Oh!

Instrutor — clamou a senhora Serpa diga, por gentileza, tudo o que devo fazer! — Falar-lhes-ei como a filhos, porque entre pais e filhos não prevalecem suscetibilidades. Mudando de tom: — Irmã Evelina, que sensações foram as suas, em se vendo a sós com o amigo recém-visto? A moça, que formulara o intimo propósito de arrostar a verdade, fôssem quais fôssem as consequências, admitiu: — Sim, ao rever-me a sós com ele, sem ninguém a observar-nos, como que me detive nas lembranças do passado, quando supunha haver achado nele o homem de minha preferência. Senti-me transportada à juventude, e então... — E então — o mentor benevolente completou a frase reticenciosa — as suas próprias vibrações lhe encorajaram a agressividade afetiva. — Entretanto, recordei, às súbitas, os meus compromissos conjugais e contive-me. — Fêz muito bem — contrapesou Ribas —, ainda assim, o seu coração falou sem palavras, provocando novas sequências do desajuste emocional de que Mancini foi vítima, na experiência terrestre, em grande parte motivado por suas promessas não cumpridas. Oh! meu Deus!... — Não se aflija.

Somos Espíritos endividados, perante as Leis Divinas, e estamos situados na faixa de expressiva transição, a transição do amor narcisista para o amor desinteressado. Temos teorias de santificação para o sentimento, mas, na essência, somos, na prática, simples iniciantes. Na esfera dos pensamentos nobres, assimilamos o influxo dos Planos

Gloriosos; todavia, no campo dos impulsos inferiores, carregamos ainda o imenso fardo de desejos deprimentes, que se constituem de vigorosos apelos à retaguarda. Impressionado, Fantini aparteou: — Quer dizer que o homem terreste... — É um ser de inteligência refinada pelos poderes que adquiriu na caminhada evolutiva em que se empenha, desde muitos séculos, mas ainda oscilante, de modo geral, entre animalidade e humanização, conquanto os casos particulares de criaturas que já se encaminham da humanidade para a angelitude. A maioria de nós outros, os Espíritos capitulados na escola da Terra, nos achamos em trânsito da poligamia para a monogamia, com referência à devoção sexual. Decorre daí o impositivo de vigilância sobre nós mesmos, sabendo-se que o sexo é faculdade criativa, nos domínios do corpo e da alma. Denotando, porém, o propósito de não se afastar do problema específico de Evelina: — Compreensível, minha irmã, que você houvesse registrado o fenômeno da atração de que dá notícia e muitíssimo justa a continência a que se determinou, exortando o raciocínio claro e responsável a frenar o coração imaturo.

Ninguém atingirá o porto da dignidade espontânea, sem viajar, por longo tempo, nas correntes da vida, aprendendo a manejar o leme da disciplina. Embora isso, porém, saibamos debitar a nós próprios os erros que perpetramos, no tocante aos valores afetivos, a fim de saná-los ou resgatá-los em momento oportuno; — Devo reconhecer minha dívida para com Mancini, hipotecando-lhe noutro tempo tantos votos de felicidade que deixei para ele absolutamente vazios... — suspirou a senhora Serpa, desconsolada. — Isso mesmo. Túlio terá cometido muitos disparates, até agora; no entanto, a sua consciência de mulher não se eximirá, com certeza, aos compromissos que lhe cabem no assunto. — E de que modo apagar o meu débito? — Auxiliando-o a limpar as próprias emoções, como se purificam as águas de um poço barrento. Diante da inquietude que passou a desassossegar a jovem senhora: — Nada de precipitação, nem de violência. Forçoso aceitar-nos tais quais somos e facear os problemas que nos advenham dos próprios desacertos. Não estudamos para chorar. A irmã está consciente de que cooperou no desastre moral do amigo em análise.

Vejamos serena-mente o que lhe será possível fazer agora, de maneira a que se reponha na estrada certa. — Pequenina quanto sou, que conseguiria realizar? — Suplicou a moça, humilde. Ribas recorreu a largo móvel em que se adivinhava complicada peça de arquivo e, sacando uma ficha, explicou que ali jaziam sumariados todos os informes que Evelina prestara em seu primeiro contacto com o Instituto. Em seguida, elucidou que, de posse da versão doada por ela mesma, acerca dos acontecimentos que lhe haviam atormentado a existência, ele, Ribas, providenciara a obtenção de conhecimentos complementares, alusivos à senda que ela escolhera trilhar. Viera, assim, a saber que Mancini efetivamente perdera o corpo físico pela ação delituosa de Serpa, que lograra ilaquear as autoridades humanas com um crime perfeito, no qual compusera com habilidade a tese de

suicídio. Vítima da desencarnação prematura, perambulara o rapaz, algum tempo, à feição de sonâmbulo, na paisagem terrena que lhe servira de fundo à tragédia, sendo, mais tarde, recolhido, ali mesmo, na cidade de regeneração e refazimento em que lhe pesquisavam agora a situação. Aí convalescera por alguns meses; no entanto, a paixão que Evelina lhe insuflara levianamente na alma lhe fixara nela e em torno dela os pensamentos. À vista disso, tornara-se arredio ao próprio reerguimento, acabando por fugir no rumo do tenebroso distrito da inteligência desenfreada, onde se relegara, nos últimos anos, a desvarios diversos. Vinculado à moça que lhe acalentara em vão tantos sonhos de ventura e de afeto, viciara-se no território da sombra, desconsiderando a própria respeitabilidade. Retornando àquele pouso de consolação e reequilíbrio, por efeito do reencontro com a criatura que lhe permanecia na mente por eleita inesquecível, fora agraciado com novo ensejo de auto-reeducação. A senhora Serpa e Ernesto assinalavam, atônitos, a exposição que primava por lógica irretorquível.

Às agoniadas inquirições da interessada, quanto ao comportamento que lhe competia adotar, Ribas aclarou: — Podemos dizer-lhe, minha irmã, que, por seus méritos indiscutíveis, benfeitores e amigos de que dispõe na Espiritualidade Maior rogaram aos agentes da Divina Justiça não lhe permitissem a desencarnação sem começar o processo de sua reabilitação espiritual na Terra mesmo... Assim é que, através da onda mental dos remorsos que lhe ficaram, à face do suposto suicídio de Mancini, você atraiu para o próprio claustro materno o Espírito sofredor de um irmão suicida, sentenciado pela própria consciência a experimentar a provação de um corpo frustrado, de modo a valorizar com mais respeito o divino empréstimo da existência física.

Como é fácil de ver, as angústias da maternidade malograda lhe foram extremamente úteis na Terra, por lhe haverem proporcionado ensejo a preciosas reparações. — Entretanto — mencionou Fantini —, informãmo-nos de que Mancini não caiu por si próprio e sim pela arma do rival. — Apesar disso — consertou Ribas —, não olvidemos que o moço empreendeu, antes, a lamentável tentativa, impulsionado pela ação da própria Evelina, dando a Serpa o molde do crime. Esboçando sorriso benevolente: — Estamos examinando, entre amigos, a lei de causa e efeito. Compreendamos que a justiça funciona em nós mesmos. — Mas... Fantini, admirado, iniciou debalde a tréplica vacilante. Ignorava como entretecer novas dúvidas, ante a conceituação racional que o mentor tranqüilamente patenteava. Foi o próprio Ribas quem retomou o fio das justificações. anotando: — Somos mecanicamente impelidos para pessoas e circunstâncias que se afinem conosco ou com os nossos problemas. Suscitando idéias de autodestruição na mente de um homem cujas atenções granjeara, Evelina transportou-se da irreflexão para o arrependimento, depois de verificar-lhe a derrocada moral numa empresa gorada de suicídio, procurada conscientemente. Apenas aí, coagida pela compunção, nossa irmã percebeu que agira em prejuízo do rapaz de quem obtivera integral confiança, lesando, em consequência, a si própria. Lastimando Mancini, deplorava a si mesma e,

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