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Capítulo 13 de 21
André Luíz — parte 11 de 19
E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
pelo outro que não lhe guarda na Terra a mesma altura de sentimento, aprimorando a obra do amor em outros aspectos, que não o da afetividade esponsalícia. A senhora Serpa mostrou o semblante iluminado por bonito sorriso e asseverou, segura de si: — Isso não me ocorrerá. Tenho hoje motivos para confiar em Caio tanto quanto confio em mim mesma. - Sua fé — volveu o Instrutor — é um retrato de sua sinceridade. Ernesto fitou demoradamente a companheira e admirou-lhe a ternura da alma boa e ingênua. Desde muito, passara a nutrir por ela entranhado carinho. Nunca a apanhara em qualquer deslize. Sempre compassiva, abnegada. Muitas vezes, surpreendia-se ligado a ela por encantadora atração. Sob que prisma a estimava? Filha, companheira, mãe, irmã? Não conseguiria dizer. Temendo o mergulho em mais longas divagações, ele, o bom amigo, chasqueou, no intuito claro de desviar o curso dos próprios pensamentos: — Instrutor Ribas, qual se verifica no caso de nossa irmã, também estou persuadido de que minha esposa espera por mim...
Entretanto, se isso não sucede?... — Se isso não ocorre — e o mentor frisou as palavras com paternal inflexão de bom-humor —, você, Fantini, desfrutará, sem dúvida, a possibilidade de auxiliá-la na condição de um amigo fraternal. — E, nessa hipótese, caber-me-ia o direito de eleger uma nova companheira na vida nova? — As leis humanas, tanto no plano terrestre quanto aqui, são princípios suscetíveis de alteração e, na essência, não afetam as Leis Divinas. Na moradia dos homens, não existe obrigatoriedade para o estado de viuvez. Conservam-se órfãos de companhia no lar aqueles corações que o desejam. Rompidos os compromissos do casamento com a morte do corpo, o homem ou a mulher permanecem sôzinhos, quando possuem motivos para isso. Natural aconteça aqui o mesmo, O homem ou a mulher desencarnados guardam insulamento ou não, conforme os propósitos íntimos que alimentem, entendendo-se, porém, que em qualquer posição dispomos de recursos para honorificar o trabalho da edificação do amor puro que acabará imperando, de maneira definitiva, em nossas relações uns com os outros.
Evelina, denotando preocupação no olhar, diligenciou colher maiores conhecimentos: — Instrutor amigo, o senhor conhece companheiros que não conseguiram consorciar-se aqui? — Eu sou um deles. — Alguma razão especial? — esmerilou Fantini. — Acontece que o amor conjugal, quando se exprime em bases do amor puro, continua vibrando no mesmo diapasão entre dois mundos, sem que a permuta de energias de um cônjuge para outro venha a sofrer solução de continuidade. Minha esposa e eu sempre fomos profundamente unidos. Bastávamo-nos na Terra um ao outro, em matéria de alimento afetivo. Sobre-vindo a minha desencarnação, percebi logo que ela e eu continuávamos em plena vinculação mútuá, qual se fôssemos partes integrantes de um circuito de forças. Na dedicação espiritual dela, colho meios de continuar em meu aprendizado do amor a todos, ocorrendo-lhe o mesmo.
— Ligação ideal!... — regozijou-se Evelina, extática. Patenteando a ansiedade de que se via presa, no sentido de se reintegrar na ternura do marido distante. comentou, reverente: — Instrutor, noto que há sempre reserva em nossos amigos mais experientes daqui, quando se diz algo sobre a possível desencarnação de pessoas queridas que deixamos na retaguarda... Chego a pensar que isso é assunto proibido entre nós, será mesmo assim? — Não tanto. À medida que se nos desenvolve a noção de responsabilidade, compreendemos a reencarnação como período de escola. Cada existência está supervisionada por deliberações superiores, muitas vezes insondáveis para nós. A interlocutora, denunciando aspirações íntimas, profundas, arriscou: — Caro amigo, suponhamos que eu venha a reencontrar o esposo mergulhado em saudades iguais às minhas, atormentado, triste. .. Não me será cabível, nem de leve, encorajá-lo na certeza de que seremos novamente felizes aqui, prometendo-lhe a ventura renovada para além da morte? Digo isso, porqüanto não lhe deixei filhos para entreter-lhe a coragem de sofrer, de esperar... — Fuja de refletir assim.
Não temos instrumentos para medir a fidelidade daqueles que amamos, e, ainda que seu marido estivesse agoniado, em tremendo desajuste, por motivo de sua ausência, não saberíamos se a desencarnação lhe traria o remédio adequado. Quem nos dirá que a mais longa demora dele, no corpo físico, não seria a providência desejável, a fim de que se lhe revele com mais segurança? Martelar-lhe na cabeça a ideia da morte significaria, provàvelmente, ajudá-lo a reduzir tempo na experiência material; e quem nos afirmará com certeza que ele se sentirá feliz, regressando à vida do espírito, por imposição nossa e não por determinação da natureza, sempre sábia, por refletir os desígnios do Eterno? — Oh! meu Deus! — e a senhora Serpa deixou escapar um suspiro de aflição — como agir em auxílio do coração que vive no meu? Ribas respondeu, afetuoso: — Em muitas ocasiões, quando dizemos que o coração de alguém pulsa em nós, seria mais justo declarar que o nosso coração é que pulsa nesse alguém...
E com inflexão mais carinhosa: — Dentro de breves dias, você e Fantini poderão viajar, de visita ao ninho doméstico. Evelina e o companheiro agradeceram, felizes. Doce alegria banhou-lhes a alma, de improviso, como se o sentimento se lhes deslocasse das brumas da saudade para brilhar ao sol da esperança, em novo alvorecer.
O retorno
Enfim, a volta. Ambos, Evelina e Fantini, manifestavam o contentamento de crianças em festa. A primeira vinda ao lar, após dois anos. Às despedidas, antes de se incorporarem à reduzida equipe de companheiros que tornariam ao domicílio terrestre em condições iguais às deles, recolheram de Ribas a recomendação: — Vocês representam nossa cidade, nossos costumes e princípios, portem-se na base do novo entendimento. Se precisarem de auxílio, comuniquem-se conosco pelo fio mental. Um abraço e os votos de felicidade para a viagem. Quando o veículo pousou rente à Via Anchieta (1), no ponto em que a estrada se bifurca, descerrando caminho para São Bernardo, o pequeno grupo dispersou-se. Cada excursionista era um anseio itinerante, cada qual um mundo vivo de saudades. O dirigente da caravana e responsável pela viatura marcou regresso para o dia seguinte. Que os viajantes se reunissem, ali mesmo, esgotado o prazo de vinte horas.
(1) Rodovia entre as cidades de Santos e São Paulo. — Nota do autor espiritual.
Nossos amigos respiraram, maravilhados, o vento brando que os saudava. Surpresos. Felizes. Custavam a crer estivessem na entrada de São Paulo. Embevecidos, contemplaram o céu lavado e imensamente azul do entardecer de maio. Em torno, rajadas de frio neles fixavam recordações de tempos idos. Caminhavam sob fascinante júbilo a lhes povoar o coração. Era, sim, a cidade para eles familiar, a terra que amavam... Inalavam sôfregamente o aroma das flores e sorriam para os ocupantes dos carros que, naquele fim de sábado, desciam para Santos. Evelina, que trazia a mente e o coração absorvidos pela imagem do esposo, em certo trecho do caminho perfilou-se diante de Ernesto, qual se buscasse nele um grande espelho, e indagou com ternura ingênua que opinião era a dele, na posição de homem, quanto à apresentação dela. Queria estar nas mesmas características de simplicidade e bom gosto, com que o marido estimava encontrá-la no refúgio doméstico. Sabia que a situação era outra.
Serpa não lhe identificaria a presença, do ponto de vista material, tanto quanto lograria vê-lo; no entanto, ouvira dizer que as pessoas saudosas enxergavam os amados distantes com os olhos da alma, qual se trouxessem um televisor no pensamento. Se Caio tivesse emoções e ideias concentrados nela, certamente lhe registraria os afagos, ainda que para ele tudo não passasse de simples memória. Ernesto riu-se ao ouvi-la e elogiou-lhe a perspicácia. Fitou-lhe o penteado e o rosto, pediu reajuste nas dobras do vestido e aprovou os sapatos, à feição de um pai, encorajando a filha para a exibição num baile de debutantes. Depois, acusou-a com graça, asseverando que não
lhe toava bem tão alta demonstração de coquetismo. A senhora justificou-se, assegurando-se convencida, quanto às preferências do esposo. Ambos, em suave tête-à-tête, já pisavam o bairro do Ipiranga, onde Evelina esperava encontrar o companheiro na mesma casa que lhe fora teatro à ventura. De chofre, eis que se lhe transfere a alegria para a inquietação. À medida que se avizinhava do ninho antigo, oprimia-se-lhe o peito. Mesclava-selhe o regozijo com imprevista angústia. E se Caio não estivesse na altura em que ela o situava, amoroso e fiel? A dúvida cravou-se-lhe no espírito, como estilete envenenado que lhe varasse as entranhas. — Ernesto, você tem alguma intuição, quanto ao que nos espera? Imagine você que, justamente agora, estou amedrontada, tenho as pernas bambas... — Emoção. — Que mais? Fantini deitou um olhar de funda gravidade para a companheira e glosou: — Evelina, você recorda nossas lições para Mancini? — Como não? Mas, que tem isso a ver com o nosso problema? — Meditemos. Por meses e meses, temos falado a Túlio, você de modo especial, relativamente às coisas da alma... Abnegação, compreensão, serenidade, paciência...
Ensinamentos dados e recapitulados, ilações e repetições... — Sim... — Você não admite que o Instrutor Ribas, com tantas explicações sobre amor e casamento, serviço e espiritualidade, para nós dois, não terá feito o mesmo, a nosso benefício? não acredita que ele, o dedicado amigo, conversando, às vezes de maneira exaustiva, não estaria sendo para nós um professor, enxergando longe? — É... é... — Estejamos preparados para mudanças... A senhora desconversou. Mudou de assunto. Asseverou-se receosa, algo fatigada. Se possível, aceitaria algum descanso. Não desejava acercar-se do marido com qualquer indício de mal-estar. Ernesto propôs alguns minutos de repouso nos jardins do Museu. (1) Rumaram para lá, acolhendo-se ao pé de fonte amiga, cujas águas pareciam guardar o poder de asserenar-lhes os pensamentos. Como que contagiado pelos temores da companheira, Fantini, de repente, acusou-se amuado. No exato instante em que se abeirava da mulher e da filha, esmorecia-lhe o entusiasmo que a romagem lhe causava. Ensimesmou-se. Evelina percebeu e passou a falar de alegria e esperança, encarecendo o mérito das ideias positivas.
Assinalava ele as frases de vigorosa confiança a se derramarem no verbo da moça que se lhe fizera irmã e amiga, incapaz de alhear-se da taciturnidade que o acometera de súbito. A senhora Serpa, discreta, silenciou e, por fim, declarou-se disposta ao trecho final da viagem. Cavalheiroso, Fantini prometeu assisti-la, em seu primeiro contacto com o lar. Que ela verificasse o ambiente doméstico. Se tudo lhe respondesse à expectativa otimista, viesse até ele que lhe aguardaria, nos arredores, o aviso conveniente e, então, deixá-la-ia com o esposo, até o dia imediato, enquanto que, ao mesmo tempo, se arrancaria para a Vila Mariana, onde contava rever a
família.
(1) Museu do Ipiranga, em São Paulo. Nota do autor espiritual.
Evelina concordou; não lhe aprazia ficar a sós, nem lhe prescindia do apoio. Seis horas da tarde. A moça não mais via o céu paulistano, nem o casario, nem os transeuntes. Coração aos pulos, aproximou-se do lar.’ Atravessou o pátio de acesso e tateou a porta de entrada que lhe facilitou a passagem. Algo lhe dizia no íntimo que Serpa estava em casa e seguiu à frente. Tremia, assustada. Inspecionou a peça em torno. A sala era a mesma, com pequenas alterações no mobiliário do seu tempo. Ao lado, o estreito escritório do esposo, entremostrando as cortinas abertas. Penetrou aí com a unção de quem avança, passo a passo, pelos recantos de um santuário. Os livros em ordem. De inopino, surgiu-lhe à observação, atalaiada por diminuto vaso de flores, uma foto de mulher. Vasculhou as paredes, buscando o retrato dela própria, segundo velhas lembranças, mas não viu nem sinal. Acusou-se apunhalada por impressões negativas. Turvou-se-lhe o raciocínio. Fora substituida, decerto.
Sentia a cólera prestes a explodir-se em crise violenta de lágrimas; no entanto, ganhou forças para rearticular nos próprios ouvidos as palavras do Instrutor: «portem-se na base do novo entendimento». Contrafeita, alcançou o interior, surpreendendo pequeno jardim de inverno, que ela mesma instalara junto à copa, e o quadro de amor com que não contava: Serpa e a jovem da fotografia que examinara momentos antes. Caio acariciava a destra da moça entre as mãos, num gesto de ternura que ela, Evelina, conhecia à saciedade. Entre revolta e pesar, ensaiou movimento de recuo. Terríveis calafrios lhe agitavam as fibras da alma, qual se estranha lipotimia a subjugasse de todo, anunciando-lhe nova morte. Quis correr e denunciar-se, ao mesmo tempo, gritar e afastar-se, para esconder a imensa dor no peito de Fantini, mas não pôde. Sem ser percebida pelos dois namorados, não teve outro remédio senão se acomodar em cadeira próxima, intentando refazer-se. Inquirições confraditórias lhe subiam à cabeça. Quem era a desconhecida? a mesma que lhe torturara o espírito, com os bilhetes endereçados a Serpa, adornados com beijos coloridos a carmim?
Caio protestara-lhe amor eterno, durante os últimos dias da sua permanência no lar e a que título rompera os votos que ela mantinha por relíquias do coração? a que laços novos ter-se-ia entregue o companheiro? estaria casado ou se conservava menos responsável, à maneira do homem que brinca com os sentimentos alheios, menosprezando a vida? que lhe reservava o futuro? Fitou ambos os circunstantes, francamente assombrada com a indiferença que revelavam diante dela. Pela primeira vez, depois da grande libertação, verificava que os sentidos físicos se enquadravam a limites rigidamente determinados, porqüanto Caio e a companheira, muitas vezes, pousavam nela o olhar sem que a vissem; era, no entanto, obrigada a enxergá-los e ouvi-los, como qualquer pessoa terrestre comum, desde que não se arredasse dali. A senhora Serpa agoniava-se. Apesar do anseio de omitir-se, desertar, a emoção como que lhe interceptava os movimentos. De alma ferida, notou que o marido dirigia à outra aqueles mesmos olhares
de carinho envolvente que lhe haviam pertencido. E mais. Reconheceu o fio de pérolas que lhe fora presente de noivado, oferecido por ele mesmo, enfeitando o colo da rival. Chorou, irritada. Evelina, no entanto, embora trouxesse os pensamentos conflagrados, não mais lograva desfazer-se da sutil vinculação com ensinamentos da cidade espiritual que passara a se lhe erguer em residência. Por isso mesmo, percebia-se analisada no aproveitamento das lições que aprendera ao contacto de Ribas e de outros amigos da Vida Maior. Lembrou-se de Túlio, a quem tão repetidamente ensinara o desapego afetivo, e admitiu-se em condições de egoísmo e inconformidade, talvez muito piores que as dele. Recorreu à prece, diligenciou humilhar-se, lutou contra si própria, concluindo que Caio desfrutava o direito de ser feliz como desejasse. Aos poucos, muito aos poucos, conseguiu acalmar-se, de algum modo, e começou a escutar o diálogo que se desdobrava, ativo, rente a ela. — Você, Vera — blasonava o advogado, risonho —, achou em mim um homem pacato e sincero, deve orgulhar-se disso. E como explica você o caso daquela dama indesejável no escritório? — Não me venha com ciúmes.
Um causídico não seleciona clientes à porta, sou um homem do povo e não posso negar-me. — Quer dizer que não tenho o direito de zelar por nossas relações. — Quem falou isso? — O telefonema que recebi dessa lambisgóia me deixou arrasada; o que ela me disse de você... — Se dermos atenção a tudo o que se comenta a nosso respeito, a vida seria impraticável. — Mas eu não estou agüentando mais. — Ora, ora, agüentando o quê? A jovem que Serpa designava por Vera caiu em pranto. Ele atraiu-a de encontro ao peito, sob os olhos espantados de Evelina, e sussurrou-lhe aos ouvidos, depois de beijá-la, várias vezes, na face: — Tolinha! A felicidade não é flor que se adube com lágrimas. Anime-se! sou seu e você é minha... E daí? — Se ao menos estivéssemos casados, se ao menos pudesse usar seu nome, saberia como proceder com essas mulheres que infernizam a nossa vida... — Bobagem!... Você exagera tudo, já disse que caso com você; não sou homem sem palavra... — Há quanto tempo espero! — E há quanto tempo, também eu, aguardo solução ao problema de sua casa?
Você não há de querer que eu viva carregando uma sogra louca!... — Minha mãe é uma infeliz, não podemos desampará-la... Já falei. Meta essa velha no hospício, que ela já aproveitou a vida dela, agora temos de viver a nossa. .. Hoje, iremos ao Guarujá, quero ver o negócio por mim mesmo. A jovem chorava copiosamente por resposta. Enquanto Serpa lhe acarinhava os cabelos, tentando consolá-la, Evelina cobrou ânimo e arrastouse para fora. Tinha sede da presença de Ernesto, ansiava retomar-lhe a companhia. Impossível demorar-se no lar que reconhecia haver perdido, para sempre. Balda de autocrítica, à face da superexcitação de que se via possuída, tão
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.