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Capítulo 4 de 21

André Luíz — parte 2 de 19

E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

força, com a maleabilidade das pessoas maduras, que sabem usar várias máscaras fisionômicas, para determinados efeitos psicológicos, e aditou: — Não conseguiu, porventura, esquecer o moço suicida, com apoio no confessionário? O seu diretor espiritual não lhe sossegou o coração sensível e afetuoso? — Repito que sempre encontrei na confissão de meus erros menores uma espécie de vacina moral contra erros maiores; entretanto, no caso em apreço, não obtive a paz que desejava. Admito que se não houvesse hesitado, tanto tempo, entre dois homens, teria evitado o desastre. Basta me lembre de Túlio, o infeliz, para que o quadro da morte dele se me reavive na lembrança e, com a lembrança, surja, de imediato, o complexo de culpa... — Não se agaste. A senhora está muito jovem. Como acontece à mão que, a pouco e pouco, se caleja no trabalho do campo, a sensibilidade também se enrijece com o sofrimento na vida. Certamente, se escaparmos, com êxito, no salto que pretendemos dar para a saúde, ainda veremos muitos suicídios, muitas decepções, muitas calamidades...

A senhora Serpa refletiu alguns momentos e, dando a impressão de quem se propunha ganhar ensejo para balsamizar feridas íntimas, indagou com intenção: — O senhor, que vem estudando as ciências da alma, acredita piamente que reencontraremos as pessoas queridas, depois da morte? Fantini estampou um gesto de complacência e divagou: — Não sei porque, mas, à frente de sua inquirição, veio-me à cabeça aquele pensamento do velho Shakespeare: Os infelizes não possuem outro medicamento que não seja a esperança.» Tenho boas razões para crer que nos reveremos uns aos outros, quando não mais estivermos neste mundo; todavia, compreendo que a precariedade do meu estado orgânico é o agente fixador de semelhante convicção. A senhora já notou que as ideias e as palavras são filhas das circunstâncias? Imagine se nos víssemos hoje em plenitude da força física, robustos e bem apessoados, num encontro social, num baile por exemplo...

Qualquer conceito, em torno dos assuntos que nos aproximam agora um do outro, seria imediatamente banido de nossas cogitações. — É verdade. — A moléstia aflitiva nos dá direito de entretecer novos recursos e novas interpretações, ao redor da vida e da morte, e, na esfera das novas conclusões que temos à frente, admito que a existência não acaba no túmulo. Estamos intimados a recordar aquela antiga ilação das novelas de amor, «o romance termina, mas a vida continua... » O envoltório de carne tombará consumido; todavia, o Espirito seguirá adiante, sempre adiante... — O senhor costuma pensar em alguém que estimaria achar na outra vida? Ele mostrou enigmático sorriso e zombeteou: — Penso em alguém que estimaria não achar. — Não consigo entender o trocadilho. Apesar disso, reconforta-me anotar a certeza com que me fala, acerca do futuro. — A senhora não pode e nem deve perder a confiança no porvir. Lembrese de que é, sobretudo, cristã, discípula de um Mestre que ressurgiu da campa, ao terceiro dia, depois da morte. A senhora Serpa não sorriu, O olhar divagou, além, nas nuvens róseas que refletiam o Sol já distante, reconhecendo-se talvez sacudida nas forças

profundas de sua fé por aquela inesperada observação. Findo o longo intervalo, voltou a fitar o interlocutor e preparou a despedida: — Bem, senhor Fantini, se houver outra vida, além desta, e se for a vontade de Deus que venhamos a sofrer, em breve, a grande mudança, creio que nos veremos de novo e seremos lá bons amigos... — Como não? se conseguir adivinhar o fim de meu corpo, conservarei firme o pensamento positivo do nosso reencontro. — Também eu. - Quando volta a São Paulo? — Amanhã pela manhã. — Tem ocasião marcada para o trabalho operatório? — Meu marido decidirá isso com o médico; no entanto, creio que, na semana vindoura, enfrentarei o problema. E o senhor? — Não estou certo. Questão de mais alguns poucos dias. Não desejo retardar a intervenção. Posso, acaso, saber o nome do seu hospital? Evelina meditou, meditou... E concluiu: — Senhor Fantini, somos ambos portadores da mesma doença, insidiosa e rara. Não será isso o bastante para aproximar-nos um do outro? Esperemos o futuro sem aflição. Se escaparmos do atoleiro, estou convencida de que Deus nos favorecerá com um novo encontro aqui na Terra mesmo... Se a morte vier, a nossa amizade, em outro mundo, ficará também subordinada aos desígnios da Providência. Ernesto achou graça e ambos regressaram ao hotel, passo a passo, em comovido silêncio.

Renovação

Evelina sômente voltou a pensar na presença confortadora de Ernesto, o amigo desconhecido, quando Dr. Caio Serpa, o esposo, a deixou naquele espaçoso apartamento de hospital, na véspera da cirurgia, no qual se via, agora, ruminando estranhas reflexões. Era por demais jovem e estava quase que absolutamente convencida, quanto à própria recuperação, para demorar-se em quaisquer vaticínios menos felizes. Entretanto, ali, a sós, aguardando a enfermeira, as alegações de Fantini lhe perpassavam o cérebro, escaldando-lhe a imaginação. Sim, meditava torturada, arrostaria grande risco. Talvez não regressasse à convivência dos seus... Se morresse, para onde iria? Quando menina, acreditava, de boa fé, na existência dos lugares predeterminados de felicidade ou sofrimento, sobre os quais a antiga teologia católica regulava a posição dos homens, para lá da morte. Agora, porém, com a ciência explorando as vastidões cósmicas, era bastante inteligente para perceber o tato com que o amadurecido confessor lhe falava das indispensáveis renovações que se impunham à esfera religiosa.

Aprendera com ele, generoso e culto amigo, a conservar, inalterável, a confiança em Deus, no divino apostolado de Jesus- Cristo e no ministério inefável dos santos; contudo, decidira colocar à parte, no rumo da necessária revisão, todas as afirmativas da autoridade humana sobre as coisas e causas da Providência Divina. A idéia da morte assomou-lhe à cabeça com mais força, mas repeliu-a. Queria a saúde, a euforia orgânica. Ansiava restaurar-se, viver. Deteve-se, de súbito, a esquadrinhar os problemas domésticos. Evidentemente, atravessava escabrosa fase nas relações conjugais; no entanto, tinha motivos para contar com feliz reajuste. Admitia-se em plena floração dos ideais feminis. Carecia, tão-só, de reequilíbrio físico. Recuperando-se, diligenciaria remover a outra. Transfiguraria a área afetiva e de tal modo se propunha aformoseà-la que o esposo, decerto, lhe tornaria ao carinho, sem que fôsse constrangida a usar azedume ou discussão. Além disso, reconhecia-se útil. Devia querer a vida, disputá-la a todo preço, sentir-se prestante, não apenas para os familiares, mas também para as criaturas menos felizes.

Poderia, sem dúvida, diminuir a penúria onde a penúria existisse... A lembrança, com respeito aos necessitados, sensibilizou-a... Quantos respirariam, ali mesmo, perto dela, isolados, uns dos outros, pelas fronteiras de alvenaria? como não pensara nisso antes? Gastara a existência na condição de satélite de três pessoas, o marido, a genitora, o padrasto... Porque não reaver as próprias forças, renovar-se, viver? Sim, recusaria todo pensamento, acerca dos fenômenos da morte, e concentrar-se-ia, com todo o vigor de que se sentia capaz, no propósito de retomar-se orgânicamente. Lera muitos psicólogos e conhecera com eles a importância dos impulsos mentais. Aspirava a sarar. Repetiria isso, tantas vezes quantas fôsse possível, com todos os seus potenciais de força emotiva, escolhendo as palavras carregadas de energia que lhe pudessem definir com mais segurança os estados de alma. Ah! — disse, pensando, de si para si — nesse sentido, oraria também!... Formulada essa idéia, esbarrou, de chofre, com a imagem de Jesus

Crucificado, a pender de parede próxima, e arrancou-se para ela. Contemplou o rosto sublime que o artista modelara com sentimento profundo e, cruzando as mãos sobre o peito, falou mais com a voz do coração do que com os lábios: — Senhor, compadece-te de mim!... Nisso, porém, ao fitar aquela cabeça coroada de espinhos e aqueles braços pregados ao lenho do sacrifício, pareceu-lhe que o Cristo estimava surgir na memória das criaturas naquela figura de dor para lembrar-lhes a fatalidade da morte. Fundo abalo moral convulsionou-lhe os nervos, não mais sabia se lhe era lícito optar entre viver ou morrer e, escondendo o rosto entre as mãos, ajoelhou-se, humilde, à frente da escultura delicada, junto da qual pranteou copiosamente. Alguém despertou-a, de manso: — Chorando porque, senhora? Diligente enfermeira vinha requisitá-la ao serviço pré-operatório. Evelina ergueu-se, enxugou as lágrimas, sorriu. — Desculpe-me. - Sou eu que a incomodo, senhora Serpa — rogou a jovem —, perdoe-me se lhe perturbo as orações; no entanto, urge aprestar-se. Além disso, o esposo aguarda ocasião para entrar.

A doente obedeceu, ausentando-se do quarto, por algum tempo, e retornando, logo após. O marido esperava-a, folheando jornais do dia. — Então — bisbilhotou ele, fingindo-se bem-humorado —, agora, o salão de beleza, amanhã, o retorno à saúde. A voz do Dr. Serpa evidenciava energia e brandura simultâneas. Advogado jovem, mas experimentado em relações públicas, exibia maneiras estudadas, conquanto simpáticas. Autêntico representante do tope social, não se lhe notava o menor desalinho. Justo, porém, dizer que o moço causídico se trancava no imo do ser, esforçando-se por manter oculta a feição enigmática da própria alma. Não estava ali, na estampa física, tal qual se mostrava por dentro. Não era tão-somente um homem natural, simplesmente um homem natural, em cujo caráter o verniz acadêmico não conseguia extinguir, de todo, os resíduos da animalidade, compreensíveis em todas as criaturas da Terra, ainda puramente naturais e humanas. Além disso, aos nossos olhos espirituais, patenteava sombrias inquietações. Depois das primeiras palavras, quentes de ternura, abeirou-se da esposa e osculou-lhe os cabelos.

Ela não dissimulou a própria alegria e conversaram em suave transbordamento afetivo. Evelina reafirmou com os lábios a certeza da recuperação próxima, enquanto ele dava noticias. Os sogros, em seu sítio no sul, esperavam boas novas da operação e lhes viriam ao encontro, oportunamente. Com certeza, não chegariam, de imediato, evitando alarme. Queriam dar à filha querida a convicção de que se achavam tranquilos, quanto ao tratamento em curso. E Caio desdobrava outros informes. Ouvira amigos médicos. Realizara interessantes estudos em torno da intervenção na supra-renal. Quanto ao caso dela, Evelina, o cirurgião estava otimista. Que lhes faltava agora, senão o êxito, com a bênção de Deus?

Regozijou-se a enferma, ao registrar-lhe a expressão «bênção de Deus. Algo de novo estaria surgindo naquele estimado ateu de trinta anos? — monologava no íntimo. Caio se lhe afigurava, ali, mais atencioso, diferente. Simples de coração, não percebia que ele disfarçava. Serpa emitia comunicações imaginárias. O médico da família, tanto quanto o cirurgião, nada garantiam além de uma operação exploratória, com reduzidas esperanças de êxito, O próprio cardiologista, devidamente consultado, quase que desaconselhava o tentame, e só não o fazia porque a moça avançava, a passos largos, para a morte. De que valeria obstar uma providência que talvez a salvasse? O marido conhecia as preocupações em pauta; contudo, fantasiava argumentos confortativos, mentia piedosamente, comentando os exames, complementados de avisos francos, sobre a gravidade da situação. O advogado pernoitou no próprio hospital, na condição de acompanhante da enferma. Auxíliou a serviçal da noite, na administração de tranquilizantes precursores da anestesia. Dispensou à doente carinhos e cuidados, qual se ela fôsse uma criança e ele o pai zeloso.

No dia imediato, porém, finda a cirurgia, foi convidado a entendimento com o médico operador e, pálido, colheu a sentença. Evelina, segundo os recursos da ciência humana, dispunha tão-somente de alguns dias mais. Que ele, o marido, tomasse as medidas que julgasse convenientes, a fim de que não lhe faltasse o conforto possível. O médico resumiu todas as suas impressões numa só frase: — Ela parece uma rosa totalmente carcomida por agentes malignos. Caio, embora o quisesse, nada mais ouviu das doutas observações expendidas sobre neoplasmas, focos secundários, metástases e tumores que reincidiam depois da ablação. Sentia-se petrificado. Lágrimas compridas penaram-lhe a face. Concluído o testemunho de solidariedade e ternura humanas com que foi amparado pelo cirurgião amigo, correu para junto da companheira prostrada. E durante dias e noites de paciência e ansiedade, foi-lhe o irmão e o pai, o tutor e o amigo. Satisfazendo-lhe os apelos, os sogros vieram consolar a filha nos dias últimos.

Dona Brígida, a genitora, e o Sr. Amâncio Terra, o padrasto, proprietários de sítio próspero, no sul paulista, compareceram desolados, buscando, no entanto, selecionar palavras de otimismo e sustando o choro. Embalada na rede do devotamento familiar, Evelina, aparentemente melhorada, voltou ao mundo doméstico, recolhendo mimos que, desde muito tempo, não recebia, concomitantemente com as crises periódicas de sufocação que a deixavam inerme. Apesar da posição melindrosa, acreditava nas opiniões lisonjeiras dos familiares e dos amigos. Aquilo passaria. Ninguém se forra às sequelas de uma operação, qual a que sofrera. Que ela confiasse, orasse com fé. Após duas semanas de calmaria e repiquetes, surgiram seis dias de contínuo bem-estar. Não obstante extremamente magra e abatida, transferiu-se do leito para a espreguiçadeira, alimentava-se quase que normalmente, conversava tranquila, obtinha o conforto da religião através da cortesia de um sacerdote abnegado e,

à noite, pedia ao padrasto alguns minutos de leitura alegre e amena. Ao entardecer do quinto dia de esperança, formulou uma solicitação inesperada. Não poderia Serpa levá-la ao passeio predileto dos tempos de noivado? — Morumbi à noite? — indagou a mãezinha, intrigada. Evelina justificou-se. Queria ver a cidade faiscante de luzes ao longe, os olhos tinham saudade do céu estrelado. Caio telefonou ao médico e o médico acedeu. Mais algum tempo, aflito por satisfazê-la, o marido arrancou o carro à garagem, para, logo após, tomá-la de encontro ao peito, qual se carregasse leve menina. Acomodou-a ao lado dele, prescindiu da companhia dos sogros, e partiram. A enferma seguia, encantada. Reviu as ruas repletas e, depois, a paisagem do Morumbi e arredores, no que ela possuía de mais natureza. Ao vê-la falar, entusiasmada, o esposo enterneceu-se. Como que a reencontrava na moldura de noiva querida, da noiva a quem amara desvairadamente, anos antes. Experimentou remorsos, recordando a infidelidade conjugal em que se mantinha. Quis suplicar-lhe perdão, confessarse, mas reconheceu que aquele não era o momento adequado. Freou o carro, contemplou-a.

Evelina parecia sutilizar-se, os olhos brilhavam aos toques do luar, movia-se a cabeça como que nimbada de luz... Caio tomou-a nos braços robustos, com a ansiedade de quem se propunha apoderar-se de um tesouro e defendê-lo... Num transporte irresistível de carinho, beijou-a e beijou-a, até que lhe sentiu o rosto frio molhado de lágrimas ardentes... Evelina chorava de ventura. Ao sentir-se liberta daqueles braços que adorava, deitou a cabeça ligeiramente para fora e deteve-se na visão do firmamento que se lhe figurava agora um campo gigantesco, ostentando flores de fogo e prata... Buscou a destra do companheiro, apertou-a demoradamente e indagou: — Caio, você acredita que nos encontraremos, depois da morte? Ele desconversou, ligou o motor, exortou-a a trocar de assunto, proibiu-a, em tom afetuoso, de reportar-se ao que nomeou como sendo coisas tristes, e regressaram. Caminho afora, a enferma lembrou-se do entendimento fácil com Ernesto Fantini, o improvisado amigo do balneário. Inexplicavelmente para ela mesma, tinha saudades daquela presença que lhe fora suave e grata. Sentia sede de permuta espiritual.

Aspirava a falar nos segredos da vida eterna e ouvir alguém, no mesmo tema e no mesmo diapasão. Naquele instante, porém, o esposo se lhe destacava na imaginação por estranho violino que não se lhe adaptava agora às fibras do arco. As emoções sublimes lhe esmoreciam no peito, à míngua de crescimento e repercussão. Preferiu, desse modo, escutar o marido, abençoá-lo, aprová-lo. Mais um dia sereno e, em seguida, Evelina amanheceu em crise. De angústia em angústia, com anestésicos de permeio, a jovem senhora Serpa atingiu a derradeira noite no mundo. Ante a mágoa profunda do esposo e dos pais, que tudo fizeram para retêla, Evelina, fatigada, cerrou os olhos do corpo físico, na suprema libertação, justamente quando as estrelas desmaiavam na antemanhã, sobre-rondando alvorada nova.

Reencontro

Evelina despertou num quarto espaçoso, com duas janelas deixando ver o céu. Emergia de um sono profundo, pensou. Diligenciou recordar-se, assentando contas da própria situação. Como teria entrado na amnésia de que estava tornando agora à tona da consciência? Desemperrou a custo os mecanismos da memória e passou a lembrar-se, vagarosamente... A princípio, indescritível pesadelo lhe conturbara o repouso começante. Sofrera, decerto, uma síncope inexplicável. Percebera-se movendo num mundo exótico de imagens que a faziam regredir na estrada das próprias reminiscências. Recapitulara, não sabia como, todas as fases de sua curta vida. Voltara no tempo. Reconstituira todos os dias já vividos, a ponto de rever o pai chegando morto ao lar, quando contava sômente dois anos de idade. Nesse filme que as energias ocultas da própria mente haviam exibido para ela, nos quadros mais íntimos do ser, ouvira, de novo, os gritos maternos e enxergava, à frente, os vizinhos espantados, sem compreender a tragédia que se lhe abatia sobre a casa... Depois, registrara a impressão de tremendo choque.

Algo como que se lhe desabotoara no cérebro e vira-se flutuar sobre o próprio corpo adormecido... Logo após, o sono invencível. De nada mais se apercebera. Quantas horas gastara no torpor imprevisto? Estaria regressando a si, vencido o colapso, por efeito de algum tratamento de exceção? Porque não via, ali, junto do leito, algum familiar que lhe propiciasse as necessárias explicações? Tentou sentar-se e o conseguiu, sem a menor dificuldade. Inspecionou o ambiente, concluindo que o pouso se lhe trocara. Inferiu das primeiras observações que, tombada em desmaio, fora reconduzida ao hospital e ocupava, agora, larga dependência, que o verde-claro tornava repousante. Em mesa próxima, viu rosas que lhe chamavam a atenção para o perfume. Cortinas tênues bailavam, de manso, aos ritmos do vento, que penetrava as venezianas diferentes, talhadas em substância semelhante ao cristal revestido de essência esmeraldina. Em tudo, simplicidade e previsão, conforto e leveza. Evelina bocejou, distendeu os braços e não se surpreendeu com qualquer dor. Recuperara-se enfim, refletiu alegre. Conhecia a presença da saúde e a testemunhava em si mesma. Nenhum sofrimento, nenhum estorvo.

Se algo experimentava de menos agradável, era precisamente um sinal de robustez orgânica: sentia fome. Onde o marido? onde os pais? Desejava gritar de felicidade, comunicando-lhes que sarara. Aspirava a dizerlhes que os sacrifícios efetuados por ela não haviam sido inúteis. No íntimo, agradecia a Deus a dádiva do próprio restabelecimento e ansiava estender a jubilosa gratidão aos seres queridos. Não mais lograva sopitar o coração embriagado de regozijo e, por isso,

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.