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Capítulo 21 de 21

André Luíz — parte 19 de 19

E a Vida Continua · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

que espiritualmente muito distante da formosa paisagem doméstica, a que se acolhia, para deter-se tão-só na alegria de ser útil, voltou-se para Ribas, com quem já tivera entendimentos anteriores, e notificou, tomada de apreço filial: — Meu pai, cumprirei a vontade de Deus, recebendo mais um filho, e aguardo a vossa proteção. Joaquim, meu esposo, está mais fraco, mais doente... Lavo e passo, trabalho quanto posso, mas ganho pouco... Quatro filhos pequenos!... Ignoro se já sabeis, mas nosso barraco não está resistindo às chuvas... Quando o vento atravessa as paredes rachadas, Joaquim piora, tosse muito!... Não estou a queixar-me, meu pai, mas peço o vosso auxílio!... — Oh! Mariana — respondeu o mentor, sensibilizado —, não tema! Deus não nos abandona! Seus filhinhos serão sustentados e, muito em breve, você e Joaquim estarão numa casa grande... — Confio em Deus e em vós!... Não sabia a devotada criatura que o Instrutor se reportava à próxima desencarnação do casal, quando, por merecimento genuíno, teriam os dois cônjuges novo domicílio na Vida Maior.

Mariana voltou, agora custodiada também por Evelina e Fantini, à rústica habitação que o vento castigava e, em retomando o corpo, o coração bateu-lhe descompassado, ante o júbilo que se lhe represava no peito, e acordou o marido: Joaquim!... Joaquim!... E, enquanto ele, estremunhado, articulava monossílabos: — No sonho, acabei de encontrar o velho que já vi outras vezes... Ele disse que vamos ter mais um filho!... — Que mais? — Disse que nós dois vamos ter uma casa grande... Ele riu-se e aditou, ignorando que abordava a realidade: — Ah! minha mulher!... Casa grande? só se for no outro mundo... Os visitantes desencarnados sorriram... Evelina, emocionada, compreendeu que Joaquim não se deteria muito tempo na Terra e, em prece ao Senhor, a rogar-lhe forças multiplicadas, prometeu a si mesma não repousar, enquanto não ligasse Mariana a Brígida, sua querida genitora, para que os derradeiros dias daquele pouso de sofrimento fôssem lenificados pelo sol da beneficência.

Transcorridos dois dias sobre o singular contacto, a enteada de Amâncio, amparada em Fantini e com permissão das autoridades superiores, sediou-se na mansão do padrasto e pôs-se a influenciar o coração materno, com vistas à realização esperada. Deu-lhe sonhos com o pequenino que lhe chegaria aos braços, povoou-lhe as reflexões com ideais de caridade e esperança, sugeriulhe leituras renovadoras, inspirou-lhe conversações com o marido, quanto ao futuro que Deus iluminaria com a presença de um filhinho adotivo e, pela primeira vez, na casa senhoril, apareceu o hábito regular da prece, porqüanto Brígida, ante a doce atuação da filha, conseguiu que o esposo lhe compartilhasse as orações, todas as noites, no preparo do sono, ao que Amâncio aquiesceu com bonomia e estranheza. Espantado, anotava ele o fervor da mulher, a inflamar-se de amor ao próximo, e, porque fôsse, de si mesmo, devotado à prática da solidariedade humana, encorajava-lhe os rasgos de altruísmo. Planeavam, planeavam...

Se Deus lhes enviasse um filhinho adotivo, tratá-lo-iam com todas as reservas de amor que conservavam no coração, procurariam analisar-lhe as inclinações para lhe propiciarem trabalho digno e, quando crescesse, realizariam um sonho de muito tempo: transfeririam residência para São Paulo, de vez que assim lograriam educá-lo com esmero... Solicitariam, pàra isso, a cooperação de Caio, o genro de outro tempo que se casara em segundas núpcias e que continuava amigo, conquanto lhes escrevesse apenas em ocasiões especiais... Se obtivessem um filhinho... e os projetos repontavam, sempre mais vivos e mais belos, daqueles dois corações amadurecidos na experiência. Quatro meses haviam transcorrido sobre a nova situação, quando, numa ensolarada manhã, em que os velhos cônjuges haviam palestrado com ênfase acerca de assistência às mães desvalidas, eis que Mariana, cuja residência se erguia a quatro quilômetros, trazida espiritualmente por Evelina, bateu à porta... Por solicitação de prestimosa servidora, Brígida veio atender. Enlaçada, de imediato, pela filha, a fazendeira ouviu a recém-chegada, com simpatia. Mariana implorava trabalho. E relacionou em voz triste alguns pedaços da própria história.

Engravidara-se de novo, embora já tivesse quatro filhinhos... Achava-se, porém, sem recursos, com o marido muito doente... Sem explicar-se, quanto ao motivo de tanta e tão súbita compaixão, a senhora Terra deu-lhe algum dinheiro e prometeu visitá-la em pessoa, naquele mesmo dia, logo que o esposo voltasse do serviço para o descanso caseiro. Evelina exultava de alegria e confiança. Amâncio não regateou atenções ao pedido da companheira e, ao crepúsculo, ei-los juntos na habitação paupérrima. Condoídos ambos, providenciaram a remoção da família em penúria para estreito mas confortável domicílio, na gleba que cultivavam. Qual se houvesse encontrado, por fim, todo o socorro a que mais aspirava, antes que o quinto filhinho viesse à luz, Joaquim demandou a Espiritualidade, louvando os benfeitores... Mariana, desde muito enfraquecida, adoeceu gravemente. Viúva, agora, apelou para a cooperação de familiares humildes e entregou-lhes os quatro órfãos na previsão da morte próxima...

Brígida, atônita, ante a crise que se agravava, a identificar-se cada vez mais ligada à pobre irmã em penúria, transferiu-a para a própria casa, onde Desidério, reencarnado, abriu, por fim, os olhos, de novo, para a existência terrestre. Na íntima convicção de que se houvera desencarregado de seu último e sagrado dever, Mariana colocou nos braços dos protetores a criancinha ansiosamente esperada e desencarnou cinco dias depois!... Benfeitores desencarnados acolheram a piedosa mãe, ao mesmo tempo que osculavam o pequenino... Misturavam-se ali, na mansão cercada de flores, o adeus e a chegada, a tristeza da morte e a alegria da vida!... A fazendeira chorava e ria, Amâncio meditava, tocado de emoções e idéias renovadoras... Ernesto e Evelina, em preces de jubilosa gratidão, perante a misericórdia da Providência, notavam, surpresos, que tanto para Mariana, no esquife, quanto para Desidério, no berço, enviava Deus a bênção de novo dia!...

À noite, pequena carruagem voadora, em forma de estrela irisada, depunha

Fantini e a companheira na cidade que lhes servia de residência. Aí chegados, demandaram o Instituto de Proteção Espiritual, em cujas dependências almas carinhosas e amigas atiravam-lhes flores. Lampadários inflamados de luz policrômica cercavam todos os edifícios, assinalando-lhes as filigranas de arquitetura a jorros de beleza. A casa festejava os dois obreiros que haviam sabido vencer, com devotamento e humildade, os tropeços iniciais do levantamento de bemaventurado futuro!... Rodeado de assessores, Ribas saudou-os no limiar e, tomando-os nos braços, como a filhos queridos, ergueu os olhos para o Alto e rogou, comovidamente: — Senhor Jesus, abençoa os teus servos que se consagram hoje um ao outro em sublime união!... ilumina-lhes, cada vez mais, os anseios transfigurados para o teu reino, através da abnegação com que souberam esquecer dificuldades e agravos para se deterem tão-sômente no auxílio aos companheiros de caminhada, ainda mesmo quando esses companheiros lhes apunhalassem os corações!... Ensina-lhes, oh!

Mestre, que a felicidade é uma obra de construção progressiva no tempo e que o matrimônio deve ser realizado, de novo, todos os dias, na intimidade do lar, de maneira que os nossos defeitos se extingam, nas fontes da tolerância recíproca, a fim de que as nossas almas encontrem a perfeita fusão, diante de ti, aos clarões do amor eterno!... Silenciou o Instrutor, enquanto Ernesto contemplava o rosto da companheira marejado de lágrimas... Do alto, choviam pequeninas grinaldas azuis, lembrando safiras que se eterizassem, radiosas, propiciando ao casal venturoso a certeza de que os Planos Superiores lhe endossavam os compromissos e de ângulos ocultos da paisagem vinham melodias de ternura, emoldurando palavras de confiança, em que a Sabedoria do Universo confirmava a perpetuidade da Misericórdia de Deus na vida que, em toda parte, continua sempre mais bela, plena de grandeza, a santificar-se pelo trabalho e a inundar-se de luz. - Fim

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.