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Capítulo 6 de 19

Índice — parte 5 de 8

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 2

Céu, então, nas mentes de tantos seguidores, é um lugar religioso onde a alma será perpetuamente 'mantida' em um êxtase de fervor piedoso, onde as constantes 'orações e ladainhas' serão a ordem do dia para a eternidade – e muita coisa mais, sempre nestas linhas de devoção. Se nos comportamos enquanto estivermos na terra e zermos o melhor que pudermos, então, quando nossa hora chegar, por mais amedrontador que seja, poderemos nos lançar sobre a misericórdia de Deus. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia. (NT: Mt, 5, 7) A interpretação disto é perfeitamente simples, diria o clérigo. Simplesmente signica que, de acordo com o que tivermos tido de misericórdia pelos outros na terra, assim receberemos misericórdia na terra e, assim também, Deus será misericordioso conosco. Então lemos que Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos (NT: Mt 5, 6). Alguns que praticam esta bem-aventurança preferem a palavra retidão no lugar de justiça. A retidão, neste caso, é da pessoa que busca alcançar aquela realização espiritual conhecida por piedade, uma palavra que não gostamos no mundo espiritual. Soa mais a santarrão, a uma crença de que a mera piedade trará felicidade incontável no mundo espiritual aos que a praticam na terra. Lembra, a alguns de nós do mundo espiritual, as muitas abominações que aconteceram em nome da 'religião'. No mundo espiritual, a piedade não necessita ser nomeada. Se por piedade queremos signicar reverenciar a Deus, então reverenciamos o Pai do universo sem a necessidade de ser bajulado por isso ou ameaçado por penalidades terríveis se não a cultivarmos. Nós a praticamos sem que se diga que é devido a Ele, que é Seu direito, e que Ele pede isso. Até o pensamento de que uma pessoa deveria desejar ser muito piedosa sobre a terra não é um pensamento verdadeiro. Poucas pessoas, se forem realmente honestas consigo mesmas, são plenas de piedade, nem querem ser. Conosco no mundo espiritual, Deus não é algum Ser terrível que deve ser apaziguado constantemente, presenteado, temido pelas punições temerárias com as quais Ele pode nos castigar instantaneamente. Sabemos que isto é uma concepção completamente fantástica do Maior Ser, cujo desejo é a felicidade de todas as criaturas viventes. Deus é encarado na terra como o Grande e Temível Juiz de toda a humanidade, mas um Juiz que é misericordioso, se merecermos a misericórdia e a pedirmos a Ele. Mas se a misericórdia fosse distribuída desta forma, que valor teria a justiça? Justiça, a justiça estrita – e esta é a única justiça que há no mundo espiritual – e a misericórdia não podem andar juntas nestes planos. A misericórdia pertence ao plano terreno, não ao mundo espiritual. De que forma, ou sob quais circunstâncias, poderíamos nós, no mundo espiritual, distribuir misericórdia a alguém? Não há jeito; nenhuma condição ou circunstância prevalece. A misericórdia implica em remissão de alguma penalidade, ou parte de alguma penalidade, em que se tenha incorrido ao cometermos alguma infração. Se alguma pessoa cometeu um delito contra nós, esta pessoa que a cometeu tem que se culpar pelas consequências. Nós podemos perdoar sinceramente, mas a penalidade ainda prevalecerá. É uma penalidade que o indivíduo imputou a si mesmo. Não foi Deus que fez isso. Não é uma infração contra Deus. Nenhuma pessoa na terra ou no mundo espiritual pode atingir o Ser Supremo. Nenhuma ideia ou pensamento, nenhum ato, mesmo maldoso ou bárbaro, nenhum vício, nenhuma obscenidade, nenhuma blasfêmia ou maldição pode chegar perto de milhares de milhares de milhas do Pai do universo. Qualquer um dos horrores espirituais catalogados que eu já enumerei pode aigir – e o fazem – um irmão mortal, mas a maioria deles aigirá os perpetradores. Eles não ofenderam a Deus; acarretaram desastres medonhos a eles mesmos. Incorreram contra as leis do mundo espiritual, entre as principais delas está a lei de causa e efeito. O Pai dos Céus mitigaria um centavo da punição merecida por infringir uma só das leis naturais? Se Ele assim o zesse, onde estaria a justiça irrestrita? A ideia de que o homem está constantemente ofendendo Deus é cruel. Aliada a isto, está a noção similarmente cruel de que Deus impinge punições não somente aos indivíduos, mas sobre toda uma nação ou continente. As guerras que os homens provocam sobre a terra seriam, e é assim que vocês aprendem com os teólogos, atos diretos inigidos por Deus para a punição pelo maldoso modo de viver que a nação beligerante, ou nações, adotou. Ambos contendores estão incluídos nesta condenação, por isso temos o espetáculo de duas ou mais nações atacando uma à outra, privando uma à outra de todo o modo normal de vida na terra, de acordo com o método, considerado como sendo de um Ser supremo e onisciente, de punir os erros da humanidade. Que paródia grosseira! E quando grandes tempestades, ou furacões, ou pestilências varrem a terra toda, deixando para trás o desastre, a desolação e a dor, estes também são o produto da mesma Mente innita. Outra caricatura grotesca! Deixem-me dizer uma vez mais: do Pai do universo não pode vir nada que não seja o bem, o mais elevado e grandioso. Guerras, tempestades e furacões não são a obra de Deus. A guerra é o trabalho do homem, e só do homem; revoluções meteorológicas são apenas obras de forças naturais. O Pai do universo não é um Juiz terrível 'que virá para julgar os vivos e os mortos'. Ele não julga ninguém. Aonde vêm, então, a misericórdia e de que forma? Onde poderemos, nós do mundo espiritual, mostrar misericórdia? Não podemos julgar; não podemos condenar; não podemos sentenciar. Perdão por alguma ofensa – sim, podemos dar, e o fazemos com sinceridade, do fundo do coração. Mas com todo o nosso perdão dado livremente, plenamente, nalmente, não podemos remover um só pequenino elemento dos efeitos que certas causas acarretaram, daquela forma, a ele que nos ofendeu. Podemos – e o fazemos – ajudar tal indivíduo com a expressão do fato de que perdoamos e esquecemos a falta de nosso irmão em toda a sua extensão. Podemos ajudá-lo a recuperar o nível espiritual que ele perdeu. O perdão não conseguiria nada por ele mesmo, além de estabelecer o tipo certo de relacionamento entre duas pessoas. Podemos desejar com todo o nosso coração que consiga melhorar sua posição infeliz; poderíamos estar cheios de misericórdia em direção aos que nos injuriaram. Este sentimento de misericórdia traduzir-se-ia numa simpatia profunda e em compreensão, mas só vai até aí. As penalidades auto-inigidas continuam as mesmas, não podemos diminuí-las, nem em uma pequena fração. A misericórdia é uma qualidade que só pode ser praticada na terra, pela qual merecemos um rico galardão ao demonstrarmos esta esplêndida qualidade durante nossas vidas terrenas. Mas assim que passamos para o mundo espiritual, a misericórdia cessa. A justiça toma o seu lugar, e a justiça é a ação da lei de causa e efeito. É a justiça que é incorruptível, infalível, imparcial, certa. Não há como fugir dela; ela é exercida sobre todas as pessoas de forma igual, de qualquer nação, credo, cor, idade ou sexo. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Muitos buscam por justiça na terra, e não conseguem obtê-la. Aqui no mundo espiritual eles a recebem fartamente. A medida é completa, até a borda, asseguro-lhes. Os que negaram fazer justiça na terra, eles, também, encontrarão justiça. Vão experimentar o que a justiça real pode ser. Jesus sabia disto quando pronunciou estas palavras. Ele via a injustiça em torno dele na parte do mundo onde ele viveu, e sabia onde a justiça estrita seria eventualmente encontrada – no mundo espiritual.

Mas ele também sabia que a misericórdia não vem de Deus, mas dos homens, para seus irmãos. São os teólogos que forjaram esta concepção singular do Pai. Foram eles que metamorfosearam o Grande Pai num juiz temível e duro. Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. (NT: Mt, 25, 41) Aqui no evangelho se supõe que temos as verdadeiras palavras com as quais Deus condenará o transgressor. No mundo espiritual, enche-nos de inexplicável horror contemplar a enormidade de pessoas ensinando autoritariamente a outros que o Pai de todos nós pode proferir palavras de condenação tão temerárias. E estas palavras são postas na boca de Jesus, embora deva se dizer que, nalmente, dúvidas honestas estão surgindo nas mentes de clérigos da terra, sobre se aquilo que Jesus tenha dito foi, verdadeiramente, pronunciado por ele. Certamente, esta sentença maldosa sobre o transgressor deve ser colocada na listas das proclamações de Jesus jamais fez. De fato, ele não pronunciaria esta completa mentira sem-vergonha. Não há nem um átomo de verdade nela. Nem há qualquer verdade em qualquer sentença do Novo Testamento onde esteja especicamente colocado que o homem deve ser condenado por toda a eternidade, não importa quão grande seja a enormidade de seus 'pecados'. Não há um terrível Dia do Julgamento, mesmo que digam que aconteça imediatamente após a passagem do homem ao mundo espiritual, ou até num momento posterior, não especicado. Eu já lhes disse isto antes. Correndo o risco de parecer cansativo, não posso deixar de repetir. O temor do Dia do Julgamento – ou de ser convocado diante da Alta Corte do Céu para ser julgado e sentenciado – qualquer uma destas, ou ambas, convicções ultrajantes foram uma praga sobre toda a terra por centenas de anos terrenos. Deixaram muitas e muitas almas apreciáveis no mais completo desespero. Muitos outros, com mentes sensíveis, passaram suas vidas terrenas num estado de terror espiritual, por causa do terrível dia que supostamente os espera ao fecharem os olhos para as vidas terrenas. É parte de meu trabalho no mundo espiritual estar por perto quando as pessoas estão fazendo sua entrada nestes planos como residentes, por isso falo de primeira mão quando lhes conto do terror abjeto que consome tantos pobres espíritos em seu momento de transição. Em vez do inverno de suas vidas terrenas passar a ser, gentilmente, a gloriosa, fresca e fragrante primavera de sua vida nova nestes planos, eles chegam aqui cheios de terror. Tais crenças são relíquias de puro paganismo, mas esta cção maldosa que foi mantida e disseminada pela Igreja, como forma de inspirar o medo nos corações de seus 'éis'. Como um anterior padre da Igreja, eu lamento, profunda e seriamente, ter sempre pronunciado estes ensinamentos errôneos. E há hostes iguais a mim. O homem foi brandido pelos teólogos como sendo algo muito malévolo; tanto reforço tem sido dado em cima de 'pecador', e o Pai do universo é alegado como sendo duro e terrível (sempre o terrível Grande Juiz), que não espanta que o homem na terra volte-se esperançoso, por mais aito que esteja, para a misericórdia que pode ser que lhe seja dada. O mais que o homem médio na terra pode fazer, é esperar pelo melhor, esperar que talvez as coisas possam não ser tão terríveis para ele no após-vida, quanto lhe disseram que seria. Ele não tem certeza disto, e a Igreja diria que ele não tem o direito de assumir nada, mas pode pensar em silêncio algumas vezes. E derivadas daqueles pensamentos silenciosos, ele poderá ter algumas percepções espirituais, poderá receber alguma pequena inspiração vinda de algum amigo invisível do mundo espiritual – e deixar os teólogos e os professores religiosos ociais, com seus incompreensíveis credos e dogmas, e sua presunção espiritual. Porque ninguém é mais presunçoso que o teólogo, o qual, sabendo pouco ou quase nada da verdade em assuntos espirituais, professa saber muito. O medo é a arma mais forte, a arma mais mortífera, no arsenal teológico. Por centenas de anos, a Ortodoxia brandiu esta arma para inspirar temor nos corações humanos – por causa das supostas penalidades que serão os seus infortúnios, a serem sofridos quando passarem para o 'próximo mundo' se tiverem se comportado mal na terra. A pior sentença de todas é dizer que alguém foi condenado ao inferno por toda a eternidade, onde o 'pecador' cará para sempre em um fogo estranho que queima sempre, mas não o consumirá. Mas não se pense que não há um dia de avaliação para toda a humanidade. Seguramente que há. E este momento se apresenta imediatamente, quando somos retirados do corpo físico pela 'morte'. Dali em diante, cada dia – para se usar termos terrenos – cada momento do dia torna-se nosso tempo de avaliação. Nós nos julgamos conforme adentramos no mundo espiritual. Não passamos por uma corte formal de inquisição sobre as nossas ações de nossa vida, mas a inevitável lei de causa e efeito, sendo sempre ativa, nos provê com a verdadeira essência da progressão. Nós nos provemos da causa; desta forma, colocamos em ação a lei. E a lei produz seus efeitos. É assim que progredimos no mundo espiritual. Não há ninguém que nos julgue, a não ser nós mesmos, e podemos ser duros e inexíveis a nós mesmos! Eu quero me fazer perfeitamente claro quando digo que o homem julga a si mesmo. Não estou falando gurativamente, nem estou sugerindo que quando cada alma chega no mundo espiritual, torna-se tão iluminada que imediatamente percebe, com total compreensão, todos os erros de sua vida. Se fosse assim, não demoraria e os reinos inferiores de treva e os planos de sombra cariam logo sem os seus habitantes. Eu quero dizer simplesmente isso: a lei de causa e efeito está em operação contínua em cada pessoa que nasceu na terra, desde o momento de seu primeiro suspiro esboçado naquele plano de existência, por toda a sua vida terrena e continua assim depois que passa para cá, ao mundo espiritual. A ação daquela lei é, com efeito, precisamente como se um processo completo de julgamento fosse colocado em movimento sob a presidência de um indivíduo. Isto é exatamente o que acontece, sendo que o indivíduo que preside somos nós mesmos. Vamos considerar uma simples analogia. Se escolhêssemos voluntariamente enar nossas mãos numa chama ardente, sofreríamos a agonia mais cruciante por causa de nossos dedos queimados. Poderíamos culpar uma só alma por nossa ação imprudente? Certamente que não, pois o que zemos, zemos por nosso livre arbítrio. Estávamos cônscios de que era um ato louco, mas persistimos em fazê-lo. Poderíamos culpar o fogo por nos queimar? Novamente, certamente que não, já que é da natureza do fogo que ele queime, e é simplesmente a lei de causa e efeito em ação. Minha analogia é bastante elementar, mas tem sua aplicação direta, porque uma vida esbanjada, uma vida vivida na terra em uma série de transgressões, terá o mesmo efeito sobre nós – um efeito que será plenamente revelado quando chegarmos no plano espiritual – como se tivéssemos posto nossas mãos nas chamas da fogueira. Vemos o que zemos, vemos os resultados do que zemos.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.