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Capítulo 4 de 19

Índice — parte 3 de 8

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 2

Eu lhes pediria que tirassem de suas mentes, pelo menos por uns momentos, mas melhor seria que fosse por todo o tempo, as doutrinas e credos que já possuem e que venham comigo numa agradável jornada, onde exploraremos algumas partes e passagens do Novo Testamento. Não tentaremos nenhuma nova interpretação. Meramente, tomaremos algumas passagens dos evangelhos e veremos como se comparam com a verdade que existe no mundo espiritual. 'O que é isso?', posso ouvir alguém declarar. 'Você está sugerindo que Jesus de Nazaré não ensinou a verdade?' Muito enfaticamente, não estou sugerindo tal coisa. Ele falou a verdade absoluta, mas aqueles que humildemente professaram ser seus seguidores nos anos posteriores zeram justamente o oposto. O que foi colocado nos quatro evangelhos é apenas uma fração mínima do grande corpo de ensinamentos que originalmente foram transmitidos. Foram passados imprecisamente; não eram – e não são – a palavra inspirada de Deus. Eles foram mal traduzidos, mal interpretados, sofreram interpolações e distorções, e foram falsicados até que parecesse notável se um vestígio da verdade tivesse sobrado. Deste caos, levantou-se uma variedade imensa de dogmas e práticas ritualísticas que não tem suporte na progressão espiritual de uma só alma. E o centro de toda esta distorção está Jesus de Nazaré que, na primeira instância, trouxe a verdade, e que, pela atuação daquele catálogo de acidentes que enumerei que aconteceram às escrituras, agora se acha elevado à posição do próprio Deus. A Jesus, em virtude de sua posição endeusada, são atribuídas as funções e atributos mais exorbitantemente impossíveis. Sua vida na terra é quase um dos maiores 'mistérios' da religião Cristã, porque ele é o próprio Deus que veio à terra para viver como homem. Toda a doutrina da encarnação é uma das invenções mais fantásticas dos teólogos dos séculos passados na terra – para se pegar apenas um exemplo, de muitos, sobre o que a mente humana pode construir de mistérios estranhos concernentes ao mundo do espírito onde, na verdade, não existem mistérios. As leis que governam o mundo espiritual não são leis complexas que ninguém pode entender. Há muitas coisas na vida espiritual que ainda não compreendemos ainda. Assim como há coisas na terra que ainda não podem ser entendidas. Mas da mesma forma que vocês têm grandes inteligências na terra que podem e vão resolver tais mistérios, também no mundo espiritual há inteligências ainda maiores que podem – e vão – responder aos nossos enigmas. No momento, nosso estado de evolução mental não avançou o suciente para sermos capazes de entender algumas explicações que deverão ser dadas a nós. Mas em todos os assuntos podemos ver plenamente a razão para alguma lei, ou verdade, ou o que seja. Não nos oferecem uma mistura de palavras que, coletivamente, não tenham nenhum grão de signicado, só para ser explicado que é um 'mistério', ou alguma coisa que está sob a Divina Providência e que não devemos saber. Quando chegarmos a discutir o Novo Testamento, veremos que uma grande parte do que está ali contido não tem nenhum sentido quando visto à luz de nosso conhecimento do mundo espiritual e da vida do espírito em geral. Não nos cabe ver o que foi deixado nos documentos originais, ou se estamos considerando uma má tradução. Uma referência aos originais não nos levaria nada adiante. Ao transmitirem estes registros, os escritores simplesmente preencheram os hiatos que possam ter ocorrido em seus trabalhos com pensamentos e ideias próprios. Algumas destas interpolações – de fato, uma grande parte delas – são aclamadas como declarações de Jesus. Agora, no mundo espiritual sabemos positivamente se algum pronunciamento em particular - contanto que faça sentido – pode ser de autoria de Jesus, porque sabemos que ele estava sob uma guarda extremamente cuidadosa do mundo espiritual que não lhe permitiria erros na transmissão de seus ensinos espirituais. A não-verdade não é de Jesus, mas de seus cronistas e subsequentes tradutores. Acontece, então, que quando tentamos dar um signicado claro ao que obviamente soa como irracional da forma que está, vemos que o sentido original foi tão alterado em muitos casos que as palavras, em seu uso diário e comum, quase pararam de ter qualquer signicado. Teólogos tornaram-se adeptos em torcer as palavras para além de todo o reconhecimento de seu signicado. Com a adoção de tais práticas, não há limite ao número de signicados e interpretações que podem ser outorgados a qualquer sequência simples de palavras. Pareceria que um impedimento surge da crença de que as Escrituras são a palavra inspirada de Deus. Portanto, segue-se que, apesar de sentirmos que um texto está errado daquela forma, se pusermos as palavras em seu signicado correto, deveria haver uma interpretação correta se alguém pudesse descobrir qual era. Isto os teólogos zeram, descarada e presunçosamente. Eu digo 'presunçosamente' porque, em muitos exemplos, eles dizem que conhecem e declamam a precisa 'vontade de Deus'. O que talvez cause um desvio maior da verdade é o trabalho dos interpoladores que aparece em todos os quatro evangelhos. Quando aqueles de nós que têm algum conhecimento dos evangelhos chega no mundo espiritual, é aí que podemos ver quanto está em completa e total contradição com o que era rigorosamente sustentado por nós quando encarnados. Esta revelação pode ser um choque para alguns de nós. É um choque, entretanto, que podemos logo superar! Um conhecimento das verdades espirituais e da vida que vivemos aqui nestes reinos são sucientes para logo denir claramente o que é uma declaração precisa de um fato sem controvérsias que aparece no evangelho, e o que é pura cção. As desventuras que as Escrituras sofreram nas mãos dos registradores, transcritores e tradutores deram campo para um imenso grupo de teólogos que se esforçaram ativamente em dar sentido espiritual ao que está completamente sem sentido. Ocorreram controvérsias onde, em alguns casos, as mentes aguçadas perceberam a verdade, proclamaram-na, foram marcados como hereges por seus irmãos de religião, foram condenados e, nalmente, foram cerimoniosamente privados de suas vidas terrenas. Tal estrutura vasta de mistério e obscurantismo tem sido construída em torno das Escrituras com a interpretação fantástica deles, para prover a terra de tantas práticas ritualísticas e cerimônias, e também de crenças obscuras e dogmas, tudo que, como ensinam à terra, é necessário coletiva ou individualmente para a 'salvação' da alma. Em vez de fazer do mundo espiritual e suas leis, e o processo de chegar a ele, um tema de fatos claros e sensíveis para serem entendidos da mesma forma sensível pela qual vocês entendem suas funções ordinárias na terra, os professores espirituais da terra circunscreveram todo o assunto com tantos enigmas e involuções, que a religião veio a se tornar uma parte separada da vida na terra.

O próprio ato de 'morrer' é a operação de uma lei simples e natural. Através de sua operação, o homem se livra de seu corpo físico, que serviu a ele em sua vida na terra. Ele então se encontra no mundo espiritual, para ser residente por todo o tempo. É a exteriorização normal e natural da vida terrena. É inevitável para todos, sem exceção, de alto grau ou baixo. Nunca se quis, na distribuição que providenciou todo o esquema da vida no plano terrestre e no mundo espiritual, que o mundo espiritual pudesse ser visto pelos encarnados como um destino desconhecido, temerário e assustador, para o qual todos na terra são enviados, e de onde ninguém jamais retornou, ou retornará, para contar o que lhe aconteceu depois que ele deixou a terra. O mundo espiritual foi envolvido num silêncio mortal, por essa razão é um silêncio que deve ser mantido para sempre. É pequena a surpresa que tantos moradores da terra quem terricados diante da perspectiva de deixá-la em seu passamento. No meio tempo, para tentarem aliviar este medo, as Igrejas dão voz a proclamações inexplicáveis, exortando seus seguidores a terem 'fé' e lançarem-se à misericórdia de Deus. E o grande livro que deveria ser um tesouro dos fatos concernentes à vida nos dois mundos, o seu e o meu, tem sido maltratado por aqueles que clamaram ser os seus guardiões, por oferecerem tão pouca luz sobre os temas que são tão importantes para todas as pessoas. O que acabamos de expor são uma ou duas observações que achei ser oportuno fazer, antes de tomarmos as considerações sobre algumas passagens do Novo Testamento. A estes reparos eu acrescentaria que não seguiremos um curso direto, por assim dizer, mas consideraremos as passagens como lidando com algum fato particular da vida espiritual ou com as verdades espirituais em geral. Uma vez mais, eu diria que aqui não estamos ligados ao que pode ou não aparecer nos documentos originais, ou em outros de épocas antigas, mas somente no que aparece nos livros impressos no presente momento de seu tempo. Qualquer coisa que os teólogos possam saber do original é de pouco ou nenhum interesse ao homem ordinário. Ele quer fatos claros em tal caso, fatos que sejam rapidamente acessíveis, e, ainda mais, fatos que estejam expostos em termos que ele possa entender facilmente, não em palavras que declaram uma coisa, mas que, por vias tortuosas dos teólogos, fazem signicar exatamente o oposto. No capítulo em que está colocado o famoso Sermão da Montanha, vemos que o sermão abre com uma série de frases, cada uma iniciando com a palavra bem-aventurados, e que são conhecidas como as bem-aventuranças. Vamos examinar juntos uma delas: Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados (Mateus, 5; Lucas, 6). Como? Onde está a bênção? Incalculáveis milhões de pessoas na terra passaram pela esmagadora experiência da perda. Aos que a experimentaram, pode ser esmagador. O ente querido se foi, a voz que era tão conhecida silenciou, e, aparentemente, silenciou para sempre. Nada pode preencher o vazio desolador que é causado pela partida daquela alma querida para um destino incerto. Esta é uma bênção duvidosa, para se dizer o mínimo, que dá muita tristeza e desolação para se pedir para alguém. Ou o conforto é tão sublime, tão confortante para a mente perturbada, uma experiência espiritual de tal beleza que seria bom perdermos algum amigo querido meramente para o experimentarmos? Isto parece sem sentido demais para merecer um só momento de reexão séria. Perguntaria novamente: onde está o conforto? O conforto oferecido pela 'fé' em algumas religiões, talvez? Em alguns casos, é costume, onde os pranteadores têm uma mente simples, dizerem que foi a vontade de Deus, que foi Ele que levou o seu ente querido. Mas, mesmo assim, eles não entendem por que Deus o levaria, por qual razão, especialmente se foi por acidente ou doença que houve o corte em idade tenra de sua vida terrestre. Então, aquela pessoa que se confrontou com a perda gostaria de ver, durante o seu pranto, onde está a bênção e onde começa o conforto, pois ele diria a você seriamente, da profundeza de sua alma, que ele não sente nem a bênção nem o conforto – e é conforto o que ele precisa urgentemente naquele momento de desconsolo. Os teólogos encontrarão muita coisa naquelas simples palavras, bem-aventurados são os que choram, porque serão confortados, mas elas serão palavras muito vazias, já que não conseguem responder as questões concernentes a elas e de onde se esperam as bênçãos e o conforto. Posso falar por experiência própria, de quando estive na terra. Quando eu estava na presença de alguma alma angustiada pela perda, as palavras de conforto que eu podia dar eram poucas e soavam ocas. De fato, o que havia de grande profundidade no conhecimento teológico, por assim dizer, que eu pudesse oferecer a esta alma com uma dor tão grande? Que fato real eu podia apresentar? Aquele sofredor entristecido queria saber daquilo que eu era impotente para responder baseado nos 'ensinamentos' da Igreja. O melhor que eu podia fazer em incontáveis ocasiões era fortalecer o amigo em sua 'fé'; oferecer a esperança de que suas orações, somadas à intercessão da Igreja, pudessem alcançar o propósito, e que aquele que partiu casse completamente livre de suas dores no purgatório – e assim por diante -, e muito mais, em cima de mesma linha estéril. Sempre havia um sentimento do silêncio da tumba. Mas era – e é – um silêncio que é imposto pelas pessoas da terra que encaram o simples pensamento da morte do corpo físico como coisa mórbida. Dizer lá do púlpito, ou do santuário, bem-aventurados são os que choram, porque serão consolados para uma congregação que inclui um entristecido que está necessitado de conforto, mas não pode obtê-lo, é dar uma demonstração pública de que há alguma coisa fundamentalmente errada em algum lugar. Foi sugerido por um teólogo da Igreja que esta pessoa abençoada é aquela que 'chora' pelos seus 'pecados'. Poderia haver alguma paródia maior que esta, uma distorção mais selvagem, uma corrupção pior de uma declaração clara do fato de que alguém que chora vai ser confortado? Aqui, bem no começo de um dos livros mais espalhados pela terra, nos capítulos iniciais, está um indício, como alguém diria, de todo o trabalho. O que é a morte? É nada. Mas milhares de milhares de pessoas na terra, vez ou outra, chorarão a perda de seus amigos ou familiares, e assim a dor da perda estará sobre muitos que não encontram a razão, que não vêem um propósito razoável naquela dor – dor tão esmagadora – que os que choram estão passando. Muitas almas exaustas perguntaram 'Por que Deus permitiu isto?' Elas têm uma baixa estimativa do que lhes foi ensinado a crer quanto ao que seja a Divina Providência. A providência, neste caso, está irremediavelmente ausente. Mesmo se, numa última esperança, recorressem ao Novo Testamento, encontrariam palavras que não conseguiriam entender ou, entendendo o seu signicado pleno, cariam imaginando onde encontrariam o cumprimento delas. Lêem que serão confortados, mas meramente ler as palavras e acreditar em alguma experiência espiritual ilusória para aliviar a sua dor tem pouco ou quase nenhum valor em tais casos. A intensidade da dor encobrirá todas as emoções e servirá apenas para agravar a dor pela desesperança de obter um alívio.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.