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Capítulo 10 de 19

Vi. A Oração Do Senhor — parte 1 de 10

A Vida nos Mundos Invisíveis – Volume 2

Momentos atrás eu me referi às orações que são tão familiares, que podem ser recitadas de memória e sem qualquer esforço de vontade, deixando a mente para pensar naquilo que gosta. De todas estas orações, estou inclinado a acreditar que a Oração do Senhor é a mais pronunciada sob estas condições. Foi muito reivindicado que seja uma das mais perfeitas das orações, não somente porque foi dada pelo próprio Jesus, mas porque tem muito conteúdo no âmbito de tão poucas palavras. Mas qualquer força que a oração tenha, ela é completamente anulada pelo seu recitar impensado costumeiro. Parece haver alguma coisa agregada à Oração do Senhor, nas mentes de milhares de pessoas, alguma espécie de poder talismânico. Ela usualmente tem lugar na maioria dos recitais organizados de oração, aparentemente em virtude de algum direito consagrado pelo uso, como se a ecácia de qualquer serviço de igreja ou devoções particulares casse muito prejudicada se ela fosse omitida. Agora, o fato de ser tão conhecida na terra que pode ser recitada de cor é também a medida – ou pelo menos uma medida – de sua inecácia, por razões que já vimos, isto é, a falta de concentração mental sobre o que está sendo dito. Isto é fatal a toda e qualquer oração, desde a mais sublime invocação, à mais simples. A mente deve estar focada naquilo que está sendo dito; a pessoa que está orando deve saber e entender exatamente o que está dizendo, para que o entendimento e o conhecimento dêem suciente força diretiva às suas palavras e pensamentos. É realmente surpreendente, como vemos as coisas daqui do mundo espiritual, como as pessoas imaginam ternamente que a pura repetição das palavras como as que estão contidas, por exemplo, na Oração do Senhor, basta para atingir os propósitos. É esta gente que acredita que esta oração em particular (e outras parecidas) tem em si algum poder mágico. Elas podem pensar que, por ser extraída das Escrituras, terá alguma propriedade adicional que nenhuma oração redigida por uma pessoa comum poderia ter. Assim é que esta oração foi elevada à primeira posição de todas as invocações expostas. Vamos, então, observar a Oração do Senhor do ponto de vista do mundo espiritual. Primeiramente, eu diria que até onde vai a minha experiência sobre estes reinos, ela é uma oração que nunca fazemos. A razão principal para isto é que o sentimento contido nela não se aplica a nós aqui. Outra razão é que nós raramente, ou nunca, fazemos uso de orações pré-escritas ou estereotipadas. Antes que sigamos adiante, devo deixar claro que qualquer um pode ter sido o autor desta oração; Jesus, com o seu grande conhecimento espiritual, não foi. Presume-se que Jesus sugeriu aos seus ouvintes que eles deveriam orar 'desta maneira' (NT: Mt, 6, 9), não necessariamente usando as palavras que ele usou, mas o modo que ele usou para exemplicar. A primeira característica que notamos é a concisão. A seguinte é que a abertura é destituída da adulação excessiva e, talvez, insincera ao Pai do Céu, endereçada especicamente a Ele. Eu já lhes falei a respeito disto, e aqui nesta oração temos uma abertura ideal. Pode-se pensar e crer seriamente que Deus realmente teria prazer em ouvir a recitação de uma longa lista de Suas supostas qualidades superlativas? Digo supostas qualidades porque muito do que é atribuído ao Grande Pai é originado numa concepção totalmente errônea sobre Ele. Os preâmbulos adjetivados da maioria das orações da terra são apenas a sobrevivência do paganismo, quando então as pessoas idolatravam deuses de variadas descrições e temperamentos oscilantes. O 'el' daqueles dias remotos atribuía muitas coisas às suas deidades; infortúnios pessoais e nacionais, tormentas e outros distúrbios meteorológicos de quaisquer naturezas, tudo era atribuído à ira dos deuses. Tornava-se vitalmente necessário, portanto, dirigir-se às deidades em termos que eles consideravam que seriam melhores para agradá-las, desta forma levando-os ao bom humor e aplacando-os de forma geral. Eles tinham a ilusão de que o que um deus mais gosta de ouvir é a récita de suas próprias qualidades. Uma vez que um relacionamento agradável que assim estabelecido, o objetivo real da oração poderia vir em seguida. Esta relíquia do paganismo ainda reside nas mentes de grande parte dos povos na terra, e mais ainda entre os Ortodoxos e seus expoentes. Os redatores das orações seguiram estas tradições. A Oração do Senhor, então, começa com o breve santicado seja o Vosso nome. Mesmo isto não é essencial. Poderia facilmente ser omitido de qualquer oração, sem que se perca o valor dela de qualquer forma. Venha a nós o Vosso reino é uma frase que não signica nada nas mentes da maioria das pessoas. Dizem isto porque está incluído na oração, e por esta razão seu valor está no mesmo grau de tudo o mais, que é mera teologia. Os clérigos ensinam que todas estas palavras são a expressão da esperança de que todos os homens venham a conhecer Deus, e que o reino espiritual de Deus possa ser espalhado por toda a terra. O vazio de toda esta 'interpretação' revela-se nestes termos. Os teólogos contestarão dizendo que a universalidade do reino de Deus só pode ser atingida através da expansão da religião Cristã. Esta então se torna o molde do conhecimento espiritual e ensinamentos espirituais pelos quais toda a terra deverá ser regida, e pelos quais os problemas religiosos e seculares de sua população serão conduzidos. A vida que se segue depois da 'morte' será uma vida Cristã, para ser vivida em toda a perfeição do pensamento e conhecimento religioso verdadeiros e obtidos através da religião Cristã. Cogita-se, claro sobre as dúvidas concernentes ao destino dos 'pagãos', os 'não-batizados', e, sem dúvida, os que praticam a comunicação com o mundo espiritual. Estes últimos são frequentemente encarados como fora de qualquer esperança! Como os clérigos iriam saber – a menos que se dessem ao trabalho de averiguar – que o mundo espiritual não é exclusivamente Cristão; que seus habitantes estão ali, neste ou naquele reino, indiferentemente de terem sido Cristãos ou não; que o fato de serem Cristãos ou não é coisa que nunca lhes foi perguntado, nem mesmo pesquisado; que se eram Cristãos, ou não, não fez a menor diferença para o seu status espiritual e para as boas vindas que receberam aqui nestes reinos, nem fez a menor diferença no prospecto ou nos seus meios de atingir a evolução e a progressão espiritual? Como as pessoas iriam saber, especialmente os professores ortodoxos da terra, se nunca se preocuparam em descobrir o que o mundo espiritual contém, nestes reinos de luz, tanto nos mais elevados quanto nos mais baixos planos, indivíduos que, coletivamente, sustentaram todas nuances de pensamento não-Cristão quando estavam encarnadas? Orar, então, para que a religião Cristã possa ser expandida por toda a face da terra não é necessariamente boa coisa, porque a Cristandade ortodoxa incorpora nela muito de falso. Isto agregará e sustentará modos de vida que são inquestionavelmente errados, conforme observamos as coisas destes reinos.

O registro histórico da Cristandade organizada não é bom. A lista de pessoas que tiveram suas vidas terrenas violentamente cortadas em nome da Cristandade é horrível. Há raras denominações religiosas na terra que na clamam sua lista de 'mártires da fé', cujas mortes foram cercadas por seitas oponentes. O 'reino de Deus' não inclui ensinamentos religiosos acompanhados pela força; ele não inclui perseguição religiosa; ele não encara o uso da palavra herético; não inclui, de fato, muito do que está nas mentes dos clérigos quando esperam pela chegada deste reino. Os doutores da Igreja sempre acreditaram que o reino de Deus, quando estiver plenamente estabelecido, testemunhará a completa subversão de Satã, e assim o pecado será banido da terra. Crenças como estas são infantilmente cruas. Confesso francamente que um dia acreditei nestas coisas, quando estive encarnado, e as ensinei. Mas estes dias passaram, e estou feliz por residir no mundo espiritual de onde posso ver o valor preciso de muita coisa que abracei como crença religiosa, antes de vir morar nestes planos. 'Muito bem, então, ' ouço objetarem. 'Conte-nos como é precisamente o reino de Deus'. Agora vocês me pedem para explicar algo que foi inventado pela terra. Seriam vocês que deveriam me explicar o que isto signica. Além disto, eu lhes transmiti conforme a interpretação dos clérigos, não há nada que possa ser acrescentado que possa fazer diferença em exposições futuras. Mais tarde, vou sugerir-lhes algo que, talvez, lance alguma luz sobre o relacionamento de nossos dois mundos, o seu e o meu, e que deve ser considerado, se assim o quiserem encarar, como substancial para as palavras Venha a nós o Vosso reino. Seja feita a Vossa vontade. Nesta breve frase está expressa a verdadeira essência de toda a oração, porque é ensinado e crido na terra que as orações de alguém serão respondidas ou carão sem resposta, de acordo com a vontade de Deus. Verdadeiramente, a vontade de Deus é apresentada a cada ocasião em que algum 'mistério' religioso se apresente. Uma oração não foi respondida, então é porque a vontade de Deus ordenou para que ela não fosse respondida. Não somos merecedores de que ela tenha resposta – isso é o que ocialmente lhes será dito por um ministro da igreja quando lhe pedirem para que explique por que uma oração feita para um caso meritório não obteve resposta. Assim na terra, como no céu. Presente nas mentes de muita gente está o pensamento de que a vontade de Deus é nada mais que caprichoso. Não podemos querer conhecer ou entender a Sua vontade, dirão as pessoas. Claro que não podem, porque zeram dela uma coisa impossível de ser entendida. Fizeram dela um bode expiatório, uma explanação sobre algo que aparentemente não pode ser explanado em outros níveis. Se eles perdem a presença física de um amigo ou parente querido que fez sua passagem na juventude de sua vida terrena, então foi a vontade de Deus que fez com que ele deixasse a terra, era a vontade de Deus que ele sofresse aquela doença terrível que causou sua passagem. Se as pessoas, ou toda a nação, sofreram uma calamidade medonha, então a vontade de Deus quis assim. Desta forma, um longo capítulo de defeitos, calamidades e infortúnios poderia ser enumerado, todos os quais seriam, condencialmente, atribuídos à vontade de Deus. Será que as mesmas pessoas também atribuem à vontade de Deus todas as coisas boas com as quais elas têm prazer? Elas diriam que é a vontade de Deus que elas tenham uma casa confortável numa redondeza agradável, enriquecida por uma prosperidade material pessoal? Será que eles atribuiriam o clima agradável do verão à Sua vontade, da mesma forma que alegam que foi por Sua vontade que aconteceram os furacões ou terremotos devastadores? A maioria das pessoas está inclinada a pensar que a vontade de Deus é distintamente unilateral, favorecendo calamidades em lugar de benefícios. Quem sobre a terra sabe qual é a vontade de Deus? Mesmo assim as pessoas rezam para que ela seja feita, assim na terra como no céu. – de onde se assume que elas sabem qual é a vontade de Deus, pelo menos no céu. É tão fácil, quando acontece algum evento ou acontecimento inexplicável, determinar que a sua causa foi a vontade de Deus. Anexa culpa no caso de um sofrimento pessoal estar acontecendo, mas a palavra culpa é suavizada se for disfarçada sob as palavras vontade de Deus. Quantas vezes se ouve falar, no meio de uma tragédia: 'Suponho que seja a vontade de Deus, e que deve haver alguma razão para isso, mas não posso entender. Por que tinha que acontecer isso comigo?' Não é que estas pessoas quisessem algum direito à imunidade a problemas de qualquer espécie, mas porque, até então, não os haviam encontrado; suas vidas os levaram silenciosamente num curso perene, sem maiores problemas com alguma diculdade maior, mas numa proporção comum de diculdades menores que puderam resolver facilmente, com seus próprios esforços. Então uma tragédia maior lhes acontece, aparentemente sob a vontade de Deus, e eles cam pasmos. A vontade de Deus se intrometeu na vida pacíca e feliz, mas por uma razão que lhes é impossível entender. Mas estas almas infelizes rezaram seriamente, por anos, que Seja feita Sua vontade, assim na terra como no céu. Eles assumiriam, presumivelmente, que esta extravagância da parte da vontade de Deus seria o estado diário e natural das coisas no 'céu', caso contrário não teriam rezado para este exercício da vontade divina como zeram. Não seria mais sábio, então, tentar descobrir qual é a vontade de Deus no céu, antes de rezar para que se estenda, e aja, na terra? Isto, objetariam, é impossível. Como alguém poderia saber da vontade de Deus? Só isto. E no caso, não seria melhor não se pedir em oração por algo sobre o que não podemos saber nada concernente à sua força, ou seu poder, ou seu modo de agir, ou, realmente, que consequências poderiam se seguir à resposta plena a esta petição? Mais uma vez vemos os resquícios do paganismo em toda esta confusão de ideias sobre a vontade de Deus. Nos tempos remotos, as mesmas crenças eram mantidas pelos ancestrais do homem na terra, a respeito de seus deuses particulares. Estes deuses antigos eram deidades de temperamento e humor incertos. Eles podiam sorrir ou franzir o cenho com facilidade igual, e por razões iguais – ou pela falta delas – diante de todos, independentemente de suas posições na vida. A todo custo, os deuses deviam ser presenteados, porque eram eles também que distribuíam os benefícios e os infortúnios para as pessoas. Era da vontade de seus deuses que violentas tempestades varressem a região, que as pestilências, as pragas e a fome devastassem a terra. Eles não podiam entender o que impelia seus deuses a ordenarem tais coisas, a não ser pela possibilidade, talvez, de que um número insuciente de sacrifícios tenha sido ofertado, ou que tenha surgido um desejo de respeito e reverência geral. Então, onde estas razões não pudessem ser imputadas, tinha sido meramente a vontade de seus deuses para que tudo fosse assim. Quando os múltiplos deuses foram deixados de lado em favor de um só grande Deus, estas mesmas ideias absurdas foram transferidas ao Pai do universo. A ortodoxia as reteve rmemente no corpo de seus ensinamentos, e as próprias pessoas se distraíram com as mesmas crenças que foram transmitidas pelos seus antepassados pagãos.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.