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Capítulo 9 de 17
Deus — parte 9 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
Poucas horas depois de mutuamente apresentados, foram colocados defronte a poderoso aparelho, que em seguida às imagens exteriores iria entregá-los à visão retrospectiva. Começariam vendo a si próprios, em outros tempos e noutras vidas, e a seguir cairiam em profundo sono, depois do que reviveriam vidas e fatos pretéritos. Não é que fosse imprescindível o aparelho; é que assim estava indicado para eles. Se múltiplos são os recursos a empregar, também é certo que há importância na variedade, através das diferentes esferas e regiões, onde os aprendizados são feitos, em todos os sentidos e segundo as mais diferentes modalidades. Porque, como devem compreender, enquanto são servidos alguns, outros vão sendo de outro modo também instruídos, com as revelações apresentadas e presenciadas. Assim é, portanto, que um mesmo fenômeno se apresenta com variantes modalidades de aprendizados. E como as regiões e zonas divergem em grau evolutivo, ou matizes de grau, há para todos serviço e oportunidades de saber. Todos fomos colocados diante do aparelho: eu, Abel, Nina, Sabino e Glicério. A presença de Abel fizera pensar em maravilhas a rever; no entanto, embora haja tudo transcorrido muito bem, a princípio, com a visão da época em que Jesus fez os Seus serviços em terras galiléias, a seguir houve interrupção, anunciando Abel o seguinte: – Não é possível, a dois de vocês outros, penetrar os detalhes das ocorrências então havidas; falta-lhes o devido preparo psíquico. Vimos, então Glicério e Nina tremendamente aterrorizados, suarentos; estavam como que alucinados, incapazes de qualquer aproveitamento. Sabino estava melhor. Abel disse mais, em tom piedoso: – Teria grande prazer em servir, como sabem. Tentei, mas não foi possível. O futuro a todos pertence, ficando, portanto, para mais tarde... Irão à carne, ganharão outros méritos e poderão rever e reviver o passado. Importa que revivam tais vidas, eu sei, e faço votos que seja na primeira volta da carne. Por ora, vamos tentar casos isolados, mas onde a presença de Jesus Cristo não seja necessária. Não me havia ocorrido, ainda, que a presença de Jesus causasse tais embaraços aos menos preparados. Pelo menos, àqueles que tinham qualquer coisa em comum com a Sua romagem terrena e se achavam em grandes débitos ainda. Abel repôs os dois e mandou-os sair. Nina e Glicério saíram, bastante entristecidos, porém equilibrados. – Agora – disse Abel – venha Sabino. E Sabino reviu a sua pior vida. Depois, por lances, reviu trechos de vidas seguintes, compenetrando-se de que bem andara metendo as mãos em sangue inocente, por causa do Cristianismo. Entre ter sido, várias vezes, soldado e sacerdote, armou para si carma bastante gravoso. Verdadeiramente, foi um grande bem que Abel lhe fez. Sabino mudou muito, tornou-se compreensível, tolerante e, nalguns casos, até capaz de renunciar direitos em proveito de terceiros. Afastando Sabino, disse-me Abel: – Quer aproveitar a oportunidade? – Eu já revi minha vida naqueles dias... – E quantas mais teve? Que há feito pelos tempos em fora? – A falar com franqueza, Abel, a visão do Cristo completou-me as instruções. Sei que devo algumas faltas e que sou carente de muita evolução; mas, considero, trago em mim os recursos necessários. Pelo menos hoje, se me permite valer o desejo, quero ir conversar com os dois... Estão muito tristes... Abel sorriu e deu-me inteira liberdade para o restante do dia. Fui encontrá-los a confabular, sentados debaixo de florido caramanchão. Ao vê-los entregue a conversação animada, tive a princípio receio de me aproximar. Como, porém, me espicaçava imensa curiosidade, pelo que havia ocorrido, venci aos entraves impostos pela discrição e me aproximei, indagando: – Que sentiram, vendo as imagens? Apesar do sorriso esboçado, demonstraram indelével tristeza. Glicério, entretanto, disse-me o seguinte: – Tudo ia muito bem, e senti estranha felicidade ao rever aquelas paragens de todo evocativas e dignas de muito respeito. Sim, dignas de muito respeito, depois que se chega a ter um pouco de compreensão das coisas... Quando, porém, apareceu a figura do Cristo, pareceu-me invadir uma tremura, assim como se fosse febre mortífera. Quis reagir, e fiz lá o meu esforço, mas não consegui vencer. Foi então que intentei falar, gritar, pedir auxílio. Tudo inútil, tudo... Ele começava a ficar mal outra vez, a se arrepiar, motivo porque mandei-o desviar o curso do assunto. Quando olhei para Nina, sem dizer palavra, ela avançou: – A mesma coisa, Lira. Os mesmos sintomas... Um tremor de morte!... Lembrei-lhes a necessidade inadiável de melhorar as condições psíquicas, para em futuro não remoto conseguirem rever e reviver tais fatos, obtendo valiosos ensinamentos, sem sofrer abalos de tal ordem. Fazendo sinal com as duas mãos, aparteou-me Glicério: – Não! Não! Já vi o suficiente, basta! Eu sei que estou muito longe de merecer tamanha regalia. Salvo se for daqui a muitos séculos, talvez um milênio! – Sentiu ser regalia? Como, então, ficou tão mal? Acho estranho. Meio aéreo, alvitrou: – Não deixou de ser uma regalia... E olhando para Nina, indagou-lhe, num tom enigmático: – Foi ou não?... Nina sentiu em si qualquer fenômeno estranho aos seus conhecimentos, respondendo entredentes: – Foi, sim... Ver Jesus é sempre uma regalia... – Mas foi em forma de imagem projetada, apenas. Olhou-me com admiração e advertiu: – Não, senhor! Dele saiu alguma coisa! Parece que tremenda descarga de misteriosa força! Glicério completou: – Força? Não só força, mas infinita autoridade! Concordei, pois era bem do meu conhecimento: – Eu sei, eu sei. Já vi antes e revi hoje. De qualquer modo, Jesus emana autoridade... Não sei que espécie de autoridade, mas sei que se é obrigado a respeitar, de todo o coração e com toda a inteligência, mesmo quando apresentado através de imagens projetadas. Creio que Abel fez alguma coisa... – Abel? – indagou Glicério, com avidez. – Sim, Abel deve ter feito alguma experiência. Devia querer saber alguma coisa, medir a extensão de certas possibilidades. Ele nunca age ao acaso. Nina concordou: – Assim como nos restaurou com a simples vontade, impondo-nos as mãos, assim mesmo nos teria auxiliado, se quisesse... Ou se pudesse... Reconheço que a Lei é acima de tudo e de todos, porque deriva de Deus. Assim mesmo, concordo, deu-nos muito o que pensar. Jamais esquecerei o visto, menos que reencarne. Quem sabe se desejou apenas isso? Meneando a cabeça, em sinal de auto-advertência, Glicério murmurou: – Por muitas razões pode a criatura brutalizar-se. A política, o dinheiro, a incredulidade, etc. Mas, convenhamos, quem é que vendo e sentindo o que nós vimos e sentimos, poderá manter-se avesso aos poderes superiores? Apenas vimos o Cristo andar entre centenas de criaturas e já nos aconteceu tudo aquilo. E se tivéssemos de tê-Lo pela frente, em seu esplendor divinal? O livro que acabo de ler apresenta Jesus como sendo o Luzeiro do Mundo! Eu não sei bem o que isso pode significar, mas acho que deve ser... Bem, como será?... Eu não saberia como avaliar a Sua glória, o Seu brilho divinal. Em certos momentos não consigo encarar Abel, mesmo sabendo, como você nos disse, que ele se restringe em seus poderes, a fim de servir nas esferas inferiores. Como será Jesus, em Sua integral realidade? – Pelo que vejo, foi bom terem visto aquilo que viram, não mais. Afinal, como pregador, que idéia fazia de Jesus? Sem a menor perda de tempo, respondeu-me: – Jesus crucificado. Nunca pude imaginar melhor quadro. Por quê? – Nada. Apesar de minha inferioridade, sempre O vi, em minhas suposições, como sendo um espírito glorioso. E um espírito glorioso é muita luz e muita autoridade. Demais, com o que tenho visto por aqui... Sabe que temos, de quando em quando, visitas superiores e visões grandiosas? Sabe que elementos de subido valor hierárquico nos trazem, de pouco em pouco, suas informações? E que trazem máquinas de projeção, revelando paisagens, quadros, acontecimentos de variada ordem, de lugares inferiores e superiores? – Faço idéia – disse Glicério. – Quero ver e ouvir – afirmou Nina. – Nada lhes posso garantir. O fator merecimento, sempre acompanha ou anda na frente das regalias e das oportunidades de estudo. Nada sei, a respeito de vocês, que dê para fazer promessas. Sei, apenas, que devem buscar merecer... Essa virtude cabe em todas as ocasiões e para todos os efeitos. É moeda corrente em todos os lugares, pois onde a Lei imperar ela é divisa básica. E a Lei é Onipresente, assim como Deus, porque, como vem sendo pregado desde os Vedas, e segundo como Crisna tão bem o ensinou, a UNIDADE é a base de toda e qualquer verdade, restando ao estudante saber discernir e situar os fenômenos. Glicério comentou, com certa ironia: – Sinto dificuldade, ainda, em considerar isto – como pode ser que, para honrar a um Deus perfeito, homens lancem mão de recursos verdadeiramente criminosos. Pelo que vocês dizem, e pelo que li ultimamente, há uma Lei que deve ser observada e uma Revelação que deve ser cultivada; a Lei gera o direito de paz, de ordem e de gozo, enquanto a Revelação prodigaliza conhecimentos contínuos. Entretanto, caro amigo, a Terra está cheia de artimanhas clericais, de idolatrias de toda ordem... Quem, como eu, comete erros por culpa alheia, responde dolorosamente!... Enquanto isso, a Lei deixa os fabricantes de erros à vontade, engordando, enriquecendo, fazendo-se passar por autoridades espirituais! Por que, Lira, não age a Lei? O Céu sustenta, seja como for... – Alto! Alto! Posso garantir que a Terra comporta de tudo, desde os mais remotos dias da Humanidade; se, porém, alguém se compraz no serviço de autobrutalização, isso é lá com quem o faz. Até mesmo que não haja brutalização, mas apenas estagnação, isso também é com quem o pratica. O livre alvedrio é faca de dois gumes... Bem utilizado é glória, mal utilizado é tragédia. Quem reencarna se propõe a escolher, bem ou mal, por conta e risco. Nina aparteou: – Mas lá surgem as clerezias com os seus manejos interesseiros! Impõem toda sorte de formalismos, nem que seja o da palavra interpretada erroneamente, fazendo negar o certo e afirmar o errado! – Nina, quem lhe proibiu a busca da melhor verdade? Não é certo que tomou o rumo intelectual que bem entendeu tomar? – Eu – revidou-me ela – sabia qual a melhor verdade? Se tivesse conhecimento da Revelação, ou do Batismo de Espírito, por ele teria sabido os porquês, os motivos de tamanhas amarguras. Isso, entretanto, não foi possível... Fui ao encontro da Igreja protestante e lá me disseram que a Verdade era o Evangelho do Cristo. Eu não podia compreender, então, que o Cristo tinha vivido o Evangelho e não apenas falado nele, como faziam eles, os pastores e os crentes em geral. O Pentecoste não existia mais. O sistema de culto dos Apóstolos, como se acha expresso no capítulo quatorze, da primeira epístola aos Corintos, também desaparecera! O Evangelho estava reduzido a cânticos muito bonitos e a pregações de toda ordem, ora mais cultas, ora menos cultas, porém apenas isso. O Batismo de Espírito ninguém sabia onde estava nem fazendo o quê!... Suspirou amargamente e culminou: – Eu e Glicério, então, demos as costas a Deus, ao Cristo e ao Evangelho... A realidade aí está... Ele morreu, eu tornei a casar. Meu novo marido não tinha religião, não arrastava embaraços... Fizemos o culto do dinheiro e do melhor gozo da vida... Fomos mutuamente infiéis e viciosos... A morte surpreendeu-nos com a vida, traiu-nos... Olhou-me queixosa, murmurando: – Não temos tantas culpas assim... Outros terão mais... Aqueles que ficam nas portas, não entram e não deixam entrar os que poderiam fazê-lo, como ensinou o Cristo, ao profligar a clerezia de Seu tempo, aquela que O crucificou... – Ainda assim, Nina, poderia ter ido adiante. Apelando para a negação, claro que eliminou qualquer oportunidade feliz. Destruiu os recursos pela base! E, de que vale agora relembrar tais fatos? Conserta alguma coisa? Lembrou-me: – Quantos, no mundo, aprendem o culto do erro? – Ninguém é proibido de buscar a melhor verdade. E a Verdade Absoluta não se responsabiliza por aqueles que se entregam ao culto da ignorância, seja por que motivo for. A Terra comporta de tudo, pode garantir toda e qualquer lição, mesmo que custe a vida... Nisto, sim, reside o grande mal – poucos sabem prezar mais o que é do Senhor! A grande maioria aceita formalismos e conversas, porque é mais cômodo... Outros se apegam a seus sectarismos, tornam-se fanáticos, e passam a querer ensinar o próprio Deus! Afinal, que é o dogma? Não é impor o relativo ao Absoluto? Que são os rituais? Que são os sacramentos? Que são as liturgias? Quem tem o direito de impor a estagnação, de proibir o livre exame? – Como o Céu é difícil! – gemeu Glicério. – Os comerciantes da fé tornam-no assim! – respondeu-lhe Nina. Glicério volveu: – No Velho Testamento está escrito, sobre não ter Deus necessidades formais, idolatrias quaisquer – nem imagens, nem rituais, nem carnes assadas, nem coisa alguma de ordem temporal. Deus quer amor, Deus quer verdadeira inteligência, Deus quer caridade e não sacrifício. Mas, quando estará a Terra livre dos comerciantes da fé? Meio revoltada, Nina avançou: – É fora de dúvida que a missão do Cristo foi edificar doutrina sobre o culto da Revelação, a fim de tornar todo indivíduo de boa vontade em sacerdote da Verdade; mas por que o mesmo Cristo não impôs réplica à altura aos corruptores da doutrina? Uma vez que a Lei estava revelada, e que batizar no Espírito Lhe custou a vida, por que consentiu na corrupção? Respondi-lhe como sabia e sei: – A Terra é lugar de semear e não de colher. Provo isso, Nina, mostrando-lhe a história dos corruptores. Ao desencarnar, minha amiga, é que se contam os favos. Ninguém recebe, sem ser pelo que praticou. A Justiça Divina dá tempo, mas cobra a rigor. E os pervertores de ontem fazem-se nos mártires de amanhã, a fim de se porem a par da Lei. Tudo se resume nisto – ninguém abuse do seu direito de livre alvedrio, pois quem trai a si se trai! Nós sabemos que o Cristo foi e está sendo traído, espontânea e propositalmente; mas, sabemos, também, que os Seus traidores não serão livres, até que se consertem com a Lei. E isto, amigos, é questão seríssima! Hão de ver o que as trevas têm para mostrar, ainda, fora o que já mostraram, depois de tantos séculos de curso judiciário!... E hão de ver, por entre condições e situações horripilantes, como vivem no plano carnal, aqueles cujas culpas ascenderam a montas elevadas!... Porque, repito, vocês conhecem bem pouco... E agora, permitam-me deixá-los, pois tenho um serviço para esta hora. É um grande errado, que clama por Deus, e que já merece amparo... Sim, já merece o seu quinhão! E como estou livre por aqui, vou à crosta, vou servir. Lançando-me rogativo olhar, indagou-me Glicério: – Sabe o que há para nós, amigo? Terá havido reviravolta? – Nada sei. Abel deve sabê-lo e dir-lhes-á em tempo. Todavia, aprontem-se para trabalhar um pouco e reencarnar a seguir. Procurem merecer o melhor possível. Despedi-me, deixando-os em boa palestra, porém entristecidos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.