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Capítulo 17 de 17

Deus — parte 17 de 17

Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro

Meus dias escoam-se, presentemente, numa verdadeira intermitência de emoções variantes. Sinto a falta dos companheiros já entregues aos primeiros labores carnais, pois a vestidura material faz-se premente, desde os instantes iniciais, desde a hora em que se sente a necessidade de respirar, alimentar, higienizar, etc. De par com essa indelével agonia, sentindo a pressão que os pensamentos de meus futuros pais exercem sobre mim, tenho mui pouca vontade, não me basta o ânimo de servir. Estou preso pela apatia, dá-me vontade quase indomável de dormir, de esquecer, de entregar-me a deleitoso sono. É com muito custo que faço este final de relato, e sei que o faço sob a tangência de imperiosos apoios vindos de excelentes amigos. Ontem, pela manhã, Abel convidou-me a delicioso passeio, informando-me: – Tens apenas uma semana de liberdade; a seguir, consoante as necessidades, levadas em conta a tua vontade, as tuas validades adquiridas e as imposições do nascimento, deves tomar conta dos acontecimentos que se hão de avolumar. Teus futuros pais, com a evolução dos dias, tanto mais pensam, atraem e te impelem à perda de consciência. Temos que, portanto, aproveitar bem os últimos dias que te restam de relativa liberdade nestes planos. E, como sei o quanto prezas uma visita nos locais onde Jesus viveu como homem carnal, venho convidar-te a um passeio e passeio que abarca um serviço a executar. Temos alguém a socorrer, naquelas paragens evocativas. – O trabalho, bem o sabes irmão Abel, encanta os nobres e dignifica os próprios santos. Eu quero, por ambas razões, rever aqueles lugares. Seja pelo que for, confesso que há três regiões, na face esférica da crosta, cujas influências ternamente embaladoras me fazem subir na escala dos poderes íntimos. Esses lugares refletem, vigorosamente, intensivamente, aquelas potentíssimas vibrações aí recalcadas, pelos grandes vultos da história religiosa do planeta. Alguns locais da Palestina, algumas regiões do Ganges e certos pontos do Himalaia, fazem-nos fremer de alegria profundamente íntima. Seja pelo que tenham feito elevados servidores de Deus, seja pelo contínuo recalcar de pensamentos piedosos da parte daqueles que crêem, o certo é que, desejando ou não, até mesmo fazendo questão contraditória, temos que ceder ao imperativo das mais intensas vibrações, dos mais potentes e envolventes sentimentos que parecem emanar do ambiente. – Realmente, Lira, psicometria é lei, é poder. Quando a criatura não é rude e se propõe a cultivar pensamentos elevados e sentimentos nobres, procurando trabalhar na seara onde o Amor e a Ciência pontificam, certo é que se faz ou torna centro receptor de ondas vibratórias equivalentes. Esses locais estão, verdadeiramente, imantados pelo magnetismo santificado daqueles grandes vultos missionários. Soubessem as criaturas pensar e sentir, tivessem de fato superior desejo de servir, trabalhando dignamente, sustentando impávido o estandarte do amor ao próximo, e muito poderiam colher, haurindo forças consideráveis, deixando-se penetrar dos mais potentes eflúvios energéticos. Se é certo que em tais ou quais lugares, espalhados pelo orbe, fontes de vibrações concentradas existem e perduram não é menos exato que, em toda e qualquer parte, por todo o infinito, estão os poderes absolutos de Deus e os valores relativos de Seus mais evolvidos filhos ou seres emanados. Há, digamos, muita falta de bom senso nas criaturas. Onde os filhos são ressequidos, onde estejam criaturas mirradas em seus caracteres, como podem eclodir e vicejar os galardões da virtuosidade poderosa? De per si, não é a própria criatura um reservatório de poderes divinos? Para os ter, a fim de poder usar, em benefício próprio e para o bem geral, que lhe resta fazer senão despertá-los? – Verdadeiramente, irmão Abel, há muita negligência da parte das criaturas. Um pouco mais de respeito que houvesse, para com os valores fundamentais, que devem ser despertados, que aguardam esse despertar, e tudo seria melhor. Em tom piedoso, comentou Abel: – Pelos seus desmandos, fez-se a humanidade presa de infeliz estigma. Enquanto Deus quer caridade e não sacrifício, simplicidade e não complicações formais, certos homens, que a si mesmos se julgam mestres de religião, encomendam e recomendam dores e sacrifícios, torcendo a verdade e indicando o caminho blasfemo! A mentira tomou o lugar da Verdade Fundamental, o erro foi imposto e a exploração tem vigência garantida! Com isso, depois de quase completados vinte séculos de ação cristã, ou dita cristã, a humanidade está envolta pelo labirinto das mais tremendas contingências, é presa nas garras da angústia, não sabe como resolver os mais prementes de seus problemas, os mais inadiáveis, e que poderiam ser os mais simples e fáceis. Bem, amigo Lira, vamos socorrer o irmão de que já lhe falei. A humanidade, ora mais, ora menos, em cada um de seus elementos irá encontrando a saída final... A Lei não dorme e a Justiça não se faz tardar, jamais. O grande mal, que surte dos erros, é retardar e fazer sofrer. Entretanto, quem poderá ensinar àqueles que, sendo maus alunos pretendem passar por mestres infalíveis, senão a vida, a infalível disciplinadora? Não é certo que, depois de todos os fracassos, além de todas as conseqüências funestas, sobram sempre os espíritos e as suas responsabilidades? Quando ia dizer qualquer coisa, eis que nos víamos defronte ao Gólgota. Não poderia sentir mais, vibrar mais; tudo em mim fremiu; senti vir da terra torrentes poderosas, vibrações encantadoras, envolventes enleios, parece que musicados, contendo suavíssimas modulações. Quando olhei para Abel, estava ele concentrado, brilhando, fulgurando. O bom amigo de Jesus, em cuja residência comera e repousara, devia estar com o pensamento em subidas esferas. Entrei a orar, aguardando pela sua palavra. Pouco depois, convidou-me: – Vamos em busca do irmão. Fomos ao local onde se achavam milhares de espíritos desencarnados, criaturas de todos os matizes hierárquicos e propositais; cada qual, naturalmente, encerrando um objetivo, alimentando específicas soluções, reclamando sabe Deus que assistência, cogitando os mais disparatados conceitos, crendo mais, crendo menos, armados de certezas e desarmados de tudo. O local da crucificação e seus arredores estavam atopetados, fervilhavam preces e levantavam-se agudas lamentações. O ambiente era francamente cosmopolita; viam-se ali representantes de todas as raças e povos. – Que quadro! – exclamei, olhando bem nos olhos profundos de Abel. O grande mentor respondeu-me: – Repara, pois enquanto são múltiplas as concepções, e as situações e condições, uma é a realidade básica. Chocam-se os conceitos e os preconceitos; mas, onde estaria o poder humano capaz de modificar a Verdade Fundamental? Essas criaturas, em sua grande maioria, buscam o caminho da salvação na adoração exterior, na contemplação, nalgum possível mistério ou através de algum acreditado milagre, partem de premissas erradas, e nada resolvem de fato, porque se esquecem de que o Reino do Céu está dentro e não fora, deve ser edificado à custa de serviços amorosos e sábios, nunca, porém, como sendo obra de favores ou de propinas legislativas. – A lição do Cristo foi simples, mas a interpretação humana tornou-a complexa. Irmão Abel, essa gente, como diz, em sua maioria, procura o Cristo de fora pelos engenhos humanos, ao invés de trabalhar pelo soerguimento do Cristo interno através da lição infalível do Cristo externo ou modelar. Há erro, muito erro em quase tudo isso, e é difícil precisar, não o processo infalível, mas sim o modo de se fazer entendê-lo. Que diriam eles, os mais tardos, se pudessem ver os mais revestidos de luz e poder? No entanto, por que é vedado fazer isso? E poderíamos julgar a Lei e reprimir a Justiça? Sem dar-me tempo de prosseguir, emendou Abel: – Se Jesus voltasse ao mundo, como homem, para ensinar, de novo viveria a Lei e cultivaria a Revelação, sobre essas bases edificando, de novo, a Sua Igreja. Portanto, sejamos servos fiéis, dando o que nos é devido e possível dar, mas acima de tudo observando o Supremo Determinismo. Deus sabe o que faz... Enquanto falava, encaminhava-se para um certo lugar, parando em frente a entristecido e recurvado homem. Depois de fitá-lo por algum tempo, chamou-o: – Isaías! Isaías! O encurvado homem ergueu a cabeça, mostrando um rosto vincado e lagrimoso. Em seus olhos apareceu, aos poucos, estranho brilho, evidente indagação. Como Abel o fitasse, em silêncio, fez ele pergunta, emitindo som vocal cavernoso: – Quem é?... Algum esquecido amigo ou companheiro?... Abel revidou-lhe: – Por que estranhas? Isaías, depois de menear a cabeça tristemente, fraseou: – Faz tanto tempo que ninguém fala comigo!... Para mim todos estão vazios, nada sabem, nada podem... Quem é você?... – Sou – explicou-lhe Abel – um espírito servidor de Jesus; e como Jesus é neste planeta, o maior servidor de Deus, já deves compreender para o que vim. Isaías fechou os olhos, franziu o cenho, abanou a cabeça encanecida. Sua mente, bem se viu, andou vagando pelos ermos de um passado nebuloso, confuso, vivido entre as garras de múltiplos comodismos e sáfaras cogitações religiosas. Quando abriu os olhos, rogou: – Por favor, levem-me embora. Estou farto de tudo isto! Sei que errei, sei que sou devedor; mas, sei, também, que desejo recuperar o tempo perdido. Aqui nada se consegue... Legiões vêm, legiões vão!... É gente que chora, é gente que roga, é gente que ri, tudo numa promiscuidade quase inacreditável. Às vezes surgem vultos luminosos, mas nada fazem, nada dizem... Olham, observam e partem. E a vida continua, legiões vêm, legiões vão!... Nos dias evocativos, então, tudo por aqui aumenta de freqüência e fervor! Falas diferentes, modos esquisitos, atitudes as mais estranhas!... Mas tudo volta ao mesmo, nenhum milagre há, do Céu não descem favores... Deus é sinônimo de Lei e de Justiça!... – Ainda bem, ainda bem – considerou Abel, evidenciando alegria. Isaías assentiu, num sinal indelével de cabeça: – Sim, sim. Tenho meditado muito, tenho aprendido bastante. Fiz da vida um misto de cultos... Fui mentor religioso, fui industrial, fiz traficâncias de toda ordem. Era um na minha igreja, era outro na vida pública, era ainda outro em diferentes funções... Hipócrita, isso é que fui!... Ao deixar a carne fui avisado imediatamente, e pensei ter convencido o Céu, fiquei surpreso. Mas tudo se esfumou, sumiram as esperanças, derreteram-se as primeiras clarinadas... Vaguei pela casa, perambulei pelos escritórios, andei e vi coisas desagradáveis, tudo rente ao chão, sem ter amigos, sem ser procurado, sem ter vontade para ir ao encontro de alguém... Orei, invoquei, pedi, roguei ao Céu! Tudo em vão, tudo surdo, nenhuma resposta!... Um dia, quando menos esperava, dei de encontro com certo homem; este, revelando piedade, falou-me e convidou-me a querer alguma coisa. Depois de muito pensar, considerando meus erros, pedi para ver os lugares sagrados do Cristianismo. Pelo menos, julguei, estaria longe dos meus, das minhas fábricas, dos meus inimigos mentais... Sim, muitos pensavam mal de mim e feriam-me, e repeliam-me... Se pudesse estar longe, na Palestina, naqueles lugares tantas vezes referenciados em meus discursos, por certo estaria melhor, descansaria, repousaria a mente e teria refrigério para o coração. Fui trasladado, num abrir e fechar de olhos... Tudo novo, tudo belo, tudo evocativo... Aos poucos veio o enfado, o produto da repetição, num meio contraditório, promíscuo, cheio de misérias e saturado de lamentações!... Porque os seres gloriosos vêm e vão, mas os sofridos permanecem, cambiam-se de certo modo, mas sempre se repetem!... São legiões que se sucedem, que se avolumam, que buscam favores, milagres... Mas, como é de Lei, não encontram os tão desejados milagres e vão-se, para que outras legiões venham, num repetir constante, estafante, quase horripilante... – Por que não foste para outros lugares? – indagou-lhe Abel. – Pensei nisso e cheguei a dar alguns passos; mas não pude... Eu me sentia preso, chumbado a este local... Não sei o motivo, mas sei que é assim. Se estivesse longe, em qualquer parte da Terra, creio que tudo faria para vir ter aqui. É como tangível destino, tremendo vaticínio, cruel obrigação!... Eu falei muito no Cristo e realizei por demais a obra do dinheiro, do orgulho, da rapina calculada e das vaidades infernais!... – É verdade, mas não é tudo, Isaías. Tens um passado, é claro, e por ele terás de que voltar aqui mais vezes. Irás melhorando, recuperando, vencendo. Terás liberdade, verás mais, poderás ver e viver melhores fados. Por ora, no entanto, é bom que o não saibas. Vem conosco, vamos em busca de região melhor... Pôs-se de pé, num salto, verificando eu que era um homem alto, um tanto encurvado e com as vestes esfarrapadas. Revelou alegria e gratidão, interrompendo as palavras de Abel, para rogar: – Muito obrigado, Jesus! Muito obrigado!... Reconheço meus erros!... Quero ajoelhar, quero render graças... Abel advertiu-o: – Não te ponhas de joelhos, que Jesus jamais o desejou e permitiu. Os falsos mestres, que se levantaram no mundo, para fazer o erro em nome Dele, esses é que inventaram semelhantes coisas. Ora de pé, ou como estiveres, mas não pretendas validar um ato de fé através de posturas físicas. O bom servo é aquele que tem a mente sã e o coração vibrante de amor. Gestos físicos, aplicados em sentido religioso, constituem idolatria. Isaías fitou-o bem, fez sinal afirmativo e aguardou. Abel, vendo-o confuso, recomendou-lhe: – Vai orar para ali, onde há menos ruído. – Quer ajudar-me? – pediu ele. Abel tomou-o pela mão e conduziu-o, convidando-me a segui-los, com o seu costumeiro gesto de cabeça. Fomos a um local pouco distante, uns duzentos metros do local do Calvário, e os três de pé, com a frente voltada para o alto do monte, fizemos o pensamento elevar-se ao Divino Mestre. Abel colocou a mão direita sobre a cabeça de Isaías, a esquerda sobre a minha cabeça, recomendando atenção. Eu vi transfigurar-se o ambiente, iluminar-se, depois escurecer de novo. As glórias espirituais fizeram-se condições terrenais, apareceram as raças e os povos no redor da cruz, e cada um adorava a seu modo, e cada povo, e cada raça, acreditava estar certo, estar fazendo o melhor possível. Minha consciência repelia aquilo, sabia haver mais vaidade sectária do que verdadeiro conhecimento, mais orgulho do que simplicidade, mais fanatismo do que virtudes. Eu olhava para as gentes, e não sabia porque não olhava para a cruz, quando uma voz infinitamente longínqua ordenou-me: – Olhe para a cruz! Olhe para a cruz! A cruz havia-se tornado alta, e aos poucos fez-se luminosa, brilhante, coruscante, quase impossível de ser encarada. Eu abria e fechava os olhos, fazia tudo para vê-la, pois apesar de seu brilho impedir a visão, ela atraía, absorvia, e de maneira estranha, pois eu sentia que ela me puxava. Comecei a orar, sentindo no íntimo profunda ação emotiva, vibrante efeito devocional, arrebatador impulso de ordem divinal. Estava entregue ao êxtase, quando a voz de novo clamou: – Olhe para a cruz! Olhe para a cruz! Acordei daquele deslumbrante estado, olhei e vi, bem para cima da cruz, todo rodeado de luminosos seres, o vulto glorioso de Jesus Cristo. Legiões iluminadas cercavam-No, hinos eram entoados, parece que as virtudes do Céu penetravam a zona inferior, infundiam-lhe um certo respeito. Estava observando o esforço do Céu, ali representado pelo Cristo e Suas legiões, quando a voz de novo clamou: – Olhe para as gentes! Olhe para as gentes! Olhei para as gentes e vi, estranhando muito, ficando conturbado, porque todos se achavam de costas para a cruz, enquanto falavam, pregavam e se diziam cristãos. Preso de amargurada comoção, olhei para a cruz e vi que ela gotejava sangue. E o sangue caía sobre as gentes, e as feria, porque elas adoravam o Cristo através de palavras, de formalismos, de explorações temporais, menos, porém, de frente, compenetradas do verdadeiro culto, que é em obras de Amor e de Ciência, de onde se levantam a paciência, o perdão, a tolerância e a renúncia, fundindo a criatura ao chamado Criador, através do Exemplo Imortal de Jesus, cuja luminosidade pairava, no alto, a fim de servir aos verdadeiros obreiros da Verdade. Aos poucos, fui ouvindo a voz de Abel, que me chamava. A grande visão tivera fim, tudo voltando ao natural. Perambulavam por ali romeiros, almas sofridas e embuçadas, espíritos de todos os naipes, criaturas de todos os pontos da Terra e afeiçoadas aos mais variantes matizes religiosos. – Vamo-nos! – convidou Abel. Quando olhei para Isaías, estava ainda esfarrapado, encurvado, mas o seu interior vibrava alto, pois mantinha o semblante feliz, os olhos brilhantes, a mente em pleno contato com a esfera superior. Estava reconhecido, iria trabalhar pelo bem alheio, único fator de beneficiamento pessoal. Fomos subindo, deixando lá em baixo a Jerusalém terrena... Dentro de breves horas, tomarei conta de meu novo fardo carnal, instrumento através do qual hei de lidar, a fim de realizar no íntimo a Jerusalém Celestial, ou dar um passo a mais, pois lenta é a caminhada nesse rumo. Espero em Deus, espero em Jesus, confio nas muitas amizades e prometo ser fiel servidor. Como sabemos ser a Doutrina Excelsa, produto da fusão absoluta dos fatores Lei e Revelação; e como sabemos, também, que a todos nós, comandados de Jesus, cumpre dar o testemunho devido, em pensamentos, palavras e atos, eis que nos propomos à melhor realização. Nem de outro modo, hão de voltar as gentes a frente para o Imortal Exemplo. E, como é da Lei, cada um receberá segundo as suas realizações.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.