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Capítulo 8 de 17

Deus — parte 8 de 17

Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro

Glicério fora informado sobre a esposa. Como estivesse lendo o seu resumo histórico, reconhecendo as faltas do passado, cometidas em comum, fez questão de se avistar com ela o quanto antes. -Desejo – disse – fazer o possível o quanto antes... Entrando a meditar, pouco depois concluiu: – Sim, uma vez que há o grande POR QUÊ, devemos atender sem restrição às suas determinações. Durante a vida carnal, e não contando com os recursos do melhor conhecimento, fazemos aquilo que constitui crime de lesa espiritualidade. Como é do vosso conhecimento, quem sabe mal não faz bem... A crença contemplativa é cega, é frágil, não sustenta o espírito nas horas de amargura... Sabino interrompeu-o: – Ora! Jesus teve por função Batizar no Espírito. Quem mandou que Lhe corrompessem a Doutrina Excelsa, fundamentada no culto da Lei e da Revelação? Glicério, que estava, de permeio com a leitura do seu dossiê, também lendo a obra intitulada "A MISSÃO DE JESUS", concordou: – Eu sei, bom irmão, qual a função de Jesus no mundo. Devia derramar do Espírito sobre a carne, depois de voltar como espírito. Li, e muito bem, porque fi-lo dezenas de vezes, o capítulo dois do Livro dos Atos e o capítulo quatorze da primeira carta de Paulo aos Corintos. Sei, portanto, o que foi o Consolador prometido e como os Apóstolos faziam o seu cultivo. Mas... Convenhamos, de que vale agora criticar os erros de Roma, truncando o certo e impondo o errado? Alguém seria capaz de fazê-la compreender o tremendo erro e recomeçar vida nova e certa? Quem não teme a Deus e não aprende com Jesus Cristo, poderia fazer coisa melhor do que implantar idolatrias e explorações de toda ordem? Antes, creio eu, devemos trilhar agora o caminho certo. Afinal, cada um terá direito à sua Estrada de Damasco... Depois, que se arrependa, sofra e se faça merecedor do Cristo e do Batismo de Espírito. Paulo dar-nos-á, sempre que o quisermos, a melhor lição de toda a história religiosa do planeta. Eu creio assim. O fenômeno mediúnico, ou Batismo de Espírito, enterrou o perseguidor e fez ressurgir o grande perseguido! A Paulo devemos a maior lição humana sobre a função Divina de Jesus Cristo! Glicério subia alto na escala íntima de sua fé. Apesar de aterrado ainda, ou envolto pelo coscorão das dívidas, conseguia movimentar sua aura no sentido das melhores confinações vibratórias. Era agradável ouvi-lo falar, porque o seu volume de voz, e o timbre, faziam supor as qualidades oratórias de que era senhor. Todavia, apresentando-se Abel, depois de nos saudar, avisou-nos: – Apressem o encontro desses dois, pois estamos preparando a reencarnação de alguns elementos, dentre os quais eles, objetivando acontecimentos e resultados valiosos, na retorta do Consolador, já em renovado curso na Terra. Convém aproveitá-los agora, nos primórdios de serviço, pois todo e qualquer esforço representa merecimento redobrado. – Reencarnar? – gemeu Glicério. – Para trabalhar nos serviços do Cristo – acentuou Abel. Revelando o temor que lhe ia no íntimo, expôs Glicério: – Judas, Pedro e Tomé, também estiveram nos serviços do Cristo... Em companhia do Cristo!... E fizeram das suas... Tenho fundados receios de tornar a falir! Paternalmente, falou-lhe Abel: – Levarão encargos mediúnicos, que se reclamarão contínuos e dolorosos esforços, nem por isso os deixarão à mercê do mundo e de suas brutalidades. O mesmo Jesus, ao qual têm oferecido algumas traições, Ele mesmo os encaminha à Terra, nesta hora de conturbações e de inadiáveis testemunhos. Eu apenas faço a vez do estafeta, rendendo graças ao Emanador. Aceitem, pois vem do Verdadeiro Amigo o feliz empenho. Com os olhos marejados, murmurou Glicério: – Antes falou a ignorância. Agora fala a sabedoria... Eu irei, e rendendo graças, infinitas graças!... Abel abraçou-o, lembrando-lhe: – Quanto mais se compenetrar dos deveres, e mais trabalhar pelo bem comum, encetando espontâneos serviços na seara consoladora, tanto menos sofrerá. Leve em mente esta advertência – Deus quer compenetração dos deveres e não sacrifício, trabalho e não ladainhas melosas. Perante a Lei, que aciona a Justiça, mais convém não praticar erros do que pedir desculpas e lambetear a dor. Seja prudente, arme-se de bons valores intelecto-morais, a fim de se sair bem. Nós, que temos estado a servir nos círculos da fé, e que ora cumprimos ordens na seara consoladora, estaremos sempre a postos, atendendo aos apelos sinceros. Sabino opinou: – Sendo assim, até eu iria e com muita satisfação! Abel emendou: – Irá mesmo e será assim. Está determinado. Sabino quis beijar as mãos de Abel, mas este o não permitiu. Aliás, nunca soube de um elevado espírito aceitar dessas medidas de agradecimento ou devoção afetiva. Os que na Terra e no Espaço, aqui nas regiões inferiores, gostam dessas medidas, são os que comportam a chamada "santidade postiça"... Abel se foi, deixando a seguinte ordem: – Assim hajam sido apresentados, e tomados de mútua aceitação, em base de amizade universal, sem nenhum resquício de ressentimentos e aversões, serão passados pela visão retrospectiva, para efeito de armazenação consciente e melhor valorização no plano intuitivo, quando encarnados. Abel transformou-se em luzeiro multicor e sumiu de nossas vistas. Glicério, metido em pensamentos estranhos, perguntou-me: – Por quê?... Julguei acertar, dizendo-lhe: – Nina casou-se em segundas núpcias. Talvez tenha outros pensares e sentires a seu respeito. Glicério sorriu, revelando superioridade. Não estava pensando em reaver a esposa, mas sim a paz e melhores condições de vida espiritual. Entretanto, afirmou: – Duras lutas enfrentamos!... O tempo que estivemos juntos, entretanto, foi suficiente para que ela revelasse qualidades respeitáveis, como esposa e mãe. Se fomos vencidos pela incerteza espiritual, culpa dela não foi... Em qualquer tempo, em condições melhores, Nina seria adorável esposa. Não disputarei o seu afeto, perante o segundo marido; mas respeito-lhe as qualidades. Deus que lhe dê, tudo quanto não lhe pude dar... Se for permitido, rogarei desculpas, caso me ache ela responsável por qualquer soma de fracasso. Sabino acenou com a cabeça, anuindo: – Assim é que se faz. Quis aproveitar o estado de coisas, indagando: – Glicério, quer ir a ela ou quer que venha a si? – Acho bom ser cavalheiro, pois não? – A Lei, quando as circunstâncias permitem liberalidade, endossa as boas maneiras. Neste caso, impera a livre escolha. Portanto, vamos a ela. Deixando a região onde se achava recolhido Glicério, fizemos sortida rumo àquela em que se achava Nina; foi num abrir e fechar de olhos, até certo ponto. A seguir, caminhamos a pé, indo encontrar Nina entregue a mui boa leitura, pois embora a região fosse bastante bisonha, nem por isso deixava de oferecer elementos valiosos de recuperação em geral. – Nina! – chamei-a. Ela, havendo olhado, deu com o ex-marido. Primeiro ficou sem saber o que fazer, atônita, depois caiu em convulsivo pranto, baixando a cabeça. – Que significa isso, Nina? – perguntei-lhe. Ela grunhiu, amassando os brancos cabelos, sem levantar a cabeça: – Ó!... Meu Deus!... Meu... Deus!... Falei-lhe, julgando acertar integralmente: – Nisso, amiga, não cometeu crime ou deslize algum. Nem viemos aqui para lhe custar desgostos, e sim para dar encaminhamento a novos serviços. Devem-se amizade ordinária, nada mais, além de alguns deveres de esforço em comum, por haverem assim contraído débitos em passado não muito remoto. Levante a cabeça, encare de frente as obrigações, que todos estamos augurando pela sua reabilitação. Através do rosto feito em pranto, fez ver breve satisfação. Glicério apertou-lhe as mãos entre as suas, dizendo-lhe palavras eivadas de ternura. Ela enxugou as faces, sorriu, levantou-se do banco de pedra em que se achava sentada e dispôs-se a nos acompanhar. – Isto! Isto! – repetia Glicério – Vamos andar um pouquinho, conversar, que Lira tem qualquer coisa de muito bom para lhe dizer. – A mim?! Sou tão culpada!... Quando vou ser julgada?... Falei-lhe: – Assim como pensa, nunca. O tribunal é de consciência, por isso que o maior dever é organizá-lo da melhor forma. – Ninguém me vai julgar e sentenciar? – Há casos, Nina, em que se faz necessário um conselho, não julgador, mas esclarecedor. Disso há e muito. As sentenças, porém, surgem do próprio íntimo, não de modo formal, não como se faz no mundo, mas sim em plenitude espiritual. De tal modo são íntimos Deus, a Lei e a Justiça, que ninguém necessita apelar para tribunais exteriores. – Então, senhor Lira, posso estar descansada? – Deve, quanto ao caso em vista e ao momento. Entretanto, como tem débitos a saldar e muita evolução por fazer, cumpre-lhe ter vontade firme para trabalhar. O Céu é de ordem íntima e ninguém o terá sem trabalho! Com o direito de individualidade casa-se o dever de organização do caráter. O livre arbítrio relativo garante-nos apressar ou retardar o desenvolvimento interno. Eis tudo, em linhas gerais. Fica, entretanto, bem entendido, que falo da criatura entrada no plano hominal; os que se acham ainda para baixo, e não têm consciência individual, esses nada devem perante a Lei Moral. A Lei é para os responsáveis, para aqueles que já podem saber o que para si mesmos é melhor. A divisa entre o plano da inconsciência e o da consciência individual é esta – quem sente para si o que é melhor, não tem o direito de ferir o bem estar do próximo. É por isso que Jesus partiu da justiça natural, afirmando que se não deve fazer aos outros, assim como não gostaríamos que os outros nos fizessem. Nina disse, em tom de lástima: – Então, bondoso amigo, a Terra é ainda um mundo bem inferior! Sabino observou: – Mas quem ficará sem ajustar contas? É por isso que voto imenso respeito ao capítulo final do Apocalipse. Resume todas as Verdades já ensinadas, desde os primeiros ensinos. Parte dos fundamentos, nunca passará, seja onde for e para quem for. Testifica o Princípio Divino e a Diretoria Planetária; testifica o direito de relativa liberdade; testifica a vigência da Lei e da Justiça; e testifica a intransferível responsabilidade, segundo as obras. Notando o grau de aceitação de ambas as partes, indaguei: – Vamos prestar contas ao chefe do departamento e seguir viagem? Nina apressou-se em dizer: – Estou às suas ordens, bondoso irmão. Glicério avançou: – Conte com as minhas poucas forças, Lira. – Então, vamos à chefia do departamento – convidei.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.