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Capítulo 15 de 17
Deus — parte 15 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
Ao atingir o local de serviço, para o qual fora indicado, lá encontrei Abel e Sabino, ativando recursos, ministrando elementos curadores. Defrontando Sabino, reconheci-o entristecido, motivo por que abordei-o: – Por que está triste? Olhou-me de viés, sussurrando: – Débora deve estar muito aborrecida. Desejo desculpar-me. Abel, depois de estudá-lo detidamente, falou-lhe: – Lira tem algo a lhe dizer, da parte dela. – Que é? – fez ele, com avidez. – Envia-lhe desculpas e votos de muita felicidade. Meneando a cabeça, comentou: – Sei. Desculpas e felicidades, mas longe dela... Os menos delicados são interessantes quando à distância. Esclareci-o: – Não é assim, pode estar certo. Débora quer vê-lo, quer sua amizade, faz questão de sua presença. Falou-me de si com muito carinho. – Por quê? Soube alguma coisa do rol histórico? Será por mim ou por ela? Abel interveio: – Sabino, você esquece a grande lição da simplicidade. Suponha, em verdade, que seja tudo em benefício dela mesmo. Não lhe é grato servir? Não lhe causa prazer espiritual a felicidade alheia? Em virtude das leis de relação, não nos cabe um pouco do bem estar alheio, quando produto de nossas ações? E diz-se discípulo do Cristo!... E comunica-se nos ambientes espíritas, pregando a necessidade premente de tolerar e perdoar!... Que bom mestre é!... Fazendo gesto afirmativo, confessou: – Eu sei disso, meu grande amigo. É difícil deixar para trás aquilo que nos acompanha há séculos, que é parte integrante da personalidade. Sou desconfiado, não posso deixar de ser irônico, parece que meu natural é ser contundente. Só a reencarnação me fará mudar, se fizer... Talvez algumas delas, cinco ou seis, talvez mais. Bem quisera ser diferente; mas quando vou falar, comentar, apreciar o caráter alheio, faço crítica daquele modo todo meu, como vocês sabem. Se não falasse, ainda assim pensaria, e pensar já é errar... Não obstante, sou capaz de sacrifícios, de tudo fazer pelo bem alheio. Que vou fazer? Tenho feito quanto me está ao alcance, procurando corrigir-me, policiando o pensamento, mas no fim é sempre a mesma, termina em choque, dá em inimizades ou quebra de simpatia. Abel, frente àquela franqueza, fez-se observador magnânimo, aliás como lhe era natural e habitual, perorando a respeito das leis fundamentais: – Veja, portanto, quanto são respeitáveis as leis de causa e efeito. Quem se faz melhor, recalca-se de melhoras, tem para si e para dar, porque as conquistas de caráter são como o fermento, tendem a reproduzir, aumentar, sempre no mesmo sentido. Assim, também, com os defeitos, com as tristes marcas cármicas. Tudo se torna lastro, o bem ou o mal, a virtude ou o vício, tangendo a criatura naquele rumo e ritmo, por vezes repelindo elementos renovadores bastante capazes, por vezes quebrantando ânimos, provocando abalos consideráveis, atirando a criatura ao abismo das atrofias de ordem moral, transformando a entidade num pária qualquer, endereçando-a às regiões dolorosas, aos rincões tenebrosos, para mais tarde atirá-la no regaço das vidas rastejantes, dos aleijões e das torturas horríveis. É a Lei Geral, com a sua força, com o seu poder, valendo por aquilo que a fizeram valer, impondo a rigor os produtos da livre escolha, as validades do direito de relativo livre arbítrio. Quem, portanto, não quiser se haver com agravos e torturas, que os não cometa. Depois de agir, provocando naturalmente o desfecho da Soberana Lei, só através de vigorosa ação inversa é que se poderá alterar a situação e o rumo embalador. E isso, como está a confessar, é bastante difícil, é penoso, chega a parecer impossível. Estava entrando, naquele momento, a médium que devia, àquela hora, aplicar o passe no enfermo. Aproveitando o hiato, Sabino externou-se: – Quero entender-me com Débora e desejo melhorar. Talvez apele para que abreviem a minha reencarnação, conquanto me permitam fazê-lo em ambiente favorável, em meio a irmãos dotados de caráter superior. Sei o quanto pode um meio ambiente sobre a criatura, sei o quanto importa estar ao lado de quem marca as suas ações com o vigor das iniciativas de alto porte espiritual. A conversa entre os encarnados era atraente, havendo ficado aí o assunto que tanto interessava a Sabino. Afinal, embora na obrigação de servir, de incentivar e de amparar, a verdade é que o problema do Céu é de ordem individual, não sendo permitido nem possível que uns tratem pelos outros de sua edificação interna. O caso Sabino, tal e qual a todos os casos, porque a Lei Geral assim determina, teve o seu desfecho como de ordinário – continuou fazendo das suas até o dia em que baixou à esfera carnal, para aprender humildade e gosto de servir, precisamente no plano onde se armou de maldades, crimes, orgulhos, ironias, sarcasmos, etc. É hoje um menino de quinze anos, vive aí ao seu lado e nele repontam aqueles mesmos senões de ordem moral. Em tempo, no entanto, a mediunidade apontará o rumo a seguir, sendo forçado a servir e aprender grandes lições. Disso temos certeza, pelo que ficou estabelecido – terá muito trabalho durante a vida! A médium sentou-se ao lado da criatura enferma, um adolescente, havendo-lhe aplicado a mão direita sobre a testa. Concentrou o pensamento no seu guia e aguardou o contato costumeiro e fiel. Seu guia era de pouca evolução, mas dedicado e articulado com elementos de melhor envergadura hierárquica, cuja sede estava localizada na quarta esfera. Antes que ele atuasse sobre a médium, disse-lhe Abel: – Informe que devo falar à mãe do rapaz. O guia aproximou-se, tangeu a organização mediúnica da irmã servidora e falou, passando adiante o aviso de Abel. Eu, com franqueza, não sabia dos motivos daquela atuação direta, da parte de Abel, uma vez que dispunha de centenas de comandados, de vez que parecia apenas um simples caso de ordem espiritual. O mocinho estava acompanhado, tinha ao lado uma senhora, cujo perispírito se apresentava inchado, tão inchado como o seu corpo carnal jamais poderia ter estado! Saído o guia, encostou-se Abel, pôs a mão direita sobre a cabeça da irmã servidora e falou à genitora do rapazinho: – Ninguém desconhece os vossos foros religiosos, as vossas intenções felizes, as vossas atividades em geral, fundamentadas naquilo que a Lei recomenda. Entretanto a humanidade marcha, não pode estacar no rumo da escalada hierárquica. Isso quer dizer, irmã, que uns reencarnam para um fim, outros reencarnam para outro fim, nunca deixando de haver fundamentado motivo para toda e qualquer entrada no plantel carnal. Vosso filho, portanto, tem compromisso a saldar, como espírito devotado ao bem e de acentuados merecimentos evolutivos. Dai-lhe, pois, a ler, as obras fundamentais do Espiritismo. Tudo quanto se deu foi para que buscasse no Espiritismo o informe que está recebendo. Agora vos deixo, com a cura de vosso filho e a certeza de que não olvidareis o recado celestial. Abel saiu, o guia da irmã chegou-se recomendando água fluída, conforme indicação de Abel. Tudo seria feito por nós, espíritos, já que o caso era excelentemente espiritual e o rapazinho um espírito bastante credenciado perante a Lei. Inicialmente foi retirada a senhora que atuava sobre o rapazinho, a mulher inchada, a quem Abel se dirigiu: – Sabe, irmã, que é espírito desencarnado? Regougando, respondeu: – Não sabia... Agora sei... Sou espírita... Abel encarou-lhe com gravidade, fez sinal negativo de cabeça e disse: – Quando Jesus Cristo cumpriu o celeste mandato, derramando o Espírito sobre a carne, fê-lo cumprindo Suprema Determinação e objetivando tempos futuros, a intrínseca evolução, a escalada científico-moral. Entretanto, apesar de acentuar a necessidade ordinária de progredir nos rumos do Amor e da Ciência, a grande maioria faz Espiritismo de comodidade, pede tudo aos guias, não procura estudar nem se esforça por melhorar. São intérminas sessões de passes, de peditórios, de tudo, menos de severa vigilância intelecto-moral. E o resultado é isso... Tristemente, balbuciou: – Eugênia desencarnou faz seis anos e pouco, sem merecer mais do que isso, em virtude daquilo que fez por não ter. É penoso dizê-lo, mas há muita negligência da parte dos elementos encarnados, em todos os domínios religiosos. Entretanto, cumpre-nos dizer, quando a negligência parte de algum conhecedor das práticas espiritistas, tanto mais se torna lamentável. A Revelação é o testemunho máximo do Cristo e ninguém tem o direito de transformá-la em objeto de peditórios, apenas, porquanto sua função intrínseca é instruir, é esclarecer, é levantar o grau dos conhecimentos gerais na criatura. Sempre revelando tristeza, fez estacato alguns segundos, parecendo querer ofertar oportunidade a possível aparte. Como ninguém o fez, pois todos desejávamos a sua palavra, sentenciou, cerrando o cenho, revelando acentuada mágoa: – O Consolador foi apresentado para servir de instrutor, para ensinar leis, para revelar o plano das causas. Não se justifica uma conduta negligente em face do seu tremendo potencial instrutivo. Levando-se em conta os fatores cíclico-históricos, a responsabilidade humana cresce automaticamente com o avançar dos tempos e das ofertas celestiais, não se justificando, repito, a permanência nos domínios da indiferença religiosa, mormente quando a criatura sabe valer-se do direito de pedir, de querer assistência, de exigir trabalhos. Devemos compreender, de uma vez por todas, que para os tempos atrasados e para as pessoas atrasadas existem a idolatria, o fetiche, a superstição; toda a vasta gama de práticas clericais, de dogmas e outros recursos medíocres e exploradores; enfim, de tudo quanto sabe a formalismos de homens, de práticas cujo fim locupletam homens desprovidos de sinceridade cristã e constituem oposição ao Batismo de Espírito, por cuja lavratura o Divino Mestre derramou o Seu sangue na cruz. Era evidente o abalo, a mágoa que ia pelo íntimo de Abel, o espírito que havia, naquele tempo, hospedado a excelsa figura do Cristo. A inchada mulher, sentindo a situação e compreendendo como pode, rogou: – Que Deus me perdoe!... Peço perdão!... Abel falou-lhe, com severa bondade: – Perdão não existe... Por que interpretar como sendo perdão a função legislativa que é de oferta reparadora, apenas? Depois de penar seis longos anos, de não poder trabalhar e aprender, de que adianta falar em perdão? Por acaso vai a Lei fazer marcha-a-ré e desfazer o tempo assim passado e a dor sofrida? Vamos chamar o que de perdão? Sabemos que nós, entre irmãos, temos que praticar o ato social de perdão, de tolerância, de renúncia até; mas pedir perdão depois de sofrer, depois de empregar tempos em sofrimento, depois de não haver como desfazer as torturas vividas? É isso racional? Está na Lei? Encontra amparo na Soberana Justiça? Eugênia, perturbada, inquiriu-o: – Que fazer, então? Como farei para... Livrar-me? Condoído, explicou-lhe Abel: – Já foi feito pela Justiça Divina, não precisa fazer coisa alguma, sem ser isto – trata de evitar novos erros. O tempo que passou sofrendo, poderia tê-lo passado em gozo, em aprendizados e trabalhos proveitosos, em aumentos imperecíveis. Colheste como semeaste, eis tudo, eis a Lei. De que te queixar? Para que pedir perdão? Importa é não errar, importa é não ter que pensar em perdões que jamais existiram. O único mérito de fato, que há no pedido de perdão, consiste em revelar o desejo de recuperação, representa apenas o arrependimento havido. Mas, convenhamos, a falta foi paga e o serviço evolutivo, que podia ter realizado, está para ser feito... Sofreste e perdeste tempo, eis a verdade. Creio que nunca deste a devida atenção ao capítulo vinte e dois do Apocalipse. Tivesses lido, entendido, sentido e praticado, e não estarias como estás, porque ele resume toda a verdade sobre a Lei e a Justiça, porque ele coloca a criatura em face de si própria, pois a Lei e a Justiça estão no íntimo de tudo e de todos. Pelas obras a criatura prende-se ou liberta-se, faz-se celestial ou inferniza-se, eis tudo. Eugênia começou a chorar, pelo que a interrogou Abel: – Por que choras, quando devias rir? Ela encarou-o com espanto, indagando: – Mas não vou ser julgada? Se não há... Compadecido em face de tamanha incompreensão, falou-lhe o grande mentor: – Irmã, o pior já se foi. Agora vais ser curada e orientada. Mas, observo, se tivesses lido, se tivesses procurado saber, por certo terias errado menos e não ignoraria tais verdades. Apontou para Sabino e disse: – Entregue-a no posto cinco da terceira esfera, que eu e Lira temos aqui um serviço a executar. Feito isso, vá para o centro de socorros, que ali nos encontraremos. Quando a sós, pois a irmã médium se havia ido, disse-me Abel: – Este mocinho, isto é, este espírito foi companheiro de Paulo de Tarso, tendo sido sacrificado nos dias de Nero. Deve executar trabalho importante, sob a orientação de Paulo, quando tiver idade para tanto. Devemos prepará-lo, pois assim pediu-me o Apóstolo, de quem sou amigo e a quem sirvo, conforme desígnios de mais Alto, segundo a Ordem Administrativa Planetária. Como você está para reencarnar, convém seja apresentado, uma vez que se hão de encontrar nos meandros carnais, a fim de cumprir mandado interessante. Aviso-o, para efeito de ordem administrativa, e também para efeito de recalques influentes, que você o sucederá, um dia, quando ele deixar o plano carnal. Deve compreender que o plano geral é um, mas desdobrável ao infinito, havendo necessidade fundamental do cultivo das células ou das instituições e individualidades. Agora, entretanto, vamos aplicar nossas mãos ao rapaz, vamos fazê-lo ter micção intensa e prolongado suor, a fim de expelir resíduos fluídicos venenosos deixados pela enferma. Como fizesse prolongado silêncio, estudando no organismo do rapazinho algum ponto, ventilei: – Em que sentido atuará Paulo? Segundos depois, endereçando-me olhar cismático, respondeu: – Não sei, não procurei saber. Mas tenho certeza de que será obra excelentemente cristã, pois o Apóstolo dos Gentios foi, de todo o colégio apostolar, aquele que mais respeitou a função messiânica do Cristo, isto é, quem mais honrou o Batismo de Espírito. Paulo, o vaso escolhido, não fez obra de pastiche doutrinário, não fez mescla de princípios, tendo agido com todo o respeito possível na prática do Consolador. Quem ler fielmente os capítulos doze, treze e quatorze, da primeira carta aos Corintos, percebe o quanto foi ele exato paladino da eclosão mediúnica do Pentecoste. Portanto, tenho certeza, Paulo atuará sobre este rapazinho, com todo o rigor doutrinário de que será capaz, como vaso escolhido que foi, pelo Divino Mestre, não tergiversando sob pretexto algum. Aproveitando o ensejo, roguei: – Por favor, não esqueça de mim. Teria grande prazer em ver aquele a quem Jesus qualificou de vaso escolhido, e a quem confiou a formidanda função de fiel defensor do Batismo de Espírito, da Revelação tornada pública. Tornando-se ainda mais pensativo, como que revivendo cenas do passado, Abel comentou: – Realmente. Jesus não foi ao encontro de Paulo por mero acaso. Havia necessidade premente de recursos fortíssimos, consolidadores do derrame de Espírito sobre a carne. Paulo possuía os fatores primordiais – ótimas faculdades, cultura exuberante, denodo extraordinário, sinceridade a toda prova! Eu o vi em trabalhos e posso afiançar que esteve sempre à altura do Mestre. Pena é que muitos de seus escritos se tenham perdido, ou tenha Roma propositalmente inutilizado, a fim de conseguir seus erros e desmandos, pois as epístolas do vaso escolhido eram verdadeiros documentários do Batismo de Espírito, relatórios vibrantes do que se conseguia através da Revelação. As pregações faziam-se acompanhar de manifestações mediúnicas e o povo compreendia e sentia a presença da Igreja Viva, a continuação do Cristo através do Seu Batismo. Tivesse tido sempre a Igreja do Cristo, que é a congregação dos crentes, à sua frente, homens da marca do vaso escolhido e o marcante fenômeno do Pentecoste jamais faleceria; nenhuma Roma corrupta e sanguinária ousaria jamais eliminar a graça consoladora, para cuja função estabelecedora tivera o Messias que contribuir com o Seu sangue. Contudo, tenhamos confiança, pois Jesus, através do Anjo do Apocalipse, predisse a corrupção e a restauração da Doutrina Excelsa, edificada sobre o Batismo de Espírito. Ninguém poderia vencer contra Jesus Cristo, nem mesmo Lhe apelando para o Nome, a fim de outorgar-se autoridade, como fizeram os cidadãos corruptos de Roma, aqueles que, para servir um governo temporal e perverso, eliminaram o Batismo de Espírito, levantando em seu lugar clerezia e idolatrias, organização humana fraudulenta e usos pagãos. Fez breve pausa, passou a mão pela testa, como se quisesse limpá-la de alguma coisa menos agradável, afirmando-me: – Ainda hoje, à noite, teremos encontro com o Apóstolo, pois deseja ele iniciar o rapazinho nas coisas da Revelação. Não sei, também, como desejará agir o grande amigo e servo do Senhor, mas sei que teremos o que fazer, pois deu-me ordem de retirar do corpo o espírito e apresentá-lo no Centro de Visões, em hora já marcada. Quanto ao mais, vamos dar o passe, vamos auxiliar devidamente. O rapazinho dormia, e seu espírito não se libertava, porquanto o mal físico o retinha. Conforme, porém, lhe fomos ministrando elementos energéticos, foi saindo, exteriorizando, a ponto de Abel infundir pensamento em contrário, pois não era para isso que estávamos agindo. Pouco depois nos fomos, deixando a casa entregue à paz desejada.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.