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Capítulo 2 de 17

Deus — parte 2 de 17

Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro

Glicério teve o seu passamento por entre as debruas da mais negra solidão e do mais inconsolável ateísmo; não apenas ateísmo passivo, e sim rebelde, pois em sua mente era vibrante a idéia rancorosa, por se julgar preterido pela Justiça Divina. Seria mesmo aquela a morte de um ateu? Não; era antes o passamento de um crente revoltado, magoado, feito inimigo da crença e dos seus objetivos ao mesmo tempo conhecidos e imprevisíveis. Pior do que a fé não existente é a revolta que existe em função de alguma razão ferida, considerável ou presumível, fatal ou hipotética. E Glicério morreu, diremos, envolto nas brumas da mais desenfreada e insólita desavença contra o Céu. Nina, que dentro de alguns dias seria mãe de um filho exposto ao mundo, sabe Deus como se sentira em semelhante contingência. Nenhum quadro poderia ser pintado com mais negrume, nenhuma situação poderia ser mais inconsolável. Sua mente, percutida pela dor, infringia os postulados da mais ínfima reverência aos Poderes Superiores da Vida, proclamando que não podia haver Deus. Poderia pedir e oferecer tudo ao mundo em que se via como parte e relação; mas jamais iria gastar tempo ou resquício de esforço, pensando num possível Senhor da Vida e dos Infindos Mundos. Se a ela não respondera o Céu, se a toda a igreja se não fizera ouvir, claro que seria pela própria ausência. Seu acontecimento valia, agora, como comprovante de todos os casos de dor e de miséria em que se desdobra a humanidade. A falta de resposta em que ficara, naturalmente somava-se ao rol sem fim das tragédias que o mundo apresenta, sem que haja, segundo o julgamento dos que ignoram as leis regentes e de causa e efeito, explicação consentânea com o entendimento rampeiro e os desejos inconscientes da fé cega. Pelo seu caso, julgava ela os casos à granel, perfilhando a idéia das motivações materialistas e o partido da mais fremente negação de Deus. – Lembra-te, filha – disse-lhe um dia o bispo – que a nossa fé verte da Revelação! Os Patriarcas, Moisés, os Juízes, os Reis, os Profetas, João Batista, Jesus Cristo, os Apóstolos, foram luzes do Céu a iluminar as trevas do mundo. Não seria desprezar demais, e ferir na mesma ordem, esquecer ou negar tão farta contribuição celestial? – Senhor bispo – respondeu-lhe Nina – se naqueles tempos o Senhor ouvia os homens, porque os não ouve agora? Falava o próprio Deus, falavam os anjos, valia o Céu nas horas de incerteza e de dor. Agora tudo são palavras de homens, conceitos de grupos, cantorias e fé no passado. O presente está vazio, morto, sem Revelação... Eu creio que tudo são romances, obras do pensamento humano... Se o Senhor existe, que me devolva o meu esposo!... Argumentava o bispo e replicava ela. O bispo valia-se dos recursos do passado e firmava-se na fé contemplativa, e nos testemunhos decorrentes da Criação; Nina queria um Deus igual ao do passado, que se vazava pela Revelação, e que lhe devolvesse o esposo. Defronte a tamanha divergência, como conciliar os ânimos e fazer justiça aos trâmites legais? E se Nina pedia o impossível, por não conhecer as leis e não compreender o mecanismo da Justiça, não é certo que o bispo, digno representante de uma igreja, também militava em campo avesso, em terra árida, por não estar a par da Revelação? Ou teria Jesus Cristo fracassado, na promessa de um Consolador, de um recurso informativo perene? – Onde está o Paracleto? – indagou-lhe Nina, veemente. – Para nós permanecem a fé, a esperança e a caridade – respondeu-lhe o bispo. Nina arranjou, com esforço, um pouco de irônico sorriso, chacoteando-o ao seu matiz sectário: – Que ridículo!... O Cristo veio ao mundo para deixar um Informante perene, para não permanecermos órfãos, como está escrito. Pelo menos alguém escreveu tudo isso!... E lá vem um bispo dizer que tudo se resume em fé, esperança e caridade... Afinal, onde está a tal Verdade? Que fizeram vocês do Consolador? Eu li que os Apóstolos o deixaram no mundo, vigorando efetivamente, cumprindo o seu dever. E onde foi parar? Ou é tudo mentira, historietas de escritores? – São as vozes da consciência, às quais devemos atender respeitosamente – replica-lhe o bispo. E a desolada viúva dá-lhe a devida resposta: – Para isso não precisava pregarem o Cristo numa cruz! Sempre houve consciência e sempre houve ignorância e fraude. Demais, deve ter lido mais do que eu, tudo quanto sucedeu depois do Pentecoste, em fenômenos fortes, tangentes, coisas que assustavam, que faziam temer. A diferença, senhor bispo, entre aqueles tempos e os seus cultos é tremenda. Ou tudo aquilo é farsa inventada ou vocês estão fora do verdadeiro cristianismo! – Eu só posso responder pela minha ordenação – explica-lhe o bispo. – Ordenação de homens... Jesus ficou de lado ou nunca esteve senão de lado? Os Apóstolos, como diz a Escritura, continuaram a cultivar o Batismo de Espírito, o Paracleto enviado pelo Divino Mestre... O bispo interrompeu-a: – Como sabes disso? Motejando, revidou-lhe Nina: – Sim senhor! Acaso não leu jamais o décimo quarto capítulo da primeira carta de São Paulo aos Corintos? Ou quer afirmar que tudo são mentiras? Ora! Eu me esquecia de que o senhor ganha a vida assim... Precisa ter um ofício... Discutiram alto, quase se xingaram, sem chegar a uma conclusão satisfatória. O bispo foi estudar, matutar; Nina foi descrer, foi lagrimar pela vida, ensombrando cada vez mais seu espírito já bastante endividado. E, assim decorrendo os tempos e as conceituações, via-se agora entre quatro paredes, enfurnada em angústia cruel, ruminando atroz sofrimento, sem ao menos contar com o lenitivo da fé, de uma fé qualquer, viva pelos alentos do conhecimento superior ou cega porque jungida aos tentáculos do ronceirismo dogmático. Marcava passos em torno ao filho moribundo. Rodeava o leito onde Paulo arfava seus últimos suspiros. Mais rebelde do que mesmo incrédula, de quando em quando lhe faiscava, ao longe dos pensamentos desesperados, a idéia de algum possível recurso celestial. Entretanto, perguntava-se, e via-se em sobras de razão, por não terem sido atendidos durante a enfermidade e morte do marido. Se não valeu naqueles tempos, como e por que deveria valer agora, qualquer rogo feito? Perdia-se Nina através daqueles vagalhões cruciantes, quando alguém bateu à porta de seu humilde domicílio, de seu pobre quarto. Abriu a porta, viu uma senhora jovem e perguntou-lhe: – Que deseja, senhora? – É dona Nina? – perguntou-lhe a senhora, por sua vez. – Sim. Por quê? – Tem aí um filhinho à beira da morte? – Tenho... Quem lhe informou? Eu a ninguém disse e sou nova no local. Mas, entre... Entre e veja... A senhora entrou, viu, entristeceu e disse: – Pois é. Eu aqui vim a mando de meu guia... Nina, surpresa, indagou-lhe: – Que guia? – Um médico. Faleceu faz muitos anos e receita por meu intermédio. A pobre mãe admirou-se: – Deus acordou muito tarde! Muito tarde!... Mas, a senhora é espiritista? Onde mora?... Qual!... Meu Paulinho está morto! Morto!... Enquanto Nina chorava, a visitante falava, respondia: – Moro a meio quilômetro daqui. Fazemos sessões todas as quintas-feiras, e ontem, como de costume, orando pelos doentes, fomos informados do seu caso... Temos valido, como Deus tem querido... Nina interrompeu-a: – Deus!... Deus!... Como sabe agora e não soube antes?... Meu marido era um servidor, um pregador!... Um pregador!... A visitante, sempre dócil, aconselhava-a: – Minha querida, não se volte contra Deus. Afinal, nunca foi Deus o responsável pelos erros e desmandos de Seus filhos. Ninguém pode acusar a Justiça Divina. Antes, apelando para a melhor razão, que confere a máxima prudência, devemos procurar conhecer as leis... Todo efeito se origina de alguma causa. Como pode a senhora discutir seus atos pretéritos, se não lembra sequer o que comeu há cinco ou seis dias? Nós temos tido muitas vidas... E isso quer dizer culpas e agravos, defeitos e virtudes. Ora, por tudo se responde, como está escrito... – Não consigo acreditar no Espiritismo. A reencarnação parece-me um erro tremendo, que em Deus jamais poderia haver. Eu não creio nem em Deus... Vivo por viver... Eu nem sei se estou vivendo... Faz meses que não creio, faz dias que não durmo... Sinto-me tonta, esquecida, sumida! – A senhora está de fato envolta em aura negra... Sua cor é trevosa... Nina encarou-a: – Como sabe? Quem lhe disse? Eu estou é infernada pela dor!... A senhora já teve um filho à morte, como esse que aí está? Veja-o! Veja-o!... A visitante repetiu-lhe: – De qualquer forma, minha querida, é como já lhe disse. A dor fê-la descrer e blasfemar. Eu a ninguém acuso, antes deploro os males e os erros. Demais, Deus e Suas Leis vigoram por si e não pelas concepções de homens e de credos humanos. Não foram os homens que deram origem a tudo quanto é... Quando muito, os homens deturpam as verdades reveladas e inventam credos a seu modo e gosto. Sim, os homens são bons construtores de corrupções e negociatas. Tudo lhes serve de motivo e de exploração, nada respeitam devidamente. Não querem aprender com Deus, antes querem ensinar a Deus. O que vem de Deus é posto de lado, para que vigore aquilo que eles querem impor... E impõem sempre o que lhes renda materialmente. Querem títulos, validades mundanas, satisfações sectárias, honrarias temporais, etc. Eu sei como está o mundo... Chorosa, Nina revidou: – Mas eu também pedi no meu recinto, de portas fechadas, de espírito para espírito. Se a igreja em que militava estava errada, ou ainda está, que me valesse Deus no íntimo da consciência! Nós rogamos muito, muito... E agora, minhas lágrimas não são preces, se é que há mesmo um Deus?... Ou Deus ama ainda menos do que eu? Qual!... Se Deus existisse... A visitante sussurrou: – Jesus só pediu fé... Nunca pediu mais do que isso e boas obras... – Não me sinto culpada: e tinha a minha fé... Glicério, meu marido, chegava a lagrimar quando falava em Deus. Era um bom, era sensível em extremo. E Deus o abandonou... Deus nos esqueceu... Se é que existe!... – E no passado? Como terão agido? – Isso é muito discutível, senhora. São conceitos humanos, são... A visitante interrompeu-a: – Muito mais discutível é a sua negação. Afinal, existe a chamada Criação, que em si testemunha um chamado Criador. Quanto à lei de reencarnação, saiba, ela vem de Deus e é afirmada pela Revelação. Todos os verdadeiros Reveladores a testemunharam. E o Divino Mestre foi anunciado centenas de séculos antes, tendo nascido ou encarnado mais tarde. E o que disse ele de João Batista?... Bem, quem procura acha... A senhora não deve esquecer isto – quem procura acha, na razão direta, mais tarde ou mais cedo. Eu sei que tem procurado negar ou ignorar... Fez um sinal de abandono, acrescentando: – Eu vim a mando de meu guia. E meu guia falou-me de ordem superior. Se a senhora quer me ouvir, apegue-se a Deus e deixe o seu filhinho partir... Deve ele ir-se... Devia perder o esposo e perdeu; deve perder o filhinho e perdê-lo-á... A vantagem consiste em saber confiar em Deus... É o passado quem determina o presente, assim como o presente determinará o futuro. Lembre-se – em Deus não há erro! Seja forte, seja fiel. Nina atirou-se sobre o filhinho moribundo e a visitante confortava-o como podia. Ambas choravam a valer, gemiam e sofriam. No fundo, nas profundezas de tudo, a Lei vigia, determinava, acima de contingências subalternas. Lei é Lei!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.