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Capítulo 11 de 17
Deus — parte 11 de 17
Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro
Glicério e Nina marchavam no rumo de realizações felizes, embora lentamente. O trabalho que lhes competia, como incipientes, era fazer preces. Por estranho que lhes pareça, os pobres de espírito têm grande necessidade desse contributivo. Não dispondo de outros recursos, e sendo grandes lesados em fé, acompanham caravanas serviçais, grupos socorristas, e funcionam como funcionários da oração. Não pensem que sejam necessários, pois vale mais o relance mental de um Abel, do que um mês inteiro de orações partidas de criaturas como Glicério e Nina. Em verdade, vale para eles, que vão observando os trabalhos, aprendendo, e acima de tudo tecendo a coroa mental. Ninguém chega a ter o seu centro mental intenso, potente, vibrátil, e a sua aura elástica, fuzilante, sem o concurso dos mais firmes e contínuos preparativos. Quem muito negou, quase sempre começa pelo muito afirmar. E afirmar pelo princípio ativo, jogando com a força do pensamento, projetando ondas, embora de maneira inferior. Foi assim que os dois começaram, subindo na escala dos poderes mui vagarosamente, até o dia em que começaram a trabalhar, dando de si iniciativas interessantes, encaminhando irmãos, doutrinando, isto é, fazendo aquela parte da doutrina do Cristo que não cumpre ser feita pelos de mais alta postura hierárquica. E por que deveria ser diferente? Qual a razão de não haver condições de serviço aos mais bisonhos elementos? Então, os que mais necessitam deviam ter menos oportunidades? Tudo, entretanto, é por ordem! Tão vasta é a seara, e tantos serviços há de mister, dos mais variantes gêneros e graus, que todos podem trabalhar, servir e ser servidos! Quando os dois estavam aptos, fomos buscar o irmão Castro, o segundo marido de Nina, que lá se achava, ainda, encafuado naquela casa infernal. Ao ver-nos, bradou: – Graças a Deus! Graças a Deus!... Nina fez-lhe sinal de paciência, de calma, pelo que ele, entendendo mal, julgou ter que aguardar mais tempo, exclamando em tom de lástima: – Pelo amor de Deus!... Não, não!... Levem-me, tirem-me daqui!... Glicério falou-lhe, então, acalmando-o: – Deixe-se de sustos, homem, que viemos buscá-lo. Tenha calma, apenas, que de muito equilíbrio mental tem necessidade. – Tenho rogado tanto! Tanto!... – bramiu Castro, esfregando as mãos. Nina fez surtir resmungo incompreensível, pelo que ele indagou: – Que foi? Que disse? Abanando a cabeça, comentou ela: – Eu pensei alto, apenas, meu querido. Pensei no desserviço que a negação faz, principalmente quando ungida de tamanha prodigalidade econômica. Fomos tão ricos e tão vastamente cheios de liberdade!... Tudo serviu, por falta de melhor compreensão, para enlamear a alma... A culpa não foi da fortuna, foi antes da tremenda ignorância religiosa. Rogar, rogar, rogar... Como se roga melhor? Haveria melhor rogo do que a decência de conduta, para com Deus e o próximo? Num esgar patético, quase cômico, Castro atalhou: – Mas, filha, depois de estar perdido?!... Como fazer de outro modo?!... A falta de razão faz a gente apelar para o que tem!... Eu só podia... Sabino, entredentes, entreteceu: – Sempre a mesma história, hein? Quem não cuida antes, faz caretas depois. Castro fitou-o com amargura, balbuciando: – Se você teve mais sorte, não se ria de mim... Deu-se pressa o companheiro, atenuando: – Eu? Eu tive mais sorte? Não! Também peguei o meu bocado... Castro fez melhor semblante, indagando: – Também foi rico? Sabino explicou-lhe: – Nenhum caráter se faz de uma vez. Temos tido miríades de vidas. E temos sido um pouco de tudo, compreende? Fui soldado e sacerdote vezes a fio... – Sacerdote?!... – admirou-se Castro, interrompendo-o. – E que tem isso? – Mas sacerdotes também penam assim? – volveu Castro, boquiaberto. – Ontem mesmo socorremos um. E olhe que estava bem mal! Por que pensa desse modo, irmão Castro? – Eu fazia outro juízo... – disse Castro. – O bom juízo, Castro, é constituído pela tríade infalível – fé, amor e ciência, mas em bases práticas. Ter religião, em certos casos, equivale a ter um bom emprego, apenas. Ganhar a vida material, ser respeitado pelo mundo, e fazer coisas que a Lei de Deus condena, isso não é religião, não é sacerdócio. Veja lá, procure não tomar a nuvem por Juno... Comece por saber isto – a Lei não é sectária, não se ilude com formas e pré-formas. Quem tem mais fé, mas que a tenha de fato, não em aparência de culto, que faça melhores obras de amor. Jesus, você deve ter ouvido falar Nele, não se fechou em copas de fé passiva, mas sim fulgurou em obras, indo ao encontro das misérias humanas, levando a palavra verdadeira, curando, expelindo os maus espíritos, encravando-se num lenho... Estacou, olhou para Castro, e com voz sumida confessou: – E nós temos explorado o Cristo... Uns dão exemplos, outros se refestelam e se fazem daninhos às boas causas! Demais, tenho lido, e você irá ler, certificando-se de que o Cristo não pensou jamais em clerezia alguma. Sua função era a de Batizar no Espírito, conferir liberdade universal ao culto da Revelação. Os Apóstolos não foram clérigos, e sim homens conscientes do Batismo de Espírito. O modo de culto, como ensina a primeira carta aos Corintos, capítulo quatorze, testemunha assim. Os cleros surgiram mais tarde, como corrupções que deviam vir, e tiveram início no quarto século. Castro avançou: – Então foi bom eu não ter sido católico! – Mas não foi bom ser ateu e deixar de fazer o bem. Erro não justifica erro, em hipótese alguma. Castro reparou-se: – Isso mesmo. Costumam dizer que o erro se combate com o acerto. Mas, sabe o que acontece?... Antes que ele falasse, Nina avançou: – Ora! Ora! Se sabemos! Então, cidadãos deste mundinho inferior, chaguento, cheio de lepra espiritual, não sabe como acontece? Vamos em busca de todos quantos pretextos sejam possíveis, erramos, arranjamos trevas a valer, chafurdamos nos infernos e depois apresentamos as razões!... Quais as razões? É que haverá sempre alguém a quem se possa culpar. Nunca somos ou pretendemos ser os responsáveis diretos, aqueles que tomaram iniciativas indecentes. Fazemos tudo para aumentar os erros, provocar maiores males, virar a humanidade de pernas para o ar. Depois, então, surgem os culpados... São sempre os outros! Quase sorrindo, disse Castro: – Sabe que me sinto muito melhor?! A conversa faz-me bem! Aconselhei-o: – Então, ponha-se de pé, levante-se. Encarou-me com ar de rogo, indagando: – E poderei? O reumatismo tomou conta de mim... depois de morto! O reumatismo e outros males... Estou arruinado, entrevado... – Nenhum aleijume está no espírito propriamente dito; por isso, todos os males são curáveis. Como a sua hora chegou, faça o esforço possível. – Vão auxiliar-me? – Temos a obrigação de fazê-lo. Já disse, chegou a sua hora. E isso quer dizer que a Lei começa a ser favorável a si. Mostrou-se alegre, inquirindo: – Não devo dar graças a Deus? Expliquei-lhe: – Nada há que por Deus não seja, pois tudo tem Nele origem. Devemos, porém, considerar racionalmente as Verdades Fundamentais e os fenômenos conseqüentes. A Lei, por exemplo, é acionada por nós mesmos. Está acima de cogitações para efeito de natureza e ordem; mas está ao serviço de nossas atuações para efeito de aplicação. Por ser assim, irmão Castro, somos juízes em causa própria. Lavrado o ato, lavrada a sentença! Somos artífices do Céu ou do inferno, temos para tanto poderes e direitos, elementos e liberdade. Portanto, se acha que deve dar graças a Deus, faça-o de modo superior. – Como é isso? Eu não entendo. – Devemos errar o menos possível, procurando sofrer o mínimo. Se dá graças a Deus por ter melhorado à custa de sofrimentos, o que comprova erros a valer, como não será muito mais nobre agir com inteligência e amor, conseguindo glórias de que não pode fazer idéia? Render graças, amigo Castro, deve ser em base de ações superiores. Vamos tratar de escorraçar de nós esses vícios supersticiosos. Tenho certeza, por ter visto e aprendido nestas plagas, que Deus não pediu jamais essa e outras marcas de adoração. Convém não confundir entre os erros humanos e a Sabedoria Divina. Se quisermos pensar de modo supersticioso e rampeiro, não metamos Deus em semelhante atitude. – Eu pensei!... – ia dizer ele. Sabino falou por mim: – Você pensou? Ora! Muita gente pensa que pensa... Fazemos coisas ridículas e convidamos Deus a servir de padrinho, isso sim. Você terá que aprender coisas novas, verdades melhores, enfim, modificar o... o bestunto, sabe? Não pense mal de mim, pois gosto de brincar e de ser franco. Por isso é que digo o que digo... A humanidade faz das suas e quer Deus como parceiro! Meio atônito, Castro indagou: – Então, aqui as coisas são diferentes, hein!? Sabino ensinou-o: – São e não são... Depende do plano astral, da hierariquia, entende? – Não entendo; quero entender. Como poderia entender?! Não vê?... Houve risos, depois do que Sabino falou-lhe: – Vou dar-lhe a ler um livro. Não estranhe, um livro. Nós temos aqui de tudo, países, regiões, cidades, fábricas, universidades, hospitais, etc. Nos planos inferiores, embora de paz, cada um faz o que pode, dá o que tem para dar. Isso, amigo, quer dizer o seguinte – quem quiser ir para diante, sem desprezar o que está para trás, deve procurar ir para diante! Entendeu? Castro permaneceu cismático, pelo que Sabino prosseguiu: – Não, ainda não entendeu. Também custei para entender... Mas, olhe lá. Temos variantes Céus, isto é, zonas celestiais superpostas, compreende? Quanto mais para fora da crosta, mais divinais; quanto mais próximas da crosta, mais grosseiras. Sem ser más, ou infernais, são rampeiras, são animalizadas. Os que vivem nas zonas inferiores, são inferiores, salvo alguns servidores, alguns missionários. E, como pode imaginar, cada qual dá o que tem. É difícil de entender, agora? Castro fez sinal que sim, com a cabeça, dizendo: – Sim, entendo um pouco. Quer dizer que há lugares, onde os espíritos são de boa vontade, mas pouco evoluídos, portando-se como sabem e podem? – Exatamente! E, normalmente, quem pode dar o que não tem? A criatura começa idólatra, não pode ser de menos, em matéria religiosa. Para o espírito inferior, seja como for, Deus só pode ser respeitado através de superstições, de modos grosseiros, de formalismos. E os cleros exploram a ignorância das criaturas em benefício próprio. Impõem rituais, fazem crer em paramentos, infundem o erro e seus elementos dizem-se santos... Imagine só! Mentem, fraudam, burlam, fazem cometer asneiras e dizem-se santos!... E como a ignorância faz a má regra, vá dizer a essa gente umas tantas coisas... Quem não é tolo, quem enxerga, esse é comparsa do diabo!... Você não sabe que foram padres os que crucificaram a Jesus? A prosa iria muito além, por isso que Nina lembrou, interrompendo-o: – Bem, vamos ver se ele consegue levantar-se? Afinal, sem evolução ninguém se faz melhor religioso. E, convenhamos, evolução não se compra em bazares. Custa esforços, vidas e vidas a fio, bem vividas. Castro olhou-me, rogativo, de novo indagando: – Será que consigo? Sabino tornou à fala, a seu modo: – Você não conseguiu errar e ficar todo torto?... Deve conseguir acertar e pôr-se direito! Ora, vamos, tente... Isso... Mais um esforçozinho... Castro ficou de pé, mas recurvado, caricato. Sabino pilheriou: – Vê se endireita, homem! Está parecendo um anzol... Sabe o que é anzol? Castro lançou-lhe esquisito olhar, sorriu entredentes, resmungando: – Quem não sabe o que é um anzol? Não fale muito, que as coisas mudam! Ou você pensa que é algum anjinho? Sabino reclamou, amuado: – Não sou ruim, não falei por mal. É jeito de falar. Castro redargüiu, empertigado: – Sei disso. Mas gosta de pilheriar com o mal dos outros, não gosta? Se você estivesse torto, como anzol ou coisa que o valha, gostaria de ser ridicularizado? É assim, tal como disse – cada qual dá o que tem... Chamei-os ao bom trato e reclamei atenção. A hora estava vencida, tínhamos de partir. E, graças ao esforço geral, encetamos a feliz caminhada, éter afora.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.