Voltar ao livro Sangue na cruz

Capítulo 12 de 17

Deus — parte 12 de 17

Sangue na cruz · Osvaldo Polidoro

Uma vez domiciliado Castro em hospital, onde seria submetido a tratamento apropriado, fomos atender chamado urgente, partido de Abel. – Trata-se – disse ele – de serviço ordinário, mas que se apresenta em caráter especial. Glicério e Nina devem servir, pois se lhes apresenta oportunidade apreciável. Como lhe fitassem admirados o semblante sereno e feliz, apressou-se em dizer: – Devemos retirar um espírito. Como, porém, a pessoa visada está muito enfraquecida, e sucumbiria sem o amparo estranho, resolvi atribuir a vocês dois a obra de apoio. Percebendo que nada entendiam, explicou: – Já deve ter aprendido, que do ponto de vista vivencial ou vibrátil, um espírito é sempre um poder, é sempre vida. Com isso, embora seja pernicioso, tem alguma coisa a dar. É o que tem ocorrido, no caso em vista; estando a prejudicar, nem por isso deixa de oferecer elementos de vida. Como, no entanto, chegou a hora de nossa intervenção, e não deve o paciente desencarnar ainda, temos que oferecer a compensação. Retiraremos o espírito doentio e inconsciente e ofereceremos o apoio que virá faltar ao encarnado, cujo estado físico é precário, cuja vida correria risco, sem a compensação devida. Glicério e Nina, que se acham regularmente adestrados na arte de pensar e oferecer vibrações, vão revezar atividades junto ao velhinho em vista. É serviço de alguns dias, além do que, a seguir, outras vantagens hão de obter. Mas, por ora, fiquemos nisto. Deu-me o documento e ordenou-me agir. Falo em documento a rigor, pois sendo a ordem de serviço, vale para todos os efeitos; conto os meus pontos, que, somados, representarão regalias, etc. – Vamos ao velhinho – convidei. Uma vez chegados ao local, demos com o velhinho acamado, respirando com dificuldade, verdadeiro suporte de uma entidade feminina; esta, em sua debilidade extrema, tendo em mente a morte próxima, suspirava continuamente: – Meu Deus!... Ai que morro!... E o velhinho, vazando aquelas impressões, repetia, em tom de tristeza: – Meu Deus!... Ai que morro!... Passados alguns segundos, completava: – Senhor!... Tira-me do mundo... Piedade, Senhor!... Frente a isso, Sabino comentou: – Estão vendo? Todos falam no Senhor... Mas, quem está de fato com o... Reparando que Glicério lhe lançava olhar observador, estacou, mediu a situação e, empertigando-se, esbravejou: – Senhores! Desde quando é proibido ser sincero? Ninguém quer ser ignorante, ninguém deseja ser hipócrita, todos querem ser superiores! Mas, vejam onde as coisas param... Essa gente fala em Deus, suspira, geme, evoca. No entanto, o que se vê? Onde estão os méritos? Ou será que a Lei anda às tontas? Glicério estranhou: – Eu falei alguma coisa? Alguém disse pio? Você está criando complexo, de tanto falar dos outros, de tanto criticar! É a consciência que se levanta contra o raciocínio, sabendo que há mouros na costa... Chamei-os à ordem e mandei retirar a entidade sofredora, o que foi questão de segundos, pois estávamos autorizados. O velhinho ressentiu-se imediatamente, fez caretas, passou a gemer e a se lastimar com freqüência. É que, inconscientemente sentia falta daquela companhia, com a qual se havia identificado, embora fosse o motivo de sua tremenda debilidade. Ela o vampirizava. Instrui os dois: – Agora, que está só, necessitará de apoio por alguns dias. Vocês dois farão o serviço de compensação, revezando-se mutuamente, enquanto alimentos fortes e medicamentos apropriados consigam repor as forças. O processo, já o sabe – é projetar elementos de força, seja pelo pensamento, seja pelo simples impor de mãos. Demais, compreendem, se um sofredor dessa monta pode agir, quanto mais quem deseja e possa fazer o bem. Deixo-os, portanto, entregue ao caso. Nina e Glicério tomaram-se de grande alegria, incumbidos daquela função humanitária. Afinal, tinham inteira liberdade acional, pois eram livres para trocar de horário e método de ação. Bastava-lhes agir, isso era o suficiente. Partimos, então, eu, Sabino e a velhinha sofredora. Ela estava indicada a uma casa de recuperação, num plano bem inferior, bem perto da crosta. Seria submetida a tratamento geral, do corpo astral e do intelecto. Durante um lapso havido, Sabino inquiriu-a, meio empertigado: – Quando desencarnou e como, irmã? Falando sumidamente, respondeu: – Não sei... Não tive a menor... Menor idéia... Só tenho fra... Fraqueza... – Sua religião? Tinha religião? A velhinha fez uma careta de reprovação, resmungando: – E... E não devia... Devia ter?!... Triunfal, Sabino retornou: – Devia, não é? No entanto, cadê a paz? Onde está a prova do merecimento? A velhinha fez o sinal característico de quem não sabe. Sabino comentou, irônico: – Sempre a mesma toada! Sobram religiões e faltam valores espirituais! Eu não digo que a Terra, humanamente falando, está fora de esquadro? Religião é o disfarce, e a máscara. Tendo religião, a criatura pode ser hipócrita, tem o direito de ser desumana, algoz... – Credo!... Que... Horror!... – exclamou a velhinha, olhando-o com desprezo. Sabino emendou, sarcástico: – Horror? Muito mal! Horrível, isso sim, pois ter religião só para efeito de fachada é horrível! Sabino havia se tornado melhor, com a visão retrospectiva; não era mais capaz de impulsos raivosos; mas continuava com o seu caráter criticista, irônico, ridicularista e zombeteiro. Sabemos, perfeitamente, que um caráter não se modifica de uma hora para outra, muitas vezes em séculos até. No entanto, falei-lhes, reclamando um pouco mais de tolerância para com os erros e lesões características, havendo ele redargüido: – Concordo, concordo. Mas é preciso mudar alguma coisa, talvez muita coisa. A humanidade continua falando em Deus e fazendo obra de negação espiritual. Vá lá que tenha sido sempre assim; mas, não deve mudar, um dia? E reportou-se a casos evidentemente chocantes: – Há três dias fomos buscar aquela senhora, lembra-se? Andara pela vida procurando passes espíritas, água fluida, sessões interesseiras, etc. E desencarnou sem valor, verdadeira toupeira espiritual! Ontem, à noite, fomos recolher aquele evangelista, depois de seis anos e meio de arrastamento pelas ruas da Terra; o que tinha era crença em diabos e práticas maldizentes. Um foco de superstições em nome do Cristo, de Bíblia em punho! Uma verdadeira aberração! Apontou para a velhinha, acusando, embora evidenciando piedade: – Veja isso... Com o seu catolicismo de fancaria... Lançando-lhe tempestivo olhar, indagou-lhe a velhinha: – Fanca... Fancaria!... Que é isso?!... Sentencioso, explicou, a modo de quem de fato pode sentenciar: – Mal feito, rampeiro, errado. Eu digo estulto, é mais certo. Embora deitada, apenas com a cabeça levemente erguida, a velhinha hirtou-se o que pode, consultando-o: – O senhor... Diga, foi re... religioso? – Claro! Falo com inteireza de conhecimento. Fui soldado e clérigo, várias vezes, tendo cometido tremendas faltas. Sei o que digo, irmã. Ela o verberou, raivosa: – Não sabe o que... O que faz!... Bruto!... Em face de tais acontecimentos, mandei-o de volta, incumbindo-o de mandar vir outro servidor, qualquer que fosse, conquanto mais dócil e ponderado. Sabino saiu, endereçando à velhinha olhar bastante recriminador. – Perdão!... – gemeu ela, a seguir, tendo-se arrependido. Falei-lhe, como julguei dever fazê-lo: – Débora, o mundo espiritual é constituído de variantes escalas, de Céus superpostos. Há lugar para todos, mas cada qual é como é. Não se modifica um caráter de hoje para amanhã... E o nosso amigo Sabino é um bom, a seu modo, como sabe, como pode, como faz. Devemos auxiliá-lo... – Auxiliá-lo! – admirou-se ela. – Sim, dar-lhe o de que carece. – Mas, senhor... Não é santo?! – Para nós não há santos, como pensa. Há os mais e os menos sublimados, nada mais. E nas esferas inferiores há os mais e os menos trevosos. Mas, vamos ao caso – Sabino saiu há pouco das trevas... Estava pior do que você, minha velhinha. E tem suas razões para dizer o que diz... As religiões invertem os termos, fazem crer nas artimanhas de homens e desviam a criatura das verdades simples e imorredouras. Sabino, criticando, nada mais faz do que criticar-se, Débora. Lagrimando, rogou a velhinha: – Pelo amor... Pelo amor de Deus... Vá buscá-lo... Quero pedir per... perdão... – Isso, Débora, é cristianismo... Seja sempre assim, ouviu? Entretanto, saiba, iremos deixá-lo afastado por alguns dias. E vai fazer de conta que está bastante magoada, entende? Precisamos ensiná-lo, também, e com isso irá ter oportunidade feliz de considerar o modo de proceder, de agir para com os outros. Podemos pensar e sentir de modo todo pessoal, mas devemos respeitar os sentimentos alheios, as concepções e as tendências, até que não firam outros tantos direitos, até que sejam respeitáveis, e, acima de tudo, até que possam ser modificados para melhor. Se Deus não age como déspota, por que devemos sê-lo? Se a Lei facilita a evolução lenta, e nem poderia ser de outro modo, por que vamos querer criar casos? – Sim, compreendo... Ensinar, mas, tolerando, amando... Todos começamos... Errados... Começamos ignorantes... – Justamente, Débora. Temos o Céu, no íntimo, em estado potencial. Céu quer dizer toda a Pureza e toda a Sabedoria. Pense em Jesus, que para isso veio, para servir de Modelo. Mas, quanto custou a Ele, para chegar a tal grau evolutivo? E como poderemos ser tão exigentes para com os nossos irmãos, se não o somos para nós mesmos? Antes de incriminar os outros, por que não darmos jeito na própria ignorância? Se julgamos os outros, pela falta de melhores valores, por que não corrigimos os nossos hábitos grosseiros? – Exato... Exato, senhor. Eu me arrependo... Mas, farei... Farei como disse. Naquele momento chegou Maude, a nova servente, a que viera em substituição de Sabino. Maude era alta, muito alta, loira e bastante voluntariosa. O semblante definia-a, num misto de meiguice e firmeza, vontade e candura, amor e decisão. Um espírito de mais alto, servindo nos planos inferiores, a fim de forçar avançamentos delineados e aprovados nas instâncias superiores. Débora sentiu-lhe os valores, fez um gesto de reverência, sorriu e ofereceu-se. Maude instruiu-a: – Realmente, vai muito bem, querida irmã. Reconheço três fatores básicos, que são – Deus, nós e o próximo. Quando nos afastamos do próximo nos afastamos de Deus. Sim, é impossível servir a Deus quando se despreza o próximo. Portanto, se deseja ser útil, como diz, começa bem, está na reta celestial. A seguir, perguntou-me: – Que aguarda? – Nada, Maude. Fiz questão de parar aqui, para conversar um pouco. Sabino teve conversa menos jeitosa, pelo que mandei-o de volta. Entretanto, Débora está a par do que lhe ocorre, desejando perdoá-lo. Já lhe disse, também, como deve agir, a fim de servir como lição ao nosso companheiro. – De onde veio? – quis Maude saber. – Estava na crosta, encostada a um irmão, por quem apelaram num Centro Espírita. Abel tomou as providências devidas, para ambos, o irmão encarnado e esta nossa querida velhinha. Glicério e Nina lá ficaram, para compensar a companhia e a falta de apoio vibratório. Sabe, perfeitamente, como se passam tais fenômenos. Maude avançou: – Sei. Permutavam-se bens e males, defeitos e virtudes, prejuízos e vantagens. Quando não prevalecem dissensões e ódios, o mal não é completo, até surtem vantagens relativas, pois começam assim algumas simpatias que se prolongam pelas vidas e se multiplicam encantadoramente. Sentimentos desculposos e reparadores afloram, forçam reencontros, criam amizades, geram serviços... Débora, que a fitava, encantada, balbuciou: – Que maravilha! Como Deus... É bom... É bom... Maude abaixou-se, acariciou-lhe as faces, beijou-a. A velhinha derramou lágrimas de contentamento. Pouco depois, entregando-a aos serviços da casa recuperadora, ficamos de í-la buscar, assim que estivesse pronta a iniciar estudos e serviços preliminares.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.